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Quatuor
Qurat Neum Sixx: "Live At Festival NPAI" (Amor Fati)
Frank Gratkowski / Simon Nabatov / Marcus Schmickler: "Deployment"
(Leo Records)
Franck Vigroux / Elliott Sharp / Bruno Chevillon / Joey Baron: "Venice,
Dal Vivo" (D'autres Cordes)
Jamie Coleman / Seymour Wright / Grundik Kasyansky: "Control and
its Opposites" (Another Timbre)
Tell: "Tonal-Nagual" (Rossbin)
Norz: "(Also Known As) Acker Velvet" (Schraum)
Sainkho Namchylak / Dickson Dee: "Tea Opera" (Leo Records)
Se é certo que a prática da improvisação mudou
com a introdução da electrónica – além
de uma abertura do espectro sonoro, proporcionou-lhe esta a repetição
de elementos e um desdobramento de possibilidades para lá da utilização
de técnicas extensivas –, também é verdade
que, graças à mesma, computadores, sintetizadores e outros
dispositivos conquistaram um tipo de intervenção que originalmente
não tinham: aquela que se produz em tempo real. Mas há muito
mais a dizer sobre as recentes articulações entre os instrumentos
"convencionais" e a tecnologia analógica e digital –
por exemplo, esta acentuou o carácter composicional que, para todos
os efeitos, a improvisação sempre teve ou procurou ter.
Não necessariamente na pós-produção de estúdio,
mas (para referir o caso concreto do "sampling" e da computação)
devido à própria funcionalidade recombinante e de processamento
/ tratamento em cima do palco, pela qual a intuitividade do improviso
é digerida e restituída à trama musical já
com o crivo da dedução.
Hoje, quaisquer considerações
sobre o tema da improvisação electroacústica obrigam
a uma ampla percepção dos equipamentos utilizados –
entre o "circuit bending" e a informática existe uma
realidade plural, que vai de abordagens não muito dissemelhantes
das próprias de um instrumento acústico ou eléctrico,
ao nível da mais elementar produção de som, até
à entrada no domínio virtual, em que sons de outras proveniências
(os produzidos por um trompete ou uma guitarra e os gravados em meio natural,
urbano, industrial, etc.) são duplicados e mutados por vezes até
ao irreconhecimento, o que implica todo um processo de transferência.
Os discos seleccionados nestas páginas cobrem essa diversidade
de situações...
É uma curiosa combinatória,
a do Quatuor Qurat Neum Sixx: três instrumentistas acústicos
de percursos muito distintos, Daunik Lazro, Michael Nick e Sophie Agnel,
contracenam com um electronicista de características muito particulares,
Jerôme Noetinger. Lazro é um herdeiro da estética
do grito de Albert Ayler e uma das figuras exponenciais da primeira geração
de livres-improvisadores que, em França, sempre mantiveram vínculos
com o free jazz. Nick passou por várias frentes do jazz, incluindo
o de fusão, e pelo rock progressivo, tendo colaborado, por exemplo,
com os Art Zoyd, e Agnel é um dos novos valores da improvisação
textural, fortemente marcada pela influência da música contemporânea.
Incluindo nas suas ferramentas de trabalho os velhos gravadores de bobinas
Revox, Noetinger vem dedicando a sua actividade à aplicação
na electrónica ao vivo dos conceitos de "musique concrète",
por via da manipulação em tempo real de fitas magnéticas.
O interessante deste registo de um concerto realizado em 2007 no Festival
NPAI é o facto de o saxofone barítono, o violino e o piano
adoptarem uma discursividade "electro", feita de "bruitages"
e microtonalidades. No meio desses materiais, Jerôme Noetinger arma
um autêntico festival com os seus "loops", restituindo
a este velho procedimento uma criatividade que já lhe não
vislumbrávamos. E como não podia deixar de ser, dado o contexto
misto, de forma muito diferente da que desenvolve com a Cellule d'Intervention
Metamkine e na companhia de Lionel Marchetti.
Líder das suas próprias
formações e membro do "sui generis" ensemble alemão
de música contemporânea Zeitkratzer (o seu repertório
vai de Xenakis a... Lou Reed), Frank Gratkowski desenvolve a sua actividade,
sobretudo, na fronteira entre o free jazz e a música improvisada.
Simon Nabatov é, por sua vez, um dos mais prestigiados pianistas
do presente "revival" free, com a particularidade de o tocar
com a carga referencial clássica que transporta consigo. E se bem
que em "Deployment" actue, frequentemente, com preparações,
não seria de estranhar que, em conjunto com o saxofonista e clarinetista,
se circunscrevesse a uma linguagem mais tipicamente jazzística.
A presença de Marcus Schmickler e do seu computador impede que
tal aconteça: a prestação deste pode parecer discreta,
mas isso porque opta por um trabalho de envolvimento, que não propriamente
de trituragem. Preferindo a síntese ao processamento, o que lhe
ouvimos neste CD é substancialmente diferente dos seus álbuns
a solo ou das colaborações que realizou com Keith Rowe,
Thomas Lehn e Peter Rehberg: permite que os instrumentos acústicos
assumam por inteiro as suas gramáticas históricas, mas quase
sub-repticiamente condu-los para outras consequências. Resultado:
em vez de um disco expressionista, temos um belo documento de impressionismo
electroacústico.
Sendo electroacústica
a música de "Venice, Dal Vivo", que longe estamos do
formato categorizado como tal na área da música erudita!
Ainda que os nomes de Elliott Sharp, Bruno Chevillon e Joey Baron sejam
familiares a todos os que frequentam o planeta jazz (Sharp devido às
suas reinterpretações de Thelonious Monk, Chevillon graças
às cumplicidades com Louis Sclavis e Baron pelas parcerias que
teve com John Zorn), a improvisação praticada neste título
também não o tem como principal matriz – esta, podemos
dizê-lo, é o rock, presente na energia, nos intermitentes
"beats" e na geral distorção sonora. O jazz está
lá, algures, mas mesclado com muitas outras adopções
trans-idiomáticas. O leque de registos deste quarteto vai do noise
brutalista ao desconstrucionismo experimental, os gira-discos do seu mentor,
o francês Franck Vigroux, as guitarras assistidas por bem armadilhadas
pedaleiras de Vigroux e Sharp e os processadores de Chevillon interferindo,
literalmente, com os sopros (Sharp), o contrabaixo (Chevillon) e a bateria
(Baron). Estamos perante uma colecção de turvas "soundscapes"
carregadas de ameaça, com uma pulsão obsessivo-compulsiva
que, comparativamente, faz de qualquer feito do doom metal um mero exercício
tentativo de aproximação ao lado obscuro da alma humana.
Ficamos com a impressão de mergulhar num buraco negro, mas o que
mais interessa reter é a ideia de que um par de pratos, uma guitarra
e umas "racks" bastam – sempre bastaram – para agir
electronicamente.
Jovens músicos do círculo
de Eddie Prévost (frequentam os "workshops" de improvisação
deste), Jamie Coleman, Seymour Wright e Grundik Kasyansky estão
mais próximos da veia exploratória e abstraccionista dos
electroacústicos AMM do que do trio acústico free igualmente
mantido pelo referido percussionista, uma das figuras de referência
da cena britânica. O trompete e o saxofone alto dos dois primeiros
interagem com a electrónica do último dentro, exactamente,
dos mesmos parâmetros: a manutenção não-desenvolvimentista
de texturas (não há verdadeiramente início e fim,
seccionamentos ou evolução dramática), mas ainda
assim surpreendentemente fluida, com completa exclusão de fraseados
lineares ou escalas. À maneira de John Cage, a gravação
inicia-se com o ruído ambiente do local onde se realizou a performance,
ouvindo-se pássaros e o murmúrio do tráfego –
os instrumentos apenas se acrescentam, sem grandes agitações
da superfície auditiva em que (quase) tudo minimalisticamente se
reduz, mesmo que em prejuízo das dinâmicas. Ainda assim,
distancia-os da frente "near silence" o facto de não
evitarem as ocasionais nebulosas de som ou algum abrupto pico de intensidade
ou de estridência, logo contrariado por uma elaboração
liliputiana. Kasyansky utiliza, sobretudo, o que chama de "sintetizador
de feedbacks", ou seja, um sintetizador analógico operado
não com um VCO (oscilador de frequências), mas com um oscilador
de "feedback". O título do disco, "Control and its
Opposites", vem das possibilidades suscitadas, na perigosa fronteira
entre o controlo e o descontrolo, o que muito diz da contenção
encontrada.
Se uma parte das actuais electrónica
e electroacústica é pródiga nas analogias científicas,
outra referencia-se no esoterismo. É o caso de "Tonal-Nagual",
do duo suíço Tell, formado pelo gira-disquista (em outros
contextos também vocalista, poeta sonoro e "performer")
Joke Lanz e pelo percussionista Christian Wolfarth. Segundo as descrições
de Carlos Castaneda em "Tales of Power", o pensamento místico
do xamã yaqui Don Juan Matus divide o universo em duas partes,
a "tonal" (o mundo dos objectos materiais) e a "nagual"
(o mundo não-material), só se podendo aceder a esta por
"clarividência". Ora, a electrónica musical sempre
aspirou à imaterialidade, e quando entramos no domínio dos
"softwares" (Max / MSP, SuperCollider...) alguns argumentam
mesmo que se está perante a criação de música
não-instrumental. Não é esse, de todo, o caso dos
gira-discos, mas Lanz, conhecido sobretudo como Sudden Infant e pelas
suas prestações nos colectivos pós-industriais Schimpfluch,
Catholic Boys in Heavy Leather, Evil Moisture e Small Cruel Party, é
conhecido por fazer com o "turntablism" o que faz com todos
os seus outros recursos: ruído, perspectivado enquanto descarga
ritual e via de transcendentalização. O seu trabalho com
Wolfarth continua os que teve com outras personalidades do avant-jazz
e da improvisação absoluta como Peter Kowald e Charlotte
Hug, mas a particularidade do jogo percussivo daquele outro membro do
projecto permite-lhe uma incidência nos pormenores que não
lhe é habitual e de que se sai muito bem.
Os instrumentos principais de
Andreas Trobollowitsch e Johannes Trondle são, respectivamente,
as guitarras e o violoncelo, mas a panóplia de "gadgets"
electrónicos a que lançam mão é imensa. A
música que constroem é de contrastes, jogando estática
com timbre, ruído branco com tons definidos, minuciosos concretismos
com as frases em "stream of consciousness" que são de
regra na música improvisada dita "europeia". Nisso não
são propriamente originais, mas o disco de estreia do duo, "(Also
Known As) Acker Velvet", tem a seu favor uma frescura que deriva,
precisamente, de alguma "ingenuidade". Se o compararmos ao que
faz o constituído por Luigi Archetti e Bo Wiget, também,
respectivamente, guitarrista e violoncelista, é mais cru e tem
arestas mais toscas e irregulares, abordagem essa que está nos
antípodas da limpidez clínica encontrada nas combinações
electroacústicas com computador, o que é sempre uma boa
notícia, pelo facto de quebrar com a actual tendência para
o hegemonismo do MacIntosh. Trobollowitsch e Trondle têm um passado
no jazz propriamente dito (o primeiro) e na música erudita (o segundo),
e esse circunstancialismo pressente-se no "drive" e na aparentemente
líquida sequencialidade das construções realizadas.
Por aqui se prova que uma improvisação sustentada na parasitagem
sonora pode perfeitamente ter o "sangue quente" da velha improvisação
acústica...
À
excepção de uma inesperada – e não muito bem
sucedida – incursão da cantora de Tuva pela música
de dança, o nome de Sainkho Namchylak tem sido identificado com
práticas acústicas que incidem sobre a exploração
integralista das capacidades dos instrumentos convencionais – e
isto tomando a própria voz como um instrumento. Decorrente de uma
passagem pela China em 2008, a sua "ópera do chá"
destoa desse rumo de várias décadas. A seu lado tem Namchylak
o chinês Li Chin Sung, que deste lado do mundo reconhecemos como
Dickson Dee, DJ Dee, PNF ou Khoomi Sound Machine. John Zorn reparou nele
e incluiu-o no catálogo da americana Tzadik. Neste disco de edição
britânica (na etiqueta do russo Leo Feigin), Dee aproveita da melhor
maneira o facto de não pertencer a qualquer corrente da electrónica.
Ora lhe ouvimos uma rítmica "groovy", ora paisagens sonoras,
ora "field recordings" de significação especificamente
chinesa, improvisando sem nunca soar a "música improvisada",
esse idioma a que, por equívoco, Derek Bailey chamou de "não-idiomático".
Também a nível de ferramentas Sung é um desalinhado:
em "Tea Opera" usa sinusoidais analógicas, gira-discos,
"laptop" e outra parafernália cuja escolha é ditada
apenas pelas situações musicais que deseja explorar. Resultam
uma delícia as interacções do canto bifónico
de Sainkho Namchylak com o "noise" das máquinas ou com
a capsulização auditiva das agitações urbanas
de Hong Kong e Taiwan. O curioso, mesmo, é que esta música
tem uma dimensão cerimonial e uma atmosfera de mistério
que, apesar dos meios contemporâneos utilizados, nos remete para
um passado perdido no tempo, aquele em que o chá era talvez, no
Oriente, o mais importante mediador de regulação social.
Nate
Wooley / Paul Lytton; "Creak Above 33" (Psi Recordings)
Neste duo estão representadas duas gerações da livre-improvisação
cujas perspectivas muitas vezes não coincidem. Paul Lytton (62
anos de idade) foi um dos pioneiros desta via da música de hoje
no Reino Unido, e se Nate Wooley (35 anos) é um produto do que
se fez nesses idos das décadas de 1960 e 70, tem desenvolvido um
trabalho de renovação das premissas então formuladas
– curiosamente, dos dois é também aquele que nunca
cortou amarras com o jazz, facto a que talvez não seja estranho
o seu nascimento nos Estados Unidos. Neste disco, o segundo que têm
editado, deitam por terra os dogmas que vêm separando a "old
school" da novíssima. Pouco importa averiguar quem andou mais
para se encontrar com o outro: nestas faixas até parece que a maior
generosidade coube ao percussionista britânico, mas na verdade o
que lhe ouvimos vem inteiramente na sequência da personalidade musical
que foi revelando – e consubstanciando – ao longo de décadas.
Por sua vez, nota-se no trompetista um grande respeito pelo seu parceiro
veterano, mas tal nunca o impede de constantemente lhe lançar desafios
e armadilhas.
O que realmente interessa é que "Creak Above 33" é
um álbum soberbo, forte candidato a constar entre os 25 mais da
discografia essencial da música improvisada. Lytton está
claramente no seu território: pode ele ter tocado (e tocar no presente)
com improvisadores que lidam, sobretudo, com o fraseado e a escala (a
começar por Evan Parker), mas a verdade é que a sua acção
foi sempre textural, sendo a elaboração de texturas, precisamente,
o que mais interessa a Wooley. E no entanto, se o abstraccionismo deste
tipo de abordagem "free form" que dispensa métricas tem
muitas vezes como consequência uma perda de sentido narrativo e
até, no limite, de "musicalidade", o certo é que,
aqui, a intensidade, a fluidez, a organicidade e mesmo a fisicalidade
dos eventos sonoros conjuntos é tal que, por vezes, diríamos
estar na presença de um outro tipo de "swing", bizarro
sem dúvida, quebrado decerto, mas que nos balança os corpos
com igual energia.
Os partidários da escola reducionista encontram neste CD uma genial
lição sobre dinâmicas e aqueles que ainda confundem
liberdade expressiva com gritaria (Brotzmann e seus descendentes) podem
igualmente beneficiar da incrivelmente imaginativa gestão dos espaços
e do silêncio aqui documentada. Não há nada, de facto,
como ignorar pelouros exclusivistas e criar música que efectivamente
não tenha fronteiras...
Buffalo
Collision: "Duck" (Screwgun)
Só pelos nomes envolvidos não podíamos imaginar o
que encerra este "Duck". Tendo como referências o pós-free
jazz de intensidade rock de alguma da produção de Tim Berne,
a acentuação "groovy" do tipo de situações
a que se dedicam os Bad Plus em que Ethan Iverson e Dave King militam
e a condição camerística da música que Hank
Roberts executa com, por exemplo, John Zorn, natural seria de esperar
que aqui encontrássemos um jazz de fusão com reminiscências
para-eruditas. Errado. O que este CD nos oferece é música
improvisada (porque sem temas compostos, e porque próxima esteticamente
dessa área) de alta qualidade, abstraccionista na forma, mas –
e aí reside a sua extrema curiosidade – estranhamente acessível.
As
opções tomadas indicariam esse desfecho como improvável,
e até a duração da primeira e da terceira faixas
(36 e 25 minutos respectivamente) poderia constituir um desafio à
paciência, mas os excelentes músicos envolvidos dão
a volta a tudo isso. Nas suas lentas progressões, "ISTof3>34:&Change"
e "3RDof5>22:&Change" prendem-nos os ouvidos para não
mais nos largar, conduzindo-nos até aos seus finais com muito eficazes
estratégias de renovação do interesse – é
como se assistíssemos ao desenrolar de uma intriga, um momento
impelindo-nos a querer perceber como será o seguinte. Deve-se tal
ao dramatismo e à tensão que estes Buffalo Collision dão
à música tocada, tornando-a em algo que tem tanto de aliciante
quanto de hipnótico, por um lado exigindo-nos uma participação
auditiva, pelo outro deixando-nos num estado de torpor receptivo.
Quando os desenvolvimentos parecem querer extravasar as margens do rio
que é esta música, um "beat" da bateria ou a repetição
de um motivo pelo saxofone centram os acontecimentos, dando novo impulso
à corrente. Uma vez por outra, o ansiado – e prometido –
remoinho acontece, mas quando se desfaz é para dar lugar a outras
agitações e outras inquietudes, contrastadas por elementos
de imensa beleza melódica ou harmónica. Um álbum
que merece toda a atenção.
Dave
Liebman / Evan Parker / Tony Bianco: "Relevance" (Red Toucan)
Se dúvidas ainda houvesse quanto à ligação
umbilical que o patriarca da livre-improvisação europeia,
Evan Parker, tem com o jazz (ele que já publicamente manifestou
– numa palestra realizada na Fundação Gulbenkian,
em Lisboa – o seu especial apreço pelo legado de John Coltrane),
este seu encontro com Dave Liebman, outro saxofonista coltraneano que
habitualmente é rotulado como um músico "mainstream",
é a prova provada de que, afinal, estes dois mundos da música
de hoje estão mais interligados do que muitos querem admitir.
Com
vocabulários cruzados do bop e do free, mas totalmente improvisada,
a música que aqui se ouve foi gravada em 2008 num clube de Londres,
o Vortex. Nunca antes Liebman e Parker haviam tocado juntos, o que é,
no mínimo, surpreendente, tal a afinidade entre ambos que nos é
revelada por "Relevance". O mediador desta reunião de
gigantes é Tony Bianco, um excelente, mas inexplicavelmente pouco
reconhecido, baterista que tem a particularidade de encadear, no mesmo
jogo percussivo, textura e pulsação. Esta dupla condição
serve de âncora para os dois sopradores, cada um dela aproveitando
o que mais lhe diz respeito técnica e esteticamente, e de facto
Bianco é o motor de tudo o que vai acontecendo. Motor em todas
as implicações da palavra, pois o incentivo que dá
aos seus parceiros nunca pára e sempre se renova, com uma intensidade
que, por vezes, chega a ser desnorteante.
Há aqui "fire music" e extremo lirismo, fraseados de
DNA jazzístico e explosões de criatividade pura. Inútil
será tentar descobrir quem está mais "dentro"
ou mais "fora", se Liebman ou Parker. A verdade é que,
em certas passagens, o Dave Liebman que aqui se ouve é o mais livre
de sempre, tanto quanto o próprio Parker, e este poucas vezes terá
sido tão "jazzy" como nestes dois "sets" divididos
em quatro partes. Por ocasiões, não é fácil
diferenciar os estilos pessoais dos dois músicos, tão emaranhados
ficam nesta compita. Uma maravilha, absolutamente a não perder.
Satoko
Fujii Ma-Do: "Desert Ship" (Not Two Records)
Taylor Ho Bynum / Tomas Fujiwara: "Stepwise" (Not Two Records)
Eis duas novidades do jazz asiático de resultados muito insatisfatórios.
Ma-Do é a associação da pianista Satoko Fujii com
o seu marido Natsuki Kamura (trompete), o contrabaixista Norikatsu Koreyasu
e o baterista Akira Horikoshi, músicos japoneses que encontraram
as portas abertas nos Estados Unidos. A lenda dos navios que vão
parar às areias do deserto no Sahara serve como título para
este CD e enquadra o que está em questão na música
de Fujii: o paradoxo. Trata-se de um híbrido de linguagens, o jazz
integrando-se com o romantismo pianístico, alguns resquícios
das músicas populares e tradicionais (começando, como seria
natural, pelas do Japão) e a música erudita contemporânea,
com súbitas mudanças de rumo e de vocabulário no
mesmo tema. Os resultados variam: encontramos passagens de algum brilhantismo,
mas também outras que não funcionam. Por vezes, parece que
uma determinada peça não pertence ao mesmo puzzle. Quem
não gosta de Chopin, por exemplo – caso do autor destas linhas
–, fica desconfortável com certas situações.
O pior é, no entanto, a prestação de Kamura, repetitiva
nos processos e derivativa nos desenvolvimentos.
O cornetista
Taylor Ho Bynum vem sendo apontado como um dos novos heróis do
"avant-jazz" de além-mar, mas o certo é que em
"Stepwise" nunca o proveito retirado confirma a fama que suscitou.
Pelo contrário, a presente colecção de temas transmite
uma impressão de normalidade, ou se preferirem, de medianidade,
que nos deixa invariavelmente insatisfeitos e a ansiar por mais. Curiosamente,
as "liner notes" são assinadas por Nate Wooley, o mesmo
que, no seu duo com outro percussionista, Paul Lytton ("Creak Above
33"), atinge níveis de excelência que aqui nem se vislumbram.
Também o baterista Tomas Fujiwara tem dado que falar, mas o certo
é que ele igualmente pouco contribui para esta música "levantar
voo". É pena.
Nobuyasu
Furuya Trio + Quintet: "Stunde Null" (Chitei Records)
Editado no Japão, para onde Nobuyasu Furuya (saxofone tenor, clarinete
baixo, flauta) regressou depois de mais de um ano de permanência
em Portugal, "Stunde Null" volta a apresentá-lo na companhia
de músicos nacionais, em trio com Hernâni Faustino (contrabaixo)
e Gabriel Ferrandini (bateria, percussão) e em quinteto com estes
mais Rodrigo Pinheiro (piano) e Eduardo Lála (trombone). Cada uma
das formações intervém com uma longa improvisação,
e se a do trio continua os mesmos parâmetros que conhecemos em "Bendowa",
cumprindo a missão com novo desvelo, é o quinteto que constitui
a grande surpresa deste disco. Muito contribuem os dois convidados para
um aumento das dinâmicas, com Pinheiro a expandir o âmbito
das acções com os seus pianismos em permanente metamorfose
e Lála a integrar-se de forma particularmente inteligente com os
sopros de Furuya. Esperemos que este pare novamente em Lisboa num futuro
breve e que as aventuras sónicas que por cá iniciou tenham
continuidade.
Ross
Bolleter: "Night Kitchen – An Hour of Ruined Piano" (Emanem)
Se a enunciação do conceito parece coisa de loucos, basta
ouvir os resultados práticos para perceber não só
que faz todo o sentido como também que a música produzida
pode chegar a níveis inusitados de beleza. O australiano Ross Bolleter
dedicou o seu percurso musical à manipulação de pianos
"arruinados", que ele distingue dos pianos "negligenciados"
ou "devastados" pelo facto de terem estado expostos aos elementos
e às intempéries. Se o que com eles faz (neste disco accionando
cinco em simultâneo) é situável no campo da música
improvisada, a sua abordagem sucede a um profundo estudo das particularidades
de cada instrumento, de modo a saber de antemão exactamente o que
pode obter deles. O que ouvimos tem paralelismos com o piano preparado
de Cage, com o gamelão do Bali e com a música sacra para
carrilhão, mas de forma distante. O que preocupa Bolleter não
são os reconhecimentos nem as diferenciações que
produz, mas descobrir a resposta a uma questão: o que é
um piano? No mínimo, surpreendente...
Ernesto
Diaz-Infante / Manuel Mota / Gino Robair / Ernesto Rodrigues: "Our
Faceless Empire" (Pax Recordings)
Este encontro dos portugueses Manuel Mota e Ernesto Rodrigues com os californianos
Ernesto Diaz-Infante e Gino Robair proporcionou-se aquando de uma viagem
dos primeiros aos Estados Unidos em 2006. Só agora o registo teve
edição, mas mais vale tarde do que nunca. A música
tocada não está distante das premissas da improvisação
"near silence", mas com a ressalva de que se identifica mais
com a privilegiação de um trabalho textural do que com estratégias
de utilização do silêncio ou de redução
do volume e dos sons produzidos. A verdade é que "Our Faceless
Empire" parece uma colmeia em plena laboração, com
muitos pequenos elementos a acontecerem em simultâneo. A utilização
da guitarra clássica por Diaz-Infante surge na herança de
Derek Bailey, Mota está mais discreto do que é seu costume,
intervindo com oportunos comentários que ora lembram uns blues
"fingerpicking" geométricos, ora exploram a electricidade
da sua "solid body", Robair move-se entre as "energized
surfaces" (tambores da bateria sobre os quais aplica objectos vários,
à maneira de Lê Quan Ninh) e o que apelida de "voltage
made audible" (circuitos electrónicos) e Rodrigues está
apostado em tornar a viola numa fonte bruitista. Muito bom.
Lol
Coxhill / Enzo Rocco: "Fine Tuning" (Amirani)
Hannah Marshall / Nicola Guazzaloca / Gianni Mimmo / Leila Adu: "The
Shoreditch Concert" (Amirani)
Apesar de nunca visto como um chefe-de-fila ou alguém que personifica
tendências ou movimentações (na cena britânica
mais depressa se apontam Evan Parker e John Butcher do que este gigante
do saxofone soprano), Lol Coxhill há muito que conquistou um lugar
próprio na música que aplica as metodologias da improvisação,
esteja esta identificada com o jazz ou vá para regiões menos
cartografadas. O seu duo com o guitarrista italiano Enzo Rocco acontece
em pleno território do jazz (inclusive com fraseados próximos
do bop), se bem que fuja a esse figurino pelo facto de o improviso dispensar
uma estruturação prévia, e está ao nível
do melhor que nos tem oferecido ao longo de décadas. E se Rocco
tem ganho destaque nos últimos anos, temos aqui o seu "opus
magnum", revelando uma inventividade e uma destreza que o colocam
ao nível do seu parceiro. Bem menos conhecida do que Coxhill, a
também inglesa Hannah Marshall (violoncelo) emparceira com outros
músicos transalpinos, o pianista Nicola Guazzaloca e o também
saxofonista soprano Gianni Mimmo, e com a cidadã do mundo Leila
Adu, cantora do Gana criada na Nova Zelândia. A música é
mais abstracta, com referências até na contemporânea,
e tem um carácter de câmara em que importa o efeito de conjunto.
Estando os focos sobre Marshall, cujo currículo inclui prestações
com Veryan Weston, Luc Ex, Ingrid Laubrock, Tony Buck, Johannes Bauer
ou Franz Hautzinger, é Guazzaloca quem mais se destaca. Atenção
a este senhor, pois vamos com certeza ouvir falar mais dele.
Andreas
Schaerer / Banz Oester: "Schibholeth" (Unit Records)
Ora aqui temos coisa fresca, mesmo que por vezes os argumentos diferenciadores
e de inovação dos formatos surjam como "divertimentos".
Formalmente, trata-se de um dueto de voz e contrabaixo com identificação
jazz, mas não só os usos deste são, no mínimo,
excêntricos (oiça-se o "scat" de "One Lady
Asked Me If I Danced the Jazz"), como são incorporados elementos
de muitas outras músicas (africana, árabe, tibetana, brasileira,
pop, hip-hop, experimental, erudita, etc.) e os dois intervenientes "desmultiplicam-se"
ao nível da produção sonora, Andreas Schaerer acrescentando
percussões vocais e corporais ou tocando berimbau de boca, Banz
Oester preparando o seu instrumento, utilizando os pés para trabalho
percussivo e recorrendo a uma indiana "shrutibox". O primeiro
faz o que quer com a voz, como o registo de contratenor ouvido em "For
the Exclusive Use of the Aristocracy", e o contrabaixo de Oester
chega a ir para zonas que só tinhamos ouvido cobertas por Bertram
Turetzky e Stefano Scodanibbio. Se "Schibholeth" é, de
facto, divertido, será de toda a justiça levar a sério
as brincadeiras desenvolvidas, tanto em termos de ideias como de técnicas
aplicadas.
Andrew
Raffo Dewar: "Six Lines of Transformation / Music For Eight Bamboo
Flutes" (Porter Records)
São duas as peças, divididas em várias partes, reunidas
neste álbum do americano Andrew Raffo Dewar, não sendo possível
descortinar o que foi escrito e o que é deixado ao critério
dos intervenientes. Em "Six Lines of Transformation" encontramos
o trompetista Nate Wooley e o clarinetista baixo Matt Bauder, membro da
trupe Memorize the Sky, num jazz de câmara contemporâneo que
denota as influências em Dewar dos seus mestres Anthony Braxton,
Bill Dixon e Alvin Lucier. O que importa é o colectivo, não
os indivíduos, e isso explica que não haja solos e sim uma
complexa teia de contribuições partilhadas. Construída
por arremedos, como que em breves pinceladas, nesta composição
os músicos avançam de cada vez com um limitado número
de notas, em sucessivas entradas e saídas. A segunda, "Music
For Eight Bamboo Flutes", tem uma natureza bem diferente e está
mais distanciada dos parâmetros jazzísticos: é constituída
por "drones" dispostos em camadas, com a particularidade de
também cada intervenção dos oito flautistas –
Dewar incluído – ser temporalmente delimitada.
Claude
Tchamitchian: "Another Childhood" (Emouvance)
Um solo de contrabaixo é sempre um empreendimento arriscado, mas
o francês (de origem arménia) Claude Tchamitchian sai-se
bem da aposta. "Another Childhood" pode não ter o brilhantismo
do álbum "Unveil" de Mark Dresser (poucos contrabaixistas
o conseguiriam), mas as introspecções musicais que nos oferta
prendem-nos a curiosidade do início ao fim e deixam-nos uma óptima
impressão. Trata-se de uma figura central tanto do jazz do Hexágono
como da cena improvisada local, músico com um passado de colaborações
com André Jaume, Stéphan Oliva, Yves Robert, Sylvain Kassap,
Jacques DiDonato, Antoine Hervé e Philippe Deschepper que também
tocou com Jimmy Giuffre e Joe McPhee. Encontramo-lo ainda à frente
do poderoso ensemble Lousadzak e como cúmplice de Andy Emler no
Megaoctet deste. Agora podemos ouvir-lhe a intimidade.
Nobu
Stowe: "Confusion Bleue" (Soul Note)
Com um percurso musical intermitente, devido ao seu trabalho paralelo
como psicólogo especializado no estudo da toxicodependência,
Nobu Stowe tem apostado a sua música na integração
de dois entendimentos da improvisação: de um lado o conceito
de "improvisação total" cunhado por Keith Jarrett,
do outro o de "improvisação livre", designadamente
aquela que se emancipou do free jazz. Fê-lo antes com músicos
(curiosamente conotados com o passado e o presente da estética
free) como Perry Robinson, Blaise Siwula, Dom Minasi e Badal Roy, mas
é no guitarrista e saxofonista Ross Bonadonna, no baterista Ray
Sage e no desenhador de som Lee Pembleton que tem encontrado os seus mais
habituais parceiros - pois ei-los de volta em "Confusion Bleue",
com o acrescento do contrabaixista Tyler Goodwin. Se este é, talvez,
o registo mais "fora" da sua discografia, também é
verdade que, nele, continua a ser o que sempre foi: um pianista jarrettiano.
A pérola do conjunto é "Deuxième Mouvement",
tema "groovy" endiabrado no qual utiliza um piano eléctrico
Wurlitzer.
Evan
Parker Electro-Acoustic Ensemble: "The Moment's Energy" (ECM)
Evan Parker: "Set – For Lynn Margulis" (Psi Records)
Richard Barrett: "Adrift" (Psi Records)
Furt: "Sense" (Psi Records)
Lawrence Casserley / Adam Linson: "Integument"
(Psi Records)
Se parecia que o envolvimento do saxofonista Evan Parker com a electrónica
era periférico na sua intensa actividade, limitando-se a pouco
mais do que o trabalho que vinha realizando com o Electro-Acoustic Ensemble
(vamos ouvi-lo no Jazz em Agosto), os últimos lançamentos
da etiqueta que fundou, a Psi Records, insistem neste seu interesse dos
últimos 13 anos – é de 1997, recorde-se, o álbum
"Toward the Margins". Coincidem os ditos com a edição
pela ECM de mais um título daquele projecto, "The Moment's
Energy", que evoluiu do original sexteto para um agrupamento de 14
elementos, cinco dos quais trabalhando com dispositivos electrónicos
e de processamento de sinal (Lawrence Casserley, Joel Ryan, Walter Prati,
Richard Barrett e Paul Obermayer), dois acrescentando-os aos seus instrumentos
acústicos (Phillip Wachsmann e Paul Lytton) e um ocupando-se da
difusão sonora (Mario Vecchi).
Tanto assim é que as edições da Psi podem ser encaradas
– mesmo que o propósito não tivesse sido esse –
como desdobramentos, ou consequências, da fórmula EPE-AE.
Só um ("Set") surge sob o próprio nome de Parker,
com uma formação mais reduzida em que se repetem Barrett,
Obermayer, Casserley, Prati, Guy, Lytton e Vecchi, mas todas as outras
são de membros do Ensemble ou têm-nos como participantes.
Richard Barrett encontramos num registo orquestral ("Adrift")
e inserido no duo Furt ("Sense"). Paul Obermayer, o outro Furt,
colabora com o colectivo Grutronic em "Essex Foam Party". Por
sua vez, Lawrence Casserley emparceira com Adam Linson em "Integument".
É como se estivéssemos perante um poliedro, oferecendo-nos
as várias faces de um variegado entendimento do que é, hoje,
a prática da improvisação electroacústica,
seja na vertente mista, combinando instrumentário convencional
e tecnologia, seja com base no "sampling" (recolha e tratamento
de sons). Todos estes discos remetem-nos para "The Moment's Energy"
("Adrift" talvez um pouco menos) e todos eles acabam por funcionar,
de um modo ou de outro, como a desconstrução das muitas
implicações desse CD.
Não deixa de ser curioso que algumas das mais interessantes práticas
de "live electronics" estejam a ser construídas em torno
de um músico que não utiliza electrónica, e daí
a razão de ser deste destaque. Como é sabido, só
há narrativa (o que é verdade para o jornalismo como para
a literatura e o cinema) quando existe algo de extraordinário,
invulgar, anómalo ou especial a contar. Da normalidade não
reza a história...
O formato de "The Moment's Energy" é o de uma suite em
sete partes de materiais integralmente improvisados, se bem que pareça
haver uma estrutura condutora (obra do trabalho de montagem e mistura
realizado por Parker com o produtor Steve Lake?), e a ocasião foi
a de um concerto em Huddlesfield, no Reino Unido, isso não obstante
a maior parte dos registos ter sido realizada não na própria
apresentação pública, mas durante os ensaios. Se
a música tem um carácter iminentemente colectivo, há
espaço para algumas expressões de individualidade –
não as dos processadores de serviço, bem entendido, porque
esses investem na amálgama das suas contribuições.
Os destaques sonoros vão para os instrumentistas acústicos,
e em especial para os sopros (Evan Parker, Peter Evans, Ned Rothenberg
– os dois últimos com trajectórias no jazz propriamente
dito, o primeiro nunca tendo abandonado realmente a herança coltraneana
– e Ko Ishikawa), mas em nenhum caso é possível falar
de solos, no sentido jazzístico. Podem igualmente o piano preparado
de Agustí Fernandez, o violino de Phillip Wachsmann e o contrabaixo
de Barry Guy marcar presença, que nunca chegam realmente a evidenciar-se
do conjunto...
Dada a quantidade de intervenientes, esperar-se-ia um investimento na
densidade, mas se esta é patente em várias passagens, o
que verificamos é uma dupla aposta na construção
de um liliputiano mundo de elementos sonoros e na exploração
de atmosferas, por vezes com uma dimensão minimalista e "lowercase",
como em "Incandescent Clouds". Assim sendo, o disco está
entre uma certa referenciação na música contemporânea
(Xenakis e Ligeti não andam longe) e, com alguma surpresa, um "soundscaping"
que nos remete para a electrónica pós-Brian Eno, embora
se trate de paisagens imersivas e não propriamente de "fundos".
O interesse de Evan Parker pelas mais ínfimas células do
som está bem patente na dedicatória de "Set":
Lynn Margulis é uma bióloga que dedica a sua actividade
ao estudo dos micro-organismos, tendo-se notabilizado pela sua teoria
endosimbiótica. Se a cientista (e o curso de biologia que o decano
da improvisação britânica chegou a frequentar) influenciou
a forma como Parker utiliza os saxofones, o recurso à electrónica
nos projectos deste proporcionou-lhe uma maior exponenciação
dos processos de microscopia sonora que iniciou com o Electro-Acoustic
Ensemble e com as parcerias que vem desenvolvendo com electronicistas
desde o seu dueto com Lawrence Casserley em 1997 (documentado pelo CD
"Solar Wind"), uma combinação que repetiu, de
resto, em concerto com Joel Ryan em 2004 e é possível visionar
no Youtube. Poucas vezes a electrónica tem um cunho tão
orgânico quanto nestas incursões parkerianas, e este título
é a esse nível uma particularmente bem sucedida realização.
Ao contrário do que é habitual acontecer quando estamos
em presença de computadores, em vez de "drones" lineares
assistimos à múltipla emergência de acontecimentos
simultâneos, uma engenhosa aplicação daquilo a que
se chama "sheets of sound" desde John Coltrane. O menor número
de participantes do que em "The Moment's Energy", se encurta
a diversidade tímbrica, também permite uma maior concentração
dos procedimentos ou, se quiserem, uma maior "objectividade"
das explorações moleculares. O curioso é que, mais
do que qualquer edição do EP E-A E, o presente lançamento
em nome próprio tem um carácter de "statement"
que importa reter e compreender. Por estranho que pareça, no entanto,
pouco ou nada Evan Parker verbalizou quanto a esta vertente do seu trabalho,
a não ser a confessada admiração pelas capacidades
interactivas destes seus pares.
Antes de frequentar Darmstadt e de estudar composição com
Brian Ferneyhough, a figura de proa da "nova complexidade",
Richard Barrett obteve uma licenciatura em genética e microbiologia,
pelo que temos no seu caso igualmente um exemplo de inspiração
da música nas ciências. Se o trabalho deste galês nos
domínios da electrónica é, sobretudo, identificado
com a improvisação, tem um percurso paralelo na escrita
para agrupamentos convencionais da tradição "clássica",
de quartetos de cordas a orquestras sinfónicas. "Adrift"
situa-se entre esses dois âmbitos, se bem que os dispositivos electrónicos
surjam apenas (excepção é o duo com a pianista Sarah
Nicolls na peça-título) como um complemento colorístico,
com menor intervenção do que nas suas colaborações
com Evan Parker, a cantora Ute Wassermann ou o violoncelista Arne Deforce.
Tocada por três dos integrantes de um dos ensembles ouvidos, o Champ
d'Action (em "Codex VII"), a guitarra eléctrica tem mesmo
maior evidência no conjunto.
Ainda assim, está patente neste álbum que o entendimento
composicional de Barrett aplicado a ensembles acústicos (ou maioritamente
acústicos) se alimenta da sua especialização na electrónica,
e também que nele introduz algumas das configurações-tipo
da música improvisada. A dita "séria", escrita,
é assim minada por dentro, convertida, metamorfoseada, o que só
pode ser motivo para elogio. O apreço de Barrett por personalidades
com presença nos dois campos que habita, como Vinko Globokar (co-fundador
do seminal New Phonic Art e um dos homenageados, juntamente com Mauricio
Kagel e o trombonista do pós-free jazz Paul Rutherford), fica aqui
plenamente explicado.
Sob a fórmula Furt, Richard Barrett e Paul Obermayer (que, convém
assinalar, tem formação como matemático) criam uma
música sustentada no massivo uso de "samples", mas em
vez do processamento ao vivo e em tempo real de instrumentos acústicos,
têm ao dispor nos discos rígidos dos seus "laptops"
uma ampla livraria de sons com origens muito diversificadas. Nesse aspecto,
o que fazem entronca com as práticas correntes da "sampling
music" e do DJing mais experimental. A diferença não
está na incrível quantidade de citações que
se sucedem, mas no tratamento que estas obtêm. Existam ou não
parâmetros previamente estabelecidos (isso nunca é claro
neste "Sense", como de resto não o foi nos quatro anteriores
CDs do duo), o certo é que, nas suas peças, Barrett e Obermayer
procedem a minuciosas orquestrações da imensa panóplia
de recursos que têm ao dispor. Ao fazê-lo, transferem para
uma linguagem "erudita" (a faixa "Curtains" é,
aliás, uma endiabrada revisitação do universo de
Stockhausen) um modus operandi que era alheio a esta, e daí o particular
interesse desta proposta.
Tudo o que ouvimos tem um carácter alucinante, tanto devido à
velocidade com que as figuras sonoras "trigadas" passam diante
de nós, como pelo facto de ser armadilhada qualquer lógica
de causa e efeito ou de sequência. Cada desenvolvimento, mais do
que imprevisível, é um tirar de tapete debaixo dos pés,
ao mesmo tempo salientando que vivemos numa era de excesso de informação
e hiperactividade humana. Vale a pena citar algumas reflexões de
Barrett: «Toda a música é (ou pode ser entendida como)
"complexa" pelo facto de ressoar na estranha área entre
a comunicabilidade e a incomunicabilidade, oferecendo divergentes perspectivas
ao ouvinte activo (...). A própria percepção é
um fenómeno complexo; a tão referida "complexidade
na música" não é reduzível a um maior
(maior do que o quê?) nível de proliferação
/ diferenciação dos seus elementos constituintes ou das
inter-relações destes – tal categorização
dependeria de uma análise pseudo-linguística e ignoraria
o processo musical e perceptivo.»
Enquanto projecto integralmente tocado com instrumentário electrónico,
a abordagem dos Grutronic é bastante distinta da dos Furt em termos
formais. Trata-se de um quarteto sem vínculos com a música
clássica contemporânea, área em que preferencialmente
se movem Richard Barrett e Paul Obermayer (e não obstante este
último colaborar em três das improvisações
de "Essex Foam Party" com o seu teclado sampler, "Plonk",
"Concussion Vibes" e "Madness and Civilization").
Inclusive, Stephen Grew, Richard Scott, Nick Grew e David Ross (mais o
outro convidado da sessão, o vibrafonista Orphy Robinson) modelam
o seu "playing" nos processos e na gramática da escola
inglesa da livre-improvisação acústica que foi protagonizada
por John Stevens e pelos membros do seu Spontaneous Music Ensemble –
Evan Parker um deles. Mas como tudo é relativo, há que referir
o facto de a dedicação de Stevens ao "não-idiomatismo"
(nome dado à improvisação livre por Derek Bailey,
outro elemento do SME) não foi exclusiva: tocou igualmente bebop
e free jazz, tendo mesmo sido um dos primeiros praticantes de uma fórmula
hoje comum, o free bop. De resto, a discografia do Spontaneous Music Ensemble
é basta em exemplos de impregnação da dita música
não-idiomática pelo jazz.
O que nos oferece o quarteto nesta edição enquadra-se com
os conceitos básicos da "música improvisada" enquanto
corrente estética (ou seja, idioma) e do Parker acústico,
indícios havendo da matriz jazzística de que procurou emancipar-se.
O que quer dizer que, apesar de tudo (da utilização do ruído
e do "glitch", quero eu dizer), a electrónica é
utilizada com medida nos instrumentos acústicos. Em comparação,
se o conteúdo deste disco aparenta ser mais desformatado e desconforme
do que o de "Sense", ao mesmo tempo torna-se mais expectável.
Os jogos de contraste, a construção de assimetrias, a gestão
por camadas dos sons remetem-nos inevitavelmente para a "old school"
improvisacional, coisa que não acontece em "The Moment's Energy"
e em "Set". Nesse aspecto, é o menos provocador dos discos
deste lote.
O que "The Moment's Energy" e "Set – For Lynn Margulis"
nos proporcionam numa dimensão épica – música
instrumental triturada pela electrónica –, "Integument"
oferece em cápsula: Lawrence Casserley processa o contrabaixo de
Adam Linson e a sua própria voz, Linson trata electronicamente
os seus próprios contributos acústicos e os processamentos
de Casserley, e este labora sobre o que lhe é devolvido, as somas
obtidas estabelecendo uma relacionação elíptica que
se vai alimentando de si mesma mediante envios e devoluções.
Não estamos perante um mero diálogo entre um contrabaixo
e um computador, mas entre as projecções cruzadas de um
e do outro, os instrumentos em si / por si mesmos e os seus reflexos,
mais os reflexos dos reflexos, duplos de duplos de duplos. Com este trabalho
de (re)engenharia sonora, podemos observar uma amostra isolada do que
se passa, a um nível multiplicado um sem-número de vezes,
com o Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble.
Muhal
Richard Abrams / Roscoe Mitchell: "Spectrum" (Mutable Music)
São três as obras reunidas em "Spectrum". A primeira,
"Romu", é um duo entre o pianista Muhal Richard Abrams
e o saxofonista Roscoe Mitchell, figuras míticas da AACM, e a filiação
jazzística do que lhes ouvimos é indubitável. Já
"Non-Cognitive Aspects of the City", de Mitchell, com a Janacek
Philharmonic, conduzida por Petr Kotik, e o barítono Thomas Buckner
(cantando um poema de Joseph Jarman, membro fundador do Art Ensemble of
Chicago e parceiro de Roscoe Mitchell ao longo de décadas), e "Mergertone",
de Abrams, com a dita orquestra, entramos em pleno no domínio da
música de recorte sinfónico, no primeiro caso, até,
com registo lírico / operático. Estranho? Nem tanto assim,
se nos ativermos às palavras de George Lewis, que nas suas "liner
notes" lembra o contributo de músicos negros e do jazz para
a caracterização de uma "nova música clássica
americana".
Nada disto é de agora e nada disto é acidental. Os compositores
de jazz afro-americanos sempre procuraram não só um estatuto
academicamente reconhecido, como ambicionaram formular uma música
culta que fosse especificamente americana e não apenas um reflexo
da música erudita europeia – veja-se o caso histórico
de Duke Ellington (e, indissociável, o de Billy Strayhorn). É
certo que na escrita de Mitchell e Abrams encontramos vínculos
com o pós-serialismo do Velho Continente e é certo que as
propostas de ambos têm mais familiaridade com os formatos orquestrais
europeus do que com a "new music" de um Cage, um Wolff e um
Feldman, mas a emancipação musical dos EUA relativamente
ao legado deste lado do oceano é algo que está ainda em
processo – senão, verifique-se a evolução do
orquestralismo clássico por aquelas partes, de Elliott Carter a
John Adams.
Note-se que poucas ou nenhumas relações encontramos aqui
com a filosofia "third stream" de Gunther Schuller: não
se trata de fusão entre jazz e sinfonismo, mas de música
sinfónica pensada por músicos de jazz. O interessante destas
obras – com electrónica a abrir "Mergertone", sendo
de supor (apesar de nada se referir nesse sentido na ficha técnica
do disco) que Muhal Richard Abrams utiliza um sintetizador, como de resto
já o fez em outras ocasiões – está na energia,
na acentuação dramática e no discorrer em fluxo,
características que podem ser tomadas como distintivas.
Byard
Lancaster: "Personal Testimony (Then and Now)" (Porter Records)
Esta não é apenas a reedição do LP lançado
no ano de 1979 em que Byard Lancaster procedeu a sobregravações
dos vários instrumentos que toca. Fez melhor do que recuperar um
título que estava desaparecido, apesar de ter sido um importante
marco devido ao, então, quase ineditismo do formato (por exemplo,
Rahsaan Roland Kirk também o praticou): acrescentou-lhe seis novas
peças, tocadas em 2007 com os mesmos parâmetros e registadas
da mesma forma. Em boa hora o fez, pois estamos perante uma dos mais injustiçadas
e incompreensivelmente esquecidas figuras da história do jazz,
apesar de ter tocado com músicos do relevo de Sun Ra, Sonny Sharrock,
Sunny Murray ou Karl Berger e de se ter destacado no contexto da "loft
generation".
Este é um disco intimista e espiritual, com tanto de lírico
(sentido) quanto de meditativo (pensado), indo beber a referências
africanistas, orientais, dos blues e da soul, cada tema construído
segundo uma lógica de sobreposição de camadas ou
de contraponto, sempre, no entanto, apostando na crueza, na nudez e na
elementaridade do som. Curiosamente, o melhor que oferece surge a solo,
em "Mind Exercice", com uma fantástica improvisação
em saxofone alto na qual até os agudos têm grão. São
as flautas, no entanto, que ganham maior presença e o que com estas
Lancaster faz (sobretudo em "Afro-Ville" e "Free Mumia")
está entre o que de mais especial já ouvimos com tais aerofones
na área do free jazz.
Rova
& Nels Cline Singers: "The Celestial Septet" (New World
Records)
Antes mesmo de se ouvir este disco, a junção do quarteto
de saxofones Rova e do trio Nels Cline Singer sugeria (e isso apesar da
grande diferença entre os dois projectos) a prossecução
de um jogo de (as)simetrias: de um lado um colectivo situável entre
o jazz e a "new music" (designação que nos Estados
Unidos se dá à música contemporânea aí
produzida, para a distinguir da europeia) e do outro uma formação
que tem tido actividade entre o jazz e o rock, diferenciando-se dos comuns
conceitos de fusão. Com a memória dos factos a lembrar-nos
dos encontros dos Rova com Alvin Curran ou com o Kronos Quartet e da presença
de Nels Cline na banda rock Wilco, esperaríamos que esta colaboração
tivesse como mote e fim a cobertura do alargado âmbito idiomático
assim possibilitado, mas à terceira faixa de "The Celestial
Septet" a nossa percepção das coisas fica redimensionada:
estamos perante um grande álbum de jazz, e do jazz propriamente
dito, ora com uma vertente estritamente composta e organizada, ora soltando-se
num "free flowing" de grande intensidade. Muito dificilmente
os agentes da polícia que opinaram negativamente sobre a "jazzidade"
de um concerto recente de Larry Ochs poderiam concluir outra coisa, sobre
este trabalho, senão o que acima ficou escrito, mas nunca se sabe...
Se a música tocada nos agarra e transporta, deve-se tal ao facto
de os dois agrupamentos funcionarem como um único, bem coeso e
interactivo, sem outros posicionamentos dos intervenientes na música
tocada senão os próprios no contexto de um septeto que tem
um objectivo definido. O melhor de tudo – mais até do que
o mais do que evidente virtuosismo dos músicos – é
o facto de nunca se sentir como algo de contraditório e desajustado
haver interpretação de partituras e improviso total. Ambas
as abordagens surgem aqui, muito naturalmente, como as duas faces da mesma
moeda. Quando este factor se torna numa evidência, melhor se compreendem
as criativas formas como composição escrita e composição
imediata se articulam numa mesma peça. E no que respeita a articulações
há muito mais: o meticuloso coexiste com o épico, o abstracto
com o "bluesy", a desintegração dos elementos
compósitos com um "drive" em bloco. Ora, isto significa
uma permanente e renovadora mudança de parâmetros que vai
sendo difícil encontrar no jazz convencionalmente estruturado e
na improvisação livre mais padronizada. Bravo!
Aki
Takase / Louis Sclavis: "Yokohama" (Intakt)
Agustí Fernandez / Jo Krause: "Draco" (Produccions Anacrusí
S.L.)
Dois discos em duo com dois pianistas de nomeada, Aki Takase (em tempos
interlocutora da nossa Maria João) e Agustí Fernandez, um
regular associado de Evan Parker. E dois discos incidindo sobre o factor
improvisação (se bem que enquadrado, regra geral, em temas)
com abordagens totalmente distintas, um incorporando figuras e recursos
da música contemporânea e da "new music" para piano,
de Messiaen a Cage, assim saindo do formato jazzístico, e o outro
revendo as premissas pianísticas das práticas existentes
nesta área, designadamente as de Thelonious Monk e Cecil Taylor,
e por esse motivo indo ao encontro da matriz jazz.
Em "Yokohama" reduzido à sua célula mais elementar
– com a ilustre nipónica, residente na Alemanha, a apresentar-se
com o francês Louis Sclavis –, o projecto em causa já
teve outra configuração e anuncia-se para breve, com uma
digressão e um futuro lançamento discográfico, uma
terceira. A que passou foi uma actuação ao vivo a quatro
com o escritor Yoko Tawada, a ler os seus próprios textos em Japonês
e Alemão, e com a coreógrafa e bailarina Yui Kawaguchi,
também do país do sol nascente. A anunciada novidade é
o quinteto La Planête, a ambos se juntando o português Carlos
"Zíngaro", o francês Vincent Courtois (a predominância
gaulesa talvez explique o nome do grupo) e o alemão Paul Lovens.
Se Takase e Sclavis foram o eixo daquela outra colaboração
e terão com certeza esse papel na que se avizinha, neste álbum
ocupam todo o espaço e todo o tempo roubados ao silêncio
– sempre sabendo não só partir deste e voltar a ele,
como também intercalá-lo nos seus discursos cruzados.
A referência à cidade portuária de Yokohama no título
tem tudo de simbólica, pois foi através dela que o Japão
se abriu à cultura ocidental e que o Ocidente melhor conheceu aquelas
paragens. Ainda assim, não se pode dizer que seja representativa
do que Aki Takase e Louis Sclavis colocam em equação: muito
mais do que um encontro de culturas, este registo apresenta-nos formas
diferentes, mas não especialmente divergentes, de entender a improvisação,
o jazz e o fenómeno musical nos dias de hoje, independentemente
da localização geográfica em que se realiza a criação
colaborativa. Takase é prolífica em recursos técnicos
e ideias, não se coibindo de utilizar imaginativamente o interior
do piano em situações de agradável fluidez, e Sclavis
é tão impactante nos momentos líricos quanto nas
construções de maior visceralidade, procurando o máximo
efeito mesmo quando as fórmulas são as mais simples, algo
que só os grandes músicos conseguem fazer.
"Draco" dá conta de outra parceria transnacional, a do
espanhol Agustí Fernandez com o baterista alemão Jo Krause.
Se o primeiro é um expoente da livre-improvisação,
muitas vezes de dimensão experimental, já o segundo tem
percurso no jazz "mainstream", pelo que a distância coberta
por ambos nestes diálogos é bem maior do que a protagonizada
pelo anterior dueto, e tal não obstante os respectivos nascimentos
no mesmo continente. E o curioso é verificar que talvez seja Fernandez
a procurar os maiores denominadores comuns, não hesitando, por
exemplo, em abraçar a tipologia da balada. Mais importante, de
qualquer modo, é a abordagem que adopta neste CD, com breves, porque
abruptamente cortados, fraseados em staccato – desse modo também
integrando eficazmente o silêncio nas suas exposições.
Pega na lógica monkiana (e na de Taylor quando este não
opta pelas cascatas de som que lhe são singulares), decanta-a até
à sua essência e maximiza-a.
Esta edição só não tem a mesma relevância
de "Yokohama" porque a focagem escolhida por Agustí Fernandez
tem um preço: a reduzida diversidade de parâmetros. Nesse
aspecto, oferece-nos o disco de Aki Takase e Louis Sclavis um autêntico
compêndio da arte do duo pianístico.
Mathias
Delplanque: "Parcelles 1-10" (Bruit Clair)
Sequela de "Le Pavillon Témoin", esta nova colecção
de temas do francês Mathias Delplanque continua o seu interesse
pelo processamento / envolvimento electrónico de instrumentos acústicos,
designadamente a guitarra, a melódica, o saltério e vária
percussão (no álbum anterior surgiam também o violoncelo,
o piano e o acordeão). A abordagem é introspectiva e melancólica,
ora referenciada na estética "lowercase", ora na linha
"live electronics" da improvisação livre. Conhecendo
a dedicação paralela deste músico ao dub (caso do
projecto Lena), é muito diferente o que aqui encontramos: uma música
abstracta, se bem que com referências jazzísticas e da folk
e se bem que com um evidente gosto pela melodia.
Manuel
Mota / Afonso Simões: "Ao Vivo no Espaço, Centro de
Desastres" (Dromos Records)
O duo de Manuel Mota (guitarra eléctrica) com Afonso Simões
(bateria) podia, ou não, remeter a música tocada ao que
ambos fazem no contexto do Curia, quarteto constituído com David
Maranha e Margarida Garcia. Se outros caminhos percorrem nas suas respectivas
actividades, Mota com um jazz pontilhístico e de linhas quebradas
ou em contextos de improvisação experimental (por exemplo,
o seu recente encontro com Jason Kahn) e Simões investindo no free
rock dos Fish & Sheep ou na electrónica "redux" de
Rafael Toral, é precisamente pelo psicadelismo cultivado por aquele
grupo que alinham neste registo ao vivo. A música é fluida,
energética e evidencia um bom sentido de partilha, sendo apenas
prejudicada pela fraca qualidade da gravação.
Vários
autores: "Send + Receive: 10 Years of Sound" (Send + Receive)
Numa caixa de VHS, dois DVDs e um informativo "booklet" em comemoração
da primeira década de existência do festival canadiano Send
+ Receive, dedicado às práticas de improvisação
de ponta, com especial relevo para as eléctricas e electrónicas.
Ao todo, deparamo-nos com um total de 11 horas de áudio e com um
precioso documentário em vídeo sobre o trajecto deste importante
evento. No primeiro caso sucedem-se figuras como David Grubbs, Lee Ranaldo,
Martin Tétreault, Oval, Sam Shalabi, Tim Hecker, Christoph Kurzmann,
Martin Siewert, Taylor Deupree, Jason Kahn, Aki Onda, Bernhard Gunter
e Oren Ambarchi, entre outros. O documentário tem realização
de Caelum Vatnsdal e combina imagens de arquivo com entrevistas, surgindo
para além dos músicos referidos outros como Peter Brotzmann,
Otomo Yoshihide, Kaffe Matthews, Peter Cusack e muitos mais. Deveras aconselhável
a quem aprecia os aventureirismos sonoros.
Egberto
Gismonti: "Saudações" (ECM)
Com novas composições e arranjos de alguns velhos temas
do seu repertório, Egberto Gismonti volta a editar na ECM um trabalho
de grande fôlego (não o fazia desde 1997, ano em que saiu
"Meeting Point"). No primeiro CD deste duplo álbum as
suas peças são interpretadas por uma orquestra feminina
de cordas sediada em Cuba, a Camerata Romeu, e no segundo encontramos
o guitarrista brasileiro (o piano desta vez ficou de lado) na companhia
do seu filho Alexandre. Como desde sempre tem sido a imagem de marca deste
singular nome da música de hoje, os conteúdos situam-se
entre o classicismo, o jazz e a MPB e não necessariamente apenas
nas faixas dedilhadas. Bem latina e afro-referenciada, a orquestra é
bastante feliz na interpretação dos conceitos rítmicos
de Gismonti e na arte do contraponto que este tão bem sabe gerir.
Apesar disso, nada de novo, a não ser a revelação
do jovem talento que é Alexandre Gismonti, este lançamento
nos traz em relação à anterior discografia do artista.
Guy
Frank Pellerin: "Periplo" (Cosmic-ride)
Num disco em solo absoluto no qual dedica cada faixa a um só instrumento,
o polifacetado Guy Frank Pellerin surge ora com os saxofones sopranino,
soprano, tenor e barítono, ora com o clarinete, a ocarina, a flauta
bansuri e algumas percussões, com insistência para as taças
orientais e o carrilhão. O que podia consistir num variegado painel
de timbres e abordagens resulta, no entanto, em algo de demonstrativo.
Há passagens especialmente interessantes a nível de introspecção,
sobretudo as saxofonísticas, mas quando Pellerin força um
certo ritualismo etnicista tudo cai por terra.
Karst:
"Samuel D" (Insubordinations)
Abstral Compost escreveu os textos e di-los, Cyril Bondi, D'Incise (mais
conhecido pelo seu trabalho com electrónica) e Luc Muller acompanham-no
com uma panóplia de percussões e objectos, em alguns casos
magnificados por meio de microfones de contacto. Trata-se de um muito
interessante projecto suíço (proveniente do cantão
francês) de intersecção da poesia sonora com a livre-improvisação,
e se a voz de Compost não é especialmente convincente, a
sua performance como "diseur" é-o sem sombra de dúvida,
bem como a qualidade da escrita que nos propõe. O trabalho percussivo
está muito bem integrado com a fala, decorre de um inteligente
jogo de dinâmicas e mantém-nos desperto o interesse até
ao último momento.
Américo
Rodrigues: "CICATRIZando" (Bosq-íman-os Records)
A "acção poética e sonora" de Américo
Rodrigues está de volta ao leitor de CDs. Mas com uma particularidade:
se o que vem distinguindo o também director do Teatro Municipal
da Guarda é o híbrido a que procede entre poesia fonética,
seguindo as fórmulas Dada, e vocalismo improvisado, na linha de
um Phil Minton, neste "CICATRIZando" encontramo-lo a sustentar
as suas intervenções na tradição oral portuguesa.
Ou seja, são rimances, lengalengas, orações, adivinhas
e ditos que agora explora, algumas vezes recorrendo a gírias locais
e equacionando de forma bem interessante o respeito pela cultura popular
beirã e a inventividade do seu particular uso da voz. A vertente
mintoniana é que não é, desta vez, muito perceptível.
Pascal
Contet / Wu Wei: "Iceberg" (Radio France)
Ambos os instrumentos de "ar" utilizados neste disco –
o europeu e popular acordeão e o chinês e tradicional sheng,
identificável como um "órgão de boca" –
têm uma importância icónica nas respectivas regiões
do globo, e tanto Pascal Contet (ouvimo-lo já em Portugal com Barre
Phillips e com Carlos "Zíngaro") como Wu Wei são
seus virtuosos executantes, habitando vários domínios musicais,
da erudita à "world music", com passagem pela improvisação
mais experimental e pelo jazz. "Iceberg" é um disco de
introspecções e silêncios, mas de uma calma enganosa
– os mistérios sugeridos parecem anunciar uma ameaça,
a não concretização desta somando uma subtil, mas
muito presente, tensão aos procedimentos. Belíssimo.
Gérard
Siracusa: "Drums Immersion" (Radio France)
Poucos são os bateristas – incluindo muitos dos que consideramos
realmente bons – que alguma vez se arriscariam a gravar um disco
a solo. O francês Gérard Siracusa pratica amiúdes
vezes o formato nos palcos e por fim fez o que faltava: gravou-o e colocou-o
em CD. Estamos perante um herdeiro das concepções de Max
Roach, no sentido de que também trabalha com figuras e motivos
melódicos. É, no entanto, mais ascético do que este
na gestão dos sons, sem incorrer no geometrismo de um Fritz Hauser.
A história da bateria no be bop e no free jazz está em permanente
revisão, mas este não é um compilador de estilos;
antes alguém que, conhecendo o passado, usa-o para ir mais adiante.
Jack
Curtis Dubowsky: "Jack Curtis Dubowsky Ensemble I" (De Stijl
Music)
Jack Curtis Dubowsky: "Jack Curtis Dubowsky Ensemble II" (De
Stijl Music)
O que ouvimos nestes dois lançamentos contíguos de Jack
Curtis Dubowsky é um jazz electrónico e com dimensão
"groovy", construído sobre malhas rítmicas repetitivas
(fornecidas pelo baterista Fred Morgan e exponenciadas pelo baixo de som
cavo, à Bill Laswell, do líder) e curiosamente com mais
inspiração no rock do que na "club music". Tem
um lado "dark" que adensa a estranheza sugerida pelos sintetizadores
analógicos (também tocados por Dubowsky), mas a proposta
não encaixa com a generalidade das utilizações dos
mesmos meios e vocabulários. Sabendo que o teclista e baixista
norte-americano tem como mais habitual actividade a composição
de música contemporânea e para cinema (além de ele
próprio ser um premiado cineasta experimental, com a paródia
"gay" "Mr. Jones"), ficamos a perceber porquê.
Também Morgan (e o trombonista Hall Goff, que surge apenas no primeiro
CD) fez o seu percurso em orquestras sinfónicas e de câmara.
Fica explicada a (por vezes desconcertante) frescura da abordagem.
Mark
Alban Lotz & Lotz of Music: "Bite!" (Loplop)
Muito curioso, este disco. Em frequentes momentos parece estarmos a ouvir
uma edição do período áureo da Blue Note,
aquele em que obras de grande fôlego tinham uma sonoridade ao mesmo
tempo acessível. A verdade, porém, é que a música
de "Bite!" é bem dos nossos dias e não de mera
reprodução de um modelo do passado. E se alguns dos temas
são pacificamente "de jazz", outros têm recorte
"clássico" e outros ainda incluem elementos étnicos
orientalizantes (o holandês Mark Alban Lotz viveu alguns anos na
Tailândia). Neste CD sobre peixes e mar, as flautas do líder
(em dó, alto, baixo, contrabaixo, bansuri) estão no centro,
com piano, por vezes preparado, violoncelo e percussão (não
há bateria) em volta. Se exceptuarmos alguns melodismos chapa 5,
até que é bom, muito bom.
Chant:
"... Ma Io Ch'in Questa Lingua" (Auand)
A energia dos temas tocados pelo trio italiano Chant tem feito com que
este seja erradamente comparado com Medeski, Martin & Wood. É
certo que, na música de Libero Mureddu, Antonio Borghini e Cristiano
Calcagnile, encontramos reminiscências da fusão, mas tudo
o mais é bem distinto daquele outro grupo. A começar pelo
instrumentário: se Mureddu utiliza sintetizadores e um clavicórdio
eléctrico, a sua opção vai, sobretudo, para teclados
acústicos como o piano, o cravo, o órgão de tubos
e o harmonium. O mesmo multi-instrumentismo é adoptado por Borghini,
que divide a sua atenção entre o contrabaixo, o violoncelo
e o baixo eléctrico, e por Calcagnile, que junta percussão
diversa e o glockenspiel à bateria. Daí resulta uma enorme
variedade tímbrica, bem acompanhada por uma invulgar (nestes domínios)
abertura estética e por um evidente gosto pela improvisação
sem cifras.
The
Emergency String (X)tet: "Meridians" (Setola di Maiale)
Massimo Falascone / Bob Marsh: "Non Troppo Lontano" (EH?)
Violoncelista que também utiliza a electrónica e a voz (em
"Non Troppo Lontano" surgindo a tocar violino), o americano
Bob Marsh vem impondo cada vez mais o seu nome na área da livre-improvisação,
confirmando que esta não é apenas uma causa europeia. O
seu Emergency String (X)tet foi fundado logo na sequência do desmembramento
do Phenomenal String Quartet de Fred Lonberg-Holm, que integrava, e como
o próprio nome indica tem formação variável.
Em "Meridians", estão com ele Doug Carroll (violoncelo),
as violinistas Adria Otte e Angela Hsu e o contrabaixista Tony Dryer,
colectivamente elaborando uma música feita de detalhes, com um
volume geralmente baixo, que não é estranha à escrita
para cordas de um Xenakis – com a substancial diferença,
claro está, de que é inteiramente espontânea. Já
o duo de Marsh com o saxofonista italiano Massimo Falascone tem mais afinidades
com o jazz – se não são directas, em Falascone reconhecemos
uma filiação com o estilo West Coast, designadamente o personificado
por Paul Desmond e Warne Marsh. As vocalizações e os dispositivos
electrónicos procedem como que a abruptos salpicos de som, construindo
um panorama sonoro feito de "flashes" e frases (entre)cortadas.
Duas propostas, portanto, a merecerem toda a atenção.
Andreas
W Andersson: "For Others" (Compunctio)
Mais um nome a reter da cena sueca do jazz de hoje, Andreas W Anderson,
membro do trio Plunge, dedica-se neste infelizmente curto EP ao mais improvável
dos solos absolutos, porque tocado com um saxofone barítono. Trata-se
da gravação ao vivo de uma actuação no festival
da editora Compunctio e nele ouvimos uma exploração contrastada
dos mais graves e dos mais agudos registos deste instrumento, temperada
por uma abordagem melódica que impede, engenhosamente, a secura
que seria previsível com tal formato. Muito interessante, sem ser
fantástico.
Never
Enough Hope: "The Gift Economy" (Contraphonic)
Em época de crise económica global, imaginar-se-ia que o
formato orquestra estaria condenado, mas o certo é que volta e
meia vão surgindo propostas que se propõem renovar, ou pelo
menos refrescar, os modelos bigbandísticos do jazz. Esta que dá
pelo nome (bem apropriado) de Never Enough Hope é a de Tobin Summerfield,
um dos obreiros da cena de Chicago. E como não podia deixar de
ser, conta com os habituais activistas da Cidade do Vento, como, para
só designar alguns, Aram Shelton, Dave Rempis, Keefe Jackson, Jason
Ajemian e Frank Rosali. Recorre-se bastas vezes às figuras repetitivas
do minimalismo e o "drive" tem a compulsão do rock e
um envolvimento camerístico, o que a inclusão de cordas
de arco mais evidencia. Sem dúvida, uma proposta a considerar.
Eugene
Chadbourne: "Chadbourne Volunteer Fire Department and Rescue Squad"
(Rossbin)
O "enfant terrible" da improvisação que vem fazendo
a ponte com o country tem neste álbum uma colecção
de canções políticas de protesto, por si interpretadas,
despretenciosamente e em registos indubitavelmente caseiros, com a família
e com amigos próximos. O banjo está em destaque e musicalmente
encontramos de tudo, incluindo blues, folk e rock psicadélico.
O objectivo foi fazer um disco que reproduzisse o amadorismo popular das
raízes daquilo a que se vai chamando de Americana, e a esse nível
o que aqui vem parece mesmo um documento etnomusicológico, ouvindo-se
com o maior prazer.
Blastula:
"Scarnoduo" (Amirani Records)
Blastula é o nome do duo formado por Cristiano Calcagnile, um dos
mais relevantes bateristas do jazz italiano, e pela vocalista e actriz
Monica Demuru, e "Scarnoduo" um compêndio de improvisações
em que pelo meio surgem temas populares, citações, textos
e estruturas de intermediação. Se a ideia é feliz,
pois inverte os procedimentos convencionais (regra geral, nestes terrenos
é a composição que encerra a improvisação
nos seus parâmetros), na prática nem sempre funciona. E isso
porque situações de galvanizante interacção
dão lugar a passagens de incompreensível puerilidade, frustrando
o ouvinte – este pelo menos – precisamente nos momentos em
que começava a ficar conquistado.
Ricardo
Rocha: "Luminismo" (Mbari)
Norberto Lobo: "Pata Lenta" (Mbari)
Tó Trips: "Guitarra 66" (Mbari)
Ricardo Rocha, Norberto Lobo e Tó Trips têm como comum característica
o facto de serem músicos desalinhados, não sendo possível
colocar rótulos definidos às obras que vão colocando
em disco. Rocha parte do fado, mas entra nos domínios da música
erudita. Lobo tem afinidades com a folk americana, mas a sua abordagem
é camerística e incorpora influências orientais. Trips
é originário do rock, mas há muito que saiu desse
âmbito. Mas há mais que se diga sobre as suas respectivas
propostas: Rocha teve já como intérprete das suas composições
(em "Voluptuária") um dos mais importantes pianistas
do jazz nacional, João Paulo Esteves da Silva, se bem que num instrumento
que é habitualmente estranho à linguagem jazzística,
o cravo. Lobo assume entre as suas influências figuras como John
Coltrane, Thelonious Monk ou Sun Ra e mantém um projecto de trio
com o irmão Manuel e com o baterista João Lobo (ouvimos
este com Enrico Rava, os Tetterapadequ ou o Riccardo Luppi's Murmure),
sendo que o seu alicerçamento na chamada Americana, via John Fahey
e Robbie Basho, integra elementos dos blues. Percorrendo as pistas abertas
por Marc Ribot, Tó Trips é metade do duo Dead Combo, dedicado
a uma curiosa mistura em que predominam o country e a música popular
portuguesa e tendo como parceiro um contrabaixista e baixista de jazz,
Pedro Gonçalves, membro também dos Mikado Lab de Marco Franco.
Partilham, os três, a reverência por Carlos Paredes, o virtuoso
guitarrista que se tornou num ícone da portugalidade musical e
chegou a tocar com Charlie Haden, revelando uma surpreendente capacidade
como improvisador. Outro factor que os une além de tocarem o mesmo
instrumento (Ricardo Rocha na variante da guitarra portuguesa) e de comporem
é o facto de abrirem caminhos de inovação, se bem
que longe das lógicas do vanguardismo.
Acompanhante habitual dos fadistas Maria Ana Bobone e Carlos do Carmo
ou intérprete de temas dos Paredes, pai e filho, e de Pedro Caldeira
Cabral, é a solo e com as suas composições que Ricardo
Rocha vem impondo muito mais do que a sua extraordinária capacidade
técnica, mormente um visionarismo musical que está a emancipar
o seu cordofone e a conduzi-lo para outros investimentos que não
os da tradição. Nessa medida, o novo "Luminismo"
é, mais do que uma obra de "guitarradas", um brilhante
feito no contexto da música contemporânea. A circunstância
de o segundo CD deste duplo álbum ser integralmente tocado ao piano
(por Ingeborg Baldaszli) denota que as suas perspectivas ultrapassam em
muito o domínio musical que projecta para a guitarra portuguesa.
Se as primeiras peças, escritas em homenagem a Scriabin, confirmam
o seu interesse pelas formas eruditas, são aquelas em que aplica
os conceitos dodecafónicos do serialismo que nos arrebatam, acrescentando-se
ao melhor que já foi realizado entre nós (por Jorge Peixinho)
com tais processos. O serialismo pianístico é, no entanto,
chão que já deu muitas uvas. Rocha surpreende verdadeiramente
quando utiliza as séries e outros recursos inéditos com
a guitarra portuguesa. E que o faça com a beleza estética
aqui testemunhada é admirável, sendo apenas de assinalar
menos positivamente algum excesso de reverberação no registo.
O mesmo amor que Carlos Paredes tinha pelas peças para cravo de
Carlos Seixas transparece no primeiro CD de "Luminismo", mas
é inútil procurarmos outros padrões alusivos: simplesmente,
não existem. Ricardo Rocha está a construir algo do quase
zero.
Já Norberto Lobo surge na esteira do "boom" do "fingerpicking"
guitarrístico dos anos 00, reciclador das raízes mais profundas
da música rural norte-americana, mas integrando influências
da clássica indiana para sitar e outras vindas da improvisação
e de algum experimentalismo, em especial o de Jim O'Rourke. O que faz,
porém, não é uma mimetização estilística
dos formatos da new folk: Lobo tem uma voz própria e esta faz transparecer
a sua condição de português. Pode ele acreditar que
"identidade cultural" é algo que não existe (entrevista
ao jornal Público), mas a sua (nossa) encontramo-la ao longo de
"Pata Longa". Paredes não está agora no alinhamento
e em vez do cancioneiro luso é a cantautora pop islandesa Bjork
que surge interpretada, num muito bem urdido arranjo, mas nem por isso
este disco poderia ter sido concebido e tocado em outro ponto do globo.
O que lhe ouvimos na guitarra é deslumbrante, sendo Norberto Lobo
capaz, por exemplo, de desenvolver em paralelo três linhas discursivas,
sem sobregravações (só num tema é acompanhado
por Luís Martins), mas o que mais agrada é o seu virtuosismo
estar ao serviço da música e não de manifestações
egotistas. Em relação ao anterior "Mudar de Bina",
este é claramente um disco de consagração pessoal
e de solidificação de um projecto.
Embora abaixo do nível de excelência de "Luminismo"
e "Pata Longa", "Guitarra 66", de Tó Trips,
é outro caso sério da presente música guitarrística
nacional. Intervalo acústico na habitual produção
do dedilhador que já pertenceu a grupos do rock alternativo como
Santa Maria Gasolina em Teu Ventre e Lulu Blind, fica especialmente evidenciado
o seu gosto pela matriz "bluesy", surpreendendo-nos um intimismo
que lhe desconhecíamos. Os temas incluídos são impressões
de viagem, com maior relevo aquelas que resultam da sua passagem por países
árabes, cuja música, como é sabido, está de
alguma maneira no código genético da portuguesa. O CD não
tem, no entanto, o mesmo fôlego e a mesma profundidade dos outros
títulos, dele emanando uma certa ligeireza que, se o torna mais
acessível, também lhe diminui o impacto.
Jason Kahn: "Timelines Los Angeles"
(Creative Sources)
Americano de nascimento, mas há longos anos radicado na Europa
e plenamente inserido na cena electrónica do velho continente,
Jason Kahn volta neste disco a utilizar partituras gráficas de
sua autoria, tal como acontecera com "Timelines" (então
com as participações de Tomas Korber, Steinbruchel, Christian
Weber, Gunter Muller e Norbert Möslang). O princípio seguido
assemelha-se ao desse CD: a criação daquilo a que chama
de "situação social", segundo parâmetros
predefinidos, mas prevendo a plena expressão da interactividade
individual e da espontaneidade (re)criativa dos intervenientes. São
eles neste regresso de Kahn a Los Angeles o saxofonista alemão
Ulrich Krieger, um respeitado intérprete da música contemporânea
pós-John Cage com actividade também na improvisação
(é membro do grupo Text of Light, ao lado de Lee Ranaldo, Alan
Licht, DJ Olive e Tim Barnes), a compositora Olivia Block, aqui no piano
preparado, e um ex-integrante do colectivo de computadores The Hub, Mark
Trayle.
Nos últimos anos reconciliado com o seu instrumentário primeiro,
a percussão (começou por ser um baterista do jazz "straight-ahead"),
Jason Kahn volta aqui a propor uma visão particular da electroacústica,
mais próxima dos conceitos da música improvisada do que
dos da escrita e académica. São três os momentos desta
longa peça: um primeiro em que as várias contribuições
se vão agregando, outro em que a homogeneidade sonora obtida cresce
em intensidade e densidade, e finalmente um último em que os elementos
“em cena” se apaziguam e finalmente desaparecem. O que quer
dizer que, se antes caracterizava o trabalho de Kahn a ilusão de
um tempo suspenso, este é reintroduzido como um factor determinante,
e tanto assim que ficamos com a impressão de estar a construir-se
uma trama. Sinal dos tempos, porventura: este tipo de intervenção
já se quis estático, mas agora move-se e propõe narrativas.
Led Bib: "Sensible Shoes" (Cuneiform)
Gutbucket: "A Modest Proposal" (Cuneiform)
Por esta altura, só não acredita na morte do jazz de fusão,
vulgo jazz-rock, quem não percebeu que, algures na década
de 1970, este se estava a dirigir para um beco sem saída. Porque
ficou exaurido de ideias e também porque o quiseram comercialmente
pasteurizado. E no entanto, algo lhe sobreviveu: a equação
proposta por "Bitches Brew" de Miles Davis, do lado do jazz,
e por "Three" dos Soft Machine, do lado do rock, foi retomada
mais adiante com a descoberta de que a vertente free do jazz, a música
contemporânea menos académica, o punk e o metal ofereciam
vocabulários que a podiam revitalizar. Para tal, foi necessário
chegar a uma verificação que tardava: a de que as principais
virtudes dos investimentos "crosscurrent" originais tinham sido
a inovação e o não-conformismo. As bandas Led Bib,
britânica, e Gutbucket, norte-americana, surgem no âmbito
deste novo estádio fusionista.
Ambas as formações ganharam um rótulo tão
(des)propositado quanto qualquer outro: o de death jazz. Se com a designação
se procura referir a energia e o "rocking power" da música
dos Led Bib, até que se aplica. A esse nível seguem o exemplo
dos também londrinos Acoustic Ladyland, com a diferença
de que não se deixam enquadrar nas coordenadas em questão
da forma algo simplista dos seus antecessores – a esse nível,
“Sensible Shoes” é tão entusiasmante em termos
de criatividade e inventividade quanto de performance. Ao longo do álbum,
há sempre mais uma faceta para descobrir (repare-se em "2.4.1.",
um tributo à compositora electrónica Delia Derbyshire, arranjadora
do tema musical da série televisiva "Doctor Who") e uma
maior riqueza de conteúdos. O que os caracteriza, sobretudo, é
terem uma "frontline" com dois saxofones alto – a principal
referência está nos Prime Time de Ornette Coleman, mas com
o filtro de "Spy Vs. Spy", o disco-duelo de John Zorn e Tim
Berne.
Os Gutbucket são um tudo-nada menos impactantes em "A Modest
Proposal", e isso talvez devido à sobrevivência de algumas
premissas do rock progressivo e às influências "eruditas"
(stravinskyanas?) na escrita dos temas, o que, de resto, faz com que estejam
habitualmente envolvidos nas produções do colectivo Bang
on a Can. Agora com um novo baterista, Adam D Gold, mantêm os propósitos
de quando começaram, há dez anos: fazer uma música
aberta, mas com ênfase proto-hardcore. Continuam a ser bons nisso,
mas já se lhes ouviu melhor.
Bobby Previte: "Pan Atlantic"
(Auand)
Gianluca Petrella / Antonello Salis / Bobby Previte: "Big Guns"
(Auand)
Se ambos estes discos envolvendo Bobby Previte e Gianluca Petrella têm
uma evidente dimensão cinematográfica (podíamos tomá-los
como bandas sonoras de "films noirs"), diferencia-os o facto
de "Pan Atlantic" se sustentar em composições
do baterista e de "Big Guns" ser uma colecção
de improvisações sem tema – se bem que igualmente
de orientação idiomática.
Comecemos pelo álbum editado primeiro (ainda em 2008), "Big
Guns"... Ainda que com saldo mais do que positivo, trata-se de uma
edição algo desigual. Momentos de entusiasmante rasgo intercalam-se
com passagens que ora são derivativas no fluir improvisacional,
indicando perdas de rumo ou desfocagens de propósito, ora constroem-se
em torno de motivos umas vezes pueris e outras desadequados. Previte,
Petrella e Antonello Salis parecem mais apostados em tomar as constantes
citações de estilos (blues, jazz-rock, free jazz, be bop)
e de modos de abordagem instrumental (o Hammond B-3 tocado à maneira
de Jimmy Smith, por exemplo) como "partituras" condutoras do
que em verificar onde os leva a livre interacção a três.
Bobby Previte impõe-se como um gestor do tempo na bateria, em certas
ocasiões de forma bastante afirmativa, e Gianluca Petrella prefere
colocar-se ao serviço do todo musical no lugar de evidenciar os
seus invulgares dotes como solista no trombone – aliás, em
bastas circunstâncias trata os sons do seu instrumento por meio
de efeitos electrónicos (nem sempre interessantes), com objectivos
meramente colorísticos. Porque um está muito fixo no seu
papel e o outro trabalha para os resultados globais, o elemento mais flexível
do trio acaba por ser Salis, dividindo-se este irrequietamente entre o
piano, o órgão e o Fender Rhodes. É dele a prestação
mais conseguida, com uma abordagem swingante dos materiais e sempre algo
a dizer de oportuno.
Em "Pan Atlantic", a mestria baterística de Previte ganha
um melhor enquadramento e somos lembrados de que estamos também
perante um compositor de alto mérito, seja na força e na
imediatez dos temas melódicos em uníssono ou em contraponto
(com Petrella e Wolfgang Puschnig, saxofonista da Vienna Art Orchestra
e das "big bands" mais recentes de Carla Bley, em íntimas
colaborações) como na pouco ortodoxa estruturação
das peças, passando esta por imprevistos cortes e mudanças
de direcção. O trombonista habitual de Enrico Rava ganha
maior projecção, com prestações de excelência,
mas mais uma vez é o homem das teclas que se destaca: no piano
eléctrico, em vez do (seu) habitual piano preparado, Benoît
Delbecq faz maravilhas. Curiosamente, é com o Fender Rhodes em
solo absoluto, tocado por Bobby Previte (!), que termina o CD com uma
composição elíptica e de estranha beleza.
"Pan Atlantic" é um bom exemplo de como a cuidada manutenção
de atmosferas é vital para uma música cujas significâncias
não se limitem à expressão de emoções.
Resulta uma obra onírica que tem tanto de mistério quanto
de suspense, sem condicionar os conteúdos a um mero ambientalismo.
As coordenadas são as históricas do jazz eléctrico,
o que significa que contêm a energia do rock, mas com um sentido
de contemporaneidade e uma abertura formal absolutamente notáveis.
Seabrook
Power Plant: "Seabrook Power Plant" (Loyal Label)
Neste disco de estreia do novo projecto do nova-iorquino (de Brooklyn)
Brandon Seabrook, antigo membro de uma banda dada a conhecer na colecção
New Radical Jewish Culture da Tzadik de John Zorn, Naftule's Dream, há
momentos em que ouvimos reminiscências dos Minutemen e outros em
que transparece a influência de Eugene Chadbourne. A música
é um jazz tresloucado, com tanto de folk e country (invocados pelo
banjo virtuosístico do líder) quanto de punk e trash metal.
Tom Blancard (contrabaixo) e Jared Seabrook (bateria) formam uma secção
rítmica possante, essencial para a expressividade altamente energética
que nestes temas se encontra, mas é mesmo Brandon quem mais nos
entusiasma, inclusive quando achamos que recorre demasiadas vezes a truques
pirotécnicos.
Mike
Olson: "Incidental" (Henceforth Records)
O americano Mike Olson apresenta em "Incidental" um novo episódio
de uma abordagem da música que ganhou contornos e características
muito específicos. Mais uma vez, mas neste álbum com especial
sucesso, gravou fragmentos musicais improvisados por vários instrumentistas
e depois manipulou-os em computador, fazendo do acto de compor um trabalho
de combinação e transformação. Com uma particularidade:
também com o "software" ele procurou improvisar, adoptando
uma lógica relacional de audição e reacção.
O processo está longe de ser inédito (em Portugal, Nuno
Rebelo utiliza-o), mas ganha aqui o seu máximo refinamento.
Ergo:
"Multitude, Solitude" (Cuneiform)
Depois de uma auspiciosa estreia em 2006, o trio norte-americano Ergo
volta e editar e confirma as expectativas então criadas. O instrumentário
não é o mais vulgar, com Brett Sroka ligando o seu trombone
a um computador, Carl Maguire repartindo-se entre o velho Fender Rhodes
e uns igualmente "vintage" sintetizadores analógicos,
e Shawn Baltazor cobrindo a retaguarda na bateria. Neste disco o jazz
vai mais além, adoptando um carácter ambiental que lembra
algumas opções do chamado pós-rock e de um grupo
como os Sigur Rós. A coisa podia não resultar, mas funciona.
Juozas
Milasius: "Slow" (Nemu Records)
Apesar de apontado como o "enfant terrible" do jazz lituano,
neste álbum a solo o guitarrista Juozas Milasius não parece
particularmente rebelde. A música é acessível e o
seu carácter introspectivo e melódico cativa logo à
primeira audição, sem nunca surpreender verdadeiramente
e sem correr excessivos riscos. Detectam-se afinidades com Marc Ribot,
mas no geral o que ouvimos sugere um Robert Fripp que tivesse particular
deferência pelos blues. Os temas são minimalistas e paisagísticos,
e por vezes o recurso ao "multi-tracking" serve para se sobreporem
camadas de materiais sonoros. Milasius está conotado com as abordagens
noise, mas nada disso transparece nestes temas.
Materiale
Umano: "Scoolptures" (Leo Records)
Se o mais conhecido dos membros do quarteto italiano Materiale Umano é
Achile Succi (clarinete baixo, saxofone alto, shakuhachi), os restantes
compensam a pouca projecção extra-fronteiras com prestações
de alta qualidade: Nicola Negrini (contrabaixo, metalofone, electrónica),
Philippe Garcia (bateria, voz, electrónica) e Antonio Della Marina
(electrónica) são nomes a fixar. O que aqui vem é
improvisação electroacústica com matriz jazzística
e dimensão humana. Intensa, mas muito focada, com uma honestidade
estética e uma competência técnica de aplaudir. Dizem
os MU que a inspiração foram buscá-la ao conceito
do tempo de Heidegger e às perspectivas de Jung quanto à
sincronicidade – seja como for, na prática tudo parece natural
e espontâneo.
Katja
Krusche / Martin V. Krusche: "I Am One – Stories From the Worlds
In-between" (Leo Records)
Este é um disco que se ouve muito bem, e sabendo-se que anteriormente
os austríacos Katja e Martin Krusche gravaram um álbum de
tangos, e que a primeira já se dedicou à "chanson française",
maior a surpresa desta audição. De facto, os vocais de Katja,
próximos de Lauren Newton e totalmente dentro dos léxicos
da livre-improvisação, nada têm que ver com esses
universos. Influência por influência, a que mais se detecta
é a da tradição popular centro-europeia, sublinhada
pela sonoridade do acordeão de Martin.
Jan
Klare / Bart Maris / Wilbert de Joode / Michael Vatcher: "Played
1000" (Leo Records)
Dedicado a explorar as várias possíveis relações
entre escrita e composição imediata, vulgo improvisação,
este quarteto junta duas luminárias da cena holandesa, o contrabaixista
Wilbert de Joode e o baterista (americano de nascimento) Michael Vatcher,
a dois músicos de outras proveniências: o saxofonista alto
alemão Jan Klare, líder do grupo e principal autor das peças
tocadas, e o trompetista belga Bart Maris, conhecido pelas suas colaborações
com Peter Vermeersh em bandas como Flat Earth Society e X-Legged Sally.
Nada é recusado à partida: se há refrões melódicos,
também nos deparamos com desafios à tonalidade. O número
1000 do título alude ao facto de a estreia do projecto ter acontecido
na série de concertos 1000 Years of Jazz, em 2004. Leo Feigin continua
a saber escolher bem os discos que coloca no seu catálogo...
Donat
Fisch / Christian Wolfarth: "Circle & Line 2" (Leo Records)
Dez anos depois da edição de "Circle & Line",
os suíços Donat Fisch e Christian Wolfarth (uma presença
habitual na Leo Records) voltam a inserir-se na linhagem do duo de saxofone
e bateria aberta por Dewey Redman e Ed Blackwell. A esse nível,
o que aqui ouvimos é previsível e pouco acrescenta ao que
antes fizeram e mesmo ao modelo que perseguem, mas a música é
tão poderosa e a interactividade a que conseguem chegar tão
efectiva que depressa esquecemos esse factor. Acresce uma mais-valia:
passada uma década, Fisch e Wolfarth estão mais maduros
e seguros, e isso quer dizer que tocam melhor.
Plaistow:
"Jack Bambi" (Edição de Autor)
Numa embalagem graficamente muito atraente, os Plaistow de Johann Bourquenez,
Raphael Ortiz e Cyril Bondi juntam um CD com o francamente interessante
"Jack Bambi", em que se dedicam a um híbrido de jazz
e drum 'n' bass, com um DVD no qual tocam ao vivo e a que acrescentam,
em áudio apenas, os EPs "Los Criminales Reciclados" e
"Do You Feel Lucky?". A prestação captada em vídeo
não convence (inclusive pelos maus efeitos utilizados), e isso
não obstante os alguns positivos momentos musicais: o trio parece
apostado em ir visitando, uma a uma, várias abordagens possíveis
– estas vão do universo de Keith Jarrett ao de Steve Reich,
com passagem algo espúria pela improvisação abstracta,
ficando por estabelecer uma identidade única e própria.
O melhor que encontramos é a performance em sexteto do grupo com
Michel Wintsch, Cyril Moulas e Nicolas Field.
Lisa
Ullén / Nina de Heney: "Carve" (LJ Records)
Um piano e um contrabaixo tocados com técnicas extensivas e preparações.
As peças são totalmente improvisadas e têm dimensão
experimental, com primado no som propriamente dito e referências
escultóricas, mas óbvia se torna, aqui ou ali, a sua ancoragem
tanto na música erudita contemporânea como no avant-jazz.
Nisso, nada de inédito: o importante é que as suecas Lisa
Ullén e Nina de Heney improvisam no feminino. Como neste duplo
álbum fica provado, a música tem mesmo sexo. É têxtil
e lunar, feita de meticulosidades e mistérios, esperas e humores.
Num momento é quase nada, um murmúrio apenas, para no seguinte
irromper como uma vaga no oceano.
Kim
Johannesen / Svein Magnus Furu: "The Ecologic" (Creative Sources)
Em trio com o baterista Tore Sandbakken, os noruegueses Kim Johannesen
(guitarras) e Svein Magnus Furu (saxofone, clarinete) tocam um jazz mais
formal e alicerçado sobre o ritmo e a melodia, não muito
distante do do trio de Paul Motian com Bill Frisell e Joe Lovano. Em duo,
encontram a liberdade necessária a um investimento abstracto, de
certo modo alinhado com o reducionismo, mas preferindo neste a lógica
textural à interiorização do modelo "near silence".
Fazem-no, até, revelando um sentido de musicalidade que muitas
vezes está ausente desta corrente da mais radical improvisação
livre. Sem dúvida, intrigante.
Matt
Weston: "Seasick Blackout" (7272 Music)
Em termos de execução instrumental, o norte-americano Matt
Weston é percussionista, mas o trabalho que vem desenvolvendo –
brilhantemente documentado por este "Seasick Blackout" –
entra nos parâmetros do concretismo. O recurso à electrónica
é mais combinatório do que propriamente de processamento,
e nesse sentido diverge do vulgar "sampling". Por exemplo, em
"You're Not That's Right", uma cadeira a arrastar-se faz as
vezes de um saxofone a solar, e é por isso mesmo que resulta interessante.
As peças têm dimensão orquestral, mas não são
cordofones e sopros o que ouvimos: todos os sons foram produzidos por
Weston com o seu arsenal percussivo.
D'Incise:
“Sécheresse Plantée en Plein Ciel” (Gruenrekorder)
D'Incise: “Cendre et Poudre” (Antisocial)
D'Incise: “Les Lendemains Étendus” (Audioactivity)
D'Incise: “Morsure Souffle” (Test Tube)
Com o "nickname" musical de D'Incise, o suíço
Laurent Peter é uma presença frequente na cena do jazz livre
e da música improvisada em Portugal, por cá tendo tocado
com músicos como Ernesto Rodrigues, Paulo Curado, João Pedro
Viegas, Abdul Moimême, Hernâni Faustino e Pedro Sousa, em
colaborações directas ou inserido no duo Diatribes, projecto
que partilha com o baterista Cyril Bondi. Mentor da "netlabel"
Insubordinations, que já lançou um colectivo português,
o Potlatch de Monsieur Trinité, está igualmente envolvido
com a Audioactivity e é ele próprio quem se encarrega da
arte e do excelente "design" das suas muitas edições
– sempre com uma deliciosa apresentação artesanal.
Todas as que aqui reúno datam de 2009, um ano especialmente produtivo
para este "laptoper" que gradualmente vem incidindo a sua atenção
no uso de microfones de contacto e em curiosas manipulações
da percussão e de objectos vários, bem como na recolha e
no processamento de "field recordings". Ainda que de qualidade
desigual, todos estes discos constituem renovadas facetas daquele que
apresenta como «um universo feito de fracturas sonoras, crepitações
nevrálgicas, atmosferas melancólicas e um fascínio
não-dissimulado por ritmos em fritura».
Sobretudo, D'Incise soube adaptar as perspectivas da electrónica
ambiental e noise à prática improvisacional, utilizando
os meios digitais e analógicos numa música que se preocupa,
acima de tudo, com o carácter acústico das construções.
Aliás, neste âmbito a sua gestão das dinâmicas
e dos espaços constitui um raro exemplo de adequação.
Não se trata apenas de uma particularidade de estilo: o objectivo
a que se propõe é precisamente esse, «diluir a distinção
entre sons acústicos e sons computadorizados, de modo a confiundir
as percepções», mesmo que a música resultante
seja algo de «instável» e «reactivo». No
trabalho que realiza em colaboração com outros músicos
(a célula Diatribes tem por hábito chamar à participação
instrumentos convencionais como o piano ou o saxofone) assume mesmo o
risco de cruzar o seu "modus operandi", baseado na criação
e na sustentação de texturas, com, da parte dos convidados,
vindos estes geralmente do jazz, uma lógica que tem a nota como
fundamento e o fraseado linear como regra. Umas vezes esses encontros
resultam menos bem, senão mal, mas em outras proporcionam-se especiais
surpresas.
Seja como for, é a solo que melhor compreendemos aquilo que D'Incise
procura, e é esse o caso destes registos. O menos interessante
será "Sécheresse Plantée en Plein Ciel",
não pela música proposta, que chega em alguns momentos a
requintes de sombria beleza, mas porque cai em redundância a nível
de materiais e de atmosferas. A meio caminho, a audição
torna-se cansativa e apetece tirar o CD do leitor. Com o mesmo enquadramento,
"Cendre et Poudre" é bastante mais convincente. Os temas
oferecem diferentes perspectivas e os jogos percussivos são não
apenas sonicamente mais ricos, como evoluem em permanente mutação,
ora impondo-se pela densidade, ora cativando-nos por meio de um intrigante
efeito de transparência. Não foi por acaso que a crítica
suíça apontou Laurent Peter como um «plasticista sonoro».
Percebe-se, inclusive, que são aplicadas técnicas do dub
– para quem não saiba, o nome dado ao reggae tratado e criativamente
remisturado em estúdio. A transposição de metodologias
específicas de um género musical para outro, separando-as
da sua gramática, é um dos sinais distintivos do presente
estádio da criatividade musical.
Novo tratado do ritmo em contexto de abstracção, "Les
Lendemains Étendus" volta a ser pouco "listener friendly",
pecando pela reduzida variabilidade das abordagens. O seu conteúdo
tem bons argumentos, mas depressa, malogradamente, nos entedia. D'Incise
corta a direito, dirigindo-se ao ponto onde quer chegar sem grandes desvios,
mas o que a ele pode significar objectividade, para o ouvinte torna-se
num bocejo. Já "Morsure Souffle" é a pérola
deste lote. Para as mais-valias obtidas muito contribui a generosa inclusão
de "found sounds". Neste trabalho sim, é difícil
adivinhar o que vai acontecer de seguida, tal a abertura de possibilidades
inerente ao campo em exploração. O que normalmente Peter
faz com objectos amplificados, consegue com ainda maior proveito recorrendo
ao seu banco de sons. Poucas vezes uma música improvisada tem igualmente
uma índole laboratorial, pelo que encontramos neste álbum
o melhor de dois mundos. Atrevo-me mesmo a dizer que este CD é
disso paradigmático. Ou seja, um exemplo a seguir.
Orchestre
National de Jazz: “Around Robert Wyatt” (Bee Jazz)
Ed Palermo Big Band: “Eddy Loves Frank” (Cuneiform)
Prova provada de que o jazz pode visitar os jardins floridos da pop com
resultados de qualidade superior (o que regra geral se verifica é
precisamente o contrário), o duplo "Around Robert Wyatt"
é não só uma boa surpresa no trajecto da Orchestre
National de Jazz, que nem sempre mostra trabalho digno de igual nota*,
como constitui um dos grandes álbuns do ano que passou. É
certo que Robert Wyatt não é uma típica personagem
da dita música popular urbana. Enquanto membro dos Soft Machine
foi um dos arautos primeiro do rock psicadélico europeu e, depois,
da fusão jazz-rock mais coerente e criativa. A solo, centrando
a sua atenção na voz e na composição (uma
queda prendeu-o a uma cadeira de rodas, impedindo-o de tocar bateria),
forjou um continuado projecto de refinamento do formato canção.
Wyatt foi mesmo o pioneiro da pop sofisticada que abriu caminho a nomes
como David Sylvian, Scott Walker, Bjork ou, mais recentemente, Antony.
Por sua vez, os músicos escolhidos por Daniel Yvinec (contrabaixista
cada vez com maior evidência) para mais uma temporada da orquestra
estatal de jazz de França não são os mais evidentes
dos "jazzmen". Na lista encontramos dedicações,
paralelas ou não, à improvisação livre, à
experimentação e à world music. Trata-se de instrumentistas
com múltiplos interesses e capacidades, tal como é distintivo
das novas gerações que assimilaram o conceito de pós-modernidade.
Só músicos com este perfil, aliás, poderiam levar
a bom porto os muito particulares arranjos assinados por Vincent Artaud
– "jazzy" sem dúvida e herdeiros da "musividência"
de Duke Ellington e Gil Evans, mas ao serviço dos temas do homenageado,
e em muitos casos com uma elegância que os aproxima da música
de câmara. Além disso, se seria mais natural que a ONJ se
lançasse a versões instrumentais do "songbook"
de Robert Wyatt, o que convenhamos soaria a muito pouco, a opção
passou pelo convite a cantores de orientações diversas para
se juntarem à "big band", alguns deles intervindo nas
suas próprias línguas. O próprio autor de "Rock
Bottom" surge num punhado de versões, e a verdade é
que poucas vezes o ouvimos recentemente em contexto tão favorável.
"Eddy Loves Frank" é outro disco de "covers",
desta feita de partituras escritas por Frank Zappa. O que Ed Palermo se
propôs fazer é substancialmente diferente da abordagem de
Yvinec – se a estratégia perseguida por este equaciona a
fidelidade relativamente aos traços gerais das canções
com inesperadas roupagens, o músico norte-americano procede a distilações
jazz de uma música que originavelmente associava este com o rock
e com os conceitos serialistas de Schoenberg e Varèse. Reter apenas
uma das vertentes da complexa personalidade musical de Zappa parece redutor,
mas para todos os efeitos foi o que este fez no final da sua carreira
quando se dedicou a um rock virtuosístico destituído de
interesse, na sequência do seu fascínio pelas capacidades
do guitarrista Steve Vai. O produto final é tão bem conseguido,
que questões musicológicas como essa se tornam secundárias,
só não sendo motivo de mais aplauso porque pouco adianta
a anteriores dedicações de Palermo ao repertório
zappiano.
O saxofonista e arranjador nova-iorquino pode amar Frank Zappa, mas é
muito claramente através do prisma de Ellington que o ouve. Este
Zappa swinga como nunca o original o fez e dá um largo espaço
aos solos improvisados. De resto, estes ocupam o lugar dos vocais nos
discos gravados pelos Mothers of Invention, nesse aspecto alinhando pela
maioria dos procedimentos quando o jazz visita o património de
outra área da música popular. Só na derradeira faixa
se canta, mas já é com uma sensação de estranhamento
que nos lembramos de um facto incontornável: o génio que
lançou "Overnite Sensation" era também ele um
inventor de boas canções.
* Depois de anos de edições
mornas e desinteressantes, o anterior director da ONJ, Frank Tortiller,
teve também em "Close to Heaven" o atrevimento de gravar
adaptações da banda rock Led Zeppelin, mas sem resultados
suficientemente convincentes.
Mostly
Other People Do The Killing: “This Is Our Moosic” (HotCup)
Apelidados de "terroristas" pela crítica americana, termo
que como se sabe tem um grande peso por aqueles lados, o quarteto Mostly
Other People Do The Killing dedica-se mais uma vez neste álbum
a armadilhar-nos a audição e os conceitos que temos como
adquiridos sobre o que é o jazz. Sabendo pelas revistas, ou por
ouvir dizer, da sua adesão matricial ao bebop, o curioso tem a
primeira surpresa quando olha para o título: "This is Our
Moosic" é uma "charge" humorística a um disco
de Ornette Coleman, um dos "inventores" do free jazz ("This
is Our Music", de 1960).
Continuando a observar a capa do disco, o candidato a ouvinte verifica
que os músicos estão vestidos de fato e gravata, tal como
é habitual fazerem os "jazzmen" fundamentalistas que
tocam no Lincoln Center, e a dúvida instala-se-lhe. Para mais tendo
conhecimento de que Jon Irabagon, o saxofonista alto de Chicago com ascendência
filipina, venceu a Thelonious Monk Competition de 2008 com um projecto
ultraconservador (na verdade, sabemos agora, não foi mais do que
uma "brincadeira" com o objectivo de mostrar que também
era capaz de tocar literalmente a tradição). Outro dado
contraditório intervém na memória deste potencial
comprador: sabe que Peter Evans, o trompetista com ar de "nerd"
universitário, é um dos mais prestigiados cultores das chamadas
técnicas extensivas para o seu instrumento e parceiro de inovadores
como Evan Parker e Axel Dorner em situações de improvisação
descondicionada.
Num ápice o CD está a rodar no leitor da loja e a confusão
vai-se adensando, mas agora o receio dá lugar a uma agradável
estupefacção. Picadas várias faixas, vai descobrindo
a nossa personagem que os MOPDTK não reconhecem divisões
entre "mainstream" e vanguarda, saltando de uma para a outra
com o maior dos desplantes, e que chegam a incluir na sua música
não só motivos estilísticos e recursos técnicos
de diversas tendências históricas do jazz como também
de outras músicas, da erudita contemporânea ao punk. Percebe
que não se trata de fusão (a de Miles Davis, Herbie Hancock,
Chick Corea ou John McLaughlin) nem de colagem (a de Frank Zappa ou de
John Zorn), mas de algo bem distinto: uma música de transversalidades,
cruzamentos e contrastes. E como se tal não bastasse para querer
ficar com o disco, assombra-se este melómano com o virtuosismo
dos músicos, brilhantes na execução do património
jazzístico tanto quanto são inventivos nas passagens esteticamente
mais audazes. Ainda por cima, a música tem humor, sátira
e ironia, algo de bem-vindo num meio que se leva demasiado a sério.
O que seria preciso mais para convencer alguém de que aqui está
uma das melhoras provas de que o jazz é uma música viva?
Archie
Shepp / Bill Dixon: “Quartet” (FreeFactory)
Don Cherry: “Live at Cafe Montmartre
1966 Volume 3” (ESP-Disk)
As gravações da colaboração entre Archie Shepp
e Bill Dixon em 1962 tiveram duas edições, uma na Savoy
e a outra na francesa BYG Actuel, esta com o título "Peace",
mas é a primeira vez que surgem em formato digitalizado. Trata-se,
pois, de uma reedição de relevo histórico, talvez
a mais importante do ano que findou. Como bónus, encontramos ainda
Shepp com os New York Contemporary Five e Dixon com o seu septeto, em
ambos os casos com registos de 1964.
O quarteto co-liderado por Archie Shepp e Bill Dixon durou apenas 18 meses,
entre o Inverno de 1961 e Junho de 1963, tendo apenas realizado alguns
concertos em pequenos espaços de Nova Iorque e uma viagem à
Europa, para um festival em Helsínquia. O grupo chegou a ampliar-se
para quinteto e sexteto, e os músicos intervenientes variavam –
exemplos disso são a substituição de Don Moore por
Reggie Workman no contrabaixo e de Paul Cohen por Howard McRae na bateria
num dos temas incluídos, "Peace" precisamente, um original
de Ornette Coleman. Nos acrescentos finais encontramos mais algumas estrelas
da "fire music", como Don Cherry, John Tchicai, Ronnie Boykins,
Sunny Murray, Ken McIntyre, Howard Johnson e David Izenzon, e o que se
ouve corresponde às maiores expectativas que tal lista suscita.
E por falar em Don Cherry, 2009 foi também o ano em que surgiu
o terceiro e último volume da série "Live at Cafe Montmartre
1966" do peculiar trompetista. No rescaldo de discos de estúdio
como "Complete Communion" e "Symphony For Improvisers",
o antigo parceiro de Ornette reuniu músicos de várias proveniências
geográficas ainda muito jovens mas já em afirmação
na “cena” como Gato Barbieri (Argentina), Karl Berger (Alemanha,
depois radicado nos EUA), Bo Steif (Dinamarca) e Aldo Romano (Itália)
para uma residência num clube de jazz de Copenhaga, o Café
Montmartre. O que aí tocaram completa-se com este documento.
Depois de, nos anteriores tomos, o quinteto ter virado do avesso alguns
"standards" e composições de Ornette Coleman e
Albert Ayler, além de temas do próprio Cherry, o mote é
dado aqui pelo be bop, com alusões e até citações
que recebem igual tratamento. Muitíssimo bom, e até com
estatuto de testamento!
Yells
At Eels feat. Rodrigo Amado: “The Great Bydgoszcz Concert”
(Ayler Records)
Formados por uma figura de culto do free bop, o trompetista Dennis González,
e pelos seus dois filhos, Aaron e Stefan González, mentores do
projecto pós-punk Akkolyte e membros do Humanization Quartet de
Luís Lopes, os Yells At Eels vêm propondo uma impactante
música que junta o fogo do hard bop às liberdades improvisacionais
anunciadas por Ornette Coleman no seu álbum "Free Jazz",
com base numa rítmica que tem a energia e o imediatismo do rock.
Neste registo ao vivo realizado na Polónia o convidado especial
é o português Rodrigo Amado, ele também um saxofonista
(aqui apenas no tenor) que vem operando a equação das vertentes
bop e new thing, se bem que, regra geral, em regime de improvisação
livre. Curiosamente, é seu um dos temas tocados, "Dialeto
da Desordem".
O resultado chega em bastas passagens por ser explosivo, se bem que, como
ouvimos na melancólica "Litania", peça composta
pelo polaco Krzysztof Komeda (lembram-se da banda sonora de "Rosemary's
Baby"?), o quarteto seja também capaz de extrair lágrimas
das pedras da calçada. Ornette é directamente invocado,
com uma interpretação de "Happy House" que confirma
a referenciação nele que desde logo detectamos, e uma das
faixas constitui uma dedicatória de um maioral da cena do Texas
(Dennis) a outro protagonista do jazz de hoje, este de Nova Iorque –
"Document for William Parker". Nessas faixas, como no restante
disco, encontramos um Amado no apogeu das suas capacidades, intenso, argumentativo
e capaz de dialogar com a corneta e o trompete do pai González
como um igual. Quanto ao próprio Dennis González, ouvimos
aqui muito do melhor que ele tem feito nestes últimos anos...
Plaistow:
“Do You Feel Lucky?” (12Rec)
O projecto dos suíços Plaistow parece aliciante quando o
vemos anunciado por palavras: partindo do conceito "trio de piano
jazz", explora os cruzamentos com as lógicas do minimalismo,
na linha de Steve Reich (organização dos materiais sonoros
por ciclos, em vez do sequencialismo por "drones" de um La Monte
Young), bem como nas da electrónica experimental e do rock na variante
noise. Na prática, já as coisas não correm tão
bem, cedo se verificando que o grupo de Johann Bourquenez, Raphael Ortis
e Cyril Bondi está muito longe da excelência dos The Necks,
que navegam em águas semelhantes. Se estes soam de forma fluida
e natural, ouvindo os Plaistow ficamos sempre com a sensação
de que se segue uma receita, com cada ingrediente pesado ao miligrama.
Henning
Sieverts' Symmetry: “Blackbird” (Pirouet)
Bastante menos feliz do que o inicial "Symmetry", o segundo
álbum deste projecto de Henning Sieverts alterna momentos que são
autênticos rasgos criativos, num formato de jazz de câmara
em que o inesperado acontece (por exemplo, os ritmos drum 'n' bass do
baterista John Hollenbeck), com outros do mais estéril convencionalismo.
É como se o contrabaixista, aqui mais em evidência através
das suas composições do que como instrumentista, não
tivesse tido a coragem de assumir por inteiro a sua inventividade "off-center",
mantendo âncoras que tornem "aceitável" esta proposta
a ouvidos menos afoitos a aventuras. Em consequência, "Blackbird"
decorre num limbo entre o surpreendente, o muito bom mesmo, e o que perigosamente
se aproxima da banalidade, numa estratégia de meias-tintas que
deixa muitas dúvidas quanto ao empenho estético existente.
Destacam-se Chris Speed, sobretudo no clarinete, e o pianista Achim Kaufmann.
Thollem
McDonas / Nicola Guazzaloca: “Noble Art” (Amirani)
A “nobre arte” de que o título fala é o boxe,
e o duo de pianos constituído por Thollem McDonas e Nicola Guazzaloca
alude-lhe inteiramente. Não da forma mais óbvia: a música
é profunda, intensa e por vezes até desmesurada, infelizmente
não deixando lugar a subtilezas, mas o propósito não
é estabelecer um combate entre pianistas para verificar quem vence,
e sim reproduzir ao nível sonoro a dimensão coreográfica
desse desporto. O resultado é sem dúvida interessante, mas
também demasiado programático.
Fast
'n' Bulbous: “Waxed Oop” (Cuneiform)
As "covers" de Captain Beefheart realizadas pela banda gerida
pelo saxofonista Philip Johnston, o responsável dos arranjos, e
pelo guitarrista Gary Lucas, o único que pertenceu ao grupo de
Don Van Vliet (na sua última fase), já viveram melhores
desenlaces do que os agora ouvidos em "Waxed Oop". Talvez porque
a tentativa de procurar soluções outras para a interpretação
dos temas originais perde em objectividade o que ganha ao nível
do distanciamento analítico, assistido este por uma perspectiva
jazz e por propósitos de questionação da nebulosa
musical a que se vai chamando de Americana, o certo é que este
tributo perdeu claramente o gás. Ressalve-se o tema "Woe-is-uh-Me-Bop",
que quase parece um encontro da Instant Composers Pool com os anarquistas
The Ex.
Manu
Codjia: “Manu Codjia” (Bee Jazz)
Surgido na herança de Bill Frisell, o francês Manu Codjia
impôs-se nestes últimos anos como um dos mais sólidos
valores da guitarra jazz na Europa, sempre na qualidade de "sideman".
Sem precipitações (este é apenas o seu segundo álbum
em nome próprio, depois de "Songlines", lançado
em 2007), e confiando na consistência das suas propostas, vê
agora também confirmado o seu estatuto enquanto compositor. Ou
talvez devamos utilizar o termo "encenador": o papel que reserva
ao trompete de Geoffrey Tamisier e ao trombone de Gueorgui Kornazov, desafiando-lhes
mais as improvisações do que propriamente circunscrevendo-as
por meio da escrita, constituem não só uma novidade em relação
ao primeiro disco em trio apenas com contrabaixo e bateria, como também
uma generosa amostra das suas bem interessantes ideias, estas indo muito
para além do universo da seis-cordas. Muito haverá a esperar
dele no futuro.
Per
Anders Nilsson / Sten Sandell / Raymond Strid: “Beam Stone”
(Psi Records)
Numa área situada entre o jazz aberto e a improvisação
colectiva, “Beam Stone” é um disco exemplar no que
respeita à introdução da electrónica (o computador
e o sintetizador de Per Anders Nilsson, sobretudo, mas também os
“gadgets” de Sandell) neste tipo de contexto, sempre com oportunidade
e sentido de medida. O foco vai, no entanto, para o que fazem no piano
Sten Sandell e na percussão Raymond Strid e que é, em todos
os aspectos, admirável. Dois grandes músicos da Suécia
que já ouvimos nos mais variados registos e que aqui estão
como peixe na água.
Fred
Frith & Nation Unique: “Impur Part II” (Fred Records)
Depois da edição de "Impur", peça gravada
em 1996, mas só colocada em CD há dois anos, que consistiu
na actuação simultânea e articulada de seis ensembles
(100 músicos) nos vários andares e salas do edifício
ocupado pela École Nationale de Musique de Villeurbanne, em França,
surge agora este "Impur Part II". Trata-se do registo nessa
mesma ocasião de uma performance não anunciada no auditório
da escola – o concerto iniciou-se sem ninguém na plateia
e o público foi chegando aos poucos, atraído pelo som, após
ter assistido à actuação programada. O que ouvimos
tem a transversalidade idiomática que desde sempre reconhecemos
em Frith, mesclando música de câmara, rock "arty",
jazz, improvisação livre e elementos folclóricos
de origens dificilmente descortináveis. Com mais composição
e estruturas pré-estabelecidas do que poderíamos esperar,
o documento final deste trabalho revela, ainda assim, uma fluidez que
só uma criação colectiva alicerçada na espontaneidade
e na flexibilidade dos participantes permitiria. E é quase tão
bom quanto o melhor que o guitarrista de origem britânica já
lançou em disco.
Bill
Frisell: “Live in Montreal” (Amérimage-Spectra)
Registo de uma actuação em septeto de Bill Frisell no Festival
Internacional de Jazz de Montreal em 2002, o presente DVD constitui uma
desilusão em vários aspectos. Um é a falta de fidelidade
sonora do evento (quase nunca se consegue ouvir o contrabaixo de David
Plitch, por exemplo), e outra a não muita competência a nível
de realização (com, também por exemplo, a câmara
a fixar-se em Frisell quando é a guitarra "steel" de
Greg Leisz que está em evidência), mas sobretudo o que não
convence é a própria música. Se bem que os conceitos
de cruzamento do jazz com o country e a folk americana operados pelo guitarrista
sejam aliciantes e já tenham resultado em grandes discos e concertos,
o que aqui encontramos é superficial, aborrecido e com uma incongruente
tónica pop. O que Frisell faz com os "delays" é
francamente gratuito, para não dizer de mau gosto, mas o que incomoda
mais é o não-aproveitamento da boa secção
de sopros em que encontramos Billy Drewes, Ron Miles e Curtis Fowlkes
– pouco mais do que um trabalho de decoração o ex-Naked
City lhes destina. Vá-se lá compreender porque foi este
vídeo, desta fase da produção musical de Bill Frisell,
que se escolheu para edição...
Fred
Frith and Arte Quartett: “Still Urban” (Intakt)
Fred Frith and Arte Quartett: “The Big Picture” (Intakt)
A escrita para combinatórias de saxofones por parte de Fred Frith
não é de agora, como sabemos pelas suas colaborações
com o quarteto Rova no início dos anos 00, mas se essa estreia
foi revelatória das suas ideias camerísticas para a família
de instrumentos inventada por Adolph Sax, a parceria que estabeleceu em
2008 com o suíço Arte Quartett não só as continuou
como lhe permitiu esmiuçar novas possibilidades, testemunháveis
nestes dois discos, “Still Urban” e “The Big Picture”.
No primeiro, ao sopro de Beat Hofstetter, Sascha Armbruster, Andrea Formenti
e Beat Kappeler, acrescenta Frith (a espaços) a sua guitarra eléctrica
e característicos “field recordings” do meio urbano.
A amplitude de materiais desta suite dividida em nove movimentos vai de
Mozart a Zorn e de harmonizações inspiradas nos clássicos
aos burburismos do pós-free jazz e do experimentalismo. Esta é,
aliás, uma música de contrastes, saltando, por vezes numa
questão de segundos, de situações de uma beleza secularmente
testada a outras que metaforizam o ruído quotidiano das grandes
metrópoles dos nossos dias. O que encontramos neste álbum
está, pois, em constante transmutação, nunca sendo
possível “adivinhar” o que virá a seguir.
No tema-título de “Big Picture”, ao quinteto do anterior
CD acrescentam-se o piano ora impressionista, ora cageano de Katharina
Weber e a bateria em mimetismos do gamelão do Bali ou em soltos
comentários “jazzy” de Lucas Niggli, numa soberba execução
colectiva. Depois, e como que a lembrar como tudo começou, o Arte
Quartett repega na composição “Freedom in Fragments”,
estreada precisamente pelo Rova numa edição da Tzadik, e
dá-lhe a sua própria leitura. A interpretação
realizada não é melhor nem pior; é diferente e indubitavelmente
mais europeia. Nas passagens em que os quatro saxofonistas se detêm
nas melodias de um folclore imaginário com referências no
Centro-Leste do Velho Continente isso fica, de resto, particularmente
evidente.
Alípio
C Neto & Angelo Olivieri Quintetto Harafè: “Harafè”
(Terre Sommerse Jèi)
Em mais um belo disco de um percurso ascensional, o saxofonista luso-brasileiro
Alípio C Neto surge aqui ladeado por quatro dos mais importantes
nomes da actualidade jazzística italiana. Particularmente intensa,
a música de “Harafè” remete-nos para as associações
de Miles Davis com Wayne Shorter e com John McLaughlin, dadas as combinatórias
exploradas pelo trompetista Angelo Olivieri com os saxofones de Neto e
com a guitarra cheia de distorção de Ezio Peccheneda, referenciáveis
nesses modelos. E no entanto trata-se de uma abordagem simultaneamente
mais free e mais crua, não obstante as ocasionais abordagens líricas
e melódicas, com as composições claramente colocadas
ao serviço da improvisação.
Se o pernambucano tornado alfacinha aplica neste CD todas as virtudes
que já lhe conhecemos, indo do poético ao incisivo, a boa
surpresa para quem não conhece o novo jazz transalpino está
em Olivieri (tocou, entre outras, com luminárias como William Parker,
Hamid Drake, Vincent Courtois, Andrew Cyrille e George Garzone), nestas
faixas balizando-se entre o melhor hard bop, o que significa velocidade
nos fraseios e especial exploração dos agudos, e algum desconstrucionismo
mais “avant”. Destaca-se logo de seguida o guitarrista, tanto
ao nível do trabalho harmónico como da energia trazida directamente
do rock, mas injusto seria não assinalar a potente e inventiva
secção rítmica constituída por Raciti e Ughi.
Com desfechos mais felizes do que os conseguidos na apresentação
do grupo no Hot Clube, em Setembro passado, este é o registo de
um concerto em Marino, Itália, realizado no ano passado. A melhor
música em suporte continua a ser a gravada ao vivo.
Joe
Morris Quartet: “Today on Earth” (AUM Fidelity)
Darius Jones Trio: “Man'ish Boy (A Raw & Beautiful Thing)”
(AUM Fidelity)
A nova-iorquina AUM Fidelity continua a colocar no mercado alguns bons
exemplos do jazz que hoje se pratica no outro lado do oceano. Mais dois
agora se somam. Com poucos meses de intervalo (o anterior “Wildlife”
é de Julho passado), eis que surge o segundo álbum de um
grupo, o Joe Morris Quartet, que conta com quatro anos de existência.
Este simples facto dá bem conta do apreço que o guitarrista
Joe Morris tem por este projecto partilhado com Jim Hobbs, Timo Shanko
e Luther Gray. Mais estruturada do que é habitual nos grupos que
lidera ou em que participa, a música agora oferecida pelo seu quarteto
é bem mais “boppish” do que poderíamos esperar,
dá especial ênfase ao “swing” das suas bases
rítmicas e usa como mote simples e sugestivas melodias, tanto assim
que quase têm um efeito folk.
Não fosse a forma inovadora e original como Morris toca a guitarra
e teríamos em “Today on Earth” algo de muito próximo
do “mainstream”. Especialmente interessante é o tema
“Animal”, que mais do que marcar o retorno a um formato convencional,
abre no trajecto deste músico uma via que, tudo o indica, será
muito interessante de percorrer. Na faixa-título, Hobbs dá
vazão às suas influências parkerianas e ao mesmo tempo
remete-nos para a sonoridade da “loft generation”, muito em
especial a do altista Makanda Ken McIntyre, uma linhagem que não
deixou muitos descendentes. Se já muitos indícios anunciavam
tal desfecho, é com este disco que aquilo a que se vai chamando
de free jazz faz definitivamente as pazes com a tradição.
O nome de Darius Jones já vinha sendo muito pronunciado de boca
para orelha, mas fora os préstimos que foi gravando como “sideman”
(de William Hooker, Mike Pride e Trevor Dunn, por exemplo) e os seus concertos
em trio com Adam Lane e Jason Nazary no outro lado do Atlântico
– trio esse que, por sinal, surge na faixa bónus de “Man'ish
Boy”, “Chaych” – não havia um documento
em que protagonizasse um projecto seu e no qual encontrássemos
totalmente expostas as suas próprias ideias. Eis, finalmente, que
chegou esse álbum, o seu primeiro como líder.
Com o apoio de Cooper-Moore no piano e num instrumento de sua invenção
que se parece muito com um baixo eléctrico, o diddley-bo, e de
Rakalam Bob Moses na bateria, o que encontramos é uma muito agradável
surpresa. A cada passo denunciando as suas origens sulistas (é
natural da Virginia), o que implica perspectivas bastante diferentes das
vigentes nas cenas de Nova Iorque ou de Chicago, Jones apresenta uma música
de grande frescura, com toda a evidência na esteira do Ornette Coleman
da década de 1960, mas abrindo-se para o desconhecido. O que quer
dizer que, num livro de história, o do free jazz, em que pouca
inovação verdadeiramente se tem registado nos últimos
anos, ele acaba de acrescentar uma nova página.
Rodrigo
Amado Motion Trio: “Motion Trio” (European Echoes)
Prova de que em Portugal há tão bons recursos humanos na
área do jazz e da improvisação como em outros países
com mais história e projecção a esse nível,
“Motion Trio” é a estreia discográfica de um
novo projecto de Rodrigo Amado que envolve unicamente músicos nacionais.
Para além do saxofonista, que neste mesmo ano lançou “The
Abstract Truth”, com Kent Kessler e Paal Nilssen-Love, encontramos
aqui Miguel Mira, baixista de formação clássica em
guitarra com um percurso intermitente no jazz, há um par de anos
convertido ao violoncelo (que afina em quartas, como um contrabaixo),
e o jovem (apenas 22 anos de idade) Gabriel Ferrandini na bateria, por
muitos já apontado como uma das maiores esperanças no manejo
das baquetas.
Pois diga-se que, para estes ouvidos, Amado tem neste título aquele
que é o seu melhor álbum de sempre. A começar pela
sua própria prestação no saxofone tenor, impecável
de início ao fim. Sendo capaz das mais arrebatadoras execuções,
o certo é que nem sempre Rodrigo Amado mantém essa regularidade
performativa. Sabe bem, pois, encontrá-lo aqui no seu melhor. Neste
disco está particularmente bem motivado e suportado pelos seus
companheiros, assim se confirmando da conveniência de ter uma banda
fixa com a qual seja possível desenvolver um continuado trabalho
de entrosamento e pesquisa de possibilidades.
Os três músicos completam-se nestes temas de modo notável.
A secção rítmica revela uma rara flexibilidade: ora
é enérgica e propulsiva, ora lida com detalhes e minúcias,
o que convém quando as coordenadas musicais vão do grito
à introspecção lírica. Mira chega a ser surpreendente
e Ferrandini surge bem mais focado e contido do que em outros contextos,
desse modo aprimorando as suas superiores capacidades. A sintonia conseguida
não acontece apenas entre os três intervenientes, mas também
entre eles e os conceitos que aplicam. Estes, por sinal, não se
ficam pelo free bop, diferentemente da restante produção
sob o nome de Rodrigo Amado: com um pé firmemente apoiado na identidade
do jazz tal como hoje é entendida em Nova Iorque e Chicago, o outro
dá um passo na direcção da música livremente
improvisada, segundo o modelo europeu.
Tetuzi
Akiyama: “Moments of Falling Petals” (Dromos Records)
Editado em Lisboa, mas gravado em Córdoba com músicos sul-americanos,
o chileno Éden Carrasco e o argentino Leonel Kaplan, “Moments
of Falling Petals” é um dos discos mais bem conseguidos do
japonês Tetuzi Akiyama que nos foi dado a ouvir. Alinhado com os
princípios do reducionismo improvisado (utilização
de silêncios, economia de sons, volume reduzido, substituição
do fraseado pela construção de texturas), numa pausa das
recentes investidas do guitarrista pelos blues abstractos e pelo psicadelismo
rock, o que aqui encontramos é de uma beleza desarmante. A guitarra,
acústica, soa por vezes a uma harpa e outras a um violoncelo. Os
sopros têm uma perspectivação electrónica,
embora de forma orgânica e até primária, importando
mais a respiração e o sopro do que a nota e a articulação.
Ao longo da audição chegamos a recear que qualquer novo
acontecimento destrua o mundo que foi construído, e é em
constante surpresa que testemunhamos a capacidade dos três intervenientes
para delicadamente o renovar. Akiyama é um dos protagonistas da
cena onkyo de Tóquio, ao lado de figuras como Taku Sugimoto e Toshimaru
Nakamura, conhecida precisamente pela sua serenidade (por vezes falsa,
dado que a música pode ser especialmente intensa), mas também
se tem distinguido em contextos mais “noisy”. De Carrasco
chegam-nos poucas referências para além das de ser um membro
do grupo de free rock La Kut e de ter colaborado com Jason Kahn, Norbert
Moslang e Gunter Muller, enquanto Leonel Kaplan se tornou num dos protagonistas
das novas tendências da improvisação internacional,
ao lado dos melhores, o que lhe valeu já o convite de Dave Douglas
para participar no Festival of New Trumpet Music.
The
Core: “Golonka Love” (Moserobie)
The Core: “& More Vol. 1 – The Art of No Return”
(Moserobie)
Se os noruegueses The Core estavam a tornar-se num caso incontornável
do novo jazz escandinavo, estes dois discos consagram-nos como uma das
bandas maiores do momento não só no Norte da Europa como
em todo o continente. O duplo “Golonka Love” inclui extractos
de três concertos realizados na Polónia entre 2007 e 2008,
alguns dos temas ainda com a participação do saxofonista
Kjetil Moster, outros com o seu substituto, o muito jovem – e surpreendente
– Jorgen Mathisen.
A matriz está no jazz modal do Coltrane tardio, mas a presença
de um Fender Rhodes e o recurso às rítmicas “groovy”
do funk e à energia do rock lembram o Miles Davis electrificado,
sem o copiarem. A estrela da formação é indubitavelmente
Erlend Slettevoll, que com o seu traficadíssimo piano eléctrico
seria capaz, sozinho, de levantar qualquer audiência das cadeiras.
Acontece, porém, que a base pulsativa constituída pelo contrabaixista
Steinar Raknes e pelo baterista Espen Aalberg não se deixa eclipsar:
o “drive”, a força e o delírio até desta
música começa por eles. E quanto aos saxofones é
o que se ouve: Moster identifica liberdade com pujança e Mathisen
entende-a como um convite à argumentação –
e note-se que mais pela divergência do que pela retórica.
Se neste álbum o convidado especial é o DJ Lenar, o qual
está muito longe de ter funções decorativas, em “The
Art of No Return” o quarteto, já com Jorgen Mathisen plenamente
estabelecido como membro permanente, conta com as preciosas contribuições
de Vidar Johansen, Jonas Kullhammar e Magnus Broo. A suite interpretada
é da pena do primeiro, e mais uma vez se evidencia a referenciação
em Miles. Não o do período coberto pelo anterior título,
mas o que teve a colaboração de Gil Evans em obras de fundo
como “Miles Ahead”.
O registo é totalmente distinto, com muita orquestração
(são sete os músicos, mas parecem por vezes mais), uma maior
subtileza de conteúdos, menos lastro para improvisos individuais
e uma sonoridade integralmente acústica, com um piano de cauda
no lugar do instrumento inventado por Leo Fender e Harold Rhodes. Mas
não se pense que o resultado é menos intenso e galvanizante.
O que aqui temos são as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda
de ouro, convirá assinalar.
Rodrigues
/ Davidson / Rodrigues / Faustino: “Fower” (Creative Sources)
Com a diferença de que uma guitarra (tocada por Neil Davidson)
está no lugar do violino, é um quarteto de cordas que encontramos
neste CD, mas raramente o reconhecemos enquanto tal, pelo menos face ao
modelo erudito secularmente instalado. Em raras passagens, também,
conseguimos identificar os instrumentos “em cena”: estes são
utilizados de formas inconvencionais e na sua totalidade, ouvindo-se tanto
a manipulação das cordas como das madeiras circundantes.
As improvisações estão em permanente tensão,
e mesmo os alívios são dramáticos, sendo este um
dos mais interessantes discos protagonizados por Ernesto Rodrigues (viola)
nos últimos anos. Participam ainda o seu filho Guilherme (violoncelo)
e Hernâni Faustino (contrabaixo).
Tom
Hamilton / Bruce Eisenbeil: “Shadow Machine” (Pogus)
O que desde logo agrada neste disco é o facto de Tom Hamilton e
Bruce Eisenbeil trabalharem com sons e situações menos previsíveis,
o primeiro no sintetizador modular (conhecíamos apenas a sua música
para computador) e o segundo na guitarra eléctrica. Depois, verificamos
que não se trata de ambientalismo, nem de noise, nem da estética
“lower-case” ou outra das fórmulas mais comuns quando
se juntam circuitos integrados e uma seis-cordas. É esse sentido
alternativo que dá mais-valia a “Shadow Machine”, devolvendo
a prática da improvisação às premissas de
busca de novos caminhos.
*
Piotr Zabrodzki / Artur Lawrenz: “Trylobit” (Multikulti Project)
* Raphael Roginski: “Bach Bleach” (Multikulti Project)
* Yazzbot Mazut: “W Pustynii w Puszczy” (Multikulti Project)
* Waclaw Zimpel / Wojtek Traczyk / Robert Rasz: “The Light”
(Multikulti Project)
* Waclaw Zimpel / Tim Daisy: “Four Walls” (Multikulti Project)
* New Fracture Quartet: “1000 Lights” (Multikulti Project)
* Aram Shelton / Jason Ajemian / Tim Daisy: “Dragons 1976”
(Multikulti Project)
Importante distribuidora discográfica da Polónia, a Multikulti
Project tem um catálogo editorial próprio que vem divulgando
a obra dos mais criativos músicos de jazz e improvisadores daquele
país. Entre os discos colocados no mercado encontram-se formações
mistas de polacos e americanos, sobretudo, e algumas edições
que denunciam o particular interesse dos seus responsáveis pela
cena de Chicago, apesar de esta ser pouco coincidente com a música
tocada localmente. É altura de conhecer o que tem para nós
este selo com o nome de um álbum de Don Cherry...
Mal conhecido fora da Polónia, Piotr Zabrodzki é, todavia,
uma das mais interessantes figuras do jazz exploratório e da improvisação
no seu país. Um multi-instrumentista (teclados, electrónica,
contrabaixo, guitarra baixo eléctrica) que, na maior parte das
ocasiões, prefere o piano, em “Trylobit” encontramo-lo
neste instrumento ao lado do baterista Artur Lawrenz. A fórmula
é a mesma que utilizou em “Quick-Core” com Tatsuya
Yoshida, dos Ruins (duo japonês de “avant-rock” que
chegou a emparceirar com Derek Bailey), mas os desfechos são bem
diferentes. Se nesse álbum há uma recorrência de “riffs”
quebrados e pulsações binárias em constante implosão,
no novo disco encontramos igual intensidade, mas desenvolvimentos mais
abstractos, além de uma maior identificação com a
matriz jazz. Em certas ocasiões, a predilecção de
Zabrodski pelas sequências em “cluster” faz-nos lembrar
o inevitável Cecil Taylor, mas a verdade é que também
estabelece uma gestão dos espaços que nada tem que ver com
o pianista americano. Momentos há que nos transportam para muito
alto, mas no final de algumas faixas os incongruentes “fade-outs”
têm um efeito de anticlímax. Não fora isso e estaríamos
perante uma fulgurante edição.
Um dos mais singulares “performers” da Polónia, Raphael
Roginski inscreve de alguma maneira os seus múltiplos interesses
musicais nos vários projectos em que se envolve, destacando-se
o barroco, os blues primitivos do Delta, a multi-secular canção
judaica e o experimentalismo da “new music” norte-americana.
Todos esses materiais enovelam-se de formas imprevisíveis e nunca
demasiado evidentes na música que faz, tornando-se difícil
identificá-lo com um género específico. É,
no entanto, com improvisadores que toca, como os nossos conhecidos Noel
Akchoté, Axel Dorner, John Edwards e John Tilbury. Com uma perspectiva
da guitarra situável algures entre Elliott Sharp e Eugene Chadbourne,
tem por hábito utilizar preparações nos seus instrumentos
e é precisamente isso que faz nas leituras de “Bach Bleach”.
Para os mais conservadores amantes de música antiga deve ser um
sacrilégio ouvir as peças deste compositor num instrumento
com objectos presos nas cordas para lhes transformar a sonoridade, mas
está aí precisamente o desafio. No entanto, algumas interpretações
parecem demonstrativas e não há grandes variações
ao longo das faixas, depressa se desvanecendo a surpresa.
Na sua génese, a fusão jazz-rock tinha um carácter
de experimentação que, entretanto, se perdeu. Assim foi
porque, para todos os efeitos, se estava a inventar algo de novo na passagem
da década de 1960 para a de 70, mas também terá influído
o facto de na época ser determinante a influência do free
jazz. Se as duas tendências se afastaram para extremos opostos,
é propósito do grupo polaco Yazzbot Mazut tornar a aproximá-los.
No álbum “W Pustynii w Puszczy” tal tentativa é
coroada de êxito: a música é tão galvanizante
quanto bem urdida, a nível da composição, dos solos
improvisados (com destaque para o excelente clarinetista que é
Piotr Melech), do “drive”, da interacção e das
atmosferas criadas. Alguns estereótipos das duas vertentes são
mesmo pegados sem receios e virados do avesso. Não fosse esta formação
do Leste e estaria nas bocas do mundo que ouve jazz.
Com a estatura de clarinetistas como Theo Jorgensmann (que, de resto,
já o elogiou) e Rudi Mahall, para apenas citar dois europeus, Waclaw
(ou Vaslav, como também o seu primeiro nome surge escrito) Zimpel
demonstra em “The Light” e em “Four Walls”, no
primeiro em trio com Wojtek Traczyk e Robert Rasz e no outro com o americano
Tim Daisy (não só: Dave Rempis e Mark Tokar juntam-se-lhes
em dois temas), toda a dimensão da sua arte. Se o disco com os
músicos de Chicago denota o nível de reconhecimento pelos
seus pares a que Zimpel chegou do outro lado do Atlântico, superior
é-lhe “The Light”, dado o entrosamento demonstrado
pelos três conterrâneos na execução tanto de
composições originais como de dois “novos clássicos”,
“Straight Up and Down” de Eric Dolphy e “Lonely Woman”
de Ornette Coleman. Nele se evidencia a improvisação como
música iminentemente colectiva, não só porque estes
instrumentistas se conhecem muito bem pelo facto de tocarem em conjunto
com frequência, mas também por verificarmos que esse cooperativismo
é uma filiação estética. Ainda assim, as faixas
a dois com Daisy em “Four Walls” apresentam todas as virtualidades
do mano-a-mano jazzístico e valem por isso. Sobretudo quando entram
Rempis e Tokar, o único senão é encontrarmos Zimpel
num enquadramento – o do jazz da Cidade do Vento – que percebemos
ser-lhe limitativo.
A Multikulti parece ter uma especial predilecção pelo baterista
dos Vandermark 5. Além de “Four Walls”, temos aqui
duas demonstrações disso mesmo: Tim Daisy é o líder
do New Fracture Quartet e sustenta com Aram Shelton (que, a propósito,
já tocou com Waclaw Zimpel) e Jason Ajemian o projecto “Dragons
1976”. Estes discos são ilustrativos do fascínio que
a editora tem pela cena de Chicago – se bem que, entretanto, Shelton
se tenha mudado para a Bay Area e Ajemian para Nova Iorque. O que não
deixa de ser curioso, quando verificamos que ambos estes títulos
estão abaixo do grau de surpresa e novidade revelado pelos polacos
a que antes fiz referência. Talvez sejam os nossos ouvidos que se
habituaram ao estilo de Chicago, ou talvez isso se deva ao facto de este
estar demasiado circunscrito ao formato free bop. Não obstante
tal circunstância,“1000 Lights” é um disco muitíssimo
convincente em que sobressaem engenhosos jogos de contraste, por exemplo
entre o trompete “mellow” de Jaimie Branch e as distorções
vizinhas do rock da guitarra de Dave Miller, bem como súbitas e
inesperadas mudanças de rumo, impecavelmente conduzidas pela secção
rítmica de Daisy e Nate McBride. Com poucas semelhanças
relativamente aos investimentos paralelos de Shelton na electroacústica
em tempo real, o álbum do trio já é mais cru e solto,
se bem que melódico nos fraseados de saxofone, agradando sem nunca
verdadeiramente entusiasmar.
People
Band: “69 / 70” (Emanem)
Com a reedição em CD de “1968”, Martin Davidson,
o patrão da Emanem que é também um incansável
registador e arquivista da música improvisada britânica,
salvou do esquecimento um colectivo cuja importância nos anos da
revolução pode ser equiparada às dos AMM, do Spontaneous
Music Ensemble e da Scratch Orchestra na Grã-Bretanha, dos Nuova
Consonanza e dos Musica Elettronica Viva em Itália, dos New Phonic
Art em França ou dos Taj Mahal Travellers no Japão. E isso
não obstante ser, de todos, o projecto menos “falado”.
O que não deixa de ser estranho, sabendo que a People Band teve
padrinhos de vulto, como o baterista dos Rolling Stones, Charlie Watts,
que incentivou os seus membros a editar, um colaborador dos Soft Machine,
Lynn Dobson, que chegou a tocar em algumas das suas apresentações
públicas, e o vocalista Ian Dury, que mais tarde ganharia projecção
na área da new wave e do punk e que assistiu às sessões
de gravação daquele disco. Estranho, também, pelo
facto de um dos seus principais mentores, Terry Day, continuar em actividade,
e de Mike Figgis, o mais permanente trompetista, ser hoje um reconhecido
cineasta.
Reeditado o único disco da formação, Davidson recuperou
outras bobinas de estúdio e juntou-lhes as que tinha reunido de
uma “jam session” caseira, de um concerto e de um “free-for-all”
na floresta: o resultado é o álbum duplo “69 / 70”,
que vai ainda mais fundo na caracterização desta “big
band” de formação variável que seguia exclusivos
princípios de liberdade no tempo em que esta palavra continha,
mais do que um conceito filosófico, um significado político
e de intervenção social. Depois desta recolha, será
impossível ignorar que, na Inglaterra, existiu este grupo de jovens
músicos motivado pelo free jazz americano e por ideias esquerdistas
(na altura, a utilização do termo “people” num
nome indiciava influência maoista, mas o certo é que a People
Band nasceu em meio anarquista) que, não só contribuiu para
o desenvolvimento da música livremente improvisada ou, como lhe
chamaria depois Derek Bailey, “não-idiomática”,
como definiu uma das suas práticas mais radicais.
Cada actuação da People Band (que podia durar três
horas, sem intervalo) era como que um ritual celebrativo, sem regras estabelecidas
nem combinações prévias, e não se desdenhava
mesmo um certo “tribalismo”, razão pela qual todos
os intervenientes tocavam percussão e utilizavam a voz. Isso está
bem patente nesta edição. Uma particularidade do ensemble
era o facto de ser constituído, sobretudo, por multi-instrumentistas
– se não havia propriamente virtuosos (nem valeria a pena,
pois dentro das massas sonoras construídas não sobrava muito
espaço para individualismos), a abrangência tímbrica,
essa, era muito vasta. Dentro deste quadro, variavam as abordagens: na
presente compilação detectamos três. Uma é
energética, rápida, abrasiva, nevrótica e muito,
muito próxima do caos (estúdio, concerto em Amesterdão);
outra denuncia as origens no jazz e no rock dos envolvidos (“jams”
na casa de Mel Davis); outra ainda vai muito para lá do que poderíamos
esperar, em termos de experimentalismo sonoro e abstracção
num ambiente natural (captações numa mata a Norte de Londres).
Porque o antes chamado Continuous Music Ensemble (aquando da sua formação
em 1966) lidava sobretudo com densidades, nem sempre era possível
discernir quem fazia o quê, e porque as sessões se faziam,
informalmente, com quem aparecesse, não havia registos dos instrumentos
tocados e por vezes até dos músicos que os tocavam. Se estes
procedimentos tornavam a coordenação da “big band”
num quebra-cabeças, tendo até existido alguns choques de
personalidades e episódios da mais completa desorganização,
era esse carácter anárquico que singularizava o projecto,
e tão anárquico que os seus elementos chegaram mesmo a ser
expulsos de uma actuação no Anarchist Annual Ball por um
público que os considerou, imagine-se, demasiado “fora”.
A boa recepção que a People Band teve na Holanda fez com
que se estabelecessem dois núcleos distintos, um em Londres e o
outro a residir permanentemente em Amesterdão, apenas com alguns
músicos do primeiro a deslocarem-se ao outro país para se
juntarem aos membros locais nos “gigs” marcados.
É de Mel Davis a máxima prosseguida por esta trupe de improvisadores:
«No rules, no compromise. Free at last!» A este pioneirismo
fez-se, finalmente, a mais do que merecida justiça...
Anthony
Davis: “Amistad” (New World Records)
Levou 10 anos a montar e a sua estreia em 1997 não teve os louvores
da crítica (esta preferiu a anterior ópera “X –
The Life and Times of Malcolm X”), mas a reposição
de “Amistad” nos palcos a partir de 2008, revistos os aspectos
em que a primeira versão falhava, trouxe a esta empreitada monumental
de Anthony Davis, finalmente, o reconhecimento que merecia. Músico
conotado com o movimento AACM de Chicago, de que ficaram na memória
dos apreciadores do jazz as excelentes colaborações com
o flautista James Newton e o violoncelista Abdul Wadud, e um pianista
particularmente interessante e com um estilo pessoal, Davis acabou por
enveredar por uma carreira nos domínios da música erudita,
compondo peças orquestrais, como “Maps (Violin Concerto)”
e “Jacob's Ladder”, e óperas, para além das
já citadas, também “Under the Double Moon” e
“Tania”. Com uma particularidade: em todas as suas criações
introduziu a tradição afro-americana, como verificamos neste
duplo álbum em boa hora lançado pela New World Records.
Muito antes do filme com o mesmo título e igual temática,
Anthony Davis procurou chamar a atenção para um episódio
da história da América que parecia esquecido, o motim no
navio de transporte de escravos Amistad. O libreto é da autoria
de Thulani Davis, sua prima, e a música que escreveu é hoje
considerada a obra maior de uma carreira notável, tanto pela imprensa
como pelos seus pares, como foi o caso de George Lewis, que lhe teceu
os maiores elogios. A rítmica do jazz (com incorporação
de bateria) e elementos do minimalismo e da “new music” americana,
bem como da contemporânea europeia, surgem neste “opus”
que, apesar do formato, revela a cada momento a origem étnica do
seu autor. Fica para a memória colectiva.
Sophie
Agnel: “Capsizing Moments” (Emanem)
A francesa Sophie Agnel chama de “piano extensivo” ao que
faz com preparações, dado que, diferentemente do “piano
preparado” de John Cage, a introdução a que procede
de objectos vários nas cordas do seu instrumento é móvel
e constantemente permutável. Algo semelhante à de “hiper-piano”,
escolhida por Denman Maroney, esta designação tem um interesse
especial, pois alude a um piano que vai para além do piano: se
o mecanismo é o mesmo, o vocabulário é outro. A grande
diferença de Agnel relativamente a Maroney é linguística:
este parte do idioma jazz e ela da livre-improvisação, música
supostamente não-idiomática. Mas é neste ponto que
as coisas se tornam bem mais relativas. Agnel começou por ser uma
pianista especificamente de jazz e isso torna-se claro ao longo da audição
de “Capsizing Moments”, um facto que vai ao encontro da estrutural
condição dessa prática a que se deu o rótulo
de “música improvisada”, tendência que manteve
sempre, de alguma maneira, a sua matriz referencial no jazz.
Se a questão se levanta ao ouvirmos Denman Maroney, não
deixa de ser pertinente na fruição deste magnífico
disco: o relacionamento da preparação do piano com o jazz,
se só muito episodicamente se tem verificado, decorre de mais paralelismos
do que poderíamos imaginar. Para todos os efeitos, Cage desenvolveu
este tipo de manipulação a partir dos anos 1940 –
os da explosão do be bop – com o fito de introduzir a polirritmia
africana, bem como a do gamelão indonésio, na “new
music” americana, uma variante da tradição culta europeia.
Ora, o jazz resulta, precisamente, do encontro de África e da Europa
no Novo Mundo, e foi por essa altura que começou a emergir, entre
os músicos de jazz, uma postura pan-africanista. Este é,
pois, o contexto do que aqui ouvimos.
Como não podia deixar de ser, uma boa parte do presente registo
é fruto de tal visão rítmica (se bem que perspectivada
de forma textural) e até percussiva do piano, mas Sophie Agnel
acrescenta-lhe outra vertente e nesse aspecto singulariza-se (passando
a ser Reinhold Friedl, com o seu “piano inside-out”, quem
lhe está mais próximo): em determinados momentos ouvimos
“drones” e harmonias que nos parecem ser de origem electrónica
e de modo algum podemos identificar com um piano, mas electrónicos
não são e na verdade provêm de um Grand. É
como se nos tirassem o chão debaixo dos pés...
Lotte
Anker / Craig Taborn / Gerald Cleaver: “Live at The Loft”
(ILK)
Muito curioso, este trio. A saxofonista Lotte Anker é dinamarquesa
e os seus parceiros, Craig Taborn no piano e Gerald Cleaver na bateria,
são de Nova Iorque, mas o que logo à partida nos surpreende
é o facto de a primeira nos soar muito “americana”,
aproximando-se das lógicas jazzísticas em prática
no outro lado do Atlântico, e os outros terem uma abordagem inesperadamente
europeia, seja pela inclusão de elementos das músicas contemporânea
e improvisada no jogo de Taborn como pela intervenção “off-format”
de Cleaver. Depois, ficamos intrigados com a contenção sonora
da prestação (mesmo quando, em “Real Solid”,
se sucedem rápidos “clusters” de piano) e com o modo
como o silêncio é integrado no conjunto. Sabendo da propensão
do jazz (e sobretudo do free, moldura do que aqui vem) para o excesso
expressivo e para o exibicionismo virtuosístico, sabe bem ouvir
algo que rompe com esse figurino.
Outros sólidos argumentos tem este disco gravado ao vivo. Uma é
a incrível interacção dos três músicos:
esta é uma música cooperativa e sem hierarquizações,
cada contribuição individual colocada ao serviço
da criação colectiva final. Outra é a imprevisibilidade
dos desenvolvimentos – todos os três estão constantemente
a tirar coelhos da cartola, e se Anker confirma a um nível de excelência
o que já conhecíamos dela, Taborn e Cleaver são magníficos
em todos os aspectos – na inventividade, no sentido de oportunidade
e colaboração, na entrega, no “drive”, na forma
como associam sensibilidade e inteligência, no bom gosto, na heterodoxia
das atitudes de ambos, na colocação da técnica imensa
de que dispõem ao serviço da música.
Bertrand
Gauguet / Franz Hautzinger / Thomas Lehn: “Close Up” (Monotype
Records)
“Close Up” é a prova de que a escola reducionista da
improvisação livre sofreu uma evolução, e
isso não obstante o dogma que nela chegou a desenvolver-se contra
a ultrapassagem de um determinado nível hertziano e contra a procura
de clímaxes. Se o “near silence” se tornou numa instância
secundária, mantêm-se outras características e essas
estão bem presentes na música do trio constituído
pelo francês Bertrand Gauguet com o austríaco Franz Hautzinger
e o alemão Thomas Lehn: substituição do fraseado
pela textura, não-linearidade discursiva, recusa da escala convencional,
atonalidade ou microtonalidade, bruitismo. Além disso, encontramos
o que faltava nas criações desta área, densidade,
em alguns momentos, até, chegando à fronteira da “noise
music”. E mesmo algo que podemos identificar como melodia, uma impossibilidade
estética ainda há alguns anos.
Embora menos referido do que os seus conterrâneos Stéphane
Rives, Bertrand Denzler e Jean-Luc Guionnet, Gauguet é um muito
interessante cultor das técnicas extensivas para saxofone, indo
das intencionalmente mais primárias (usos incomuns do sopro e da
saliva) às de grande complexidade, envolvendo, por exemplo, métodos
de respiração contínua. Hautzinger é menos
convincente no trompete em quartos-de-tom (prefiro, de longe, um Axel
Dorner ou uma Birgit Ulher), mas resultam bem os seus “loops”
com recurso à electrónica, mesmo sabendo que se trata da
mais estereotipada das manipulações com máquinas.
Lehn, esse, é particularmente feliz, com intervenções
em sintetizador – um velho EMS Synthi A – sempre imaginativas
e oportunas. A música electroacústica improvisada vai conquistando
terreno num território habitualmente protagonizado por instrumentos
convencionais, e este CD é bem representativo do seu estado actual.
Flat
Earth Society: “Cheer Me, Perverts!” (Crammed Discs)
O líder da Flat Earth Society é o clarinetista Peter Vermeersch,
conhecido não só como compositor de dança, por exemplo
com a aclamada coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker, mas também
por projectos de fusão inteligente como o grupo X-Legged Sally,
uma combinatória do estilo de Frank Zappa com o punk e o hard bop.
Agora apostando numa formação orquestral, Vermeersch chega
aos desenlaces anunciados pelo seu anterior trajecto mais próximo
do jazz. Em “Cheer Me, Perverts!”, um anagrama do seu próprio
nome, apresenta uma mescla do orquestralismo de Duke Ellington e de Count
Basie com uma propulsão rítmica vinda directamente do rock
progressivo, não hesitando em enveredar pelo meio por situações
mais abstractas e “out”. O efeito é explosivo, explorando
todo o potencial de um sólido naipe de sopros com 10 elementos.
Se o que impressionou nos “velhos” Blood, Sweat & Tears
e Chicago foi o modo como a guitarra eléctrica irrompia do muro
de som criado pelos metais, encontramos isso mesmo neste provocativo e
bem humorado disco, com toda a diferença implicada pela actualidade
deste projecto em que o rigor dos arranjos não diminui a intensidade
e a entrega das execuções individuais e colectivas e em
que a recapitulação dos modelos com que todas as “big
bands” lidam de uma maneira ou de outra não obsta a que se
experimentem novas situações.
Michael
Mantler: “Concertos” (ECM)
Na sua busca da melhor música a seguir à das esferas, não
surpreende que seja na ECM que Michael Mantler tem apresentado a maior
parte dos seus projectos de hibridização do jazz com a clássica
contemporânea e com outras linguagens. “Concertos” é
um novo tomo, sete anos depois do mais recente, desse propósito
do antigo parceiro (e marido) de Carla Bley à frente da Jazz Composers
Orchestra, com a particularidade de ser mais bem conseguido – e
em alguns momentos até de forma notável – do que o
foram títulos anteriores.
Criterioso, e por vezes surpreendente, na sua selecção de
solistas e intérpretes (caso de “Many Have No Speech”,
com Jack Bruce, Marianne Faithfull e Robert Wyatt como vocalistas), mais
uma vez Mantler junta os músicos menos prováveis de encontrar
num mesmo projecto. Entre os internacionalmente reconhecidos, a escolha
recaiu sobre Roswell Rudd, o último dos grandes trombonistas históricos
do jazz e membro da JCO, Majella Stockhausen, filha do famoso compositor
com o mesmo apelido e ela própria com um excepcional trajecto como
executante de obras de Ligeti ou Henze, o português Pedro Carneiro,
um dos mais prestigiados percussionistas das novas músicas, das
eruditas às experimentais, e Nick Mason, baterista desses estilistas
do rock que foram os Pink Floyd. A peça em que este último
surge será a menos interessante, mas as de Rudd e Carneiro superam
todas as expectativas. Além, ainda, daquela em que o próprio
compositor surge como trompetista, retomando um papel que há muito,
lamentavelmente, não desempenhava, numa abordagem que o aproxima
do lirismo de um Kenny Wheeler.
O que este disco tem de particular é o facto de, nele, Michael
Mantler proceder a uma revisão dos conceitos que aplicou com a
Jazz Composers Orchestra, tendo em conta que agora lidou sobretudo com
não-improvisadores, a começar pelos membros do Kammerensemble
Neue Musik Berlin, que ainda assim demonstram uma especial flexibilidade.
Healing
Force: “The Songs of Albert Ayler” (Cuneiform)
Enformada pelo rhythm 'n' blues, a última fase musical de Albert
Ayler foi mal compreendida, senão mesmo refutada, pelos mais empedernidos
fãs do free jazz. É, no entanto, com temas dos álbuns
“Love Cry”, “New Grass” e “Music is the
Healing Force of the Universe”, do malogrado saxofonista, que este
septeto liderado por Henry Kaiser (guitarra) lhe presta tributo. Músicos
como Vinny Golia, Joe Morris, Mike Keneally (conhecido pelas suas colaborações
com Frank Zappa), Damon Smith e Weasel Walter (dos “avant-metal-jazzers”
Flying Luttenbachers) estão envolvidos e a cantora é Aurora
Josephson, aqui fazendo as vezes de Mary “Maria” Parks. Uma
nova luz estas “songs” ganham, plenas de modernidade e evidenciando
o potencial das originais, não explorado por Ayler devido à
sua morte prematura...
Peter
Evans: “Nature / Culture” (Psi Records)
Depois de um primeiro disco de trompete solo em 2005, “More is More”,
Peter Evans volta com o mesmo formato num álbum duplo. Ouvir este
de uma só vez podia ser um desafio a que só os entusiastas
do instrumento resistiriam, mas são tantos e tais os argumentos
aplicados faixa a faixa que a dedicação de todos os que
se resolverem a tal percurso sairá com certeza premiada. Este soprador
americano está a estabelecer-se como um dos mais brilhantes inovadores
da actualidade no trabalho com pistões, conquistando protagonismo
numa frente em que encontramos Axel Dorner, Franz Hautzinger, Birgit Ulher,
Nate Wooley e Greg Kelley, e tem ainda a característica particular
de também ser um virtuoso a tocar “straight”. Aqui,
fica em evidência que atingiu a plena maturidade.
Vyacheslav
Guyvoronsky: “Interventions Into Bach and Mozart” (Leo Records)
Esta não é apenas mais uma incursão do jazz pelos
clássicos, no caso Bach e Mozart: é também uma das
mais admiráveis já realizadas até à data.
E está envolvida em drama: o flautista que ouvimos nas 14 faixas
em quinteto de “Intervention I”, Eric Ovelyan, foi assassinado
durante o assalto de um “gang” ao teatro onde se fizeram as
gravações em 1997 – encontrava-se sozinho, à
noite, a ensaiar. Os registos inacabados ficaram até agora na gaveta,
mas o mentor da sessão, Vyacheslav Guyvoronsky, recuperou-os agora
para este novo projecto, acrescentando-lhe peças em duo e trio
(“Intervention II” e “III”). O que ouvimos não
passa simplesmente por dar “swing” aos originais: o trompetista
russo e seus associados entram dentro destes e metamorfoseiam-nos, levando
a escrita dos dois compositores até ao limite das suas implicações.
Kolbeinsen / Evensen (& Maria Castro): “For Those Who Have Everything”
(FMR)
Os noruegueses Are Lothe Kolbeinsen (guitarra preparada) e Terje Evensen
(percussão) praticam uma improvisação concretista
que lida essencialmente com texturas, dinâmicas e espaços,
numa música feita de particularismos que preza a beleza das atmosferas
criadas. Apesar de (essencialmente) acústica, é óbvia
a influência da electrónica experimental nas suas incursões
pelo som, com Evensen a mimetizar um computador ou um sintetizador com
a sua panóplia de recursos percussivos e Kolbeinsen a utilizar
“loops”. E eis que, na última peça do disco,
a electrónica intervém em pleno por meio dos processamentos
e das sínteses de Maria Castro, portuguesa radicada em França
que viveu antes na Grã-Bretanha. Um projecto que merece toda a
atenção.
Magda Mayas / Tony Buck: “Gold” (Creative Sources)
A antiga discípula de Misha Mengelberg que descobriu a preparação
do piano e o lado percussivo deste e o baterista dos The Necks que vem
em paralelo experimentando outras abordagens além das minimalistas
juntam-se em “Gold” para uma pesquisa conjunta de técnicas
extensivas, momentos havendo em que não percebemos – nem
isso importa – se os sons que ouvimos têm origem nas cordas
do Grand ou nos pratos do “drumkit”. Se este tipo de experimentalismo
improvisado tem fama de “cerebral”, aqui é um jogo
profundamente físico de intensidade e densidade, mesmo quando somos
transportados para um mundo miniatural. Notável!
Per
Anders Nilsson / Sten Sandell / Raymond Strid: “Beam Stone”
(Psi Records)
Numa área situada entre o jazz aberto e a improvisação
colectiva, “Beam Stone” é um disco exemplar no que
respeita à introdução da electrónica (o computador
e o sintetizador de Per Anders Nilsson, sobretudo, mas também os
“gadgets” de Sandell) neste tipo de contexto, sempre com oportunidade
e bom gosto. O foco vai, no entanto, para o que fazem no piano Sten Sandell
e na percussão Raymond Strid e que é, em todos os aspectos,
admirável. Dois grandes músicos da Suécia que já
ouvimos nos mais variados registos e que aqui estão como peixe
na água.
*
Anthony Braxton Sextet: “Standards (Brussels) 2006” (Amirani)
* Gianni Lenoci / Carlos “Zíngaro” / Marcello Magliocchi:
“Serendipity” (Amirani)
* reFLEXible: “Realgar” (Amirani)
* Esther Lamneck / Claudio Lugo: “GenoaSoundCards” (Amirani)
* Gianni Mimmo: “One Way Ticket” (Amirani)
* Lorenzo Dal Ri / Gianni Mimmo: “Bespoken” (Amirani)
* Xabier Iriondo / Gianni Mimmo: “Your Very Eyes” (Amirani)
* Gianni Mimmo / Andrea Serrapiglio / Francesco Cusa: “A Watched
Pot (Never Boils)” (Amirani)
* Gianni Mimmo / Angelo Contini / Xabier Iriondo / Elda Papa / Agua Mimmo:
“Kursk – Truth in the End” (Amirani)
* NovoTono: “Wanderung” (Amirani)
* Airchamber3: “Crumble” (Amirani)
* Vários artistas: “On War”
Muito se fala da morte iminente da indústria discográfica,
da condenação ao desaparecimento do formato CD e da relocalização
da música gravada para a Internet, mas o certo é que, se
as grandes editoras multinacionais, as megadistribuidoras e as grandes
superfícies comerciais estão em profunda crise, florescem
em cada vez maior número as pequenas “labels” independentes
e as redes de circulação dedicadas à música
criativa, em muitos casos por iniciativa de músicos que querem
divulgar o seu trabalho, e os de outros que lhes sejam próximos,
sem os condicionalismos “estéticos” (leia-se: de produto)
impostos pelas “majors”, insistindo ainda na valorização
do objecto disco, com capas graficamente cuidadas, fichas técnicas
pormenorizadas e textos de contextualização das propostas
feitas. Um destes casos, e dos mais notáveis, é o da italiana
Amirani, iniciativa de um saxofonista injustamente por cá ainda
pouco ouvido, Gianni Mimmo.
Com um catálogo especialmente dedicado à nova geração
transalpina do jazz avançado e da improvisação, a
Amirani tem revelado nomes e projectos que constituem um sinal de grande
vitalidade num país que, depois do “boom” inicial das
décadas de 1960 e 70, parecia ter desaparecido do mapa no que respeita
à inovação e a uma dinâmica organizada e sinergética.
A esse nível, está a tornar-se incontornável o contributo
desta editora que recebeu o nome de um herói da mitologia caucasiana,
filho da deusa da caça, Dali, mas criado por pastores. Os esforços
de Mimmo não se limitam ao panorama nacional: passam pela junção
de italianos com figuras de renome da cena mundial, como Anthony Braxton
e Carlos “Zíngaro”, numa clara estratégia de
internacionalização. O envolvimento destes tem, além
disso, uma carga simbólica muito evidente, definindo (ou confirmando)
toda uma linha de condução. Que não é de modo
algum estanque, a crer no que ouvimos na colectânea “On War”,
realizada com os “artistas da casa”, mas com uma caracterização
experimental e trans-estilística que faz adivinhar novos desenvolvimentos
no futuro.
Aqui ficam alguns destaques da sua lista de edições...
“Standards (Brussels) 2006” é o mais ambicioso lançamento
da Amirani, uma caixa com seis CDs que documenta toda a série de
concertos que Anthony Braxton deu em 2006 num bar de Bruxelas com a secção
rítmica italiana formada por Alessandro Giachero (piano), Antonio
Borghini (contrabaixo) e Cristiano Calcagnile (bateria), instrumentistas
que podemos reconhecer de colaborações do primeiro com William
Parker, de Borghini com David Murray e Butch Morris e de Calcagnile com
Daniele D'Agaro e Tristan Honsinger, revelando-se aqui altamente competentes
– como, de resto, lhes era exigido pela difícil música
do saxofonista norte-americano, mesmo que em contexto de interpretação
de “standards”. A este respeito, os critérios de Braxton
são bastante latos, pois incluem “Forest Flower” de
Charles Lloyd e “Ezz-Thetic” de George Russell.
A abordagem das composições de Gershwin, Jobim, Monk e Shorter,
entre outros, alinha pelo pós-bop, se bem que com a marca única
e inconfundível do líder destas sessões. Regra geral,
é ele quem mais salta para fora dos enquadramentos, sempre com
o saxofone alto, mas o grupo acompanha-o com igual arrojo em “Ezz-Thetic”
ou em “Strike Up the Band”, nesta última com grande
relevo para o pianista, senhor de uma fluência e de uma inventividade
notáveis. As leituras são mais ou menos “mainstream”,
respeitando o que está escrito no papel, e quase só nas
improvisações se tomam as maiores liberdades. Em três
ocasiões o improviso surge sem molduras, contrastando com as restantes
abordagens. Seis horas de jazz ora galvanizante e intenso, ora introspectivo
e descontraído (as baladas são especialmente interessantes),
numa edição que se impõe, apesar de outras assinadas
por Braxton com semelhante orientação.
Gravado ao vivo no festival de jazz de Bari, na Sicília, em 2007,
“Serendipity” junta o pianista Gianni Lenoci e o percussionista
Marcello Magliocchi ao português Carlos “Zíngaro”,
um trio até então inexistente. Os estudos que Lenoci fez
com Mal Waldron e Paul Bley estão em evidência, bem como
a admiração que nutre pela obra pianística de Morton
Feldman. Situado entre duas influências, a do jazz e a da “new
music”, é tendencialmente abstracto e recorre a preparações
e ao uso e abuso do interior do piano, surpreendentemente nunca descurando
uma aproximação de grande lirismo. Magliocchi prefere lidar
mais com o espaço do que com o tempo, o que o distingue de qualquer
baterista convencional de jazz, sendo particularmente feliz nos entrosamentos
com o seu conterrâneo e nos envolvimentos sonoros que estabelece,
com particular gosto pelo detalhe. Quanto a “Zíngaro”,
encontramo-lo aqui com um trabalho de arco mais cru e agreste do que vem
sendo seu hábito em anos mais recentes. Lembra mesmo o que fazia
nos anos 1970 em contexto free jazz, embora com o sentido poético
e de contornos clássicos que o violinista consagrou como distintivamente
seu.
“Realgar” é o único título do catálogo
da Amirani que não conta com a participação de músicos
de Itália. Joachim Devillé (trompete, fliscórnio),
Thomas Olbrechts (saxofone alto) e Stefan Prins (electrónica, piano)
centram a sua actividade entre a Antuérpia e Bruxelas, dedicando-se
a uma música improvisada (ou composta no instante, como preferem
dizer) de características moleculares. Diferentemente, no entanto,
das mais radicais práticas da área em que os reFLEXible
se movimentam (a do chamado “reducionismo”), as suas propostas
têm uma qualidade imagética que talvez advenha das suas colaborações
com artistas visuais e performativos e do facto de o próprio Devillé
ser videasta e pintor. Neste trio, Prins será aquele que mais repercussão
internacional tem conquistado, sobretudo nos domínios da composição
electroacústica, mas neste labor colectivo não rouba o protagonismo
aos seus parceiros. As técnicas extensivas que os dois homens dos
sopros utilizam para ultrapassar os limites lexicais dos seus respectivos
instrumentos são mesmo o mais impressionante deste disco que importa
ouvir com toda a concentração.
“GenoaSoundCards” já é fruto da colaboração
entre uma clarinetista com base em Nova Iorque (aqui também no
tarogato), Esther Lamneck, e um italiano, o saxofonista soprano Claudio
Lugo, sendo também um CD que se destaca da restante série.
O motivo está no facto de Lamneck vir não do jazz, mas da
música erudita contemporânea, âmbito em que é
celebrada como uma virtuosa. Os seus dotes como improvisadora, raros entre
os seus pares, ficam bem comprovados nestas peças que denotam o
interesse da Amirani pelo factor espaço. Lugo, por sua vez, é
um músico de fronteira: ainda que a improvisação,
próxima ou não do jazz, seja uma sua ferramenta habitual,
dirige igualmente o Laboratório Orquestral do Conservatório
de Alessandria, dedicado ao estudo da composição de vanguarda
no Pós-Guerra. O título pode não ser muito feliz,
devido aos pressupostos turísticos que encerra, mas representa,
de facto, o que encontramos: o duo gravou-o em vários locais de
Génova, designadamente um palácio, um mercado, um edifício
em reconstrução, as docas e ainda o auditório e o
“foyer” da Casa Paganini. A forma como as paredes (ou a sua
ausência) moldam os sons chega a ter primazia sobre a própria
musicalidade, o que é um senão.
Quem tomar os contributos do saxofonista soprano Gianni Mimmo para a música
criativa do país da bota pelo que este apresenta no seu álbum
a solo, “One Way Ticket”, ficará surpreendido quando
ouvir os restantes que tem editados com a sua participação
na Amirani. E isso porque este é o disco em que mais se aproxima
daquilo que reconhecemos como jazz, sendo também aquele em que
mais se apresenta como um continuador dos conceitos melódicos,
expositivos e instrumentais de Steve Lacy. Uma composição
deste e temas de Duke Ellington, Thelonious Monk, Charles Mingus e Roscoe
Mitchell surgem no alinhamento (além de, atenção,
uma partitura de Anton Webern, um dos grandes nomes do serialismo) e são
interpretados / convertidos improvisacionalmente com um evidente espírito
lacyano. Com algumas importantes diferenças, no entanto: Mimmo
prefere os registos agudos, é mais polido e tem uma sonoridade
arredondada, além de outro entendimento da respiração.
O seu uso da reverberação e da tecnologia de estúdio
(duas das peças são sobregravadas) denotam uma preocupação
pelos factores acústicos e um interesse pela pós-produção
manipulativa que não são propriamente comuns no jazz, incluindo
o mais avançado.
Tais componentes do seu universo musical ganham maior relevância
em “Bespoken”, um duo com a electrónica e os “field
recordings” de Lorenzo Dal Ri. Juntando o saxofone baixo ao soprano,
bem como o piano, preparado ou tocado convencionalmente, Gianni Mimmo
desloca-se neste contexto para a livre-improvisação e aproxima-se
mesmo do “soundscaping” da electroacústica ambiental,
ainda que a música seja tão prenhe de pormenores que implica
uma audição totalmente imersiva. De outro modo, estes territórios
são revisitados em “Your Very Eyes” pela dupla que
constitui com Xabier Iriondo, este lidando com um gerador de frequências
e com dois cordofones orientais, o taisho koto e o mahai metak. A gravação
foi realizada numa igreja escavada na rocha do século X, beneficiando
da sua resonância natural, e se a atmosfera criada não anda
longe da da música sacra, o carácter rude dos diálogos
(com Iriondo a insistir em emissões sonoras pouco agradáveis)
evita esse estereótipo.
O regresso a um jazz mais formal faz-se em “A Watched Pot (Never
Boils)”, com o violoncelista Andrea Serrapiglio e o percussionista
Francesco Cusa. Há algo de romântico na música tocada,
e numa ocasião ou outra dir-se-ia que se trata da banda sonora
de um filme de animação. Será o menos surpreendente
destes discos, mas nele Mimmo destaca-se com o mesmo brilhantismo. A parada
sobe com o DVD “Kursk – Truth in the End”. Associando-se
às imagens de Elda Papa e Agua Mimmo que têm como objecto
o submarino nuclear russo que naufragou há uns anos, com a perda
das vidas de todos os seus ocupantes, a música tocada pelo saxofonista
com Angelo Contini (trombone) e o repetente Xabier Iriondo (“design”
sonoro, electrónica) é mais uma vez determinada pelo factor
espacialização. Foi gravada numa velha igreja com distintos
posicionamentos dos músicos e dos microfones, na busca de várias
possibilidades de exploração da arquitectura, e o seu carácter
sombrio e misterioso tem como efeito uma maior dramatização
do próprio vídeo. O conjunto é de uma estranha beleza,
dados os contornos trágicos da temática.
A Amirani abriga dois grupos fixos, NovoTono e Airchamber3. Do primeiro,
um duo formado pelos irmãos clarinetistas Adalberto e Andrea Ferrari,
com o qual colaboram em “Isles & Lives” o trombonista
Federico Cumar e o saxofonista soprano Luca Serrapiglio, chega-nos “Wanderung”.
Trata-se de uma colecção de “soundscapes” acústicos,
centrada na exploração de jogos tímbricos com uma
perspectiva cinemática decorrente do interesse do principal compositor
do projecto, Adalberto, pela arte intermedia. Diversos espécimes
da família dos clarinetes são tocados, incluindo o paquidérmico
contrabaixo, com os Ferrari a introduzirem igualmente nas tramas os saxofones
barítono e soprano. Esta é uma adopção da
estética da música improvisada que nunca se afasta demasiado
do jazz, mas tem ora uma intrigante aura renascentista, ora equivalências
com o impressionismo. Regra geral, as peças são de recorte
sereno, com uma cuidada utilização de espaços, e
isso mesmo quando ganham uma acentuação rítmica inesperada.
“Crumble” apresenta-nos o trio dos também irmãos
Andrea e Luca Serrapiglio com Andrea “Ics” Ferraris (um trânsfuga
do rock e da electrónica do “hardcore” industrial),
respectivamente no violoncelo, nos saxofones e na guitarra, todos eles
manipulando ainda os mais diversos “gadgets”. Colabora em
“The Heart is Flat and at the Edges You Fall All of a Sudden”
o bruitista Alessandro Buzzi, que lida unicamente com objectos amplificados.
Os Airchamber3 trabalham sobretudo com texturas, mas sempre com o objectivo
de construírem narrativas. Estas são fluidas, apesar da
complexidade que as caracteriza. Assim, o que podia resultar numa música
de grande abstraccionismo, ganha uma cativante dramaticidade. O que ouvimos
segue totalmente os princípios da improvisação: não
há “overdubs” nem tratamentos posteriores à
execução musical, no estúdio tendo-se operado apenas
os seccionamentos que aqui surgem.
A compilação “On War” é apresentada como
um exemplo do, como já o leitor terá verificado, específico
“style work” proposto pela Amirani. Os participantes são
os que constituem o catálogo da editora, mais alguns de que surgirão
no futuro, com certeza, títulos de maior fôlego: Karmel &
Xabier Iriondo, Gianni Mimmo, Cristiano Calcagnile's Nibiru Ensemble,
Airchamber3+4, Claudio Fasoli & Mario Zara, Pierfrancesco Mucari,
Angelo Contini & Federico Cumar, Francesco Cusa & Shirin Demma,
NovoTono. A todos eles se pediu que apresentassem uma peça musical
que de algum modo “ilustrasse” o seu entendimento das relações
conflituais entre os seres humanos que, muitas vezes, resultam em guerras.
Muito curiosamente, o que encontramos, se nos dá uma perspectiva
condensada dos critérios editoriais desta etiqueta, também
as leva mais longe. É difícil perceber agora para onde,
pois esses desfechos só mais adiante serão confirmados,
ou não. Para todos os efeitos, este é o disco menos “jazzy”,
e talvez também o menos conotado com aquilo a que vamos chamando
de “música improvisada europeia”, de todos os lançados
por Mimmo.
*
Henry Grimes: “Solo” (ILK)
* John Tchicai / Jonas Muller / Nikolaj Munch-Hansen / Kresten Osgood:
“Coltrane in Spring” (ILK)
* Steven Bernstein / Marcus Rojas / Kresten Osgood: “Tattoos and
Mushrooms” (ILK)
A ILK não é apenas mais uma editora. É o nome de
um colectivo democrático constituído por 19 músicos
da cena jazz dinamarquesa, organizado com o propósito de conquistarem
maior visibilidade e de editarem o seu trabalho com total controlo dos
resultados. Não há propriamente uma linha editorial nem
imposições estéticas, sendo cada edição
discutida entre todos em assembleia – designadamente o envolvimento
de figuras que não pertencem à cooperativa e têm outras
nacionalidades. Uma máxima apenas os orienta: «Num tempo
em que a maior parte das companhias discográficas perdeu a noção
do que é bom ou relevante, a ILK propõe-se ser um marco
de qualidade, com o comprador seguro de que a música vem directamente
da fonte.» Nesta página, três dos seus mais recentes
lançamentos confirmam-no, cada um a seu modo...
A iniciativa do solo de Henry Grimes pertenceu a um dos membros do colectivo
ILK, Kresten Osgood, e começou por ser um concerto. A ideia da
gravação tem implicações históricas
– de facto, não há memória de alguma vez um
contrabaixista ter editado um duplo álbum a solo. Se Barre Phillips
foi o primeiro a lançar um disco deste tipo (“Journal Violone”,
em 1968), Grimes atreveu-se agora a incluir duas horas e meia de música
num único “digipack”, se bem que, além do contrabaixo,
também utilize o violino. Trata-se de uma única improvisação,
sem indexações, ouvindo-se mesmo o ruído de quando
troca de instrumento. “Solo” é claramente um produto
do período de graça que Grimes está a viver desde
que regressou à música. Depois de ter brilhado no free jazz
original com gigantes como Albert Ayler e Cecil Taylor, esteve ausente
durante mais de três décadas (sem nunca tocar, como o próprio
testemunha) e foi, inclusive, dado como morto, simbolizando a sua redescoberta
um retomar das premissas da “new thing” de então.
O que esta história tem de magnífico é o facto de,
com 70 anos de idade, o músico estar em grande forma, apesar de
as adversidades da vida lhe terem deixado marcas, entre as quais uma bipolaridade
que o torna socialmente frágil. Anda muito perto do sublime o trabalho
de Grimes com arco no cordofone mais grave, não hesitando em trabalhar
com harmónicos e microtons, se bem que a sua orientação
seja habitualmente modal. Faz-se lembrar a si mesmo no passado, não
desdenha a incorporação de processos de alguns contemporâneos
seus na revolução free, como Charlie Haden, e pelo meio
realiza coisas que nunca antes o ouvimos fazer. Enquanto violinista, uma
novidade nestes últimos anos, surge entre a transgressividade de
um Leroy Jenkins e o “belo horrível” de Ornette Coleman,
também levando o instrumento para lá dos seus limites monofónicos.
Como se já não bastassem os marcos históricos que
nos deixou, aqui está outro, e fundamental.
No Inverno da sua longa vida, John Tchicai presta homenagem a John Coltrane,
identificando a música deste com as renovações da
Primavera, seja pelo título do disco como pela leitura que faz
do poema de John Stewart de onde o mesmo foi retirado. A metáfora
parece ter caído bem no saxofonista dinamarquês de ascendência
africana e ligações filiais com a América, pois esteve
envolvido na gravação de “Ascension” e experimentou
pessoalmente essa abertura de cores e possibilidades. E ainda que o “Ascension”
de Tchicai tenha sido “Afrodisiaca”, com a Cadentia Nova Danica,
este “Coltrane in Spring” é um álbum meritório.
O curioso é pouco haver de especificamente coltraneano nele, alinhando
regra geral a música tocada com Jonas Muller, Nikolaj Munch-Hansen
e Kresten Osgood, nomes da nova geração do jazz dinamarquês,
com o modelo fornecido pelo quarteto de Ornette Coleman nos anos de ouro
deste.
Embora o mentor desta sessão não repita o brilhantismo de
outros tempos, ouvimo-lo aqui a tocar muito bem num formato free bop.
Pouco se sabendo do jazz de Copenhaga, que infelizmente não tem
tido a mesma projecção internacional dos de Estocolmo e
Oslo, é com agrado que ficamos a conhecer estes músicos.
Muller tem a sonoridade quente de Don Cherry na corneta e um som mais
encorpado, desenvolvendo interessantes estratégias dialogantes
com o tenor do líder, em muitos casos contrapontisticamente. Munch-Hansen
sabe impor-se com o contrabaixo, revelando uma boa noção
do espaço e do modo como deve deslocar-se nele. Por sua vez, Osgood
tem “swing”, mas nunca se deixa subjugar pelas imposições
da métrica. Fico convencido, embora esperasse mais.
Steven Bernstein continua apostado em revisitar de forma intrigante a
história do trompete no jazz desde os tempos das “brass bands”
de New Orleans, com passagem pelo swing e incorporações
não só dos blues como da folk e do klezmer. Desta feita
com um trio invulgar com tuba e bateria, cabendo a Marcus Rojas o papel
de “atractor estranho” no conjunto. O tubista faz as vezes
do contrabaixo, surge como o segundo sopro, vinca as conotações
patrimoniais da música de “Tattoos and Mushrooms” e
ainda acrescenta alguns contributos inesperados, como a introdução
a solo do disco com um “drone” que lembra o didjeridu da Austrália
aborígene. A esse nível, a maior surpresa desta edição
é de sua inteira responsabilidade, se bem que Kresten Osgood também
desenvolva um bom trabalho de descontinuidade temporal, confirmando a
fama que tem como um dos melhores bateristas saídos da cena escandinava.
O líder da sessão, esse, parece ter retomado o fulgor do
seu projecto Sex Mob, oferecendo-nos algo mais do que nos últimos
anos. Se bem que insistindo na abordagem um tanto ou quanto ilustrativa
das suas mais recentes aparições em CD, encontramo-lo aqui
particularmente fluente, e até assertivo, nos fraseados. As elaborações
são inteligentes e muito objectivas, mas têm uma componente
que não costuma estar associada ao jazz que hoje se pratica: são
divertidas e delas transparece, até, uma desconcertante ironia.
A estratégia de reciclagem musical perseguida inclui, como não
podia deixar de ser, algumas “covers”, como “Thelonious”,
de Thelonious Monk, e “Eastcoasting”, de Charles Mingus. Neste
âmbito, a recriação de “So Lonesome I Could
Cry”, de Hank Williams, faz-nos não chorar, mas sorrir.
Sam
Rivers: “Dimensions and Extensions” (Blue Note)
Este era o único álbum que faltava reeditar entre os quatro
que Sam Rivers gravou para a Blue Note na década de 1960. Ainda
que não tendo o peso dos títulos desta editora que distinguiram
pela diferença relativamente a tudo o que se fazia (essa condição
está representada por “Out to Lunch” de Eric Dolphy,
“Point of Departure” de Andrew Hill e “Life Time”
de Tony Williams), é ainda assim o mais arrojado (e isso apesar
de toda a característica austeridade do saxofonista) e entusiasmante
dessa série, prenunciando da melhor maneira o que viria a seguir
na discografia de Rivers: “Streams”, “Crystals”,
“The Quest”, “Contrasts”, etc., todos eles descolando
da herança do hard bop para assumir a causa de um free jazz que
denotava uma complexidade mais habitual de encontrar no lado europeu do
Atlântico do que nos States. E não só na listagem
de edições que foi produzindo enquanto líder, se
verificarmos a importância que tiveram as suas colaborações
com outros músicos em discos de referência como “Conference
of the Birds”, de Dave Holland, ou “Capricorn Rising”,
de Don Pullen.
A contribuição de Sam Rivers para a “vanguarda”
do jazz tem, curiosamente, estado em escrutínio nestes últimos
anos, talvez em compensação de durante muito tempo não
ter sido tomado como o músico extraordinário que é,
na verdade tão fundamental para a evolução desta
música como o foram John Coltrane, Ornette Coleman, Albert Ayler
e outros da primeira linha. A forma como trabalhava já por esta
altura a melodia, quase sempre procurando situar-se entre os tons, era
única e deixou consequências. Há também outra
explicação para o interesse que “Dimensions and Extensions”
está a suscitar: este disco é ouvido nos dias de hoje como
um dos primeiros grandes exemplos da abordagem free bop com estruturas
de influência erudita que se impôs como via. A reedição
em CD é, pois, de inteira justiça.
Tony Williams: “Spring” (Blue Note)
“Spring” é o segundo álbum gravado por Tony
Williams como líder, quando contava com 19 anos de idade: desde
os 13, tinha sido sucessivamente o baterista de Sam Rivers, Jackie McLean
e Miles Davis. Não é dos seus discos mais citados, mas como
esta reedição lembra, tal não se deve a qualquer
menoridade face a “Lifetime” ou a “Emergency”,
mas apenas ao facto de estes se terem tornado marcos históricos
fundamentais. Se sempre foi algo excêntrico o modo como Williams
tocava, com marcações de tempo elaboradas e imprevisíveis
(oiça-se “Echo” como exemplo), percebemos o quanto
as suas concepções musicais (revelou-se também um
excelente compositor) estavam alinhadas com as mudanças operadas
no jazz da década de 1960. Bop no formato, são neste título,
no entanto, perceptíveis as influências da “new thing”,
ou não fizessem parte deste quinteto figuras como Rivers e Gary
Peacock, o contrabaixista de eleição do grande Albert Ayler.
Sabemos, ainda, da importância que tiveram Herbie Hancock e Wayne
Shorter, as outras estrelas deste registo, para a evolução
do jazz.
A música é empática e sincopada, denunciando o entusiasmo
dos intervenientes e assumindo riscos que hoje continuam a surpreender-nos.
Depois desta etapa, Tony Williams virou-se para a fusão num trio
com John McLaughlin e Larry Young que teve um particular impacto. Longe
de se tratar de um investimento passageiro, “Spring” contribuiu
para abrir as portas a uma linha condutora do jazz moderno que está
a ser amplamente retomada e continuada na actualidade. A passagem para
CD pela mão de Rudy Van Gelder é bem uma evidência
disso.
Michel Legrand & Miles Davis: “Legrand Jazz / Ascenseur pour
l'Échafaud” (Essential Jazz Classics)
Apesar de serem muito diferentes, a junção de “Legrand
Jazz” e “Ascenseur pour l'Échafaud” no mesmo
CD faz todo o sentido: além de em ambos ouvirmos o trompete de
Miles Davis, são a expressão do encontro do jazz com o cinema
em contexto francês – no caso de Michel Legrand porque este
se tornou num dos compositores de referência da sétima arte,
e no de Miles porque se trata da banda sonora de um filme de Louis Malle.
Mas há mais factores a considerar: nos dois casos, estão
em causa abordagens do jazz que se definem pela sua singularidade. Nos
temas conduzidos por Legrand, que surge essencialmente como arranjador
de “standards”, a “big band” constituída
pelas grandes personalidades do jazz americano de então (John Coltrane,
Ben Webster, Phil Woods, Bill Evans, etc., etc.) segue premissas nada
habituais no orquestralismo do género – o bop que aqui se
ouve tem um intrigante envolvimento stravinskyano. Por sua vez, em “Ascenseur...”
toda a música gravada é resultado de improvisações
totais, uma prática que na década de 1950 estava muito longe
de ser comum.
Estes não foram álbuns merecedores de grandes entusiasmos:
entenderam-se as incursões jazzísticas de Michel Legrand
apenas como uma “curiosidade”, e porque os improvisos de Miles
Davis com Barney Wilen, René Urtreger, Pierre Michelot e Kenny
Clarke são abruptamente cortados (têm a medida temporal das
cenas em que se inserem), entendeu-se que esta música, por ser
demasiado “programática”, só funciona realmente
se ouvida em conjunto com o filme. Pode ser verdade, mas nem por isso
o registo tem menor importância. A essência da musicalidade
de, respectivamente, Legrand e Miles está até muito bem
representada nestes dois tomos imprescindíveis.
Musica Elettronica Viva: “MEV40” (New World Records)
Nos anos da revolução nas artes, nos comportamentos e nas
mentalidades (e também na política, entre finais da década
de 1960 e a primeira metade da de 1970), o colectivo Musica Elettronica
Viva foi um dos mais radicais na prática de uma música inteiramente
improvisada com o aproveitamento de todo o tipo de sons, acústicos
de instrumentos convencionais, electrónicos (incluindo os primeiros
sintetizadores portáteis, como os da família Moog) ou produzidos
pelo mais variado tipo de objectos, amplificados por via de inventivas
utilizações do microfone. A par dos AMM, do Spontaneous
Music Ensemble, da Scratch Orchestra e da People Band no Reino Unido,
dos Taj Mahal Travellers e do Group Ongaku no Japão ou do Gruppo
di Improvvisazioni Nuova Consonanza em Itália, os MEV caracterizaram-se
pelo carácter ultra-experimental, mas festivo e até popular
(pelo menos junto dos estudantes), dos seus concertos, tanto assim que
o cineasta Michelangelo Antonioni os convidou a integrar a banda sonora
do filme “Zabriskie Point”, juntamente com os Pink Floyd e
Jerry Garcia, guitarrista dos Grateful Dead.
Este quádruplo álbum faz o percurso do ensemble fundado
em Roma pelos americanos Alvin Curran, Richard Teitelbaum e Frederic Rzewski,
o seu núcleo duro, com Allan Bryant, Carol Plantamura e uma numerosa
série de colaboradores episódicos. Os mais habituais ao
longo dos anos foram o grande Steve Lacy (que aqui é dado a ouvir
com largueza) e Garrett List, mas outros ainda se fizeram notar, como
George Lewis e Karl Berger, tendo o português Carlos “Zíngaro”
também tocado com eles. A música dos MEV buscou uma dupla
referenciação na contemporânea e no jazz, mas propôs-se
desbravar novos caminhos. Imprevisibilidade (que não é o
mesmo que aleatoriedade), dramatismo, sentido ritualístico da criação
musical e entrega física são as linhas de força aqui
detectadas. O projecto tem procurado resistir ao tempo, pelo que vêm
aqui documentados encontros realizados nos anos 1980, 90 e nestes 00.
A última vez que o trio-base tocou em conjunto foi em 2007, a anterior
em 2002, e esses reencontros estão aqui documentados. Uma edição
única, histórica e imperdível.
Luís
Lopes / Adam Lane / Igal Foni: “What is When” (Clean Feed)
Na música, a arte do tempo, encontramos necessariamente “o
quê” no “quando”. E o factor “o quê
/ quando”, neste álbum, é uma música irrequieta,
saltitante e sincopada vinda das mesmas fontes que originaram tanto os
blues do Delta e de Chicago como o rock 'n' roll primordial, o punk hardcore
e o free jazz: vísceras e nervos. Assim, não constitui surpresa
que o guitarrista português Luís Lopes, o contrabaixista
americano Adam Lane e o baterista israelita Igal Foni toquem um híbrido
de todos esses estilos musicais. Talvez o elemento jazz seja a argamassa
que cole tudo o resto neste CD, mas também é verdade que
o propósito foi seguir as premissas do “power trio”,
uma fórmula que ficou registada na história do rock desde
a Band of Gypsys e os Experience de Jimi Hendrix, os Cream, os Blue Cheer,
os Rush e os Motorhead. Ou os Sex Pistols, sem o vocalista. E de um “power
trio”, de facto, se trata, algumas vezes impactante, mas sem tornar
as coisas demasiado fáceis (os ritmos são bastante complexos,
nada que uma “garage band” de adolescentes conseguiria engendrar),
sem ornamentações desnecessárias mas uma evidente
eficácia. Esta é uma música crua e emocional, ora
com “feedbacks” e distorção, ora com surpreendentes
solos. Quando surge o risco de nos cansarmos com tanta agitação,
somos contemplados com alguns momentos de paz, mas mesmo nesses interlúdios
sentimos o coração e o cérebro a serem-nos arrancados
das cavidades que os guardam.
Jon Hassell: “Last Night the Moon Came Dropping its Clothes in the
Street” (ECM)
Arve Henriksen: “Cartography” (ECM)
É difícil dizer quem se aproximou mais de quem, mas o certo
é que Jon Hassell e Arve Henriksen estão hoje a percorrer
caminhos paralelos, e tanto assim que os seus mais recentes títulos,
publicados apenas com a distância de alguns meses pela ECM, testemunham
uma grande similitude de propósitos. Não certamente por
acaso, dois músicos se repetem no acompanhamento instrumental de
ambos: Jan Bang, um especialista no trabalho com “samples”,
de resto vital para o que ouvimos tanto em “Last Night the Moon...”
(Hassell) como em “Cartography” (Henriksen), e o guitarrista
Eivind Aarset.
Até estes discos, era patente que o trompetista do grupo norueguês
Supersilent era um discípulo de Jon Hassell num contexto mais experimental,
mas o certo é que, no que respeita particularmente ao seu trabalho
a solo, o vínculo que tinha com a sua principal referência
estilística foi-se estreitando nos últimos anos. Por sua
vez, o consagrado Hassell terá ouvido no mais jovem Arve Henriksen
alguns desenvolvimentos das suas próprias premissas que lhe interessou
agora explorar. O resultado está bem patente nestes lançamentos
com o mesmo tipo de sonoridade, cada qual tão convincente quanto
o outro. O âmbito é o de um jazz electroacústico com
matriz tanto nas lógicas minimalistas (Terry Riley, sobretudo)
prosseguidas por Hassell, como pela nova electrónica “ambient”
escandinava, de que Henriksen é um claro produto.
Dito isto, é de assinalar que não se trata propriamente
de álbuns gémeos. O fraseado de Hassell tem muito que ver
com o canto clássico indiano, enquanto o de Henriksen vai beber
à música para shakuhachi do Japão tradicional. A
fluidez das composições de Hassell denotam os estudos que
fez com Stockhausen e o interesse que nutre pelo Miles Davis eléctrico,
tendo a de Henriksen uma óbvia ligação com as estratégias
da música livremente improvisada. Em “Cartography”
encontramos um investimento de Arve Henriksen que é muito seu,
a incorporação da voz: a sua, num registo em falseto, e
a de David Sylvian em formato “spoken word”, para além
de outras contribuições sampladas e processadas. Em “Last
Night the Moon...” há, por sua vez, um acento “groovy”,
alimentado pela polirritmia africana. Tudo isto e mais para ir descobrindo
em várias audições dos dois trabalhos...
Tony
Malaby: “Paloma Recio” (New World Records)
Logo que começamos a ouvir “Obambo”, a primeira faixa,
ficamos rendidos. Chamem-lhe “swing” ou “groove”
ou o que quiserem, mas esta é uma música com “punch”,
“drive”, energia, síncope, inquietação,
foco, delírio. Nasheet Waits parece possesso, Eivind Opsvik toca
com um som profundo e cavo, Ben Monder combina harmonias com “noise”
eléctrico, e por cima Tony Malaby mostra que uma abordagem visceral
do jazz não exclui a complexidade dos fraseados. Depois, em “Lucedes”,
tudo muda: o tempo é lento, a guitarra lembra Frisell, o contrabaixo
está em Valala, a bateria limita-se, despretenciosamente, a comentar,
e o saxofone é tão lírico quanto não se consegue
imaginar deste lado de Stan Getz.
“Alechinsky” é o compromisso possível entre
as duas vertentes: a construção do tema vai-se fazendo por
espasmos, com cada um dos intervenientes a escolher tempos diferentes,
agitada a bateria de Waits, contemplativa a guitarra de Monder, bruitista
o contrabaixo de Opsvik, e Malaby entre o “overblowing” e
a poesia minimalista com o seu tenor, buscando o abstraccionismo por via
da deturpação das figuras musicais convencionadas. De repente,
tudo se esboroa até ficarmos apenas com partículas de som,
e de repente também, o todo recompõe-se e ganha ainda maior
corpo, os quatro músicos embrulhados na mesma bolha de empatia,
intensos, desmesurados, implacáveis. “Hidden” estoira
com todos os mitos que alimentam tanto o “mainstream” como
a vanguarda: tem melodia e tem “non-sense”. “Boludos”
joga o etéreo com o bizarro, “Puppets” é a banda
sonora de um grotesco “sketch” de marionetas, tal e qual como
o título anuncia.
Cada peça é uma situação particular: resolvida
uma, passa-se de imediato para a seguinte. Com o seu registo “moody”,
“Sonoita” podia ser jazz de bar, mas as suas elipses não
se destinam, de todo, ao consumo de gente ébria. “Loud Dove”
dispara em jeito de bop, mas em segundos transforma-se numa paisagem free.
Free? O solo de contrabaixo com arco vem dizer que não, clássico
até à medula da herança europeia. Clássico
mesmo? O que vem logo no seguimento também isso põe em causa,
com um jazz-rock de galvanizante confecção, Ben Monder agora
surgindo como um Terje Rypdal nova-iorquino, mais angular e menos maneirista.
“Third Mystery” segue a mesma lógica, mas com Malaby
e Monder em diálogo constante. “Musica Callada” é
isso mesmo: suave, demorado como os caracóis, camerístico,
punjente, belo e estranho.
Tony Malaby tornou-se neste último par de anos num dos meus músicos
favoritos, e tudo o que dele vai saindo surpreende-me tanto quanto da
primeira vez que o ouvi. De muito poucos posso dizer o mesmo.
John
Butcher / Gerry Hemingway: “Buffalo Pearl” (Auricle Records)
Tom & Gerry: “Kinetics” (Auricle Records)
Lançados pela própria editora de Gerry Hemingway, estes
dois discos tornam a apresentar o baterista – um dos mais interessantes
em actividade nos últimos 25 anos – em formato de duo com,
respectivamente, John Butcher e Thomas Lehn. Em linha com o que já
os ouvíramos fazer nos títulos anteriores (“Bowlers
& Shooters” com o saxofonista, “Fire Works” e “Tom
& Gerry” com o homem do sintetizador), o que desde logo chama
a atenção é o facto de nenhum deles adoptar os papéis
clássicos dos duetos com estas características. Hemingway
está longe de ser um mero acompanhador de Butcher em “Buffalo
Pearl”: não só o músico britânico adopta
ocasionalmente um desempenho percussivo (por via de “slap tongues”
ou utilizando as chaves dos seus instrumentos) e de construção
textural, como o americano troca as abordagens rítmicas por um
trabalho de tecelagem sonora e entra nos domínios do bruitismo
com o recurso a um sampler. O mesmo é de dizer em relação
a “Kinetics”: o antigo “sideman” de Anthony Braxton
não se fica por pontuar os sons intestinais do EMS Synthi A de
Lehn. Porque volta e meia este faz as vezes de uma bateria, a propriamente
dita (ou melhor, os pratos e outros complementos metálicos) tem
espaço para desenvolver panorâmicas e “drones”.
Mas há mais que se diga: se os saxofones produzem os burburismos
típicos da escola reducionista (caso de “No Illusion”),
incluindo os “feedbacks” controlados que são distintivos
do jogo de John Butcher, também encontramos este no mais assumido
free jazz (“Head Nickel”), e curiosamente associando uma sonoridade
rhythm & blues a longos sustenidos. E se Hemingway aplica todo o compêndio
da manipulação das peles desde a “new thing”
e a emergência da música dita não-idiomática,
propondo métricas irregulares, também o ouvimos a produzir
harmónicos com raspagens e outras técnicas “extensivas”.
Esta abordagem é largamente aplicada no CD com Thomas Lehn (oiça-se
“Patina”), com a incorporação de repetições
e dos inerentes marcos pulsativos. Pouco jazz aqui se ouve, e não
sendo os envolvidos figuras da estética “near silence”,
em “Mould” e “Maquette” encontramo-los precisamente
nesse domínio, reduzindo a dimensão da música aos
seus mais ínfimos detalhes. Um assombro de minúcia e concentração,
além de uma comprovação mais das multifacetadas capacidades
de Gerry Hemingway.
Daniel Levin Quartet: “Live at Roulette” (Clean Feed)
Por vezes, apenas a mudança de instrumentação num
combo convencional é o suficiente para tocar uma música
totalmente diferente. No caso do Daniel Levin Quartet desde logo se nota
a inexistência de um “kit” de bateria, e se pensarmos
que tal facto anuncia algum tipo de jazz de câmara (reafirmado pela
presença de um violoncelo), coloquemos as coisas a claro desde
o início: não é verdade. E Levin ainda torna as coisas
mais complicadas: definiu os papéis de cada interveniente na música
– o trompetista Nate Wooley, o vibrafonista Matt Moran, o contrabaixista
Peter Bitenc e ele próprio no “cello” – com o
exclusivo propósito de ignorar as predefinições estabelecidas.
Assim sendo, não encontramos neste grupo uma secção
rítmica formal e os dois instrumentos melódicos não
estão necessariamente “à frente”. É necessário
acompanhar os trajectos individuais no todo musical sem esperar encontrá-los
nos lugares habituais. Só assim é possível seguir
o rasto das conversações desenvolvidas, bem como os pequenos
jogos de tensão criados. Tudo se move, como numa composição
de Morton Feldman, com a diferença de que os elementos de surpresa
são proporcionados pela improvisação. Encontram-se
reminiscências da third stream, do cool e do free jazz dos inícios,
mas apenas como tijolos para a construção de uma música
inteiramente do nosso tempo. Talvez ainda não esteja aqui o próximo
paradigma, mas certamente que anuncia “the shape of jazz to come”.
Glasgow
Improvisers Orchestra: “Gio Poetics” (Creative Sources)
Frakture Big Band w/ Carlos “Zíngaro”: “Funfzehn”
/ “Cornerstone” (Frakture)
O que têm de comum a Glasgow Improvisers Orchestra e a Frakture
Big Band não é apenas a nacionalidade britânica (escocesa
a primeira) e o facto de ambas se dedicarem à improvisação
livre num formato alargado, o mais difícil com tal processo de
criação. Estes três discos têm a particularidade
de contar com a colaboração de três portugueses: Ernesto
Rodrigues e Guilherme Rodrigues (pai e filho) no caso da GIO, e Carlos
“Zíngaro” no da FBB. Em “Gio Poetics” a
participação lusa surge no contexto da constante variabilidade
de elencos que define a orquesta (neste caso sem condução
externa, como já aconteceu com Barry Guy e com Steve Beresford),
e em “Funfzehn” e “Cornerstone” decorre da política
do colectivo Frakture, de Liverpool, em ter como “special guests”
nos seus concertos e registos algumas figuras de fora (além de
“Zíngaro”, fizeram-no já Evan Parker, Simon
H. Fell, Veryan Weston, Eddie Prévost e Maggie Nicols, entre outros,
tendo a última também colaborado com o colectivo de Glasgow).
As músicas resultantes estão bem longe dos figurinos habituais,
até pelo tipo incomum de instrumentação: uma grande
presença de cordas de arco, instrumentos étnicos como o
shakuhachi e o bouzouki no ensemble escocês, várias guitarras
eléctricas no da cidade onde nasceram os Beatles, Liverpool. “Gio
Poetics” é um misto inesperadamente contemplativo de free
jazz e improvisação livre, de uma complexidade aracnídea,
e os CDs “Funfzehn” e “Cornerstone” (com edição
em separado apenas pelo facto de um ter sido gravado em concerto e o outro
em estúdio, no intervalo de apenas uns dias) vão da música
intuitiva de Stockhausen ao krautrock mais experimental. Não por
acaso, a FBB teve mais tarde como convidado Damo Suzuki, antigo vocalista
dos Can.
João
Paulo Esteves da Silva: “Plays Carlos Bica – White Works”
(Universal)
João Lucas: “Abstract Mechanics”
(Creative Sources)
Publicados na mesma altura, estes dois discos dão-nos conta da
produção actual de dois dos pianistas portugueses mais fascinantes
na área da música criativa que vai do jazz a um certo experimentalismo
directa ou indirectamente referenciado nesse género. Por coincidência,
em “White Works” as composições interpretadas
/ transformadas por João Paulo Esteves da Silva são de um
contrabaixista, Carlos Bica, e em “Abstract Mechanics” de
João Lucas ouve-se outro cordofone, o violoncelo de Miguel Mira.
Ou seja, se em ambos os trabalhos o piano surge como protagonista, as
perspectivas aplicadas ultrapassam esse instrumento.
Ou nem tanto assim: se Bica escreveu, ou escolheu temas do seu repertório
pessoal, a pensar em João Paulo, o músico, e não
necessariamente no piano, “White Works” é, mais do
que “Memórias de Quem”, o anterior solo deste virtuoso
executante, um álbum “pianístico”. O desejo
expresso pelo primeiro de que essas peças «conseguissem viver
longe do contrabaixo» levou o dito João Paulo (presumimos
que sem especial intencionalidade) a inserir-se mais do que é seu
costume numa linguagem específica ao invento de Bartolomeo Cristofori.
E é isso que é admirável neste CD.
O peso da partitura em “Abstract Mechanics” também
é evidente. Trata-se da banda sonora de uma coreografia de Andresa
Soares (“Era Uma Coisa Mesmo Muito Abstracta”), em linha com
os investimentos de João Lucas como compositor de cena. E no entanto,
é a performance pianística que sobressai, mesmo que aqui
ou ali banhada em “soundscapes” electrónicos e completada
pelos comentários muito soltos de Mira (aqui com a responsabilidade
de introduzir nas tramas a variável “out” que no outro
disco surge por via da intercalação de improvisações
absolutas). A dimensão é mais “vanguardista”
do que a de “White Works”, sim, mas o factor melodia está
igualmente em primeiro plano, bem como toda a particular semiótica
do piano.
Em conclusão, eis duas edições que, não obstante
assistidas por outros propósitos, dignificam como poucas outras
em Portugal, nestes domínios, a arte erigida sobre o teclado branco
e negro. Admirável!
Sophie Dunér String Quartet: “The City of My Dreams”
(Sgae)
Apenas com um disco antes editado, o muito mau “The Rain in Spain”
(CIMP), Sophie Dunér tem aqui um trabalho mais agradável
ao ouvido, se bem que longe de se poder considerar satisfatório.
O que nele irrita mais nem são os desempenhos da cantora, que melhoraram
apesar da incomodidade que me causa a sua tessitura vocal, mas a colagem
que pretende fazer à Annette Peacock de “An Acrobat's Heart”,
repetindo a fórmula do acompanhamento por uma formação
de cordas de arco. Curiosamente, a própria capa é uma imitação
de outro álbum de Peacock, “X-Dreams”, o que ainda
torna mais ridículo o “pastiche”. Não só
Dunér não tem as capacidades composicionais da sua modelo,
como está a milhas do seu poder vocal.
Wassermann
/ Minton / Lehn / Blume: “Backchats” (Creative Sources)
Com estudos clássicos e um trajecto ligado à música
contemporânea, a alemã Ute Wassermann tem-se dedicado igualmente
à improvisação, na qual aplica técnicas vocais
que exploram a bifonia e a ressonância espacial, além de
lhe providenciarem novas formas de trabalhar a nível do timbre
e da articulação. Neste álbum, encontra-se com a
figura de topo do vocalismo improvisado, Phil Minton, este trazendo consigo
um “background” no jazz. O envolvimento instrumental é
dado por Thomas Lehn no sintetizador e pelo percussionista Martin Blume,
tudo resultando numa música plena de dinâmicas, agitada e
bruitista em que o detalhe é tão importante quanto as atmosferas
criadas. Muitíssimo bom.
Wayne
Horvitz Gravitas Quartet: “One Dance Alone” (Songlines)
Wayne Horvitz foi uma estrela da cena “downtown” de Nova Iorque
na década de 1980, mas depois teve um percurso errático
e inconstante a nível de qualidade que quase o fez desaparecer
do mapa. “One Dance Alone” talvez seja o disco que marque
o seu regresso à linha da frente. Ainda que desigual nos proveitos,
tem argumentos suficientes para lhe dedicarmos repetidas audições.
Com uma formação instrumental de piano (o próprio
Horvitz, que de qualquer modo surge principalmente como compositor), violoncelo
(Peggy Lee), corneta (Ron Miles) e fagote (Sara Schoenbeck), propõe
um jazz de câmara que só peca por, em vez de se constituir
como projecto, ir tentando uma variedade de abordagens que o torna derivativo
e superficial. Apesar disso, o que tem de bom é, de facto, bastante
convincente.
Rhodri Davies / Stéphane Rives / Ernesto Rodrigues / Guilherme
Rodrigues / Carlos Santos: “Twrf Neus Ciglau” (Creative Sources)
Se a impressão com que fiquei do concerto em que foram gravados
estes 34 breves minutos (Música Portuguesa Hoje, CCB, 2008) não
foi a melhor, devo dizer que em disco a música até funciona.
São dois os planos associados pelos intervenientes (Rhodri Davies,
Stéphane Rives, Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues e Carlos
Santos), em alguns casos simultaneamente: uma gestão pontilhística
das texturas e a sustentação de “drones” por
várias camadas. Ainda assim, todos estes músicos já
nos ofereceram mais gratificantes criações na área
do chamado “reducionismo”. A esse respeito, a desilusão
que na altura me provocou Davies – talvez “o” mais interessante
harpista da música improvisada – confirma-se aqui.
Jeremy Steig / Eddie Gomez: “Outlaws” (Enja)
Só agora nos chegou à mesa de trabalho a reedição
em CD da obra-prima de Jeremy Steig com nem menos do que Eddie Gomez,
o contrabaixista predilecto de Bill Evans. Um marco da muito específica
arte do duo e do jazz tocado com flauta, “Outlaws” (1976)
exponencia em pleno as extraordinárias capacidades dos dois músicos
e ao mesmo tempo coloca-os num cenário bem distinto do resto dos
seus percursos gravados. O flautista votou-se a uma música de fusão
que, apesar de competente, não deixou grandes referências,
e Gomez funcionou quase sempre como um “sideman”, poucas vezes
tendo tido oportunidade de brilhar tanto como aqui. Para mim, é
um dos discos a levar para a tal ilha deserta. Isso se também conseguir
transportar o indispensável gerador de electricidade para que a
aparelhagem funcione...
Hugh Hopper / Yumi Hara Cawkwell's Humi: “Dune” (Moonjune
Records)
Há muito que o baixista dos Soft Machine não lançava
um disco que se aproximasse do alto nível de qualidade do seu “1984”,
mas ei-lo agora em circulação. Com a cantora e teclista
de origem japonesa Yumi Hara Cawkwell a seu lado, o que ouvimos nada tem
que ver com o espírito comemorativo que habitualmente rodeia a
actividade das velhas glórias do chamado “art rock”,
variante que na década de 1970 incorporou o jazz e até a
música contemporânea nas suas lógicas. Antes pelo
contrário: “Dune” é fresco, frequentemente surpreendente
e bastante substancial em termos de propostas. Com algo de ambiental e
experimentalista (se bem que sedutor a ouvidos menos treinados ou pacientes),
há mais jazz por aqui do que propriamente rock. A música
é muito fluida e dá mesmo a impressão de ter sido
improvisada.
Mary
Halvorson Trio: “Dragon's Head” (Firehouse 12 Records)
Depois de duos com Jessica Pavone e Kevin Shea, eis que a guitarrista
dos mais recentes ensembles de Anthony Braxton e Taylor Ho Bynum surge
a liderar o seu próprio trio. Como seria de esperar do trajecto
que já tem, a sua música é angular, quebrada, atonal
e dissonante, frequentemente nela se incorporando as distorções
e o “feedback” do rock. A abordagem que Mary Halvorson tem
da guitarra está, no entanto, muito distante desse género
musical: o seu jogo de dedos é limpo, por vezes até seco,
e faz lembrar o “finger-picking” e os “pianismos”
de músicos como Joe Morris e Elliott Sharp: é pontilhístico,
cerrado, mas simultaneamente muito feminino, utilizando tempos estranhos,
mas também alguma pulsação quando necessário.
Com o apoio rítmico de John Hebert no contrabaixo e de Ches Smith
na bateria, a abstracção é o seu domínio,
mas daí surgem inesperadas figurações que ancoram
as suas propostas muito evidentemente no jazz. Em algo com esta intensidade,
surpreende ainda o cuidado que o trio dá aos espaços e às
dinâmicas.
John
Hebert: “Byzantine Monkey” (Firehouse 12 Monkeys)
Nasceu em New Orleans e cresceu em Baton Rouge este contrabaixista que
pertenceu ao último grupo de Andrew Hill e se tornou numa presença
constante do jazz progressivo que hoje se pratica em Nova Iorque, cidade
onde tem a base da sua actividade. Foi aí que formou o sexteto
deste “Byzantine Monkey”, o primeiro disco enquanto líder
de John Hebert, com músicos locais como Tony Malaby, Michael Attias,
Adam Kolker, Nasheet Waits e Satoshi Takeishi. Muito evidente nestes temas
de grande variedade tímbrica e dimensão quase orquestral
(sete instrumentos de sopro, dois percussionistas e o contrabaixo como
eixo de tudo o que acontece) está a influência da música
cajun e uma perspectiva composicional que passa pela tradição
do jazz, pela vertente de câmara deste e ainda pela vanguarda formatada
pelo free. Uníssonos de efeito impactante, engenhosos contrapontos,
complexas texturas e polirritmos imaginativos são apenas alguns
recursos de uma escrita inteligente e nunca óbvia, colocada ao
serviço das superiores capacidades de todos os intervenientes.
A improvisação é sempre condicionada pela partitura,
mas torna-se claro que este álbum tem o propósito de apresentar
uma faceta de Hebert que habitualmente está em segundo plano: a
de compositor. Se já lhe reconhecíamos os dotes performativos,
ficam aprovados os de criador de mundos sonoros.
The Fully Celebrated: “Drunk on the Blood of the Holy Ones”
(AUM Fidelity)
O sétimo álbum do trio de Boston formado por Jim Hobbs,
Timo Shanko e Django Carranza representa um virar de página na
plena utilização das técnicas de estúdio:
ao longo das suas faixas ouvimo-los a aplicar os procedimentos do dub,
num jazz já por si marcado, aqui ou ali, pelas sonoridades jamaicanas.
A atmosfera geral é a das “soundtracks” dos filmes
policiais de série B e dos bares de “strip-tease” e
a atitude é caracteristicamente punk. A música vai beber
ao hard bop mais suado, mas evidencia o legado de Ornette Coleman na fase
Prime Time. Pelo meio ouvimos ora os multifónicos e os microtonalismos
mais experimentais dos saxofones alto e soprano de Hobbs, ora sustentações
rítmicas “funky” por parte do contrabaixo de Shanko
e da bateria de Carranza. Uma característica do grupo é
mesmo o seu ecletismo, cada tema adoptando elementos de idiomas distintos,
dos blues a alusões ao Oriente profundo. O álbum inclui
um vídeo em que também participa o cornetista Taylor Ho
Bynum, um bónus que evidencia o quanto estes Fully Celebrated pretendem
dirigir-se a um público que habitualmente ouve rock – aliás,
é geralmente o circuito dos clubes daquele que frequentam, sem
que ninguém lhes atire garrafas de cerveja.
Joe Morris: “Wildlife” (AUM Fidelity)
Mais uma vez, Joe Morris troca a guitarra pelo contrabaixo num disco do
mais assumido free jazz. Sem se colocar à boca de cena –
encontramos aí o saxofonista Petr Cancura –, é ele
quem claramente fornece as bases do que vamos ouvindo, sempre com o muito
próximo apoio de Luther Gray na bateria. Incendiária e inquieta,
mas também coesa e com o tipo de entendimento de um colectivo que
deixa lugar à expressão individual, a música de “Wildlife”
apela ao nosso reconhecimento do formato para a partir daí nos
proporcionar algumas inesperadas surpresas, designadamente as que têm
que ver com o jogo a três permanentemente renovado. No tenor sobretudo
(utiliza também o alto), Cancura posiciona-se na herança
de Albert Ayler, dele adoptando o ataque e o sentido melódico,
e nos seus fraseados podemos reconhecer também a rugosidade muito
própria de Archie Shepp. Gray faz uma abordagem das peles que lembra
Max Roach e a perspectiva deste de que um baterista pode fazer muito mais
do que o convencional acompanhamento rítmico. Morris, pelo seu
lado, vai beber à linhagem contrabaixística que tem Henry
Grimes como expoente máximo, com a particularidade (nisso se assemelhando
a William Parker) de ir buscar referências ao guimbri africano.
A diferença relativamente ao seu trabalho como guitarrista está
no facto de apostar na funcionalidade, e não no virtuosismo. Mais
um exemplo da presente “fire music”.
Corey Wilkes & Abstrakt Pulse: “Cries From Tha Ghetto”
(Pi Recordings)
Muito poucos tinham o perfil adequado para ficar com o lugar que Lester
Bowie deixou vago no Art Ensemble of Chicago, mas o convite que Roscoe
Mitchell lhe endereçou para esse efeito foi o reconhecimento de
um jovem trompetista que tem qualidades acima da média. Muito requisitado,
Corey Wilkes faz-se ouvir em múltiplos contextos, seja o James
Carter Quintet, o Ethnic Heritage Ensemble de Kahil El' Zabar, a Exploding
Star Orchestra de Rob Mazurek ou o Black Earth Ensemble de Nicole Mitchell.
Com Kevin Nabors, Scott Hesse, Junius Paul, Isaiah Spencer e Jumaane Taylor,
os Abstrakt Pulse são um dos três grupos que lidera (também
Black Slang e Corey Wilkes Quintet), num leque de abordagens que vai da
soul à vanguarda, passando pelo “mainstream”. Esta
formação será, talvez, a mais interessante, com a
sua combinatória do som Blue Note da década de 1960 e das
premissas que singularizaram os membros da AACM na frente mais criativa
do jazz. Não por acaso, um dos temas de “Cries From Tha Ghetto”
é da autoria de Bowie, claramente uma das suas fontes de inspiração
(Lee Morgan, Woody Shaw e Freddie Hubbard são as outras detectáveis),
mas todos os demais foram escritos por Wilkes e atestam as suas complementares
virtudes como compositor. A matriz da música aqui contida está
na visão do hard bop oferecida pelos Jazz Messengers de Art Blakey,
mas os desenvolvimentos são bastante “out” e ultrapassam
mesmo as configurações-tipo do free. A esse nível,
a contribuição do guitarrista Hesse é fundamental,
com Taylor a acrescentar um elemento simultaneamente tradicional e exótico
com o seu “tap dancing”.
Steve
Lehman Octet: “Travail, Transformation, and Flow” (Pi Recordings)
Figura cada vez mais incontornável do novo jazz de Nova Iorque,
Steve Lehman tem aqui o seu primeiro manifesto do estudo a que vem procedendo
da aplicação dos recursos harmónicos do espectralismo
no jazz, segundo as perspectivas do compositor contemporâneo Tristan
Murail, de quem foi aluno. Se tal demanda podia fazer-nos temer algum
eruditismo, uma segunda surpresa é-nos reservada: a construção
rítmica dos temas vai beber às músicas de dança,
do hip-hop ao drum 'n' bass. O figurino surge-nos no legado das posturas
M-Base, mas vai mais longe. A secção de sopros comporta
cinco elementos, para além do líder e saxofonista alto o
tenor Mark Shim, o trompetista Jonathan Finlayson, um seu habitual companheiro
de lides, o trombonista Tim Albright e o tubista Jose Davila, este com
funções geralmente rítmicas, em reforço do
trabalho de contrabaixo de Drew Gress. Chris Dingman no vibrafone e Tyshawn
Sorey na bateria são os restantes contribuintes, o primeiro com
muito interessantes funções de coloração,
por vezes com intervenções que parecem electrónicas,
e o último responsável pelas panorâmicas “groovy”
operadas. Num universo composicional conotável com o bop, o enfoque
desta proposta na harmonia faz-se por meio de desafiantes incursões
pelo microtonalidade – em vez de seguir uma lógica de intervalos,
como é tradição no jazz, Lehman joga com as confluências
e com os choques de frequências. A prova provada de que ainda vai
havendo inovação no jazz.
Agustí
Fernandez: “Un Llamp que No S'Acaba Mai” (Psi Records)
Pianista catalão de cada vez maior alcance internacional, Agustí
Fernandez tem em “Un Llamp que No S'Acaba Mai” um novo tomo
das suas colaborações com os grandes nomes da improvisação
livre. No caso, temos perante nós a dupla rítmica mais invejada
da cena britânica: John Edwards no contrabaixo e Mark Sanders na
bateria. O ouvinte fica esmagado logo aos primeiros minutos, primeiro
com um solo endiabrado de Edwards, depois com os comentários admiravelmente
oportunos e pertinentes, embora discretos, que lhes faz Sanders e finalmente
com a junção a estes do piano preparado e em metamorfose
de Fernandez. Às tantas, mal percebemos quem está a fazer
o quê, de tal modo os sons se envolvem e complementam entre si.
Raras vezes intensidade e minúcia se associam na mesma prática
musical, mas é isso que encontramos aqui, muitas vezes parecendo
que se trata de música contemporânea, com a particularidade
distintiva de ser totalmente improvisada. Acontece, porém, que
no momento em que julgamos identificar o que ouvimos, o líder da
sessão troca-nos as voltas com fraseados vindos directamente do
jazz, remetendo-nos em simultâneo para Thelonious Monk e para Cecil
Taylor, com cobertura pulsativa do mais obsessivo free rock. Mais adiante,
o piano lembra cristal a partir-se, o contrabaixo soa cavo e profundo
como a gruta de Lázaro e as peles, mais os pratos, cobrem o panorama
estéreo como se fossem vários os bateristas. Se isto não
os levar para o sétimo céu, nada levará.
Trespass
Trio: “...Was There to Illuminate the Night Sky...” (Clean
Feed)
Steve Swell: “Planet Dream” (Clean Feed)
Estes são tempos difíceis para ser um idealista no que respeita
à função social da música. Será a arte
dos sons realmente capaz de mudar o mundo, algo em que muitos acreditaram
nos anos 1960 e 70? Nenhuma resposta podia ser clara e definitiva num
estado de coisas, como o presente, em que a alienação parece
anacronicamente resultar do crescente acesso à informação,
mas o certo é que o saxofonista sueco Martin Kuchen toca com uma
mensagem. Ouvimos esta ou não, mas as linhas de sax que encontramos
em “...Was There to Illuminate the Night Sky...” têm
um carácter de urgência e um cometimento que tornam o Trespass
Trio num “must”. O contrabaixista Ingebrigt Haker Flaten e
o baterista Raymond Strid estão igualmente empenhados neste alerta
para a escondida e triste realidade existente por detrás da calma
só aparente das nossas vidas diárias. Há sempre,
algures, uma guerra com os seus milhares de vítimas, ou algum ponto
do globo onde a repressão, o racismo e a injustiça são
práticas correntes, e estes factos colocam sérios dilemas
morais a cada um de nós. O que pode um músico fazer senão
criar com estes factores em mente? Aqui está, pois, um disco que
ferve, é duro e transborda de raiva, gravado não para nosso
entretenimento, mas para nos desafiar os ouvidos e as consciências.
Não há meio termo: ou gostamos, ou encolhemos os ombros.
Quem lhe for indiferente é que fica a perder.
Como é sabido, na presente fase da história da humanidade
resta pouco espaço para a utopia. O mundo experimentou já
alguns desses sistemas ideais, e regra geral com resultados falhados,
senão mesmo trágicos. Mesmo na literatura o pensamento utópico
parece ter-se desvanecido. Apenas na música ainda há lugar
para esse tipo de inventividade, sobretudo em contextos que adoptam procedimentos
espontâneos e não-hierárquicos. A improvisação
musical tornou-se na única possibilidade de forjar micro-sociedades
de liberdade e igualdade, sem que seja necessário escolher um destes
cenários para atingir os objectivos propostos. É o que o
trombonista Steve Swell se propõe com o projecto Planet Dream,
“um mundo sonoro em que tudo está onde deve estar e onde
a aceitação de si mesmo, da mudança e dos outros,
bem como da sua música, é como o ar que respiramos”.
Neste caso, esses “outros” são o saxofonista alto Rob
Brown e o violoncelista Daniel Levin, cada um com os seus próprios
conceitos e processos de produção musical. O trio estabeleceu
um “contrato social” que permite a esta música ser
o que é: altamente criativa, sem fronteiras rígidas, “free-flowing”,
desenvolvida no respeito dos espaços individuais, mas ao mesmo
tempo colectiva e empática. Uma amostra do que seria o mundo se
todos nós o quiséssemos.
Vincent
Courtois / Sylvie Courvoisier / Ellery Eskelin: “As Soon As Possible”
(CamJazz)
Okkyung Lee / Peter Evans / Steve Beresford: “Check For Monsters”
(Emanem)
Alexander von Schlippenbach: “Friulian Sketches” (Psi Records)
O violoncelo continua a ser um dos mais renegados instrumentos do jazz
e da improvisação, e no entanto a sua intervenção
faz-se notar. Pela excepção que ainda constitui e pelo facto
de a sua presença significar muito frequentemente que as concepções
musicais em prática não são conformistas ou passivas
em relação aos padrões vigentes. É o caso
destes três discos recentemente colocados no mercado, cada um deles
com uma abordagem bem distinta da música e deste cordofone.
Em “As Soon As Possible”, encontramos o violoncelista francês
Vincent Courtois, um colaborador habitual de Louis Sclavis, na companhia
de Sylvie Courvoisier e de Ellery Eskelin. Se bem que integralmente improvisada,
a música aqui contida tem um evidente registo de câmara.
O “drive” do jazz, e em algumas ocasiões até
a intensidade, como na faixa “Lexington Market”, combina-se
de forma particularmente inventiva com os climas, a leveza expositiva
e o rigor (designadamente na cuidadosa inclusão de respirações,
na parcimónia sonora e na objectividade dos rumos tomados, a exemplo
de “Sotto Voce”) da música “erudita”. Por
isso mesmo, a gratificante fruição deste álbum desperta-nos
as mais díspares memórias (imaginações?) auditivas.
O Bach lido por Pablo Casals e as transfigurações melódicas
e rítmicas de Tom Cora no caso de Courtois, a não-linearidade
das obras pianísticas de Ligeti e as cascatas de notas de Cecil
Taylor no de Courvoisier, e finalmente, no que respeita a Eskelin, o trabalho
vocal de Schubert (!) e o estilo saxofonístico de Jan Garbarek
por alturas do quarteto europeu de Keith Jarrett.
É o violoncelo que vem primeiro na ficha técnica, mas depressa
se torna claro que esta é uma música cooperativa, com igual
espaço para os três intervenientes e diálogos vivos
entre estes. O mesmo se passa com o segundo trio desta escolha: a coreana,
mas radicada em Nova Iorque, Okkyung Lee surge em primeiro lugar no alinhamento
de “Check For Monsters”, mas Peter Evans e Steve Beresford
estão longe de se remeter a funções de acompanhamento.
Estoutro disco é muito diferente: imediatamente identificável
com o que se convencionou chamar de “música improvisada europeia”,
como de imediato percebemos no tema de abertura, “Phacthio”,
e não obstante só incluir um natural do Velho Continente
(o pianista britânico), é simultaneamente mais “duro”,
mais orgânico e mais compartimentado em termos estéticos.
O que nos surpreende, sabendo que Lee se afirmou com uma fórmula
de “música criativa” (a designação tão
cara a Anthony Braxton) em que confluem jazz, elementos contemporâneos
e os tradicionais das suas origens asiáticas, que Evans é
identificado com o experimentalismo radical do trompete e que o mais consagrado
Beresford se deu a conhecer por uma electroacústica “lo-fi”
com características muito próprias.
Curioso, tendo em conta até o modo como surgiu este grupo: na sua
primeira forma um quarteto (com Mark Sanders), estreou-se num espectáculo
intermedia em que se tocaram versões de temas de George Gershwin,
compositor “clássico” que incorporou a América
negra nas suas partituras. Não menos curioso é o facto de,
em “Friulian Sketches”, o mesmo músico que sempre afirmou
ser um pianista de free jazz e não o livre-improvisador que dele
dizem, e que, para mais, lançou em caixa as suas interpretações
de todo o “songbook” de Thelonious Monk, protagoniza um trabalho
que tem muito mais relações com o serialismo dodecafónico
do século XX e com o romantismo do século XIX do que propriamente
com a sua filiação jazzística. Neste CD de Alexander
von Schlippenbach, já o violoncelo perde protagonismo, não
só porque se trata do projecto de um pianista, mas também
porque o clarinete (Daniel D'Agaro) é o principal solista. Ainda
assim, Tristan Honsinger é afirmativo e justifica por inteiro os
motivos que o levaram a ser apontado como um das referências obrigatórias
da arte violoncelística.
Depois de fazer as pazes com as convenções do jazz que recusara
na década de 1960, Schlippenbach está igualmente bem com
a sua formação clássica (foi aluno de Alois Zimmermann),
como o atestam o quinto ou o décimo quarto “sketches”
desta colecção de curtíssimas composições
instantâneas, e chamo-lhes “composições”
porque o alemão encara a prática da improvisação
como um processo composicional. Em suma, e como se verifica com notáveis
edições como estas, se o violoncelo continua a ser uma raridade
nestas áreas, o certo é que tem uma nobre participação.
Don
Cherry / Nana Vasconcelos / Colin Walcott: “The Codona Trilogy”
(ECM)
Para muita gente, este vosso escriba incluído, a descoberta do
trio Codona no início da década de 1980 foi uma excitante
surpresa. Era algo mais do que o jazz livre e de colorações
étnicas que Don Cherry já tinha feito (reavivando as minhas
memórias do que ficara gravado em “Rawalpindi Blues”,
uma das melhores faixas da obra-prima absoluta de Carla Bley, “Escalator
Over the Hill”, e de um concerto muito especial no S. Luiz que juntou
o trompetista ao violinista L. Shankar), e ia mais longe do que qualquer
coisa que tivesse incluído os exotismos percussivos de Nana Vasconcelos,
que sempre tiveram mais que ver com os índios do Amazonas e a ancestralidade
africana do que propriamente com a música popular brasileira. Quanto
a Collin Walcott, se já o conhecíamos dos Oregon de Ralph
Towner e Paul McCandless e de dois títulos em nome próprio
na editora alemã, foi neste contexto que realmente impôs
a seriedade com que abraçava os rigores clássicos da Índia
em dois difíceis instrumentos, o sitar e as tablas.
Com a morte de Walcott em 1983, o projecto apenas resultou em três
discos, que depressa se tornaram objectos de colecção, ainda
mais valorizados com a passagem dos anos e com a ausência de reedições
– isso se exceptuarmos uma compilação “low price”
que, entretanto, a ECM lançou no mercado. Pois agora fez-se justiça
a esses marcos das carreiras dos três músicos, com “Codona”,
“Codona 2” e “Codona 3” reunidos numa caixa de
um branco apenas constratado pela tipografia do “lettring”
identificativo do que vem lá dentro. Faz todo o sentido que tenha
sido este o momento escolhido, pois vamos assistindo não só
a um recrudescimento das abordagens etnicistas do jazz como à sua
constituição enquanto tendência de características
próprias. A verdade é que, neste contexto, o conteúdo
de “The Codona Trilogy” é de uma actualidade que não
deixa de ser intrigante – Cherry, Vasconcelos e Walcott estavam,
decididamente, muito à frente do seu tempo. O primeiro já
se envolvera na revolução do free jazz, pelo que o visionarismo,
aqui, é a medida da sua inventividade.
Noel
Akchoté: “Toi-Même” (Winter & Winter)
O guitarrista francês Noel Akchoté é conhecido por
dois factores: por um lado a sua permanente inquietude, que o faz experimentar
as situações mais diversas, de um jazz com a energia do
rock ao “droning” electrónico, resultando esses investimentos
ora em desfechos francamente interessantes, ora em grandes decepções;
e por outro uma abordagem “conceptual” dos projectos que abraça.
“Toi-Même” corresponde por inteiro a essas duas facetas
– tem a voz como protagonista nos formatos da canção,
do “spoken word” e dos “field recordings”, e a
esse nível, se nada apresenta de operático, vai no entanto
buscar a esse âmbito o modelo narrativo e dialogante. Para o fazer,
recorreu Akchoté a alguns convidados bastante especiais, como o
último poeta da Beat Generation ainda vivo, John Giorno, uma figura
da pop experimental, Kevin Blechdom, o performer e actor “maldito”
Jean-Louis Costes e a cantora rock Laetitia Sheriff. Mas também
na parte instrumental fez escolhas personalizadas e muito distintas, que
vão desde o baterista de jazz Han Bennink aos DJs Fritz Ostermayer
e Sebastian Reier, passando pelo acordeonista bem ao estilo vienense Otto
Lechner. Dificilmente poderíamos imaginar tal combinação
de personalidades, mas o facto é que funciona.
Teríamos gostado que a guitarra do mentor desta estranha reunião
interviesse mais, mas a partir do momento em que assumimos que se trata
de um álbum vocal redireccionamos as nossas expectativas. E estas
encontram vários motivos de compensação. Um deles
é o carácter desarrumado dos “temas” que se
sucedem, fazendo-nos perceber de imediato que estamos muito longe do “pronto-a-ouvir”
da música comercial cantada que invade o nosso quotidiano. Acontece
mesmo, pelo meio, que uma canção se transforme numa conversa
informal entre os intervenientes, só mais adiante tendo continuação.
Em vez de este tipo de situações surgir como um anacronismo,
torna-se numa mais-valia de comunicabilidade. Ainda assim, o melhor do
CD está na faixa mais convencional em que Giorno declama um texto
seu sobre um fundo improvisado em que Akchoté, Bennink e o contrabaixista
Brad Jones estão particularmente bem.
Jimmy
Giuffre 3: “7 Pieces” (Jazz Beat)
Por incrível que pareça, nunca “7 Pieces”, disco
de referência do grupo de Jimmy Giuffre com Jim Hall e Red Mitchell,
fora reeditado em CD. Aconteceu só agora, e com um bónus
que muito apreciamos: as faixas que testemunham a passagem do Jimmy Giuffre
3 (com Buddy Clark no lugar de Mitchell) pela cidade de Roma no mesmo
ano da gravação do álbum, 1959. É importante
referir o contexto deste título: no ano anterior o singular clarinetista
e saxofonista conotado com o cool tocara em trio com o trombonista Bob
Brookmeyer e com Hall, também sem acompanhamento de piano e bateria
e, coisa mais invulgar ainda nas suas formações, igualmente
sem contrabaixo (um instrumento que, de resto, fora sempre mudando de
mãos nos seus projectos), e antes ainda o álbum “The
Jimmy Giuffre Clarinet” (1956) desconcertara os ouvintes com o seu
quinteto de palhetas e um duo de clarinete e celesta.
A música de Giuffre era invulgar e custava a cair no goto do ouvinte
médio do jazz na América, mas o certo é que antecipava
as liberdades que caracterizariam a década seguinte. Em 1961, ou
seja, apenas dois anos depois de “7 Pieces”, surgiria um novo
JG3 com Paul Bley e Steve Swallow, identificável já com
a “new thing”, embora, como era seu sinal distintivo, com
uma abordagem introspectiva, “soft” e arreigadamente lírica.
Em grande medida, Jimmy Giuffre contribuiu para que o free jazz não
fosse entendido apenas como a “estética do grito”,
mas a sua diferença continuou a valer-lhe a dificuldade de fechar
contratos para concertos e gravações discográficas,
só recentemente tendo obtido o reconhecimento que sempre merecera.
Em certa medida, este é um título conciliatório,
não se afastando demasiado dos convencionalismos jazzísticos
da altura. Apaziguou um pouco quem acusava Jimmy Giuffre de não
tocar jazz (muito boa gente considerava que o princípio “no
drums” implicava o resultado “no jazz”), mas nem por
isso deixava de apontar para o que viria de seguida. Hoje, ao ouvirmos
“7 Pieces”, sentimos o quanto estava grávido de futuro.
Norbert
Stein Pata Generators: “Direct Speech” (Pata Music)
Não é todos os dias que encontramos uma “front line”
de saxofone, flauta e trombone, assim como não é todos os
dias que podemos ouvir um saxofonista a conectar as influências
recebidas de Archie Shepp e David Murray com um modo de estar no jazz
que é indubitavelmente europeu. E de facto, se a abordagem do sax
e da improvisação de Norbert Stein não podia estar
mais em linha com o free bop nova-iorquino de hoje (até na pulsação
viva, por vezes algo “funky”), os conceitos composicionais
e as referências estéticas encontrados em “Direct Speech”
podem até lembrar por vezes a escrita de Anthony Braxton, mas têm
tudo que ver com o Velho Continente – coisa, aliás, que se
sente de forma muito aguda no tema “For: Get It!”, com alusões
à música das bandas de metais da Alemanha e da Áustria
A própria sustentação da fórmula Pata Generators
está contextualizada na cultura europeia: Stein vai buscar ideias
ao dramaturgo, poeta e ensaísta do surrealismo Alfred Jarry, conhecido
em especial pela pseudociência a que deu o nome de “patafísica”,
baseada em noções de ilógica, paradoxo e excepção.
Na prática encontramo-las, por exemplo, na forma como a flauta
de Michael Heupel surge em permanente contradição com os
uníssonos temáticos dos outros dois sopros, ou, mais genericamente,
nas equações entre, de um lado, os exactos sincronismos
dos instrumentos e as impositivas delimitações métricas,
e do outro, a espontaneidade dos solos e o quase expressionismo com que
estes são desenvolvidos por todos os membros do quinteto.
É precisamente a “patafilosofia” de Jarry que explica
os difíceis equilíbrios deste intrigante disco que contém
muito mais do que aquilo que pode ser absorvido numa primeira audição.
O que nos leva a terminar esta recensão tal como começámos:
não é todos os dias que intelecto e “drive”,
rigor e liberdade, conseguem conviver a um mesmo nível.
Gerald
Cleaver / William Parker / Craig Taborn: “Farmers by Nature”
(AUM Fidelity)
Se a sua primeira reacção ao olhar para a capa deste disco
for a de que o conteúdo corresponderá de alguma maneira
à música do formato trio de piano jazz tal como se entende
desde Bill Evans, tire daí a ideia. Aliás, a ordem com que
os músicos são apresentados diz tudo sobre o que está
em causa – primeiro vem o baterista, até porque é
Gerald Cleaver o mentor do grupo, depois o contrabaixista, William Parker,
que não tem propriamente o perfil de um “sideman”,
e finalmente o pianista, Craig Taborn. É como se a pirâmide
piano-contrabaixo-bateria tivesse sido invertida, mas não se pense
que por uma questão de hierarquias – a esse respeito, evidente
se torna ao ouvir a música, e muito depressa, que estão
todos os três investidos num colectivo de iguais.
Ou seja, não há aqui um piano solista com acompanhamento
rítmico tradicional, e nem sequer se trata de uma “drummer's
band”, fazendo tal supor que apenas haveria uma maior presença
do trabalho das baquetas numa organização em tudo o resto
convencional. Com poucas variantes pelo meio, tudo se desenrola por associação
de três solos simultâneos, lembrando indirectamente os conceitos
harmolódicos de Ornette Coleman. Ao nível formal, não
se pode dizer que este jazz seja particularmente “experimental”
(o mais longe que se vai a esse nível são os pianismos à
Cecil Taylor de Taborn em “Not Unlike Number 10”, mas até
estes já fazem parte do património jazzístico). Os
motivos utilizados estão bem implantados na história do
jazz, residindo a verdadeira surpresa deste “Farmers by Nature”
na forma crua e despida com que se apresentam, ora reduzidos ao esqueleto,
com uma extrema economia de notas, ora tocados sobre estruturas estáticas
ou de uma pesada lentidão. E ou o enquadramento é quase
exclusivamente rítmico e percussivo, envolvendo também o
piano nessa lógica, como em “Korteh Khah”, ou se valoriza
em especial a construção de texturas, à semelhança
do que acontece em parte de “Fieda Mytlie”, com destaque para
o arco de Parker.
Há um outro factor, e bastante importante. Todos estes temas foram
improvisados ao vivo (no The Stone de John Zorn), sem papéis nem
grandes combinações prévias. Também isso contribui
para que se “fale” aqui de maneira bem diferente a linguagem
de sempre, nesse procedimento residindo todo o interesse e impacto deste
álbum.
Transit:
“Quadrologues” (Clean Feed)
No que respeita a automóveis e pessoas em trânsito nas cidades
modernas, sabemos como, regra geral, não há nenhum “ir”
que não tenha o correspondente regresso. “Quadrologues”
é a segunda edição pela Clean Feed do quarteto Transit,
projecto com o qual começamos a ganhar alguma familiaridade. Não
significa tal que Jeff Arnal (percussão), Seth Misterka (saxofone
alto), Reuben Radding (contrabaixo) e Nate Wooley (trompete) façam
mais do mesmo neste novo CD – não, eles podem estar de volta,
mas a trajectória que escolheram para se reencontrarem connosco
não é a que está cartografada em GPS.
A configuração do seu trabalho colectivo é a ideal,
até, para não se repetirem: estamos diante de uma colecção
inteligente e sensível de operações entre a tradição
do jazz e uma abordagem nada óbvia da música. Arnal lida
com o tempo e a métrica sem preocupações matemáticas
exactas, sempre desafiando o nosso sentido do tempo. Misterka é
especialmente criativo na sabotagem dos procedimentos “mainstream”
do jazz, seja utilizando quartos-de-tom ou elementos serialistas, e isto
sempre DENTRO da herança bop. Radding mostra-nos que o balanço
e o “drive” são questões muito mais intrincadas
do que a fórmula a que costumamos chamar “swing”. Mais
uma vez, Woolley armadilha-nos as expectativas quanto à sua musicalidade:
se se trata de um dos mais radicais experimentadores do trompete, é
também um virtuoso quando lida com materiais mais “straight-ahead”.
Em suma: esta é uma música capaz de parar a circulação
nas ruas.
Herculaneum:
“Herculaneum” (Clean Feed)
Herculaneum? Qual – a cidade italiana destruída pelo Vesúvio
no ano 79 A.C. ou a população do Missouri, nos EUA, com
menos de 4000 cidadãos? Ao que parece, nenhuma delas, mas uma referência
directa a Hércules, o herói grego da Antiguidade conhecido
pela sua força. Podia ser também a descrição
do tipo de música tocado por Nick Broste, John Beard, Greg Danek,
Nate Lepine, David McDonnel, Patrick Newberry e Dylan Ryan, mas não
é. É certo que a densidade das assemblagens de som deste
septeto pode chegar a dimensões orquestrais, mas o grupo interessa-se
mais por desconstruir as suas possibilidades tímbricas em duos
e trios e mesmo quando todos estão activos o foco é na criação
de espaços e não de camadas de materiais. A esse nível,
não trazem nada de absolutamente novo: Duke Ellington e Charles
Mingus tinham os mesmos objectivos quando lidavam com “big bands”.
A diferença está em outros aspectos: os Herculaneum misturam
o idioma jazz com a música clássica contemporânea
e com as apelativas melodias das bandas de metais ciganas da Roménia.
Mas há mais: o projecto nasceu quando o baterista, vibrafonista
e compositor Dylan Ryan decidiu fazer algo no contexto da fusão
jazz-rock que resultasse da sua admiração pela música
de Captain Beefheart. As coisas desenvolveram-se rapidamente a partir
dessa primeira intenção (por vezes parece-nos ouvir Messiaen
arranjado por Gil Evans!), mas essa identidade permaneceu. É por
isso mesmo, aliás, que os Herculaneum associam músicos vindos
das cenas do avant-jazz e do avant-rock de Chicago. Muito, mas mesmo muito,
curioso.
Enrico
Pieranunzi: “Enrico Pieranunzi Plays Domenico Scarlatti –
Sonatas and Improvisations” (CamJazz)
À partida, esperar-se-ia que Enrico Pieranunzi interpretasse Scarlatti
– e improvisasse dentro da sua música, algo que, de resto,
fazia parte das lógicas do barroco – do ponto de vista do
jazz, mas não é isso o que se verifica neste disco. É
certo que, por vezes, a sua orientação jazzística
se faz sentir, mas o propósito foi o de entrar por inteiro no universo
scarlattiano. A abordagem difere bastante do que faria um intérprete
de música antiga, mas até por isso tem méritos próprios.
Pieranunzi dá relevo à rítmica do compositor e à
fluidez das suas sonatas, o que se explica precisamente pelo facto de
ser quem é. No conjunto da sua obra gravada, no entanto, este título
pouco mais representa do que uma curiosidade.
Little
Women: “Teeth” (Sockets)
Dois saxofones (tenor e alto), guitarra eléctrica e bateria: é
esta a configuração dos Little Women, grupo de Brooklyn
que alia o free jazz e o hard bop com o punk e o metal em temas tão
espessos a nível sonoro e tão ritmicamente agitados que
ficamos com a adrenalina a borbulhar – o que talvez explique a breve
duração deste CD, 19 minutos apenas divididos em quatro
partes. Mas nem sempre “Teeth” segue numa cavalgada desenfreada,
e quando os acontecimentos se concentram na interacção dos
saxes, é quase como se estivéssemos perante um duo entre
Joe McPhee e Ken Vandermark, pleno de trocadilhos e artimanhas. Atenção,
pois, a Travis Laplante e Ben Greenberg.
Rohrer
/ Mazurek / Takara / Barella: “Projections of a Seven Foot Ghost”
(Open Field)
Pouco conhecida além das fronteiras do Brasil e centrada no estado
de São Paulo, existe uma cena de improvisação que,
apesar de diminuta, tem tido interessantes frutos. Miguel Barella (guitarra,
electrónica) e o expatriado suíço Thomas Rohrer (saxofones,
rabeca, electrónica) constituem o seu núcleo duro. Com a
mudança do cornetista americano Rob Mazurek (Chicago Underground
Duo, Trio e Orchestra) para terras de Santa Cruz, iniciou-se uma colaboração
regular que tem propiciado uma maior divulgação internacional
dos seus nomes, algo que desde há muito mereciam. O quarto elemento
deste quarteto, Maurício Takara, é o baterista do grupo
brasileiro de Mazurek, São Paulo Underground. Electroacústica,
densa e irrequieta, a música deste duplo álbum é
convincente e até arrebatadora. Mais uma porta que se abre...
Franck
Vigroux / Matthew Bourne: “Call Me Madame” (D'Autres Cordes)
Para um disco que tem os sintetizadores analógicos como mote, há
muito mais para ouvir aqui, desde um intermitente trabalho de “sampling”
(os gira-discos de Vigroux), surgindo nas tramas como se súbitos
“frames” fossem introduzidos numa esquizóide montagem
cinematográfica, a taquicardias pianísticas que são
o que mais em “Call Me Madame” se relaciona com o jazz e também
a pinceladas de guitarra com distorção, estas lançando
pontes para o rock. O resultado é bom, mas parece vir de um trabalho
de laboratório que coloca em dúvida o verdadeiro relevo
da improvisação (dado que, para todos os efeitos, se trata
de improvisadores) em todos os procedimentos.
Trio
Hot: “Jink” (Nemu Records)
Nunca imaginaríamos que Albrecht Maurer, violinista em vários
grupos de cordas de Kent Carter, o clarinetista Theo Jorgensmann, um dos
mais interessantes cultores do instrumento que toca, e o contrabaixista
Peter Jacquemyn, um herdeiro de Peter Kowald, alguma vez poderiam soar
como neste “Jink”. Daí a surpresa de os encontrar num
projecto que mimetiza as “hot bands” europeias dos anos 1930.
Trata-se de uma releitura (totalmente improvisada, por estranho que pareça)
do swing de Stéphane Grapelli, Joe Venuti, Benny Goodman e Artie
Shaw, pertencendo surpreendentemente a única composição
interpretada no álbum ao espólio do be bop, “Round
Midnight”, de Thelonious Monk. Os desfechos são interessantes,
mas a não ser pelo exercício fica por entender qual é
a pertinência do que se propõe fazer este Trio Hot.
Bill
Dixon: “17 Musicians in Search of a Sound: Darfur” (AUM Fidelity)
A pouca frequência com que esta grande figura do free trompetístico
pisa os palcos e os estúdios contribuiu para que se tornasse numa
lenda. E o facto é que o seu regresso está a beneficiar
dessa aura. Num primeiro momento, juntou-se a Cecil Taylor e Tony Oxley,
mas o que parecia ser um supertrio não resultou particularmente
interessante. Já a sua colaboração com a Exploding
Star Orchestra de Rob Mazurek foi largamente aplaudida, seguindo-se agora
este disco gravado ao vivo na edição de 2007 do Vision Festival.
A música diverge bastante da daquela outra “big band”:
é seca, agreste e pesada, desenvolvendo-se em permanente desafio
aos ouvidos, e de uma tristeza infinita. Até pelo facto de não
seguir nenhuma linhagem orquestral do jazz em concreto, Bill Dixon continua
a colocar-se no pelotão da frente.
Five
Spot: “Poltva” (Solyd Records)
Ecos do free jazz original ouvem-se neste disco de um quinteto transnacional
liderado pelo lituano Petras Vysniauskas que inclui três ucranianos,
Yuri Yaremchuk (um excelente saxofonista e clarinetista!), Roberta Piket
e Mark Tokar, e um alemão, Klaus Kugel. O que quer dizer que, se
Vysniauskas é conhecido pela forma como inscreve a identidade cultural
da Lituânia na música que faz, tal não fica particularmente
evidente neste “Poltva”.Uma coisa é certa, porém:
o tipo de intensidade e entrega que aqui se escuta é caracteristicamente
do Leste. Muito bom, e a fazer lembrar a pujança do Ganelin Trio
nos primórdios.
Fifty
Foot Hose: “Cauldron” (Weasel Disc)
Quem imaginaria que um disco que vendeu pouco na altura do seu lançamento,
em 1967, e uma banda que depressa se desmembraria (1969), devido ao seu
insucesso, se tornariam tão influentes? Pere Ubu, Throbbing Gristle
e Chrome declararam o que lhes deviam e basta ouvir o rock neo-psicadélico
e a weird folk destes nossos anos 00 para perceber o quanto os Fifty Foot
Hose e o álbum “Cauldron” foram historicamente importantes.
Ainda que alinhados com o som “acid” de San Francisco, trouxeram
uma novidade à cena de então: tocavam rock enraízado
na tradição dos blues com instrumentação electrónica
e um conceito formatado na “new music”, com referências
que iam do “Poem Eléctronique” de Edgard Varèse
a “Silver Apples of the Moon” de Morton Subotnick. Ainda que
com uma fiel legião de fãs na comunidade hippie, o grande
público não os compreendeu e a crítica chegou a comentar
que não sabia se «se eram imaturos ou prematuros»,
tão “diferente” era o seu som. O visionarismo do grupo
de Cork Marcheschi – hoje um renomado escultor que utiliza o néon
no domínio da arte pública – acabaria, felizmente,
por ser reconhecido e esta é uma de várias reedições
de um título fundamental em qualquer colecção dedicada
à música criativa. “Feedbacks” de guitarra (David
Blossom), vocais pop femininos que lembram uma Grace Slick mais audaciosa
do que a cantora dos Jefferson Airplane (Nancy Blossom), algum balanço
do jazz e uma parafernália electrónica que inclui o theremin,
o echolette e dispositivos inventados pelo próprio Marcheschi (geradores
de ruído e “gadgets” com nomes como “squeaky
stick” ou “spark gap”): é isto que encontrará
quem quiser desvendar o universo destes desbravadores de caminhos, tudo
assemblado numa fórmula musical que ainda hoje nos surpreende.
Radio
I-Ching: “The Fire Keeps Burning” (Resonant)
A fórmula seguida pelo trio nova-iorquino Radio I-Ching (Andy Haas,
Don Fiorino e Dee Pop) pode parecer interessante à partida: faz
a ponte entre o avant jazz, o transe do rock e da folk neo-psicadélicos
e as influências etnicistas, metendo estes ingredientes em formas
composicionais muitas vezes emprestadas de outros, contando-se no rol
nomes tão variados quanto o nubiano Hamza El Din, o jamaicano Count
Ossie, o hawaiano Alfred Newman, mais Don Van Vliet (Captain Beefheart),
Roland Kirk, a dupla Prince Lasha / Sonny Simmons e Thelonious Monk. O
problema é que, pelo caminho, nunca conseguem encontrar uma identidade
própria. Tudo é derivativo, escorregadio e inconsequente.
Há, pontualmente, momentos de grande interesse, mas a nada conduzem.
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