Rui Eduardo Paes - Jornalista, crítico de música e ensaísta

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    Os 25 + das novas músicas portuguesas    
         
         
         
   

Apesar da intensa actividade de alguns, traduzida sobretudo em concertos, os primeiros 15 anos (desde finais da década de 1960 até à primeira metade da de 80) da movimentação das novas músicas em Portugal pouco ou nada foram documentados em disco. Só a partir de 1980 se detecta algum ritmo editorial ilustrativo da produção nacional nesta área, ainda que muito lento e condicionado – tanto assim que duas das obras mais relevantes desta época, “Plux Quba” de Nuno Canavarro e “Música de Baixa Fidelidade” de Tó Zé Ferreira, foram lançadas por uma editora de rock, a independente Ama Romanta de João Peste (Pop Dell’Arte).

Dez anos depois, a invasão digital veio alterar este cenário e foi o boom, não só porque um maior número de músicos começou a dedicar-se às práticas experimentais, vindos do rock, do jazz e da clássica, como porque o acesso à edição discográfica se tornou mais fácil, devido à evolução tecnológica e ao embaratecimento dos equipamentos. Surgiu uma série de pequenas editoras discográficas, seguindo o pioneirismo da AnAnAnA, e a projecção conseguida no estrangeiro pelo crescente número de músicos portugueses, com Rafael Toral, Ernesto Rodrigues, Carlos Bechegas, Rodrigo Amado, Vitriol (Paulo Raposo e Carlos Santos), @c (Miguel Carvalhais e Pedro Tudela) a juntarem-se a Carlos Zíngaro, Telectu (Jorge Lima Barreto e Vítor Rua) e Osso Exótico (irmãos David e André Maranha, Patrícia Machás, etc.) como principais representantes da cena nacional além-fronteiras, fez com que etiquetas de outros países começassem a editar portugueses, o que antes era totalmente impensável.

Chegados a este início do século XXI, verificamos com agrado e espanto a quantidade de bons discos made in Portugal que vão surgindo no mercado alternativo e a grande dinâmica de uma nova realidade musical largamente comentada pela imprensa especializada estrangeira e que já levou, inclusive, à realização em França e Itália de festivais exclusivamente programados com o experimentalismo luso. O estranho é que este entusiasmo não seja sentido por cá. Como se costuma dizer, santos da casa não fazem milagres...

   
         
         
         

Carlos Zíngaro: “Solo” (In Situ, 1991)

  1. Carlos Zíngaro: “Solo” (In Situ, 1991)
Gravado no Mosteiro dos Jerónimos e benefeciando da sua ressonância, esta é a obra-prima do violinista Carlos Zíngaro, considerado um dos músicos de charneira da improvisação internacional. O disco inclui a peça “Shakuhachi”, na qual o particular timbre daquela flauta de bambu japonesa é reproduzido pelo violino do único português que tocou com figuras tão distintas quanto Anthony Braxton e José Afonso e aponta como principais referências John Cage, Ornette Coleman e Jimi Hendrix, nomes de áreas bem diversificadas do espectro musical. Curiosamente, a sua especial perspectiva do vibrato decorre, tal como ele diz, de o ter “doente”...
   
         
Carlos Zíngaro: “Cage of Sand” (sirr, 2002)   2. Carlos Zíngaro: “Cage of Sand” (sirr, 2002)
Se “Solo” é um retrato do Zíngaro acústico, “Cage of Sand” mostra-nos o que o violinista faz actualmente com um computador ligado ao seu instrumento, com vista a parasitar-lhe os sons e a convertê-los em algo de muito distinto. Um belo exemplo de música mista (acústica + electrónica, vulgo electroacústica) composta no próprio momento da execução e o passo seguinte de um dos primeiros portugueses a utilizar máquinas na sua música. À excepção, talvez, de Philip Wachsmann e Jon Rose, poucos foram tão longe neste tipo de interacção a nível planetário.
   
         
Telectu: “Theremin Tao” (SPH / Extasis, 1993)   3. Telectu: “Theremin Tao” (SPH / Extasis, 1993)
O mais entusiasmante tomo da imensa produção discográfica dos Telectu reúne peças que cobrem o período de entre 1982 e 1992, numa linha que vai do minimalismo electrónico mais óbvio até à experimentação radical. Neste período, ainda Jorge Lima Barreto se centrava nos sintetizadores (agora virou a sua atenção para o piano) e Vítor Rua utilizava uma guitarra sintetizada. Ainda vinham longe as colaborações do duo com improvisadores / percussionistas como Sunny Murray, Eddie Prévost, Gerry Hemingway e Chris Cutler...
   
         
Vítor Rua: “Sax Works” (Nova Musica, 2003)   4. Vítor Rua: “Sax Works” (Nova Musica, 2003)
Bem se pode dizer que Vítor Rua percorreu uma longa distância até chegar ao seu actual estatuto de compositor contemporâneo, percurso esse que passou pelo pop/rock dos GNR e pelo experimentalismo dos Telectu, pioneiros em Portugal do minimalismo e da improvisação livre (neste caso, juntamente com Carlos Zíngaro). Em “Sax Works”, as partituras de Rua para saxofones vários e electrónica são interpretadas pelo francês Daniel Kientzy, uma das maiores autoridades neste domínio. Grandes músicos da actualidade como o pianista John Tilbury e o percussionista Eddie Prévost já executaram a sua música.
   
         
Ernesto Rodrigues / Jorge Valente: “Self Eater and Drinker” (audEo, 1999)  

5. Ernesto Rodrigues / Jorge Valente: “Self Eater and Drinker” (audEo, 1999)
Com formação clássica e uma grande paixão pelo free jazz, Ernesto Rodrigues é um improvisador bastante influenciado pela escrita musical contemporânea e em especial a de Emmanuel Nunes, tendo desenvolvido no violino e na viola de arco um estilo bem distinto do de Carlos Zíngaro. Bem evidente, de resto, neste duo com um teclista que pertenceu aos Plexus do dito Zíngaro, Jorge Valente, um dos primeiros a utilizar o computador em Portugal. Alguma da ambiência do pós-serialismo passa por “Self Eater and Drinker”, mas é bem outra coisa o que propõem.

   
         
Ernesto Rodrigues / Alfredo Costa Monteiro / Guilherme Rodrigues / Margarida Garcia: “Cesura” (Creative Sources Recordings, 2003)   6. Ernesto Rodrigues / Alfredo Costa Monteiro / Guilherme Rodrigues / Margarida Garcia: “Cesura” (Creative Sources Recordings, 2003)
Encontro de Ernesto Rodrigues com três improvisadores das novas gerações – o acordeonista Alfredo Costa Monteiro, português radicado em Barcelona, o seu filho Guilherme (violoncelo), na altura com 15 anos de idade, e a contrabaixista Margarida Garcia, hoje inserida na cena experimental de Nova Iorque –, “Cesura” é um dos mais celebrados discos do violista, numa linha “near silence” de mapeamento de texturas e microtonalismo. A ideia de corte, associando o instrumento que corta e aquilo que foi cortado, é a chave dos procedimentos utilizados, sempre à procura de uma fenda que possa ser alargada.
   
         
Alfredo Costa Monteiro: “Stylt” (Absurd, 2005)   7. Alfredo Costa Monteiro: “Stylt” (Absurd, 2005)
Ainda que o seu primeiro instrumento seja o acordeão, que toca das formas mais inconvencionais que possamos imaginar, o barcelonês nascido no Porto tem trabalhado a um nível concretista com materiais como a borracha e o papel, bem como com “turntables” (gira-discos), levando o DJing aos domínios do “noise”. Em “Stylt” encontramo-lo a manipular “pick ups” num gira-discos e os resultados são admiráveis. Os seus grupos catalães Cremaster e I Treni Inerti tornaram-no, entretanto, num dos mais respeitados porta-vozes da “nova improvisação”.
   
         
Osso Exótico: “Osso Exótico V” (AnAnAnA, 1997)   8. Osso Exótico: “Osso Exótico V” (AnAnAnA, 1997)
Objecto de culto desde a década de 80, os Osso Exótico têm no seu volume V o disco que mais sintetiza as diversas orientações por que têm passado, desde o “drone” (som contínuo) com copos de cristal e manipulações com arco das cordas de um piano e abordagens mais pontilhísticas com o maranhofone, instrumento de sua invenção que consiste na junção de diversas guitarras acústicas, utilizado como um saltério. Pelo meio introduzem gravações panorâmicas em fita, aproximando-se de certas práticas concretistas e do “field recording”. Uma das peças incluídas, “Corrimão, Comunidade das Mãos”, é uma das mais emblemáticas da sua produção.
   
         
David Maranha: “Piano Suspenso” (Sonoris, 1998)   9. David Maranha: “Piano Suspenso” (Sonoris, 1998)
Obra a solo de um dos fundadores dos Osso Exótico, “Piano Suspenso” parte de uma ideia muito simples mas eficaz: provocar e manter a vibração das cordas de um piano por meio de pequenos motores e de um arco de violino. Está aqui particularmente patente o interesse deste músico pelas lentas progressões de uma estrutura musical, com a ironia de que este trabalho quase artesanal foi desenvolvido na universidade de novas tecnologias de Troy, em Nova Iorque. O minimalismo de Tony Conrad tem um continuador em David Maranha, que, à semelhança daquele compositor americano, tem o violino como instrumento primeiro...
   
         
Nuno Rebelo: “Azul Esmeralda” (AnAnAnA, 1998)   10. Nuno Rebelo: “Azul Esmeralda” (AnAnAnA, 1998)
Banda sonora para uma coreografia de Paulo Ribeiro, “Azul Esmeralda” documenta um especial talento deste compositor e guitarrista que foi o mentor do grupo de avant-pop Mler Ife Dada: a montagem de estúdio. A partir de improvisações a solo de Carlos Bica (contrabaixo), do trombonista/tubista de free jazz Greg Moore e do baterista Marco Franco (Tim Tim por Tim Tum), a que juntou as suas próprias intervenções em vários instrumentos, “compôs” uma obra que transporta para a música o mito de Frankenstein: a construção de um corpo a partir de vários corpos. Pena que o seu investimento nos concertos e na composição para dança o tenham afastado da edição discográfica.
   
         
Miso Ensemble: “Vol. 2 – Música para Flauta e Percussão” (Miso Music, 1991; reedição Miso Music, 2003)   11. Miso Ensemble: “Vol. 2 – Música para Flauta e Percussão” (Miso Music, 1991; reedição Miso Music, 2003)
Duo de flauta, percussão e electrónica com percurso feito na linha que separa (ou une) a música “clássica” contemporânea e a nova música de cunho experimental, o Miso Ensemble de Miguel e Paula Azguime tem-se notabilizado por procurar trazer para a rua uma prática artística normalmente confinada aos meios académicos. “Água ou Maré – Nome de Pedra” é a “piéce de resistence” deste disco histórico, gravada no moinho de maré de Corroios, no Seixal, com utilização dos próprios sons do funcionamento do moinho (água, mós de pedra, a voz do moleiro, etc.).
   
         
António José Ferreira: “Música de Baixa Fidelidade” (Ama Romanta, 1988; reedição Plancton Music, 2002)   12. António José Ferreira: “Música de Baixa Fidelidade” (Ama Romanta, 1988; reedição Plancton Music, 2002)
Hoje com uma actividade simultânea de compositor electroacústico e especialista em ecologia sonora no Instituto Superior Técnico (fez levantamentos sobre o ruído do trânsito automóvel e a comunicação entre os golfinhos), António José Ferreira estreou-se em disco nos anos 1980 com esta obra que ainda mantém a sua frescura original, na altura bem mais distanciada dos parâmetros da chamada música “erudita” do que as suas actuais criações. Depois de “Música de Baixa Fidelidade” propôs-se equacionar as abordagens tipo dos estúdios-escola IRCAM e INA-GRM, desenvolvendo uma voz muito própria no cenário electrónico nacional.
   
         
Carlos Bechegas / Michel Edelin: “Open Frontiers” (Forward Records, 2003)   13. Carlos Bechegas / Michel Edelin: “Open Frontiers” (Forward Records, 2003)
Membro da derradeira formação do grupo Plexus, de Carlos Zíngaro, o flautista Carlos Bechegas tem granjeado um grande prestígio nos últimos anos, tocando com luminárias da improvisação como Peter Kowald, entretanto falecido, Derek Bailey, Alexander von Schlippenbach ou Barry Guy (no festival Música Viva de 2005). “Open Frontiers” coloca-o ao lado do igualmente flautista Michel Edelin, consistindo num disco de ressonâncias étnicas em que os diálogos travados pelos dois intervenientes chegam a funcionar como um jogo de espelhos, não sendo possível adivinhar quem fez o quê.
   
         
Emanuel Dimas de Melo Pimenta: “Book One” (ASA Art & Technology, 1997)   14. Emanuel Dimas de Melo Pimenta: “Book One” (ASA Art & Technology, 1997)
Filho de pais portugueses do Luso, mas nascido em São Paulo, no Brasil, e residente em Lisboa, o compositor, arquitecto e fotógrafo Emanuel Dimas de Melo Pimenta tem desenvolvido um projecto musical de electrónica minimalista que chamou a atenção, por exemplo, do coreógrafo Merce Cunningham, que utiliza habitualmente as suas obras nos espectáculos por ele dirigidos. “Book One” é a mais brilhante das suas incursões pelo “drone”, com a particularidade de podermos distinguir na densa nuvem de sons desta composição de rara poesia e mistério as vozes de astronautas em comunicação com a base de Hudson.
   
         
Mola Dudle: “Mobília” (AnAnAnA, 2001)   15. Mola Dudle: “Mobília” (AnAnAnA, 2001)
A pop experimental também tem tido praticantes no nosso país, e “Mobília” tornou-se mesmo num paradigma deste tipo de abordagem. Duas particularidades caracterizam este disco: foi gravado nos estúdios pessoais, em Sintra e Tavira, dos dois protagonistas do projecto, Miguel Cabral e Nanu, utilizando um processo de adição que se tornou corrente na aldeia global em que vivemos (um enviava por correio ao outro o que tinha feito, este acrescentava sons de sua lavra e devolvia ao remetente), e inclui como geradores de som uma grande variedade de objectos não-musicais, e designadamente utensílios domésticos. Este é, aliás, o domínio predilecto de acção de Cabral, músico-artista plástico que toca um instrumentário de sua própria invenção e construção.
   
         
Sei Miguel: “Token” (AnAnAnA, 1999)   16. Sei Miguel: “Token” (AnAnAnA, 1999)
A crítica internacional já apontou Sei Miguel como “o segredo mais bem guardado de Portugal”, e a verdade é que a qualidade e a originalidade do trabalho deste trompetista e compositor/arranjador têm sido prejudicadas pelo obscurantismo a que foi votado. Apresentando-se como um “jazzman”, apesar de muito o distanciar daquilo a que habitualmente chamamos jazz, a sua música tem um carácter ritualista ou cerimonial que “Token” muito especialmente evidencia, contando com as contribuições de Rafael Toral, Manuel Mota (dois habitués nas suas criações, tal como, de resto, a trombonista Fala Mariam e o percussionista César Burago), Rodrigo Amado e Luís Desirat, entre outros.
   
         
No Noise Reduction: “On Air” (AnAnAnA, 1996)   17. No Noise Reduction: “On Air” (AnAnAnA, 1996)
Da junção de esforços de dois guitarristas que se conheceram no grupo de rock alternativo Pop Dell’Arte, Rafael Toral e João Paulo Feliciano, este também um conhecido artista plástico, nasceu o projecto No Noise Reduction e o álbum “On Air”, resultado de actuações ao vivo da dupla em rádios locais. Na primeira parte, Toral e Feliciano manipulam o que chamam genericamente de “brinquedos electrónicos”, como pistolas de laser, telemóveis e “beatboxes” de karaoke, esventrados e preparados de maneira a reagirem imediatamente ao contacto dos dedos. Na segunda, voltam às guitarras, ainda que para as utilizar com o mesmo espírito de “bricolage”.
   
         
Rafael Toral: “Aeriola Frequency” (Perdition Plastics, 1998)   18. Rafael Toral: “Aeriola Frequency” (Perdition Plastics, 1998)
Admirador das obras de Brian Eno e John Cage, Toral desenvolveu uma concepção que deriva da “ambient music” e tem o ruído como matéria-prima, sob a forma de paisagens sonoras que vão evoluindo muito lentamente, ao jeito dos “drones” do minimalismo americano. “Aeriola Frequency” é o epítome de um processo de trabalho que tinha início com uma improvisação e passava por vários estádios de montagem, mistura, processamento e depuração, com a guitarra como ponto de partida e o computador a servir-lhe de ferramenta exploratória dos sons gravados. A sua abordagem mudou entretanto, com o projecto “Space” tendo-se tornado mais performativa.
   
         
@c: “v3” (Crónica, 2004)   19. @c: “v3” (Crónica, 2004)
A música dos portuenses @c coloca em questão a influência das artes visuais na música electrónica. Pedro Tudela é um prestigiado artista plástico e Miguel Carvalhais um designer gráfico (caso, igualmente, de Pedro Almeida, entretanto saído do grupo), e isso pressente-se no modo como estruturam o espaço sonoro e o preenchem. “v3” é a sua melhor realização até à data, e por sinal mais abstracta e experimental do que os álbuns anteriores. Descola, inclusive, da vocação techno desses discos, tanto assim que o “beat” desapareceu. O que aqui encontramos teve início com o colectivo Mute Life Department, formado para acompanhar musicalmente uma exposição de Tudela: as motivações “arty” desse tempo (1998) voltam a caracterizar a sua actividade.
   
         
Manuel Mota: “Leopardo” (Rossbin, 2002)   20. Manuel Mota: “Leopardo” (Rossbin, 2002)
“Leopardo” é o episódio mais bem conseguido da segunda fase criativa de Manuel Mota, centrada agora na guitarra eléctrica sem efeitos, tocada ao estilo “finger picking” da folk e dos blues do Delta americano. Depois de um primeiro investimento que privilegiava a guitarra acústica, se bem que preparada e tratada com dispositivos electrónicos em contextos de “drone” que chegaram a excluir a intervenção humana. Mota apresenta-se nestes últimos anos como um guitarrista de jazz, embora numa versão transfigurada do género. Merecedora, aliás, dos mais rasgados elogios por parte de Derek Bailey, o pai do experimentalismo guitarrístico.
   
         
Paulo Raposo / Carlos Santos: “Insula Dulcamara” (sirr, 2003)   21. Paulo Raposo / Carlos Santos: “Insula Dulcamara” (sirr, 2003)
Na década de 1990 respondendo pelo nome Vitriol, o duo constituído por Raposo e Santos tornou-se num marco da improvisação electrónica lusitana. Ditou a ironia que o melhor disco (entre dois apenas) dado à estampa por estes “laptopers”, e sem dúvida que o mais exemplar de toda a cena electro nacional, tenha saído nas vésperas da sua separação, quando já não se identificavam com o nome com que se deram a conhecer. Actualmente com percursos distintos, Carlos Santos é deles o que mais se tem evidenciado, seja a solo, inserido em projectos de Carlos Zíngaro como “Parasita Acumulador”, junto de Ernesto Rodrigues ou com o quarteto N:O de computadores.
   
         
Vítor Joaquim: “La Strada is on Fire (And We Are All Naked)” (Crónica, 2003)   22. Vítor Joaquim: “La Strada is on Fire (And We Are All Naked)” (Crónica, 2003)
Num disco que continua a aposta colaborativa da sua estreia como Free Field, Vítor Joaquim conta com os préstimos de músicos com actividade fora dos meios electrónicos, como os saxofonistas Martin Archer e Rodrigo Amado. “La Strada is on Fire” é o primeiro registo em que dá largas a uma característica da sua música: o aproveitamento de sons emanados dos media (TV, rádio, cinema), seja como fonte dos processamentos operados ou objecto de citação. Prática habitual deste “laptoper” que já foi teclista é, aliás, a transposição de fotogramas de filmes (o do assassinato de Kennedy, uma predilecção) em som, por meio de software específico para esse efeito.
   
         
Lisbon Improvisation Players: “Live_Lx Meskla” (Clean Feed, 2002)   23. Lisbon Improvisation Players: “Live_Lx Meskla” (Clean Feed, 2002)
Formação variável coordenada pelo saxofonista Rodrigo Amado, os LIP de “Live_Lx Meskla” foram exclusivamente constituídos por portugueses, a saber: Paulo Curado, Marco Franco (aqui trocando as baquetas pelo sax soprano), Pedro Gonçalves (o mesmo do grupo de fado “western” Dead Combo) e Acácio Salero. Independentemente da sua excelência, que é por demais evidente, este é o primeiro disco de free jazz português como tal assumido. Ou pelo menos do que Amado entende como free jazz , dado que pratica com os seus pares uma música totalmente improvisada com idioma jazzístico, isto tendo presente que o free original tem ainda temas melódicos como âncora.
   
         
Américo Rodrigues: “Aorta Tocante” (Bosq-íman:os Records, 2005)   24. Américo Rodrigues: “Aorta Tocante” (Bosq-íman:os Records, 2005)
Entre a poesia sonora e o vocalismo improvisado, Américo Rodrigues é o Jaap Blonk português, com uma parte de Henri Chopin e outra de Phil Minton. “Aorta Tocante” é o seu opus magnum, com o pecíolo de aboboreira (também conhecido como “trombone de aboboreira”) a recanalizar por ocasiões o seu trabalho com a glote. O CD inclui as intervenções do índio argentino Nohién, dos Coco de Zambê de Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte, Brasil, e de Antúlio Madureira, tocador de parceria, marimbaça, conduite baixo e conduite alto do Pernambuco, mas o propósito de Rodrigues não vai no sentido do estabelecimento de uma “world music”. Estes materiais funcionam antes como “factores estranhos”, redimensionando os parâmetros sonoros utilizados.
   
         
Bernardo Devlin: “Circa 1999 – 9 Implosões” (Extremo Ocidente, 2003)   25. Bernardo Devlin: “Circa 1999 – 9 Implosões” (Extremo Ocidente, 2003)
Membro dos Osso Exótico nos seus primeiros anos de existência, Bernardo Devlin cedo enveredou por um percurso nas franjas da pop que tem passado muito particularmente pela revisão das coordenadas do formato canção. Numa linha que por vezes lembra o Scott Walker de “Tilt” ou o David Bowie da fase de Berlim, junta nos seus projectos instrumentistas com actividade nos meios do experimentalismo radical e da improvisação, o que em muito tem contribuído para a sonoridade dos seus projectos. A sua voz grave e as letras surrealizantes que assina são outras características do excelente “Circa 1999”.
   
         
         
         
    E ainda:    
         
Emídio Buchinho: “Transducer” (BE REC.S, 2002)   Emídio Buchinho: “Transducer” (BE REC.S, 2002)
Apontado como um dos melhores engenheiros de som do cinema português, Emídio Buchinho tem desenvolvido uma irregular mas importante actividade como músico (guitarrista e manipulador de electrónica) e compositor. Em “Transducer”, o seu segundo álbum a solo, reúne composições destinadas a curtas-metragens de Pedro Sena Nunes e Caroline Barraud e a instalações de artistas como Miguel Rios, Joana Fernandes e Paulo Mendes. Entre o ambientalismo e o “soundscaping” electroacústico, o carácter fortemente imagético desta música não se deve apenas ao tipo de uso para que foi destinada. A música de Buchinho “vê-se”...
   
         
Anabela Duarte Digital Quartet: “Blank Melodies” (Zounds, 2005)   Anabela Duarte Digital Quartet: “Blank Melodies” (Zounds, 2005)
A cantora dos extintos Mler Ife Dada convidou para trabalharem consigo músicos da electrónica experimental como André Gonçalves (também conhecido como Ok Suitcase) e Diogo Valério e o resultado está aí: um disco de pop digital com um sabor decididamente alternativo, e curiosamente vindo a lume ao mesmo tempo que mais incursões do género iam surgindo noutras paragens, como as de Margareth Kammerer e Susanna and the Magical Orchestra. Anabela Duarte surge, pois, bem na linha da frente desta nova vaga de canções com “glitch” e sinusoidais.
   
         
Vários artistas: “Antologia de Música Electrónica Portuguesa” (Plancton, 2004)   Vários artistas: “Antologia de Música Electrónica Portuguesa” (Plancton, 2004)
Foi Rafael Toral quem organizou esta compilação que faz a história da electrónica em Portugal desde 1972, com a curiosidade de juntar na mesma selecção músicos e grupos experimentais do calibre de Carlos Zíngaro, Anar Band (Jorge Lima Barreto e Rui Reininho, o vocalista do grupo pop/rock GNR), Telectu, Nuno Canavarro, Nuno Rebelo, No Noise Reduction e ele próprio a compositores contemporâneos como Cândido Lima, Filipe Pires, Jorge Peixinho, Isabel Soveral e João Pedro Oliveira, entre outros. Notam-se algumas incompreensíveis ausências, como a de Miguel Azguime, mas a importância desta edição é mais do que óbvia.
   
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