Rui Eduardo Paes - Jornalista, crítico de música e ensaísta

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Pedro Costa - Clean Feed
Pedro Costa (foto: DR)

Pedro Costa
Pedro Costa (foto: DR)

Trem Azul - Visita presidencial
Visita presidencial à Trem Azul
(foto: DR)

       
 

Clean Feed
Dez anos de edições

A portuguesa Clean Feed comemora, em 2011, uma década de existência, vivida em pleno cenário de crise económica e de decadência da indústria do disco. Neste contexto, conseguiu obter um sucesso que é tão surpreendente quanto internacionalmente aplaudido, com várias publicações musicais a colocarem-na entre as cinco mais importantes editoras de todo o mundo. É um caso único ou, como diz um dos seus fundadores, Pedro Costa, "uma boa história". Aqui a contamos, para a posteridade...

Pré-história
Pedro Costa começou a trabalhar com discos em 1989, na Loja da Música do Centro Cultural das Palmeiras, em Oeiras. Depois de cumprir o serviço militar obrigatório, foi contratado como vendedor pela Mundo da Canção, onde conheceu o contrabaixista Hernâni Faustino, um antigo músico de rock (K4 Quadrado Azul) convertido à improvisação (Red Trio, Nobuyasu Furuya Trio e Quintet) que viria mais tarde a ser um dos sócios da Clean Feed / Trem Azul Jazz Store. Em 1992, Pedro foi convidado para a loja Darkside no Centro Cultural Babilónia, da Amadora, e de seguida a situada nas Galerias Via Venetto, em Lisboa. No final desse ano, juntamente com o irmão Carlos Costa, fundou a firma Vitório & Costa Lda e a loja Musikametro, na Parede, de que foi sócio-gerente. Aí esteve até 1994, mas o negócio não resultou e regressou à Loja da Música, desta vez para um novo espaço no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e em especial a sua secção de jazz e blues. Em 1998, ingressou na Fnac Colombo. Aí esteve até ao final de 1999, tornando-se então gestor de produto da cadeia de lojas Valentim de Carvalho, com o jazz a seu cargo. A fundação da Trem Azul – Actividades Musicais, Lda data de Março de 2001, nesta se albergando a editora discográfica Clean Feed.

Como afirma o próprio: "Trabalhar em lojas de discos era o meu sonho. Tinha sido tentado a jogar futebol profissional e estive quase para tirar o curso de Ciências da Comunicação, mas desisti de tudo isso porque preferia a música." Foi o irmão Carlos que introduziu Pedro no mundo do jazz, dando-lhe a conhecer nos anos 1980 o Modern Jazz Quartet. Entretanto, colegas do Liceu de Oeiras deram-lhe a ouvir Pat Metheny e Terje Rypdal. O primeiro concerto de jazz a que assistiu foi o da Chick Corea Akoustic Band, em 1985, desde então começando a consumir este género musical com regularidade e fixando-se, especialmente, em músicos como Dexter Gordon ("tenho muitos discos dele", revela), Chet Baker, Roland Kirk e a generalidade dos artistas da ECM. Em meados dos anos 1990, interessou-se também pelo free jazz, graças à descoberta de David Murray. A música livremente improvisada atraiu-o mais tarde por meio da audição de Carlos "Zíngaro".

Depois de ter ido a Nova Iorque, para assistir a concertos, por três vezes, no ano 2000 contactou e conheceu uma série de músicos que se tornariam elementos pivot do seu catálogo ou que abririam as portas da cena local à Clean Feed, designadamente Lou Grassi, Wilber Morris, Steve Lehman, Mark Whitecage, Steve Swell, Dave Ballou, Joe Fonda e Ehran Elisha. Nessa altura, juntamente com Carlos Costa, produzira já o festival Lx Meskla, com as participações de Slang, Akosh S., Lee Scratch Perry, Sei Miguel, Cool Hipnoise, Lisbon Improvisation Players e Frédèric Galliano. Foi então que decidiu organizar uma pequena digressão de um duo formado por Swell e Grassi, o qual resultou num trio com o acrescento de Ken Filiano, a pedido de Luís Hilário, do Hot Clube, que recebeu o grupo durante duas noites. A mesma formação foi ao Auditório do Forum Cultural do Seixal, tendo como convidados os músicos portugueses Rodrigo Amado e Paulo Curado. Foram segunda escolha, pois o convite original havia sido dirigido a Sei Miguel e Fala Mariam, que recusaram após algumas hesitações.

O propósito era editar em disco a gravação do concerto no Seixal, assim iniciando uma nova distribuidora e editora – para tal, tentou associar ao projecto o director artístico do festival Seixal Jazz, Paulo Gil (que tinha sido o responsável das importações de jazz da Valentim de Carvalho, nos anos 1980), e Hernâni Faustino, mas ambos tiveram receio de embarcar na aventura. Pedro Costa ficou sozinho e, dados os compromissos já assumidos, acabou por arrancar com a ideia juntamente com os irmãos Carlos e Nuno Costa. O capital foi constituído com uma contribuição do pai de 400 contos, que reverteu para a aquisição de discos destinados a venda comercial. Os objectivos iniciais eram três, já revelando alguma ambição: "Mudar o cinzentismo do jazz em Portugal, indo para além do que então se fazia; juntar músicos portugueses e estrangeiros, com o intuito de nos ligar ao mundo dentro de um quadro de cruzamento da artistas de nacionalidades e cenas diferentes; e desenvolver um conceito, o de que os músicos é que decidem."

Arranque e reviravolta
Aquele que viria a ser o primeiro disco da Clean Feed ("The Implicate Order at Seixal") foi gravado a 16 de Março de 2000, no Seixal Jazz. O processo de gravação, mistura e masterização custou 750 contos. Entretanto, Nuno Costa abandonou o projecto e Rodrigo Amado (que foi quem sugeriu o nome Clean Feed) comprou a quota daquele na sociedade. Já com Amado, foi agendado o lançamento de um segundo CD ("Live at the Bop Shop"), com a New Band de Lou Grassi. Em 2002, entrou igualmente como sócio Ilídio Nunes, vindo da gestora dos equipamentos culturais da Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC, e da Fundação Calouste Gulbenkian, que muito contribuiria para a definição e a consolidação das estratégias de fundo que vêm sustentando a companhia. Entre estas, a noção de que haveria toda a vantagem em fazer várias edições simultâneas: "Deste modo, as distribuidoras encomendam-nos diversos títulos e ainda pedem fundo de catálogo. Foi também ele quem teve a ideia de fazer vendas por meio digital, por exemplo através do iTunes. Sempre é dinheiro que entra sem fazer grandes investimentos. E ainda contribuiu com as estratégias de marketing que continuamos a utilizar e que tiveram especial importância no lançamento do álbum 'Nocturno', de Bernardo Sassetti."

Pedro Costa conhecera Ilídio durante as Festas de Lisboa de 2001, para a qual organizara concertos das bandas Klezmatics, Gladiators, Istambul Oriental Ensemble, Dixie Peppers, Mahotella Queens e Rokia Traoré. O núcleo original da Clean Feed produzira igualmente em 2001, para o Salão Lisboa, um programa de jazz com os Manuela (Carlos "Zíngaro", Rudiger Carl e Hans Reichel) e um colectivo da editora CIMP formado por Tomas Ulrich, Lou Grassi, Wilber Morris, Ivo Perelman, Rob Brown e Roy Campbell.

O primeiro músico português a gravar para a Clean Feed foi Mário Delgado, por iniciativa do próprio, resultando na edição, em 2002, de "Filactera". O segundo foi Sassetti, que lançou na nova etiqueta, no mesmo ano, o álbum "Nocturno". Reforçando a dimensão internacional da "label", saiu nessa altura também "Reed Song", do Will Holshouser Trio, e, em 2003, "Devils Paradise", de Gerry Hemingway com Ray Anderson, Ellery Eskelin e Mark Dresser, que obteve um grande impacto nos circuitos mundiais da distribuição. "Com o disco do Hemingway conseguimos ter mais distribuidores e obtivemos uma maior cobertura crítica no estrangeiro, pelo que o nosso grau de exigência passou a ser maior."

Foi em Outubro de 2004 que abriu a loja Trem Azul. A Valentim de Carvalho Megastore encerrara e daí vieram Hernâni Faustino, que adquiriu grande parte da quota de Carlos Costa quando este se afastou da Clean Feed para abrir um bar no Chiado e, depois, para ingressar na distribuidora discográfica Megamúsica, apesar de nunca ter deixado de ser sócio, e Rodrigo Amado, o seu director. No início do ano seguinte, o saxofonista saiu por divergências com a restante equipa. Nessa mesma altura, e transitando do estúdio de gravação Xangrilá, aderiu à empresa Madalena Borges, com funções de tesouraria, organização e escritório. Travassos entrou para a loja em 2005, para em 2008 dividir a sua contribuição entre o balcão e o "design" das capas dos discos. Em 2010, surgiram os derradeiros elementos do "team" Clean Feed / Trem Azul: Ricardo Leiria para a loja e como vendedor, vindo de um percurso realizado entre a Valentim de Carvalho, a Dargil e a VGM, e Nádia Sales Grade, no contexto de uma parceria com a empresa de assessoria de imprensa e comunicação Wake Up.

A divulgação é, aliás, uma área a que Pedro Costa dá especial importância e que o levou mesmo a alguma dedicação paralela, escrevendo para publicações como Público, O Papel do Jazz, Acústica, Voice, Ícon, Blitz, All Jazz e jazz.pt, revista de que foi o primeiro editor, em 2005. "Na adolescência, a minha maior ambição era vir a ser jornalista e até publiquei um fanzine, o Rockland, que tinha uma tiragem de 200 exemplares. Gostava de música e gostava de escrever, embora tivesse a percepção de que não estava muito vocacionado para tal. Desisti porque era outro, de facto, o tipo de intervenção que queria ter na música. O convite para editar a jazz.pt partiu do Jazz ao Centro Clube e eu aceitei a incumbência apesar de sentir que essa não era a situação ideal, pelo facto de dirigir a Clean Feed e a Trem Azul. Simplesmente, não havia na altura mais ninguém que o fizesse e o JACC considerava imprescindível ir para a frente com o projecto, mas preferia que não fosse eu a desempenhar tais funções: assim que possível, saí. Julgo que a experiência jornalística que tive permitiu à editora fazer um melhor trabalho de promoção."

O crescimento da Clean Feed foi directa consequência da "reviravolta" (Pedro dixit) operada a partir de 2003: "Se no início pretendíamos apenas lançar dois ou três títulos por ano, com o retorno conseguido achámos que podíamos subir a bitola e incluir artistas de maior renome. Foi por volta de 2006 ou 2007 que nos decidimos pela actual timetable de edição, com pacotes de discos lançados em Janeiro, Março, Maio, Julho, Setembro e Novembro, ou seja, de dois em dois meses. Claro que isto só podia ter implicações a nível do nosso modus operandi e daí o alargamento da equipa." No início de 2011, eram 220 as obras discográficas colocadas no mercado, e claro que tal dinamismo, somado à qualidade musical das edições, acabou por suscitar a atenção da crítica e dos media. Publicações online e em papel como All About Jazz, Down Beat e Free Jazz e instituições como a Jazz Journalists Association e a El Intruso têm colocado a editora lisboeta entre as mais importantes do mundo, ano após ano.

A comunicação social portuguesa interessou-se muito particularmente pelo "caso Clean Feed". Diz Pedro Costa: "Os jornais, a rádio e a televisão gostam de uma boa história, e o certo é que nós damos uma boa história. De perseverança e teimosia, num tempo de geral desalento. Só encontro essa explicação para a atenção que nos têm dado. Tudo isto me parece ser o reconhecimento do nosso trabalho e a confirmação de que as nossas propostas fazem sentido. O papel que queremos desempenhar é a representação da música desta época, e ficamos contentes se tal suscita algum elogio. Conseguimos passar a mensagem e o nosso objectivo foi compreendido; é sinal de que estamos no caminho certo."

Ainda assim, os favores da crítica especializada nacional estiveram sempre longe de acompanhar esse entusiasmo jornalístico. Alguma dela foi manifestando algum desagrado pelas edições menos alinhadas com a tradição do jazz, conotando a label com a estética free: "Não só não gosto de compartimentar estilos dentro do jazz, como acho ridículo que se identifique a Clean Feed com o free jazz. Nunca pretendi, antes pelo contrário, que a etiqueta estivesse ligada a uma só cena. É um estigma que nos pretendem colar, mas sem qualquer fundamento. De resto, entre mais de 200 edições, só meia dúzia cabem efectivamente no âmbito do free jazz. Também me parece enganadora a afirmação de que recentemente nos estejamos a aproximar mais do mainstream: para todos os efeitos, sempre demos algum espaço ao jazz mais convencional em termos de forma, mas buscando sempre a autenticidade."

Também o poder político se apercebeu da importância da etiqueta. Em 2010, o Presidente da República Portuguesa, Cavaco Silva, incluiu as instalações da Trem Azul e da Clean Feed no trajecto que realizou pelo País em prol do jovem empreendedorismo económico. Afinal, esta pequena estrutura sediada à beira do rio Tejo conta-se entre as poucas que, por cá, visam a exportação dos seus produtos. O comentário: "Este outro tipo de reconhecimento foi igualmente agradável. A visita presidencial presenteou-nos com um capital de confiança. Atraiu a atenção sobre nós e deu-nos credibilidade, pois fomos encarados como uma empresa modelar, um exemplo para os outros."

Jazz ao Centro
Desde o início que foi propósito da Clean Feed juntar a programação de concertos à edição de discos. De resto, tem sido prática habitual da etiqueta colocar no mercado registos gravados ao vivo. Para esta linha de orientação muito contribuiu a entrada em cena de Pedro Rocha Santos, então presidente do Centro Norton de Matos, de Coimbra, que contactou Pedro Costa na expectativa de organizar concertos de jazz no contexto do Coimbra Capital Europeia da Cultura, em 2002. Nos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra apresentaram-se nesse ano e no seguinte os músicos William Parker, David S. Ware, Charles Gayle, Gerry Hemingway, Vinny Golia, Rodrigo Amado / Carlos "Zíngaro" / Ken Filiano, Paul Smoker, Joe McPhee, Jemeel Moondoc, Ken Vandermark / Kent Kessler / Paul Lytton, John Law, Frode Gjerstad e os grupos Cosmosamatics, Telectu com Eddie Prévost e Mujician.

Pouco depois, em Abril de 2003, Rocha Santos fundou o Jazz ao Centro Clube, que desde então tem promovido o festival Jazz ao Centro, no início com João Pedro Viegas como director artístico, mas também desde a origem com a colaboração de Pedro Costa. Este tomaria, entretanto, a seu cargo a programação do festival. Alguns dos concertos realizados, em especial os que tinham lugar no Salão Brazil, começaram a ser gravados, do que resultou a criação de uma colecção no catálogo da Clean Feed, a JACC Series. Explica o responsável da editora: "No começo reservados às jam sessions, verificámos que os after-hours deviam ter os mesmos critérios do restante programa e que o Salão Brazil era o espaço ideal para se fazerem registos ao vivo, com um grupo a tocar durante três noites seguidas. O formato dá aos músicos espaço para experimentar e para explorar o seu repertório, proporcionando-lhes uma maior segurança. Dos discos que saíram pela JACC Series, só os do Steve Lehman Camouflage Trio ("Interface", 2004) e de Fredrik Nordstrom ("Live in Coimbra", 2008) foram gravados no Teatro Académico Gil Vicente."

Além dos referidos, foram na colecção lançados títulos dos 4 Corners ("4 Corners", 2007), Steve Lehman Quartet ("Manifold", 2007), Jonas Kullhammar / Alberto Pinton / Torbjörn Zetterberg / Kjell Nordeson ("Chant", 2009), Michaël Attias ("Renku in Coimbra", 2009; "Twines of Colesion", 2010), Daniel Levin Quartet ("Bacalhau", 2010), Angles ("Epileptical West", 2010) e Mostly Other People Do the Killing ("The Coimbra Concert", 2011). O espólio é, no entanto, muito maior. Pedro Costa: "Os registos daqueles fantásticos primeiros concertos realizados em Coimbra ainda permanecem na gaveta – estamos nós e o Jazz ao Centro Clube a pensar publicá-los numa caixa, provavelmente quando o JACC comemorar uma década de existência, em 2013."

A história: "Tudo começou com um concerto do Trio X de Joe McPhee com Steve Swell, de apresentação do recém-constituído Jazz ao Centro Clube. Entre Janeiro e Dezembro de 2003 organizámos 15 concertos, regra geral um por mês. Entre estes, em Maio, o do Steve Lehman Camouflage. A partir de 2004, o Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra passou a fazer-se em dois fins-de-semana separados de Março e Novembro. Nessa altura, eu tinha a direcção de produção. O primeiro ano foi uma pedrada no charco. Os concertos estavam sempre lotados, e ficavam mesmo pessoas à porta por não conseguirem entrar. Era um Cascais Jazz em ponto mais pequeno. O Rocha Santos é o homem mais empreendedor que já conheci. Foi tão entusiástico e tão decidido que me convenceu a embarcar nesta viagem – e já passaram oito anos. Tem uma energia que move montanhas. O formato aperfeiçoou-se, cresceu e o Salão Brazil tornou-se, inclusive, no espaço mais carismático do festival."

A programação de concertos pela Clean Feed / Trem Azul revelou-se estratégica: "Os discos por si só não chegariam para manter a editora, mas sem eles nada mais haveria. No jazz é fundamental haver música ao vivo. Aliás, é por causa dos concertos que se estabelece uma relação mais especial com os músicos. São tão importantes que eu verifico que a música de um determinado projecto muda ao longo de quatro ou cinco actuações. Só assim os projectos podem adquirir rodagem, e só assim os músicos estabelecem laços entre si e efectivamente se conhecem. Enquanto programador, preocupa-me que eles comam bem e se divirtam nas digressões, mesmo que, por vezes, tenham de ficar em hotéis menos bons."

Espaços, concertos e discos
Através de Carlos Garcia e Teresa Ré, a Câmara Municipal do Seixal foi a primeira entidade a colaborar com a editora aquando da gravação do seu primeiro CD, "Implicate Order at Seixal". Essa colaboração mantem-se até à data, através do Seixal Jazz, no qual a Trem Azul tem sido presença constante com a popular feira do disco, mas também por meio da programação que Pedro Costa faz para o Seixal Jazz Clube, uma das iniciativas de maior destaque do festival. Para além disso, foram gravados no Auditório do Forum Cultural do Seixal, sem público, os seguintes discos: "The Sound of Places" (2004), de Pedro Madaleno, "Snug as a Gun" (2006), do IMI Kollektief, "Wishful Thinking" (2007), do grupo com o mesmo nome, "Da Alma"(2007), de Júlio Resende, e "Scapegrace"(2009), do duo de João Paulo Esteves da Silva e Dennis González.

A Casa da Música, no Porto, tem sido um apreciado abrigo dos artistas da Clean Feed: "O responsável da programação não clássica, Fernando Sousa, tem confiado nas propostas que lhe faço, tanto assim que somos praticamente os únicos a quem compra espectáculos de jazz. É um óptimo local para ancorar uma digressão. A hospitalidade, a equipa técnica e o equipamento são excelentes. Gravámos lá o 'Scenes in the House of Music' do Evan Parker Trio com Peter Evans, o 'Real Aberration' dos NY Downtown Allstars de Herb Robertson e metade do 'Eldorado Trio' de Louis Sclavis. É um dos poucos espaços institucionais portugueses aberto às alternativas, pelo que tem um papel muito importante para a divulgação desta música. Posso, inclusive, dizer que a Casa da Música veio mudar muita coisa na cena nacional."

O Centro das Artes do Espectáculo de Portalegre é outro dos poisos frequentes dos músicos Clean Feed: "A primeira vez que lá fui fiquei surpreendido com o movimento criado à volta da realização do Portalegre Jazz Fest. O CAEP tem excelentes condições e também se preocupa em mostrar o que acontece fora do mainstream. Foi em Portalegre que gravámos o 'Soulstorm' de Ivo Perelman, Daniel Levin e Torbjorn Zetterberg e o trio Ken Vandermark / Havard Wiik / Chad Taylor. É, decididamente, um dos festivais onde mais gosto de ir, pela música, pelo ambiente e até pelas provas de vinhos e queijos que promove. Firmámos uma parceria com o Jazz Fest que se iniciou em 2011 e no contexto da qual oferecemos discos da Clean Feed com a compra de bilhetes para os concertos e apresentámos três novos lançamentos, o de 'Organic Modernism' do Daniel Levin Quartet, de 'The Coimbra Concert' dos Mostly Other People Do the Killing e de 'HNH' de Joe Hertenstein, Pascal Niggenkemper e Thomas Heberer. Quero deixar um forte agradecimento a Joaquim Ribeiro por tudo o que tem feito por um dos mais humanos festivais de jazz do País."

Na Culturgest, em Lisboa, Pedro Costa tornou-se no comissário de uma série de concertos com designação provocatória, Isto é Jazz?. "A colaboração teve início em 2006, com o Gerry Hemingway Quartet. Em 2007 tocou o Bernardo Sassetti Trio e em 2008 propus ao director, Dr. Miguel Lobo Antunes, a realização de um ciclo de música que estivesse no limiar do jazz e ele achou logo óptima a ideia. Tem sido um sucesso, com todas as sessões esgotadas. Por mais 'fora' que sejam as propostas, têm a chancela da Culturgest e o público acorre. O titulo inspirou-se no What is Jazz Festival, avisando à partida as pessoas das características das propostas, de modo a que ninguém saiba muito bem o que vai ouvir. Esta é a programação em que usufruo de maior liberdade: tenho a garantia de que vou ter público e isso permite-me uma grande abertura."

No Centro Cultural de Belém, e concretamente na Cafetaria Quadrante, Costa vem realizando o Jazz às Quintas (assim denominado por se realizar durante as quintas-feiras dos meses de Primavera e Verão), contribuindo igualmente para o programa do festival Dias da Música: "O ciclo na cafetaria começou por incidir sobre músicos portugueses, sempre com entrada livre, mas rapidamente se transformou num importante porto para os músicos estrangeiros iniciarem as suas digressões em Portugal. Já lá tive, por exemplo, Evan Parker, Peter Brotzmann, Mark Helias e Elliott Sharp. Com a realização no CCB, em paralelo, da série Dose Dupla, no início de cada ano, mais virado para o mainstream, senti que podia abrir mais os critérios de programação. O Jazz às Quintas está estabelecido, tem público certo e numeroso e é um evento incontornável da temporada alta do jazz em Lisboa. Ao Dias da Música já levei o Spectrum de Carlos 'Zíngaro', Sten Sandell com Mattias Stahl, Sharp com Scott Fields e o Will Holshouser Trio com Sassetti, no grande auditório. Neste caso, o cartaz que estabeleço depende do tema escolhido pelo CCB, que pode não abarcar o jazz. Por exemplo, nestes dois últimos anos as minhas escolhas recaíram nos blues e no ragtime."

O Teatro Municipal da Guarda e o Theatro Circo de Braga foram outros pontos de passagem dos concertos Clean Feed. No primeiro estiveram Elliott Sharp a solo, Michael Bisio com Stephen Gaucci e Tim Berne com Bruno Chevillon e no outro 4 Corners, os BassDrumBone de Gerry Hemingway e os Dual Identity de Rudresh Mahanthappa e Steve Lehman. "A Guarda é uma cidade com muita vitalidade e com um historial de espectáculos importantíssimo e em Braga estivemos presentes num festival, o Braga Jazz, que começou com imensa força, mas foi perdendo gás e por fim desmoronou-se, talvez devido à concorrência do Guimarães Jazz e da abertura da Casa da Música no Porto."

A própria Trem Azul Jazz Store tem uma programação constante: "Sem ser fixa, fazemos concertos na loja sempre que tal se justifica. O público é exigente e algumas das sessões foram emblemáticas." Aí se apresentaram Paal Nilssen-Love, Mark Dresser, Otomo Yoshihide, Mats Gustafsson, Jeff Parker, Ken Vandermark com Carlos "Zíngaro" e com Chad Taylor, Evan Parker com John Edwards, Chris Corsano e Paul Dunmall, Ravish Momin Trio Tarana, Sara Serpa com Ran Blake, Dennis González, Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva e a Variable Geometry Orchestra de Ernesto Rodrigues, entre muitos outros. "É um bom espaço para concertos e tem uma certa mística, por ser a 'casa' da Clean Feed."

Clean Feed Fest
Há que referir, ainda, o Clean Feed Fest, evento da editora portuguesa em terras americanas, que em Nova Iorque teve já cinco edições. A primeira, em 2006, realizou-se no Barbés, em Brooklyn, no ano seguinte passou para o Cornelia Street Cafe, na Greenwich Village, em 2008 transitou para o conceituado Living Theatre, em 2009 esteve no Cornelia Connelly Center e, finalmente, voltou ao Cornelia em 2010. Pedro Costa: "Organizar um festival em Nova Iorque é uma maravilha. Funciona como um ponto de encontro com os nossos músicos e com as pessoas de vários países que lá vão de propósito. É uma festa portuguesa, com vinho, azeite, queijo e azeitonas. Os americanos adoram. Tocaram lá, por exemplo, Steve Lehman em trio, o Tony Malaby Tamarindo, Red Trio com Nate Wooley, Elliott Sharp com Scott Fields, Michael Dessen Trio e muitos outros. Sempre que lá vamos esperam-nos uns barbecues organizados por Ken Filiano, Kris Davis, Russ Lossing, Tom Blancarte ou Bruce Barth. Este investimento resultou no convite que nos foi feito por John Zorn para comissariar 15 dias de concertos no The Stone, em Julho de 2011. Vou incidir o programa em encontros inéditos de artistas da editora."

O Clean Feed Fest foi também a Chicago em 2010, graças ao apoio da associação Umbrella Music e de Mike Reed, que pagaram as viagens dos músicos vindos de fora da cidade e lhes providenciaram um apartamento. O festival decorreu durante dois dias no Chicago Cultural Center, que dispõe de auditórios para 600 e 400 pessoas, com os after-hours no Hideout ("o mais fantástico clube de jazz que já vi, muito informal e com um espírito comunitário, com o bar separado da sala de concertos e um jardim") e na Heaven Gallery. Participaram Kris Davis com Ingrid Laubrock e Tyshawn Sorey, o Pandelis Karayorgis Trio, o Keefe Jackson Trio, os Memorize the Sky, Luís Lopes com Jeb Bishop e Josh Abrams, Herculaneum e Jason Stein's Locksmith Isidore. "Teve imenso público e foi muito destacado pela imprensa local. Saiu mesmo artigo na Down Beat. Fomos extraordinariamente bem recebidos e durante os cinco dias de estada tivemos muitas paródias, anfitriados por Ken Vandermark, Josh Behrman, Mike Reed e Jason Adasiewicz. Chicago é uma cidade mais saudável que Nova Iorque, com menos competição, mas também por isso menos 'espicaçada'. É uma cidade europeia. Não sei se lá poderemos voltar, mas o Clean Feed Fest irá a Filadélfia e a S. Francisco em 2011. A ideia de fazer um festival nos Estados Unidos foi-me sugerida por Michael Attias e na altura não imaginei sequer metade do que viria a ser."

No seu périplo por outras paragens, a Clean Feed começou também a estender a sua influência até à Eslovénia, com intervenções no Ljubljana Jazz Festival: "É o festival mais antigo da Europa e o segundo mais antigo do mundo, a seguir ao de Newport, pois vai agora na sua 52ª edição. Conheci o seu responsável, Bogdan Benigar, em 2007, na Suécia, onde fui para participar numa mesa-redonda sobre editoras. Dois anos depois ele pediu-me para programar um concerto com João Paulo Esteves da Silva, que tinha ouvido num disco que lhe ofereci. Em 2010 fui lá novamente com o Eldorado Trio e em 2011 está agendado um Clean Feed Day a que, muito provavelmente, levarei Lawnmower, Chris Lightcap's Bigmouth, os Angles de Martin Kuchen e Evan Parker. É uma cidade simpática e muito evoluída, rodeada por lagos belíssimos e montanhas altas."

Madrid e Barcelona são próximas expectativas, já por lá tendo passado os 4 Corners: "As portas estão abertas, por intermediação da Arco y Flecha de Sergio Merino, que também conheci na Suécia. Na ida a Barcelona, o grupo tocou no Apollo e aí encontrámos um ambiente explosivo. As pessoas estavam supercuriosas e esvaziaram a nossa banca de discos."

Outras colecções
Outras colecções se somaram no catálogo da Clean Feed à JACC Series, como a JeA Series e, mais recentemente, a Guitar Series. Uma surgiu por proposta do Jazz em Agosto, da Fundação Calouste Gulbenkian, já depois de a editora ter lançado dois títulos gravados no festival, "The Hard Blues" (2004) do Julius Hemphill Sextet e "Live in Lisbon" (2006) do Otomo Yoshihide New Jazz Quintet, este depois reeditado já no contexto da parceria; a outra tem curadoria do guitarrista Elliott Sharp.

Na primeira pessoa: "É um prazer trabalhar com Rui Neves, o director artístico do Jazz em Agosto, que é uma inspiração para o meu trabalho como programador. A relação que estabelecemos com a Gulbenkian é prestigiante para nós e funciona nos dois sentidos. Neste contexto, publicámos em 2010 o "Live in Lisbon" do Peter Evans Quartet. A constituição da Guitar Series tem que ver com a relação estranha que mantenho com a guitarra de jazz, de que não sou grande apreciador. Os guitarristas de que gosto – Sonny Sharrock, Nels Cline, Noel Akchoté, Joe Morris, Elliott Sharp, Scott Fields, Marc Ducret, Marc Ribot, James Blood Ulmer – não são propriamente 'de jazz'. Decidi, pois, dedicar uma série a esta linha de guitarra não especificamente de jazz e os discos editados andam à volta do Sharp, como 'Sharp? Monk? Sharp! Monk!', os dois volumes do projecto 'Octal', o duo com Fields e a compilação 'I Never Meta Guitar', de que está para sair um segundo volume."

Imagem
Um colaborador desde a primeira hora da Clean Feed foi Rui Garrido, um antigo colega de escola de Pedro Costa, que se encarregaria da imagem e do design das capas dos discos Clean Feed até à edição nº 104, interrompendo a sua prestação de serviços devido às muitas outras ocupações a que se dedica – trabalha, por exemplo, para o cluster de edição livreira Leya e para a HM Música, produtora de um nome grande do "novo fado", Hélder Moutinho. Garrido foi substituído pelo também designer Travassos, que começou a encarregar-se da cover art a partir de então. Com formação realizada na Universidade de Aveiro e uma passagem pela Competitive Design Network de Barcelona, a ligação de Travassos à música passou por um lugar de responsabilidade na megastore da Valentim de Carvalho de Aveiro e pela direcção artística do Festival de Jazz de Aveiro, do Rescaldo, em Lisboa, e do Muco - Festival de Música Urbana do Cartaxo. É também músico, com actividade no âmbito da livre-improvisação, construindo os seus próprios dispositivos electrónicos.

A propósito da imagem gráfica da Clean Feed, diz Pedro Costa: "Quando tive a ideia de lançar a editora, pensei logo em Rui Garrido para se encarregar do design. Conheço-o há 30 anos e somos grandes amigos, além de que é um excelente profissional e está muito dentro da música. A intenção era não termos um template fixo, ao contrário, por exemplo, da ECM. O único elemento a manter seria o logotipo. E, no entanto, criou-se uma identidade, um conceito implícito. Uma identidade, aliás, que é paralela à identidade da música editada, apesar dos diferentes projectos musicais. O importante para nós tem sido que, tanto na música como no design, as coisas não sejam demasiado óbvias, demasiado alinhadas com uma só estética. O Garrido fez as primeiras 104 capas, se não estou em erro, à excepção da do 'A Jazzar no Zeca' da Zé Eduardo Unit. Devido à sua falta de tempo, passou a ser o Travassos a tratar do grafismo, e se o estilo mudou, os princípios mantiveram-se. No início explorámos muito as imagens fotográficas nas capas, bem como os letrings, e com o Travassos – que, entretanto, já concebeu outra centena de capas – passámos a dar mais atenção às ilustrações, na sua maior parte desenhadas por ele mesmo."

A atenção dada ao grafismo valeu à Clean Feed algumas capas votadas como as melhores do ano. Por exemplo, as de "Re:Action" (2008) de Sean Conly e de "Ritual" (2009) de Avram Fefer foram distinguidas pela publicação online All About Jazz. Ao longo destes 10 anos, os formatos das ditas foram mudando: "Começámos pelo digipack com três abas e superfície de impressão de seis páginas, depois passámos pela jewelbox, em transição para o digipack em papel reciclado, exclusivo, feito com dobras, mas o sistema dava muito trabalho e abandonámo-lo 50 edições depois. Surgiu então a ideia de fazer um LP pequeno, em formato quadrado, que é para manter. As capas são mais leves, e apesar de terem lombada são mais finas. Fica mais barato enviar os nossos discos por correio – ocupam três vezes menos espaço do que os CDs normais."

Técnica
O mesmo cuidado foi dedicado aos aspectos técnicos de gravação, com escolhas criteriosas dos profissionais na área. O primeiro técnico de som com quem a Clean Feed trabalhou foi Luís Caldeira, que na altura estava na Valentim de Carvalho. Foi ele quem gravou 'The Implicate Order at Seixal. O estúdio a que a editora mais recorreu foi o Xangrilá, primeiro com Nuno Pimentel e depois com Pedro Rêgo e Luís Delgado. As masterizações iniciais estiveram a cargo de Fernando Rascão, mas depois passou a ser Delgado a fazer a maior parte delas. É este o técnico com quem a editora tem mantido uma relação mais duradoura, sobretudo nos registos ao vivo, por exemplo no Salão Brazil e no Jazz em Agosto, e também nas misturas. Numa certa altura teve Pedro Santos como director técnico, mas depois este começou a organizar concertos, fundando a produtora Lado B, e deixou de ter essa actividade. Também Nelson Carvalho colaborou com a Clean Feed, em todas as gravações de Bernardo Sassetti, mas também nas de Will Holshouser, do Marty Ehrlich Rites Quartet (designadamente o CD "Things Have Got to Change", 2009) e dos TGB de "Evil Things" (2010), nos estúdios da Valentim de Carvalho. Ultimamente, centrou-se no Namouche de Joaquim Monte.

Nas situações ao vivo, a etiqueta recorre igualmente a João Paulo Miranda, que é o director técnico do Centro das Artes do Espectáculo de Portalegre – foi ele quem gravou "Soulstorm" e os últimos concertos do Salão Brazil. E ainda a João Ferraz, da Quinta da Música, que se encarregou de algumas sessões do Jazz ao Centro, do "Dual Identity" em Braga, do registo do Evan Parker Trio com Peter Evans na Casa da Música, de "Real Aberration" de Herb Robertson, e das sessões de estúdio com O Lugar de Desordem de Paulo Curado ("The Bird, the Breeze and Mr. Filiano", 2008), John O'Gallagher Trio ("Dirty Hands", 2008) e Hugo Carvalhais ("Nebulosa", 2010). Fora de Portugal, a Clean Feed teve os préstimos de Jim Clouse no Park West Studios, em Brooklyn, de Jon Rosenberg e dos irmãos Joe e Mike Marciano no Systems 2, e ainda do La Buissone, em França, que registou o álbum "Cette Opacité" (2005), de Jean-Marc Foltz e Bruno Chevillon, e realizou as misturas e a masterização de "Eldorado Trio" (2010), de Louis Sclavis com Craig Taborn e Tom Rainey.

Crise e criatividade
Se atentarmos bem no que foi a década de 2000, a Clean Feed funcionou sempre em cenário de crise e obteve o sucesso que tem não obstante os graves problemas económicos de Portugal e do planeta, bem como da progressiva agonia da indústria discográfica. "Começámos já com a crise instalada, pelo que aprendemos a lidar com ela. Somos filhos das crises económica e do disco. Aliás, o ano de 2010 foi comercialmente o nosso melhor de sempre. Cada ano tem sido melhor do que o anterior, apesar de todos os constrangimentos. Acredito que, quando as coisas são bem feitas (e nós esforçamo-nos por isso), é possível sobreviver às más fases. Mesmo com o aumento da carga fiscal, as nossas previsões são as de que 2011 ainda correrá mais satisfatoriamente. Ainda que a cautela nos imponha a edição de menos títulos, estes serão 25 ou 30, uma quantidade já por si considerável."

Até por isto o exemplo da editora é dignificante. As difíceis circunstâncias que vivemos são um convite para imaginar novas saídas e não para nos conformarmos com a passividade. O certo é que a Clean Feed veio mudar consciências, procedimentos, dinâmicas, empenhos e mesmo as realidades musicais de Portugal e do mundo. Pedro Costa tem a percepção disso, se bem que com alguma modéstia: "No nosso país acho que influímos no facto de os músicos terem agora um maior nível de exigência para com os seus projectos. Contribuímos também para que alguns nomes nacionais ganhassem uma projecção de que não dispunham antes. Em termos internacionais, teremos sido importantes para o reconhecimento de algumas novas figuras. Julgo ainda que, se não tivéssemos sido nós, poderiam não ter sido publicadas obras importantes da contemporaneidade do jazz que, provavelmente, daqui a uma vintena de anos serão consideradas marcos históricos fundamentais. Sabe-se, de resto, que há falta de editoras nos Estados Unidos – se temos muitos músicos americanos no nosso catálogo, tal deve-se ao facto de a Clean Feed ter constituído a oportunidade de esses artistas darem a conhecer o seu trabalho - essa é uma parte da explicação do nosso sucesso."

 

Marcos da Clean Feed

THE IMPLICATE ORDER (CF001, 2001): Foi o primeiro disco da Clean Feed. As coisas começaram por não correr muito bem, mas para Pedro Costa foi ponto de honra avançar com o projecto de fundação de uma editora: "Não dava para recuar e a minha atitude foi mesmo de verificar o que a coisa podia dar. No que à edição sistermática de jazz diz respeito, em Portugal só tinha existido o caso da Groove, pelo que o surgimento de uma editora nesta área musical causou algum burburinho no País. Entre alguma desconfiança – designadamente a de que iria apenas editar jazz nacional e discos de free jazz ("um absurdo", como desabafa o editor) -, foi dado algum crédito à etiqueta. Pedro Costa: "Aprendi imenso com esta estreia, que implicou tanto o processo de gravação e edição como toda a contextualização, designadamente trazer os músicos a Portugal e organizar uma tournée."

FILACTERA (CF004, 2002): Foi o primeiro disco de jazz português da Clean Feed. O guitarrista Mário Delgado interessou-se pela editora e propôs a sua edição, imediatamente aceite. As liner notes do CD foram escritas por José Duarte, o histórico divulgador do jazz em Portugal. Tratou-se de um projecto de raiz e constituiu a primeira experiência de estúdio de Pedro Costa. O disco trouxe diversidade ao ainda magro catálogo da label, pois as três edições iniciais eram de músicos norte-americanos (se bem que um com dois convidados portugueses), alinhados com uma estética avant-jazz. Pedro Costa: "Para nós era importante editarmos músicos nacionais, e o certo é que este era, na altura, um dos poucos projectos mais sólidos, com um repertório formado e um som consistente."

REED SONG (CF005, 2002): Nenhuma etiqueta quis pegar nesta gravação do trio de Will Holshouser, talvez por ser de fusão do jazz com expressões musicais populares. Lançou-o a Clean Feed e a crítica foi muito favorável. Em Portugal, o jornal Público fez uma recensão entusiástica e o CD rapidamente esgotou (a edição tinha sido de 1000 exemplares). Foi, aliás, um sucesso nas lojas Fnac. O contacto de Holshouser com a editora fez-se através do trompetista Kevin Norton, que participa no disco. Foi o primeiro título do acordeonista, e entretanto saíram mais dois, ambos registados em Portugal: "Singing to a Bee", de 2006, e, em parceria do trio com Bernardo Sassetti, "Palace Ghosts and Drunken Hymns", de 2008. A observação: "Trata-se de um universo bastante original, apesar de misturar muitos estilos, e tem dimensão cinematográfica. Achámos que as pessoas iam gostar desta proposta. Os factos demonstram que tinhamos razão."

NOCTURNO (CF008, 2002): É o disco mais bem sucedido da Clean Feed, em termos de vendas. Aliás, este trabalho a solo de Bernardo Sassetti continua a ser o maior sucesso comercial entre os álbuns de jazz instrumental gravados por músicos portugueses, e dele a editora fez até à data quatro reedições. A edição original, com 2500 exemplares, esgotou-se no período de um mês. Os discos anteriores de Sassetti já nada tinham que ver com a música que então estava a fazer e este sentiu a necessidade de ter no mercado uma obra que representasse a fase evolutiva em que se encontrava. O pianista e compositor contactou a Clean Feed um ano depois da constituição desta, houve várias conversas e decidiu-se avançar. Vários títulos se sucederam: "Indigo", em 2004, "Ascent", no ano seguinte, "Unreal: Sidewalk Cartoon" em 2006 e "Motion" em 2010. “Nocturno” foi registado em Belgais, no espaço cultural dirigido por Maria João Pires. Sassetti, Pedro e Carlos Costa, Rodrigo Amado, Pedro Santos e o técnico de som Nelson Carvalho estiveram no Centro de Belgais para o Estudo das Artes durante seis dias, a gravar. Pedro: "Tivemos oportunidade de assistir às várias residências artísticas que estavam a decorrer, de músicos clássicos, pintores, etc., além de um workshop para crianças com pedras afinadas. Lembro-me que todos os quartos dispunham de um piano. O que estava no de Bernardo Sassetti era um Yamaha C7, de meia-cauda."

DEVIL'S PARADISE (CF010, 2003): Foi o primeiro disco Clean Feed com um músico de renome internacional, Gerry Hemingway. Este trabalhara com Anthony Braxton e tinha vários títulos pela Hat Hut. O baterista enviou alguns CD-R pelo correio e escolheu-se este. Depois, foram publicados "The Whimbler" (2005) e "The Line Up" (2006), do projecto BassDrumBone. Lembra o editor: "Sempre tinha gostado dos quartetos de Hemingway com Ray Anderson, Ellery Eskelin e Mark Dresser. Trouxe o grupo à primeira edição do Jazz ao Centro, naquele que resultou num concerto fantástico: as ideias que estavam concentradas nos temas do disco 'abriram' ao vivo. A relação com o baterista continua e posso mesmo dizer que Gerry Hemingway é um dos artistas mais representativos da Clean Feed."

TRIPLEPLAY (CF019, 2004): Foi esta a primeira oportunidade que a Clean Feed teve de trabalhar com Ken Vandermark, e também a ligação continua até à data. Pedro Costa conhecera o saxofonista e clarinetista de Chicago na edição de 2000 do Jazz em Agosto e o contacto manteve-se. O grupo Tripleplay, com Nate McBride e Curt Newton, já tinha um disco editado e Vandermark propôs que o segundo saísse pela etiqueta portuguesa. Pedro Costa: "O Ken é dos músicos da actualidade que mais admiro, pelo conceito, pela seriedade e pelo profissionalismo que revela. Já o gravámos quatro vezes em Portugal e no que respeita a concertos é ele o nosso visitante mais regular. De assinalar que todos os projectos de Vandermark, a seguir a Tripleplay, por nós lançados nasceram em Portugal, casos do 4 Corners, com Adam Lane, Magnus Broo e Paal Nilssen-Love, e do seu trio com Havard Wiik e Chad Taylor. Também o podemos ouvir em 'Rebus', com Joe Morris e Luther Gray, de 2007, e no único DVD que lançámos, 'Alive in Lisbon', de 2008."

NY MIDNIGHT SUITE (CF020, 2004): Representa a estreia do trompetista Dennis González na Clean Feed, que dele tem até à data seis títulos – "Idle Wild" (2005), "No Photograph Available" (2006), "Dance of the Soothsayer's Tongue" (2007), "Scapegrace" (2009), com João Paulo Esteves da Silva e, em 2011, um novo tomo em duo com este pianista português. Pedro Costa: "Gostava muito dos discos que Dennis publicou na Silkeart, durante a década de 1990, e depois de anos de silêncio soube que ia tocar a Nova Iorque. Enviei emails a dois músicos que iam tocar com ele no Tonic, Mark Helias e Ellery Eskelin, e disse-lhes que gostaria de editar em disco a gravação. O Dennis mandou-me depois uma mensagem a dizer que a sua retirada se devera ao facto de ter ficado desiludido com a indústria discográfica e que encarava esta edição, que aceitou, como um comeback. Infelizmente, um problema técnico fez com que apenas 39 minutos do concerto se aproveitassem. Em desespero de causa, organizou-se uma sessão de estúdio e é o registo aí feito que surge neste álbum, representando o regresso de González. O disco vendeu num instante, sobretudo nos Estados Unidos. Os tais 39 minutos não foram para o caixote do lixo: a música era tão boa que se gravaram uns extras em estúdio, com solos e duetos com Michael T. Thompson, que no concerto substituíra o baterista inicialmente previsto, Gerald Cleaver, e que se juntaram à gravação ao vivo no 'Dance of the Soothsayer's Tongue'."

INTERFACE (CF022, 2004): Antes da estreia do saxofonista e compositor Steve Lehman na Clean Feed, este tinha lançado dois álbuns pela americana CIMP, mas que não tiveram o mesmo impacto que este título com Mark Dresser e Pheroah AkLaff, o primeiro da JACC Series. O CD permitiu a projecção do músico em termos internacionais e por duas vezes voltou ao catálogo, com "Manifold" (2007) e "Dual Identity" (2010), ao lado de Rudresh Mahanthappa. Conta o editor: "Na viagem que fiz a Nova Iorque no ano 2000 assisti a um concerto na Knitting Factory de um grupo em que Lehman tocava e fiquei impressionado. Falámos e na sequência disso enviou-me uma demotape com o trio Camouflage, mas o som era mau. Em 2003 trouxe-o à festa de inauguração do Jazz ao Centro Clube e gravámo-lo ao vivo no Teatro Académico Gil Vicente. Vamos reeditar o disco em vinil, remisturado e remasterizado. O Steve veio muito concentrado na música – via-se que este era um grande investimento para ele..."

A JAZZAR NO ZECA (CF028, 2004): Pedro tinha ficado surpreendido com o CD "A Jazzar no Cinema Português", da Zé Eduardo Unit, lançado pelo Cineclube de Faro: Nunca tinha ouvido hard bop tocado daquela forma por músicos portugueses. Tinha um som ‘à antiga’, mas sem estar cristalizado. Como era possível fazer soar aqueles temas de forma tão fresca e original dentro de um som de jazz à antiga sem perder autenticidade ? A Jazzar no Zeca cumpre os mesmos principios, mas com música ainda mais rica, a de Zeca Afonso. Estava nos Açores de férias quando recebi o telefonema de Zé Eduardo a propor qualquer coisa com a Clean Feed. Fiquei muito honrado e A Jazzar no Zeca’ foi a decisão seguinte.

SHOUT! (CF033, 2005): É o primeiro de dois discos de Charles Gayle na editora de Lisboa (sendo o outro "Consider the Lilies", de 2006), depois de muito tempo sem gravar. Pedro Costa: "Charles Gayle e David S. Ware são os últimos baluartes do free jazz. Para eles não se trata de um revivalismo; é a música que sempre fizeram. O Gayle era um homeless porque não queria fazer concessões – tocava o que queria tocar. Tivemos muitas conversas, ao telefone e durante os dias em que gravou o 'Shout!'. É uma personagem muito rica, muito espiritual, e posso dizer que uma das que, no jazz, mais me fascinam. Tem uma enorme experiência de vida e fala sobre tudo. É um grande contador de histórias, e lembro-me da que me contou sobre a vez em que Michael Dorf, da Knitting Factory, lhe ofereceu um bip na altura em que vivia na rua para ele lhe ligar quando precisasse de o contratar. O sucesso musical que obteve permitiu-lhe comprar um apartamento no mesmo prédio em que vive Anthony Coleman e Elliott Sharp tem o seu estúdio. Este disco foi gravado em dois sets de 40 minutos cada, como se fosse um concerto, e o Charles nem quis ouvir a gravação final."

LIVE IN LISBON (CF063, 2006): O disco do Otomo Yoshihide New Jazz Quintet foi o primeiro da parceria com o festival Jazz em Agosto, da Fundação Calouste Gulbenkian, estreando a JeA Series. Além da revisão da música de Eric Dolphy no tema "Out to Lunch", foi um atractivo especial a rara cooperação de músicos japoneses com um europeu, no caso o saxofonista Mats Gustafsson. O CD vendeu muito bem, e tanto no estrangeiro como em Portugal, tendo sido lançadas duas edições. Pedro: "Este foi um dos melhores concertos da minha vida, e acho que isto diz tudo."

SHARP? MONK? SHARP! MONK! (CFG001, 2006): Foi um dos discos de maior impacto da etiqueta, pois ninguém esperaria que Elliott Sharp interpretasse temas de Thelonious Monk. "Fiquei entusiasmado quando o Elliott me disse que tinha versões de Monk para guitarra acústica, até porque tinha acabado de ouvir o seu 'Velocity of Hue', que adorei. Acho "Sharp? Monk?..." um disco histórico de guitarra. Foi o início de uma prolífica colaboração: já o trouxe a Portugal três vezes e editámos vários discos com ele. É Elliott também o nosso consultor para a Guitar Series. O álbum teve críticas entusiásticas e acredito que, daqui por 20 anos, vai ser considerado um clássico deste tempo, um disco de referência. A seguir, saíram dele os dois books' do "Octal", em 2008 e 2010, o "TECK String 4tet", o dueto com Scott Fields em 'Scharfefelder', de 2008, e em 2010 a compilação 'I Never Meta Guitar', que vai ter novo volume. É um tipo muito prático, com uma grande capacidade de trabalho e um sentido de humor bastante dark. Tenho por ele o máximo respeito."

RADIO SONG (CF072, 2007): Reedição de um álbum originalmente publicado pela CBTM, editora do próprio músico, confirmou o vínculo de Carlos Barretto com a Clean Feed, iniciado em 2003 com "Lokomotiv", que tivera como convidado o saxofonista barítono François Corneloup. Curiosamente, é francês igualmente o convidado de "Radio Song", Louis Sclavis. O contrabaixista voltaria a protagonizar um CD Clean Feed em 2010, "Labirintos". Pedro: "Considerava o disco um dos mais importantes do jazz nacional e foi essa a motivação para o introduzirmos num circuito mais alargado. Fizeram-se boas vendas em França e as críticas foram muito positivas."

MEMÓRIAS DE QUEM (CF075, 2007): Se este não foi o primeiro título de João Paulo Esteves da Silva na Clean Feed (participara em "As Sete Ilhas de Lisboa", de 2003, com Paulo Curado e Bruno Pedroso), confirmou um relacionamento que é especialmente prezado pela editora e que se traduziu também em duos com Dennis González. Reencontramo-lo, igualmente, em "Carlos Bica + Matéria Prima", de 2010. As palavras de Pedro: "O João Paulo é um músico que admiro muito e ambicionava editar um disco a solo dele, com o aliciante de revelar este pianista tão português ao mundo. A crítica internacional ficou surpreendida e proporcionou-se, assim, arranjar concertos com ele no estrangeiro, por exemplo em Ljubljana, a solo."

4 CORNERS (CF076, 2007): Surgiu este álbum da proposta apresentada pela Clean Feed, a Ken Vandermark e Adam Lane, para o desenvolvimento de um projecto cooperativo entre o multi-instrumentista e o contrabaixista e compositor. Os músicos não se conheciam, nem às obras um do outro, mas Pedro Costa enviou-lhes discos de ambos e acabaram por concordar. A inclusão de Magnus Broo e Paal Nilssen-Love foi sugerida por Vandermark. O grupo veio várias vezes a Portugal, resultando essas visitas na edição deste CD homónimo e de um DVD, com o vídeo da sua actuação no Centro Cultural de Belém, em Março de 2007. Infelizmente, apenas dois concertos em Espanha constam do currículo internacional do quarteto, que foi entretanto descontinuado devido às dificuldades de agenda dos seus membros, residentes em diversos pontos geográficos. "O registo foi realizado por ocasião dos três dias de apresentação do grupo no Salão Brazil, em Coimbra, durante a edição de 2006 do Jazz ao Centro. Pretendia-se gravar essas três noites de residência do grupo, mas houve constantes cortes de electricidade que o impossibilitaram. Apenas a ultima sessão ficou registada. Foi precisamente a melhor e aquela que contou com uma maior descarga emocional. Destes músicos, tinhamos antes no catálogo o disco dos Tripleplay e a edição de 'New Magical Kingdom", em 2006, com a Full Throttle Orchestra de Lane... Publicámos um segundo disco desta em 2010, 'Ashcan Rantings'."

A GLANCING BLOW (CF085, 2007): Estreia em nome próprio de Evan Parker na editora lisboeta e também do seu trio com o contrabaixista John Edwards e o baterista Chris Corsano, após a sua intervenção em "Townorchestrahouse" (2005), com Sten Sandell, Ingebrigt Haker Flaten e Paal Nilssen-Love. O saxofonista voltaria à Clean Feed em "Belle Ville" (2008), com a mesma Townhouse Orchestra, e em "Scenes in the House of Music" (2010), com Barry Guy, Paul Lytton e Peter Evans. Os factos: "Comecei a conversar com o Parker em 2001 e um dia ele perguntou-me se estaríamos interessados neste trio, ao que eu lhe disse logo que sim. Ter um disco de Evan Parker na Clean Feed era a concretização de um sonho e o facto de se tratar de uma formação inédita ainda mais me entusiasmou. Tanto assim que levei o grupo a tocar, juntamente com Paul Dunmall, em Coimbra e na Trem Azul. Foi um passo deveras importante, dado que Parker é, talvez, o maior nome de sempre do jazz europeu. É outro fantástico contador de histórias, e tem-nas muitas a respeito da música britânica dos últimos 50 anos, que não apenas confinadas aos meios do jazz e da música improvisada. Sendo eu um admirador dos Rolling Stones, interessaram-me particularmente as que recorda do tempo em que tocava na orquestra de Charlie Watts, baterista daquele grupo de rock."

TECK STRING 4TET (CF089, 2007): Segunda entrada de Carlos "Zíngaro" no catálogo Clean Feed (depois de "The Space Between", lançado em 2003, com Rodrigo Amado e Ken Filiano), num invulgar quarteto de cordas pelo facto de incluir um guitarrista, Elliott Sharp, ao lado do violinista português, do violoncelista Tomas Ulrich e do contrabaixista Ken Filiano. A receita voltaria a ser retomada em "Spectrum" (2008), este com "Zíngaro", Dominique Regeff na sanfona e Wilbert De Joode no contrabaixo. Costa: "Sempre gostei de ensembles de cordas, e tanto no contexto da música clássica como da contemporânea. Procurei conceber algo para a área do jazz e da improvisação e pensei logo no "Zíngaro", no Filiano e no Sharp. Foi o Ken que propôs Tomas Ulrich. O concerto do grupo no Vision Festival de 2007 foi especialmente bom. Aliás, toda a experiência foi óptima: são quatro músicos de alto nível, todos luminárias nos seus respectivos instrumentos."

TAMARINDO (CF099, 2007): Foi o primeiro disco de Tony Malaby na Clean Feed, tendo consigo William Parker e Nasheet Waits. Depois, saíram do saxofonista "Voladores" (2009), com o quarteto Apparitions, e "Tamarindo Live" (2010), com Wadada Leo Smith como convidado especial. Participou ainda em edições assinadas por Michael Attias ("Twines of Colesion", 2010), Chris Lightcap's Bigmouth ("Deluxe", 2010) e Jorrit Dijkstra ("Pillow Circles", 2010). "Nunca o Tony tinha feito um álbum tão cru e directo, e ainda por cima com um trio altamente improvável, constituído por músicos muito diferentes entre si. Trata-se de uma figura omnipresente no jazz de Nova Iorque, um espírito livre, surgindo tanto em contextos mainstream como na cena mais vanguardista. O CD foi um sucesso de vendas internacionais e teve o geral aplauso da crítica."

FOUR IMPROVISATIONS DUO (CF100, 2008): A centésima edição da Clean Feed foi assinalada com esta caixa reunindo quatro CDs registados pelo duo de Anthony Braxton e Joe Morris. Com o mesmo Braxton, mas em associação com o contrabaixista Joe Fonda, fora antes (em 2007) reeditado "Duets 1995", originalmente lançado pela Konnex. Conta o responsável da label: "Foi Morris quem nos recomendou a Braxton, e este contactou-me. A produção foi caríssima, mas a caixa vendeu-se tão bem que se pagou a si própria. Adorei conhecer Anthony Braxton: é um homem simpático, humilde e informal. Receber um email deste lendário músico pareceu-me, então, algo de inacreditável, mas era mesmo verdade. Esta é bem capaz de ser a nossa mais importante edição."

ELM CITY DUETS (CF130, 2008): Outro duo do guitarrista Joe Morris, desta feita com Barre Phillips, um histórico do jazz. Pedro Costa: "Este foi o segundo dueto de Morris que colocámos em CD, e ainda se seguiria a sua parceria com Nate Wooley em 'Tooth and Nail', de 2010. Temos a felicidade de trabalhar com ele frequentemente: editámos 'Beautiful Existence', do seu quarteto, em 2005, e surge em 'Rebus' com Ken Vandermark e Luther Gray. O Joe falou-me da possibilidade de tocar com Phillips em 2004, e três anos depois passou-me a gravação. Assisti a uma actuação do duo no Vision Festival de 2007, precisamente um dia depois de o disco ter sido registado, e trouxe-os mais tarde a Lisboa, para uma sessão na Culturgest. Joe Morris sentiu-se indisposto, já no palco, e a maior parte do concerto consistiu num solo – magnífico, de resto – de Barre Phillips. Infelizmente, é o único CD da Clean Feed com este contrabaixista, um músico de importância ímpar."

FIRST REASON (CF142, 2009): Estreia do jovem baterista Christian Lillinger na Clean Feed, com a particularidade de o histórico Joachim Kuhn surgir em algumas faixas. Depois, integraria o trio de "Grunen" (2010), com Achim Kaufmann e Robert Landfermann. O que há a contar: "Certo dia, aquando de um concerto dele que organizámos, o Joachim falou-me de Lillinger como 'o novo Tony Williams'. Trazia um CD-R consigo e ouvimo-lo no carro, à frente do aeroporto. Editei-o e o certo é que este disco abriu à Clean Feed as portas da cena de Berlim, que é uma das mais interessantes da Europa. Outros títulos se somaram com a participação de Christian Lillinger e é com um enorme prazer que posso dizer que a editora tem Joachim Kuhn no seu catálogo. Ele é a memória viva do jazz na Europa, desde os tempos em que tocou com Chet Baker, Dexter Gordon e Don Cherry. Contou-me da vez em que foi a Nova Iorque com Aldo Romano para conhecer John Coltrane. Na altura do encontro, Alice Coltrane disse-lhes que o marido estava adoentado e não poderia recebê-los. Coltrane morreria no dia a seguir e Kuhn foi ao funeral, onde assistiu às intervenções musicais de Albert Ayler e Ornette Coleman – anos mais tarde viria, aliás, a gravar um disco com este último."

SCAPEGRACE (CF144, 2009): O primeiro encontro do texano Dennis González e do português João Paulo Esteves da Silva. Costa: "Há muito que tinha vontade de juntar estes dois poetas da música. Falei-lhes disso durante três anos e finalmente surgiu a oportunidade de o fazer. Convidei o Dennis para vir a Portugal, arranjei-lhes um concerto em Torres Vedras para se "conhecerem" e depois gravaram o disco no Auditório do Forum Cultural do Seixal, sem público. Criaram logo uma linguagem comum e dão-se os dois muito bem. De cada vez que se encontram a música é diferente, como se pode verificar no segundo disco do duo, de 2011. Levei-os a tocar em Gorika, na Eslovénia, e no final contou-me o Dennis que algumas pessoas lhe disseram que tinham chorado durante a actuação."

BACALHAU (CF195, 2010): O disco do Daniel Levin Quartet que relançou este projecto numa altura em que o seu líder pensava dissolvê-lo, depois do lançamento de "Live at Roulette" em 2009. A história: "Eu já era um admirador dos álbuns do quarteto na Hat Hut. Conheci o violoncelista Daniel Levin em Nova Iorque, pois ele assistiu a todos os concertos do Clean Feed Fest de 2008. Reparei na altura como vivia intensamente a música, tanto assim que, no fim da actuação de Tony Malaby, me disse que aquele concerto lhe tinha mudado a vida. A ideia dele era acabar com a formação, por achar que a sua linguagem estava esgotada. Gravar para a Clean Feed permitiu-lhe reformular a música do grupo, dando-lhe um carácter mais abstracto. Quando cá veio, decidiu-se finalmente pela continuação e ainda bem, pois a música do quarteto é incrível, mágica mesmo, com uma combinação instrumental rara. O título do CD revela o quanto ele gostou de vir a Portugal..."

ALL IS GLADNESS IN THE KINGDOM (CF169, 2010): Segunda passagem do grupo Fight the Big Bull pela Clean Feed (depois de "Dying Will Be Easy", de 2008), este disco teve a particularidade de contar com a colaboração de Steven Bernstein nos arranjos e de ter causado um inesperado aplauso, sobretudo nos Estados Unidos e em Portugal. O potencial revelou-se tão grande que o seu líder, Matt White, decidiu contratar um publicista que concebesse uma campanha especial de promoção. O que diz Pedro Costa: "São músicos muito jovens e cheios de energia e adorei ver o percussionista a tocar em Nova Iorque: é um pândego, o bobo da festa."

ESFÍNGICO (CF170, 2010): O trompetista Sei Miguel não quis participar no primeiro CD da Clean Feed, "The Implicate Order at Seixal", mas eis que, com este CD (e a sua inclusão no grupo de "Afterfall", saído igualmente em 2010 com Luís Lopes, Joe Giardullo, Benjamin Duboc e Harvey Sorgen) se acrescenta à lista de artistas da editora. Pedro: "Chegou a altura, após muitos anos de conversas. Bem que se trata de um músico que merece ter uma editora fixa – iremos publicá-lo de dois em dois anos, com muito orgulho!"

DUAL IDENTITY (CF172, 2010): Estreia em disco do projecto partilhado por Rudresh Mahanthappa e Steve Lehman à frente de um quinteto com Liberty Ellman, Matt Brewer e Damion Reid, com composições originais. Os comentários: "Foi uma proposta de ambos os saxofonistas. O registo aconteceu por ocasião do concerto do grupo no Braga Jazz de 2009. É um disco com um conceito forte e muito bem estruturado. Fizemos a gravação durante a tarde, no palco do Theatro Circo, depois de um curto sono – tinhamos viajado desde Lisboa de madrugada. Após o concerto, que correu fantasticamente, fomos beber um copo – na verdade, vários – para desanuviar."

DELUXE (CF174, 2010): É uma das mais elogiadas edições da Clean Feed e uma das que reconciliaram o público e a crítica mainstream com a etiqueta, acrescentando o nome de Chris Lightcap aos artistas CF. Costa: "Foi Lightcap que me enviou a gravação e confesso que não me entrou à primeira escuta. Comecei, no entanto, a ganhar-lhe gosto e já o ouvi dezenas de vezes. Tem um registo pop, com canções, mas também improvisações fabulosas. O grupo de Chris Lightcap conta com uma dezena de anos, mas para este disco acrescentou o pianista Craig Taborn, o que lhe dá um outro carácter."

LAWNMOWER (CF178, 2010): Um disco na fronteira da folk, representando mais um passo da editora portuguesa na direcção de uma cada vez maior diversidade estilística. A propósito: "É um CD controverso e de que nem toda a gente gosta. As guitarras são ambientais e muito folky, nada jazzísticas, o que torna o grupo muito original. Tudo o que acontece, incluindo as improvisações, obedece a um conceito global. Gosto muito do saxofonista Jim Hobbs e estou a tentar organizar concertos com este colectivo."

SOULSTORM (CF184, 2010): Em mais uma idealização de um grupo inexistente, Pedro Costa juntou o brasileiro Ivo Perelman (que já tivera na Clean Feed, em 2004, o álbum "Black on White", com Dominic Duval e Jackson Krall), o norte-americano Daniel Levin e o norueguês Torbjorn Zetterberg para desenvolverem um trabalho cujo desfecho só podia ser imprevisível. Ganhou a aposta: "Foi uma experiência de vida. Nenhum destes músicos se conhecia, mas deram um exemplo de generosidade e vontade de criar. Não estava à espera que se entregassem tanto a este encontro. Pretendi algo de diferente do trio habitual de Perelman, algo sem bateria. Pensei primeiro num violoncelo (para todos os efeitos, o primeiro instrumento do saxofonista) e em Levin e depois num piano, mas optei por um contrabaixista e logo me lembrei do Torbjorn. Isso apesar de saber que este não tem o hábito de improvisar sem temas, pretendendo-se que o trio fosse de improvisação total. Da primeira vez que subiram ao palco foi como se sempre tivessem tocado juntos, a coisa colou imediatamente – criaram um mundo, e este não era apenas musical. Procuraram pontos comuns. Mesmo nos momentos de convívio, pareciam estar fascinados uns com os outros. Durante os quatro dias da sua tournée em Portugal, foi como se estivéssemos num campo de férias. As gravações foram feitas tanto à tarde, nos soundchecks, como nos concertos da noite, e por ser tão difícil escolher entre tanto material bom, editou-se um álbum duplo. A ver se este trio e esta experiência continuam."

ELDORADO TRIO (CF193, 2010): O trio de Louis Sclavis com os americanos Craig Taborn e Tom Rainey foi uma proposta feita pelo saxofonista francês a Pedro Costa, que no mesmo ano também promoveria a estreia discográfica do último como líder, com "Pool School". "Tenho acompanhado Sclavis desde sempre e muito queria tê-lo na Clean Feed. Num concerto dele com Vincent Courtois, em Barcelos, propôs-me esta formação com dois músicos norte-americanos. Sabendo que raras vezes ele tocou com jazzmen do outro lado do oceano, aceitei logo. Organizei uma digressão em 2009 que passou por Portimão, onde tivemos tempo para conversar e divertir-nos, e terminou na Casa da Música, num double bill com o quarteto de Evan Parker. Ambos os concertos foram registados e o do Parker foi editado como "Scenes in the House of Music". Da gravação do trio resultaram três músicas incluídas no CD. O resto foi gravado depois, na Quinta da Música, um estúdio com piscina perto do Porto. Nele o Sclavis está mais rude e orgânico, o que o diferencia da sua restante discografia."

OLD AND UNWISE (CF221, 2011): Outro encontro inédito, entre o saxofonista norte-americano que se ouviu em "Nebulosa" (2010), de Hugo Carvalhais, e o contrabaixista francês presente em "Cette Opacité", com Jean-Marc Foltz, de 2005. "Mantenho uma relação com Tim Berne há um par de anos. Havia muitos que ele não gravava fora da sua própria editora, mas falámos dessa hipótese no contexto de um duo com Bruno Chevillon. Convidei-os para concertos em Lisboa, Coimbra (Jazz ao Centro) e Guarda e levei-os para o estúdio Namouche. Estiveram neste apenas duas horas, e 90% do que então se gravou é o que ouvimos neste disco. O Tim é o oposto de uma primadona. Foi boa a convivência e a música que resultou é de primeira água. Quando saímos do Namouche dirigimo-nos logo para a praia. O Berne adora o mar e pratica body surf. Durante a estada dele por ocasião do concerto dos Buffalo Collision no Jazz em Agosto de 2009, estivemos duas ou três vezes na praia de Carcavelos."

   
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