Rui Eduardo Paes - Jornalista, crítico de música e ensaísta

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Novas
The Thing + Atomic
Culturgest,
12 de Fevereiro de 2012

       
 

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Folhas de Sala
Culturgest, Casa da Música e Museu de Serralves

   
       
         

The Thing
The Thing (foto DR)

Atomic
Atomic (foto DR)

       
 

ENCONTRO DE GIGANTES

Não é uma surpresa que os grupos The Thing e Atomic partilhem o mesmo palco na mesma noite. A secção rítmica é-lhes comum, proporcionada pelo contrabaixista Ingebrigt Haker Flaten e pelo baterista Paal Nilssen-Love, e ambos os projectos são “joint-ventures” de músicos suecos e noruegueses. Para além disso, e tal como vem referindo a imprensa musical, este trio (Mats Gustafsson, Flaten, Nilssen-Love) e este quinteto (Fredrik Ljungkvist, Magnus Broo, Havard Wiik, Flaten, Nilssen-Love) fazem parte de toda uma nova realidade do jazz escandinavo que tem procurado contrariar a sonoridade fria e melancólica daquele que é editado por etiquetas como a ECM.

Ainda assim, quando questionados sobre se há um significado maior a retirar deste duplo concerto, as reacções dos membros das duas formações são, no mínimo, desmistificadoras. Wiik, pianista dos Atomic, é peremptório: no seu entender, a motivação deste encontro de gigantes do Norte europeu é meramente «logística». Ou seja, justifica-se pelo pragmático aproveitamento da presença de dois instrumentistas que calha pertencerem aos dois combos.

Quem se lembra, como o autor destas linhas, que foi precisamente esta coincidência que levou The Thing e Scorch Trio (Flaten e Nilssen-Love também integram o grupo liderado por Raoul Bjorkenheim) a juntarem-se num explosivo concerto em Coimbra há uns anos, perde a esperança de ver e ouvir The Thing e Atomic, e porque não, The Thing, Atomic e Scorch Trio, a tocarem juntos naquele que seria, certamente, o espectáculo das nossas vidas. Se as prestações ao vivo de cada uma destas bandas tem habitualmente, só por si, o efeito de uma bomba, imagine-se o que seria encontrá-las às três numa actuação colaborativa…

Bem que o comissário do concerto de hoje, Pedro Costa, lhes lançou o repto de, no final da noite, haver um extra em sexteto, juntando-se Mats Gustafsson, o mentor da fórmula The Thing, aos cinco Atomic, naquela que seria uma mescla The Thing / Atomic. A verdade é que só na hora saberemos se esse desejo vai ter concretização. Seja para criar suspense ou porque não encara a ideia com bons olhos, Havard Wiik lança a dúvida: «Não me parece que tal venha a acontecer.»

Pela sua parte, Gustafsson deixa tudo em aberto: «A motivação que nos leva a partilhar o palco é o amor pela música e também o amor e o respeito que temos uns pelos outros. Estes músicos são magníficos e tem sido uma experiência incrível a exploração musical que ao longo dos anos vamos desenvolvendo. O Paal e o Ingebrigt são mesmo o eixo à volta do qual tantas coisas estão a acontecer. Não podiam ser mais especiais – não há nenhuma outra dupla assim. Com eles o jazz torna-se telepático. Iremos tocar todos juntos? Quem sabe? Nada é certo na vida ou na arte. Provavelmente, não. Pelo menos ainda nada falámos sobre isso entre nós.»

Há um outro factor que torna esta “double bill” em algo de lógico e até natural. Em paralelo, The Thing e Atomic têm uma abordagem que vem na continuidade do free jazz. O certo é, porém, que o realizam de modos distintos. O legado ayleriano (de Albert Ayler, sem dúvida que a grande referência de Mats Gustafsson) dos The Thing é combinado com a energia do rock, mormente o da linhagem hardcore (a junção de punk e metal) e “garage”, e o que ficou da “new thing” nos Atomic tem matriz no hard bop de Sonny Rollins e dos Jazz Messengers de Art Blakey. Se o ascendente free pode ser mais um subtema explicativo da junção destes grupos, a verdade é que partem de diferentes entendimentos de tal herança. O que os distingue, seja como for, é também o que permite ao público uma percepção mais alargada do que ficou do free jazz na actualidade e ainda aquilo que possibilitaria, ou possibilitará, um diálogo entre os dois projectos.

Quanto a isto, Havard Wiik, porta-voz de uma banda que se pretende democrática e de direcção colectiva, é particularmente “liberal”: «Não nos interessa rotular a música que criamos. Tocamos o que nos apetece e cabe àqueles que nos ouvem estabelecer as classificações, se isso lhes for importante.» Gustafsson diz o mesmo de outra maneira: «O que nos separa é o facto de, simplesmente, sermos pessoas diferentes, à excepção, obviamente, do Ingebrigt e do Paal. Logo, a química resultante também é diferente. Afinal, trata-se de colocar as nossas vozes individuais no processo. Até por isso, não seria surpreendente se surgissem influências das “garage bands” no fraseado trompetístico de Magnus Broo ou se no meu saxofone transparecesse uma mentalidade pós-bop. É impossível saber de antemão o que vamos fazer, e é isso que me agrada na improvisação.»

Neste concerto, os Atomic vão dar primazia às composições reunidas no seu mais recente álbum, “Here Comes Everybody”, mas The Thing tem por regra nunca definir por antecipação o que vai ser apresentado. Esclarece o saxofonista: «Temos um “songbook” de centenas de peças, sejam nossas, de figuras históricas do free jazz e de grupos de rock como Yeah Yeah Yeahs e White Stripes. É toda uma mecânica que só tem ignição enquanto tocamos. Este é um princípio muito inspirador que fomos buscar ao falecido Per Henrik Wallin. Não listas de temas connosco. As listas são para os cobardes!»

Tal leitura do passado do jazz e a consequente visão do presente desta música desobriga-os mesmo daquilo que é concluído pela generalidade dos jornalistas e dos críticos. Afirma Wiik: «A noção de que fundámos os Atomic em reacção a alguma coisa é um enorme equívoco. Assim como é achar-se que, por não nos parecermos com algum jazz europeu, temos uma orientação “pró-americana”. A nossa música foi construída sobre as longas tradições das músicas compostas e improvisadas da Europa, ainda que alguns elementos venham do jazz norte-americano dos anos 1960 e 70.»

O timoneiro da trupe The Thing vai ainda mais longe: «Pela minha parte estou mais interessado em tocar fora da tradição e em criar uma nova. Adoro a forma como os Atomic lidam com a herança do jazz, mas não é esse o tipo de intervenção que pretendo ter. Se os Atomic o fazem tão bem, porque haveria eu de o fazer? The Thing dá uso às inspirações dos seus três membros, noise extremo, música etíope, a canção yoik do povo Sami, soul, punk, jazz da West Coast e outras entidades relacionadas, para criarmos algo que vá mais além. Detesto atitudes conformistas. A nostalgia contemporânea cheira mal, e sobretudo quando vem dos meios do jazz e da improvisação.»

O jazz precisa, então, de ser revitalizado «com diferentes interjeições, outras músicas, outras culturas, outras gentes, numa perspectiva exploratória e experimental». Considera Gustafsson que só com esta abordagem «não se está a pedalar uma bicicleta, como se diz no Norte da Suécia». Assim, não se trata de ir contra o “jazz dos fiordes”, mas de responder a tudo o que está mal: «É algo que temos necessidade de fazer. Porque sim. Porque a sociedade ocidental está como está. Porque os media são o que são. Porque os politicos só têm perspectivas de curto prazo. E porque a rotulagem impede os ouvintes de terem uma experienciação aberta da música. Afinal, que “música escandinava” é essa de que se fala? Bengt Nordstrom? Lasse Marhaug? Borge Fredriksson? Lokomotiv Konkret? Só têm de comum, realmente, serem escandinavos e serem músicos… Não acredito em rótulos. É no trabalho em conjunto que eu creio.»

Resta interrogarmo-nos sobre o que acontecerá a seguir a este encontro em Lisboa, proporcione-se ou não o tão ambicionado “grand finale” a que acima se aludiu. Um desenlace cooperativo entre The Thing e Atomic? O prosseguimento de caminhos distintos? «Sem dúvida que aquilo que decidirmos por nós mesmos. Soube que o Paal e o Ingebrigt planeiam fundar juntos cinco novas bandas em 2013. Vamos lá ver onde é que isso nos leva…», remata Mats Gustafsson.

   
       
         

 

 

   
 

   

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