Críticas - Novas

Última actualização:
30 Julho 2010

 
     
 

Quatuor Qurat Neum Sixx: "Live At Festival NPAI" (Amor Fati)
Frank Gratkowski / Simon Nabatov / Marcus Schmickler: "Deployment" (Leo Records)
Franck Vigroux / Elliott Sharp / Bruno Chevillon / Joey Baron: "Venice, Dal Vivo" (D'autres Cordes)
Jamie Coleman / Seymour Wright / Grundik Kasyansky: "Control and its Opposites" (Another Timbre)
Tell: "Tonal-Nagual" (Rossbin)
Norz: "(Also Known As) Acker Velvet" (Schraum)
Sainkho Namchylak / Dickson Dee: "Tea Opera" (Leo Records)

Se é certo que a prática da improvisação mudou com a introdução da electrónica – além de uma abertura do espectro sonoro, proporcionou-lhe esta a repetição de elementos e um desdobramento de possibilidades para lá da utilização de técnicas extensivas –, também é verdade que, graças à mesma, computadores, sintetizadores e outros dispositivos conquistaram um tipo de intervenção que originalmente não tinham: aquela que se produz em tempo real. Mas há muito mais a dizer sobre as recentes articulações entre os instrumentos "convencionais" e a tecnologia analógica e digital – por exemplo, esta acentuou o carácter composicional que, para todos os efeitos, a improvisação sempre teve ou procurou ter. Não necessariamente na pós-produção de estúdio, mas (para referir o caso concreto do "sampling" e da computação) devido à própria funcionalidade recombinante e de processamento / tratamento em cima do palco, pela qual a intuitividade do improviso é digerida e restituída à trama musical já com o crivo da dedução.

Hoje, quaisquer considerações sobre o tema da improvisação electroacústica obrigam a uma ampla percepção dos equipamentos utilizados – entre o "circuit bending" e a informática existe uma realidade plural, que vai de abordagens não muito dissemelhantes das próprias de um instrumento acústico ou eléctrico, ao nível da mais elementar produção de som, até à entrada no domínio virtual, em que sons de outras proveniências (os produzidos por um trompete ou uma guitarra e os gravados em meio natural, urbano, industrial, etc.) são duplicados e mutados por vezes até ao irreconhecimento, o que implica todo um processo de transferência. Os discos seleccionados nestas páginas cobrem essa diversidade de situações...

É uma curiosa combinatória, a do Quatuor Qurat Neum Sixx: três instrumentistas acústicos de percursos muito distintos, Daunik Lazro, Michael Nick e Sophie Agnel, contracenam com um electronicista de características muito particulares, Jerôme Noetinger. Lazro é um herdeiro da estética do grito de Albert Ayler e uma das figuras exponenciais da primeira geração de livres-improvisadores que, em França, sempre mantiveram vínculos com o free jazz. Nick passou por várias frentes do jazz, incluindo o de fusão, e pelo rock progressivo, tendo colaborado, por exemplo, com os Art Zoyd, e Agnel é um dos novos valores da improvisação textural, fortemente marcada pela influência da música contemporânea. Incluindo nas suas ferramentas de trabalho os velhos gravadores de bobinas Revox, Noetinger vem dedicando a sua actividade à aplicação na electrónica ao vivo dos conceitos de "musique concrète", por via da manipulação em tempo real de fitas magnéticas. O interessante deste registo de um concerto realizado em 2007 no Festival NPAI é o facto de o saxofone barítono, o violino e o piano adoptarem uma discursividade "electro", feita de "bruitages" e microtonalidades. No meio desses materiais, Jerôme Noetinger arma um autêntico festival com os seus "loops", restituindo a este velho procedimento uma criatividade que já lhe não vislumbrávamos. E como não podia deixar de ser, dado o contexto misto, de forma muito diferente da que desenvolve com a Cellule d'Intervention Metamkine e na companhia de Lionel Marchetti.

Líder das suas próprias formações e membro do "sui generis" ensemble alemão de música contemporânea Zeitkratzer (o seu repertório vai de Xenakis a... Lou Reed), Frank Gratkowski desenvolve a sua actividade, sobretudo, na fronteira entre o free jazz e a música improvisada. Simon Nabatov é, por sua vez, um dos mais prestigiados pianistas do presente "revival" free, com a particularidade de o tocar com a carga referencial clássica que transporta consigo. E se bem que em "Deployment" actue, frequentemente, com preparações, não seria de estranhar que, em conjunto com o saxofonista e clarinetista, se circunscrevesse a uma linguagem mais tipicamente jazzística. A presença de Marcus Schmickler e do seu computador impede que tal aconteça: a prestação deste pode parecer discreta, mas isso porque opta por um trabalho de envolvimento, que não propriamente de trituragem. Preferindo a síntese ao processamento, o que lhe ouvimos neste CD é substancialmente diferente dos seus álbuns a solo ou das colaborações que realizou com Keith Rowe, Thomas Lehn e Peter Rehberg: permite que os instrumentos acústicos assumam por inteiro as suas gramáticas históricas, mas quase sub-repticiamente condu-los para outras consequências. Resultado: em vez de um disco expressionista, temos um belo documento de impressionismo electroacústico.

Sendo electroacústica a música de "Venice, Dal Vivo", que longe estamos do formato categorizado como tal na área da música erudita! Ainda que os nomes de Elliott Sharp, Bruno Chevillon e Joey Baron sejam familiares a todos os que frequentam o planeta jazz (Sharp devido às suas reinterpretações de Thelonious Monk, Chevillon graças às cumplicidades com Louis Sclavis e Baron pelas parcerias que teve com John Zorn), a improvisação praticada neste título também não o tem como principal matriz – esta, podemos dizê-lo, é o rock, presente na energia, nos intermitentes "beats" e na geral distorção sonora. O jazz está lá, algures, mas mesclado com muitas outras adopções trans-idiomáticas. O leque de registos deste quarteto vai do noise brutalista ao desconstrucionismo experimental, os gira-discos do seu mentor, o francês Franck Vigroux, as guitarras assistidas por bem armadilhadas pedaleiras de Vigroux e Sharp e os processadores de Chevillon interferindo, literalmente, com os sopros (Sharp), o contrabaixo (Chevillon) e a bateria (Baron). Estamos perante uma colecção de turvas "soundscapes" carregadas de ameaça, com uma pulsão obsessivo-compulsiva que, comparativamente, faz de qualquer feito do doom metal um mero exercício tentativo de aproximação ao lado obscuro da alma humana. Ficamos com a impressão de mergulhar num buraco negro, mas o que mais interessa reter é a ideia de que um par de pratos, uma guitarra e umas "racks" bastam – sempre bastaram – para agir electronicamente.

Jovens músicos do círculo de Eddie Prévost (frequentam os "workshops" de improvisação deste), Jamie Coleman, Seymour Wright e Grundik Kasyansky estão mais próximos da veia exploratória e abstraccionista dos electroacústicos AMM do que do trio acústico free igualmente mantido pelo referido percussionista, uma das figuras de referência da cena britânica. O trompete e o saxofone alto dos dois primeiros interagem com a electrónica do último dentro, exactamente, dos mesmos parâmetros: a manutenção não-desenvolvimentista de texturas (não há verdadeiramente início e fim, seccionamentos ou evolução dramática), mas ainda assim surpreendentemente fluida, com completa exclusão de fraseados lineares ou escalas. À maneira de John Cage, a gravação inicia-se com o ruído ambiente do local onde se realizou a performance, ouvindo-se pássaros e o murmúrio do tráfego – os instrumentos apenas se acrescentam, sem grandes agitações da superfície auditiva em que (quase) tudo minimalisticamente se reduz, mesmo que em prejuízo das dinâmicas. Ainda assim, distancia-os da frente "near silence" o facto de não evitarem as ocasionais nebulosas de som ou algum abrupto pico de intensidade ou de estridência, logo contrariado por uma elaboração liliputiana. Kasyansky utiliza, sobretudo, o que chama de "sintetizador de feedbacks", ou seja, um sintetizador analógico operado não com um VCO (oscilador de frequências), mas com um oscilador de "feedback". O título do disco, "Control and its Opposites", vem das possibilidades suscitadas, na perigosa fronteira entre o controlo e o descontrolo, o que muito diz da contenção encontrada.

Se uma parte das actuais electrónica e electroacústica é pródiga nas analogias científicas, outra referencia-se no esoterismo. É o caso de "Tonal-Nagual", do duo suíço Tell, formado pelo gira-disquista (em outros contextos também vocalista, poeta sonoro e "performer") Joke Lanz e pelo percussionista Christian Wolfarth. Segundo as descrições de Carlos Castaneda em "Tales of Power", o pensamento místico do xamã yaqui Don Juan Matus divide o universo em duas partes, a "tonal" (o mundo dos objectos materiais) e a "nagual" (o mundo não-material), só se podendo aceder a esta por "clarividência". Ora, a electrónica musical sempre aspirou à imaterialidade, e quando entramos no domínio dos "softwares" (Max / MSP, SuperCollider...) alguns argumentam mesmo que se está perante a criação de música não-instrumental. Não é esse, de todo, o caso dos gira-discos, mas Lanz, conhecido sobretudo como Sudden Infant e pelas suas prestações nos colectivos pós-industriais Schimpfluch, Catholic Boys in Heavy Leather, Evil Moisture e Small Cruel Party, é conhecido por fazer com o "turntablism" o que faz com todos os seus outros recursos: ruído, perspectivado enquanto descarga ritual e via de transcendentalização. O seu trabalho com Wolfarth continua os que teve com outras personalidades do avant-jazz e da improvisação absoluta como Peter Kowald e Charlotte Hug, mas a particularidade do jogo percussivo daquele outro membro do projecto permite-lhe uma incidência nos pormenores que não lhe é habitual e de que se sai muito bem.

Os instrumentos principais de Andreas Trobollowitsch e Johannes Trondle são, respectivamente, as guitarras e o violoncelo, mas a panóplia de "gadgets" electrónicos a que lançam mão é imensa. A música que constroem é de contrastes, jogando estática com timbre, ruído branco com tons definidos, minuciosos concretismos com as frases em "stream of consciousness" que são de regra na música improvisada dita "europeia". Nisso não são propriamente originais, mas o disco de estreia do duo, "(Also Known As) Acker Velvet", tem a seu favor uma frescura que deriva, precisamente, de alguma "ingenuidade". Se o compararmos ao que faz o constituído por Luigi Archetti e Bo Wiget, também, respectivamente, guitarrista e violoncelista, é mais cru e tem arestas mais toscas e irregulares, abordagem essa que está nos antípodas da limpidez clínica encontrada nas combinações electroacústicas com computador, o que é sempre uma boa notícia, pelo facto de quebrar com a actual tendência para o hegemonismo do MacIntosh. Trobollowitsch e Trondle têm um passado no jazz propriamente dito (o primeiro) e na música erudita (o segundo), e esse circunstancialismo pressente-se no "drive" e na aparentemente líquida sequencialidade das construções realizadas. Por aqui se prova que uma improvisação sustentada na parasitagem sonora pode perfeitamente ter o "sangue quente" da velha improvisação acústica...

À excepção de uma inesperada – e não muito bem sucedida – incursão da cantora de Tuva pela música de dança, o nome de Sainkho Namchylak tem sido identificado com práticas acústicas que incidem sobre a exploração integralista das capacidades dos instrumentos convencionais – e isto tomando a própria voz como um instrumento. Decorrente de uma passagem pela China em 2008, a sua "ópera do chá" destoa desse rumo de várias décadas. A seu lado tem Namchylak o chinês Li Chin Sung, que deste lado do mundo reconhecemos como Dickson Dee, DJ Dee, PNF ou Khoomi Sound Machine. John Zorn reparou nele e incluiu-o no catálogo da americana Tzadik. Neste disco de edição britânica (na etiqueta do russo Leo Feigin), Dee aproveita da melhor maneira o facto de não pertencer a qualquer corrente da electrónica. Ora lhe ouvimos uma rítmica "groovy", ora paisagens sonoras, ora "field recordings" de significação especificamente chinesa, improvisando sem nunca soar a "música improvisada", esse idioma a que, por equívoco, Derek Bailey chamou de "não-idiomático". Também a nível de ferramentas Sung é um desalinhado: em "Tea Opera" usa sinusoidais analógicas, gira-discos, "laptop" e outra parafernália cuja escolha é ditada apenas pelas situações musicais que deseja explorar. Resultam uma delícia as interacções do canto bifónico de Sainkho Namchylak com o "noise" das máquinas ou com a capsulização auditiva das agitações urbanas de Hong Kong e Taiwan. O curioso, mesmo, é que esta música tem uma dimensão cerimonial e uma atmosfera de mistério que, apesar dos meios contemporâneos utilizados, nos remete para um passado perdido no tempo, aquele em que o chá era talvez, no Oriente, o mais importante mediador de regulação social.

 

Nate Wooley / Paul Lytton; "Creak Above 33" (Psi Recordings)
Neste duo estão representadas duas gerações da livre-improvisação cujas perspectivas muitas vezes não coincidem. Paul Lytton (62 anos de idade) foi um dos pioneiros desta via da música de hoje no Reino Unido, e se Nate Wooley (35 anos) é um produto do que se fez nesses idos das décadas de 1960 e 70, tem desenvolvido um trabalho de renovação das premissas então formuladas – curiosamente, dos dois é também aquele que nunca cortou amarras com o jazz, facto a que talvez não seja estranho o seu nascimento nos Estados Unidos. Neste disco, o segundo que têm editado, deitam por terra os dogmas que vêm separando a "old school" da novíssima. Pouco importa averiguar quem andou mais para se encontrar com o outro: nestas faixas até parece que a maior generosidade coube ao percussionista britânico, mas na verdade o que lhe ouvimos vem inteiramente na sequência da personalidade musical que foi revelando – e consubstanciando – ao longo de décadas. Por sua vez, nota-se no trompetista um grande respeito pelo seu parceiro veterano, mas tal nunca o impede de constantemente lhe lançar desafios e armadilhas.
O que realmente interessa é que "Creak Above 33" é um álbum soberbo, forte candidato a constar entre os 25 mais da discografia essencial da música improvisada. Lytton está claramente no seu território: pode ele ter tocado (e tocar no presente) com improvisadores que lidam, sobretudo, com o fraseado e a escala (a começar por Evan Parker), mas a verdade é que a sua acção foi sempre textural, sendo a elaboração de texturas, precisamente, o que mais interessa a Wooley. E no entanto, se o abstraccionismo deste tipo de abordagem "free form" que dispensa métricas tem muitas vezes como consequência uma perda de sentido narrativo e até, no limite, de "musicalidade", o certo é que, aqui, a intensidade, a fluidez, a organicidade e mesmo a fisicalidade dos eventos sonoros conjuntos é tal que, por vezes, diríamos estar na presença de um outro tipo de "swing", bizarro sem dúvida, quebrado decerto, mas que nos balança os corpos com igual energia.
Os partidários da escola reducionista encontram neste CD uma genial lição sobre dinâmicas e aqueles que ainda confundem liberdade expressiva com gritaria (Brotzmann e seus descendentes) podem igualmente beneficiar da incrivelmente imaginativa gestão dos espaços e do silêncio aqui documentada. Não há nada, de facto, como ignorar pelouros exclusivistas e criar música que efectivamente não tenha fronteiras...

 

Buffalo Collision: "Duck" (Screwgun)
Só pelos nomes envolvidos não podíamos imaginar o que encerra este "Duck". Tendo como referências o pós-free jazz de intensidade rock de alguma da produção de Tim Berne, a acentuação "groovy" do tipo de situações a que se dedicam os Bad Plus em que Ethan Iverson e Dave King militam e a condição camerística da música que Hank Roberts executa com, por exemplo, John Zorn, natural seria de esperar que aqui encontrássemos um jazz de fusão com reminiscências para-eruditas. Errado. O que este CD nos oferece é música improvisada (porque sem temas compostos, e porque próxima esteticamente dessa área) de alta qualidade, abstraccionista na forma, mas – e aí reside a sua extrema curiosidade – estranhamente acessível.

As opções tomadas indicariam esse desfecho como improvável, e até a duração da primeira e da terceira faixas (36 e 25 minutos respectivamente) poderia constituir um desafio à paciência, mas os excelentes músicos envolvidos dão a volta a tudo isso. Nas suas lentas progressões, "ISTof3>34:&Change" e "3RDof5>22:&Change" prendem-nos os ouvidos para não mais nos largar, conduzindo-nos até aos seus finais com muito eficazes estratégias de renovação do interesse – é como se assistíssemos ao desenrolar de uma intriga, um momento impelindo-nos a querer perceber como será o seguinte. Deve-se tal ao dramatismo e à tensão que estes Buffalo Collision dão à música tocada, tornando-a em algo que tem tanto de aliciante quanto de hipnótico, por um lado exigindo-nos uma participação auditiva, pelo outro deixando-nos num estado de torpor receptivo.
Quando os desenvolvimentos parecem querer extravasar as margens do rio que é esta música, um "beat" da bateria ou a repetição de um motivo pelo saxofone centram os acontecimentos, dando novo impulso à corrente. Uma vez por outra, o ansiado – e prometido – remoinho acontece, mas quando se desfaz é para dar lugar a outras agitações e outras inquietudes, contrastadas por elementos de imensa beleza melódica ou harmónica. Um álbum que merece toda a atenção.

 

Dave Liebman / Evan Parker / Tony Bianco: "Relevance" (Red Toucan)
Se dúvidas ainda houvesse quanto à ligação umbilical que o patriarca da livre-improvisação europeia, Evan Parker, tem com o jazz (ele que já publicamente manifestou – numa palestra realizada na Fundação Gulbenkian, em Lisboa – o seu especial apreço pelo legado de John Coltrane), este seu encontro com Dave Liebman, outro saxofonista coltraneano que habitualmente é rotulado como um músico "mainstream", é a prova provada de que, afinal, estes dois mundos da música de hoje estão mais interligados do que muitos querem admitir.

Com vocabulários cruzados do bop e do free, mas totalmente improvisada, a música que aqui se ouve foi gravada em 2008 num clube de Londres, o Vortex. Nunca antes Liebman e Parker haviam tocado juntos, o que é, no mínimo, surpreendente, tal a afinidade entre ambos que nos é revelada por "Relevance". O mediador desta reunião de gigantes é Tony Bianco, um excelente, mas inexplicavelmente pouco reconhecido, baterista que tem a particularidade de encadear, no mesmo jogo percussivo, textura e pulsação. Esta dupla condição serve de âncora para os dois sopradores, cada um dela aproveitando o que mais lhe diz respeito técnica e esteticamente, e de facto Bianco é o motor de tudo o que vai acontecendo. Motor em todas as implicações da palavra, pois o incentivo que dá aos seus parceiros nunca pára e sempre se renova, com uma intensidade que, por vezes, chega a ser desnorteante.
Há aqui "fire music" e extremo lirismo, fraseados de DNA jazzístico e explosões de criatividade pura. Inútil será tentar descobrir quem está mais "dentro" ou mais "fora", se Liebman ou Parker. A verdade é que, em certas passagens, o Dave Liebman que aqui se ouve é o mais livre de sempre, tanto quanto o próprio Parker, e este poucas vezes terá sido tão "jazzy" como nestes dois "sets" divididos em quatro partes. Por ocasiões, não é fácil diferenciar os estilos pessoais dos dois músicos, tão emaranhados ficam nesta compita. Uma maravilha, absolutamente a não perder.

 

Satoko Fujii Ma-Do: "Desert Ship" (Not Two Records)
Taylor Ho Bynum / Tomas Fujiwara: "Stepwise" (Not Two Records)

Eis duas novidades do jazz asiático de resultados muito insatisfatórios. Ma-Do é a associação da pianista Satoko Fujii com o seu marido Natsuki Kamura (trompete), o contrabaixista Norikatsu Koreyasu e o baterista Akira Horikoshi, músicos japoneses que encontraram as portas abertas nos Estados Unidos. A lenda dos navios que vão parar às areias do deserto no Sahara serve como título para este CD e enquadra o que está em questão na música de Fujii: o paradoxo. Trata-se de um híbrido de linguagens, o jazz integrando-se com o romantismo pianístico, alguns resquícios das músicas populares e tradicionais (começando, como seria natural, pelas do Japão) e a música erudita contemporânea, com súbitas mudanças de rumo e de vocabulário no mesmo tema. Os resultados variam: encontramos passagens de algum brilhantismo, mas também outras que não funcionam. Por vezes, parece que uma determinada peça não pertence ao mesmo puzzle. Quem não gosta de Chopin, por exemplo – caso do autor destas linhas –, fica desconfortável com certas situações. O pior é, no entanto, a prestação de Kamura, repetitiva nos processos e derivativa nos desenvolvimentos.

O cornetista Taylor Ho Bynum vem sendo apontado como um dos novos heróis do "avant-jazz" de além-mar, mas o certo é que em "Stepwise" nunca o proveito retirado confirma a fama que suscitou. Pelo contrário, a presente colecção de temas transmite uma impressão de normalidade, ou se preferirem, de medianidade, que nos deixa invariavelmente insatisfeitos e a ansiar por mais. Curiosamente, as "liner notes" são assinadas por Nate Wooley, o mesmo que, no seu duo com outro percussionista, Paul Lytton ("Creak Above 33"), atinge níveis de excelência que aqui nem se vislumbram. Também o baterista Tomas Fujiwara tem dado que falar, mas o certo é que ele igualmente pouco contribui para esta música "levantar voo". É pena.

 

Nobuyasu Furuya Trio + Quintet: "Stunde Null" (Chitei Records)
Editado no Japão, para onde Nobuyasu Furuya (saxofone tenor, clarinete baixo, flauta) regressou depois de mais de um ano de permanência em Portugal, "Stunde Null" volta a apresentá-lo na companhia de músicos nacionais, em trio com Hernâni Faustino (contrabaixo) e Gabriel Ferrandini (bateria, percussão) e em quinteto com estes mais Rodrigo Pinheiro (piano) e Eduardo Lála (trombone). Cada uma das formações intervém com uma longa improvisação, e se a do trio continua os mesmos parâmetros que conhecemos em "Bendowa", cumprindo a missão com novo desvelo, é o quinteto que constitui a grande surpresa deste disco. Muito contribuem os dois convidados para um aumento das dinâmicas, com Pinheiro a expandir o âmbito das acções com os seus pianismos em permanente metamorfose e Lála a integrar-se de forma particularmente inteligente com os sopros de Furuya. Esperemos que este pare novamente em Lisboa num futuro breve e que as aventuras sónicas que por cá iniciou tenham continuidade.

 

Ross Bolleter: "Night Kitchen – An Hour of Ruined Piano" (Emanem)
Se a enunciação do conceito parece coisa de loucos, basta ouvir os resultados práticos para perceber não só que faz todo o sentido como também que a música produzida pode chegar a níveis inusitados de beleza. O australiano Ross Bolleter dedicou o seu percurso musical à manipulação de pianos "arruinados", que ele distingue dos pianos "negligenciados" ou "devastados" pelo facto de terem estado expostos aos elementos e às intempéries. Se o que com eles faz (neste disco accionando cinco em simultâneo) é situável no campo da música improvisada, a sua abordagem sucede a um profundo estudo das particularidades de cada instrumento, de modo a saber de antemão exactamente o que pode obter deles. O que ouvimos tem paralelismos com o piano preparado de Cage, com o gamelão do Bali e com a música sacra para carrilhão, mas de forma distante. O que preocupa Bolleter não são os reconhecimentos nem as diferenciações que produz, mas descobrir a resposta a uma questão: o que é um piano? No mínimo, surpreendente...

 

Ernesto Diaz-Infante / Manuel Mota / Gino Robair / Ernesto Rodrigues: "Our Faceless Empire" (Pax Recordings)
Este encontro dos portugueses Manuel Mota e Ernesto Rodrigues com os californianos Ernesto Diaz-Infante e Gino Robair proporcionou-se aquando de uma viagem dos primeiros aos Estados Unidos em 2006. Só agora o registo teve edição, mas mais vale tarde do que nunca. A música tocada não está distante das premissas da improvisação "near silence", mas com a ressalva de que se identifica mais com a privilegiação de um trabalho textural do que com estratégias de utilização do silêncio ou de redução do volume e dos sons produzidos. A verdade é que "Our Faceless Empire" parece uma colmeia em plena laboração, com muitos pequenos elementos a acontecerem em simultâneo. A utilização da guitarra clássica por Diaz-Infante surge na herança de Derek Bailey, Mota está mais discreto do que é seu costume, intervindo com oportunos comentários que ora lembram uns blues "fingerpicking" geométricos, ora exploram a electricidade da sua "solid body", Robair move-se entre as "energized surfaces" (tambores da bateria sobre os quais aplica objectos vários, à maneira de Lê Quan Ninh) e o que apelida de "voltage made audible" (circuitos electrónicos) e Rodrigues está apostado em tornar a viola numa fonte bruitista. Muito bom.

 

Lol Coxhill / Enzo Rocco: "Fine Tuning" (Amirani)
Hannah Marshall / Nicola Guazzaloca / Gianni Mimmo / Leila Adu: "The Shoreditch Concert" (Amirani)

Apesar de nunca visto como um chefe-de-fila ou alguém que personifica tendências ou movimentações (na cena britânica mais depressa se apontam Evan Parker e John Butcher do que este gigante do saxofone soprano), Lol Coxhill há muito que conquistou um lugar próprio na música que aplica as metodologias da improvisação, esteja esta identificada com o jazz ou vá para regiões menos cartografadas. O seu duo com o guitarrista italiano Enzo Rocco acontece em pleno território do jazz (inclusive com fraseados próximos do bop), se bem que fuja a esse figurino pelo facto de o improviso dispensar uma estruturação prévia, e está ao nível do melhor que nos tem oferecido ao longo de décadas. E se Rocco tem ganho destaque nos últimos anos, temos aqui o seu "opus magnum", revelando uma inventividade e uma destreza que o colocam ao nível do seu parceiro. Bem menos conhecida do que Coxhill, a também inglesa Hannah Marshall (violoncelo) emparceira com outros músicos transalpinos, o pianista Nicola Guazzaloca e o também saxofonista soprano Gianni Mimmo, e com a cidadã do mundo Leila Adu, cantora do Gana criada na Nova Zelândia. A música é mais abstracta, com referências até na contemporânea, e tem um carácter de câmara em que importa o efeito de conjunto. Estando os focos sobre Marshall, cujo currículo inclui prestações com Veryan Weston, Luc Ex, Ingrid Laubrock, Tony Buck, Johannes Bauer ou Franz Hautzinger, é Guazzaloca quem mais se destaca. Atenção a este senhor, pois vamos com certeza ouvir falar mais dele.

 

Andreas Schaerer / Banz Oester: "Schibholeth" (Unit Records)
Ora aqui temos coisa fresca, mesmo que por vezes os argumentos diferenciadores e de inovação dos formatos surjam como "divertimentos". Formalmente, trata-se de um dueto de voz e contrabaixo com identificação jazz, mas não só os usos deste são, no mínimo, excêntricos (oiça-se o "scat" de "One Lady Asked Me If I Danced the Jazz"), como são incorporados elementos de muitas outras músicas (africana, árabe, tibetana, brasileira, pop, hip-hop, experimental, erudita, etc.) e os dois intervenientes "desmultiplicam-se" ao nível da produção sonora, Andreas Schaerer acrescentando percussões vocais e corporais ou tocando berimbau de boca, Banz Oester preparando o seu instrumento, utilizando os pés para trabalho percussivo e recorrendo a uma indiana "shrutibox". O primeiro faz o que quer com a voz, como o registo de contratenor ouvido em "For the Exclusive Use of the Aristocracy", e o contrabaixo de Oester chega a ir para zonas que só tinhamos ouvido cobertas por Bertram Turetzky e Stefano Scodanibbio. Se "Schibholeth" é, de facto, divertido, será de toda a justiça levar a sério as brincadeiras desenvolvidas, tanto em termos de ideias como de técnicas aplicadas.

 

Andrew Raffo Dewar: "Six Lines of Transformation / Music For Eight Bamboo Flutes" (Porter Records)
São duas as peças, divididas em várias partes, reunidas neste álbum do americano Andrew Raffo Dewar, não sendo possível descortinar o que foi escrito e o que é deixado ao critério dos intervenientes. Em "Six Lines of Transformation" encontramos o trompetista Nate Wooley e o clarinetista baixo Matt Bauder, membro da trupe Memorize the Sky, num jazz de câmara contemporâneo que denota as influências em Dewar dos seus mestres Anthony Braxton, Bill Dixon e Alvin Lucier. O que importa é o colectivo, não os indivíduos, e isso explica que não haja solos e sim uma complexa teia de contribuições partilhadas. Construída por arremedos, como que em breves pinceladas, nesta composição os músicos avançam de cada vez com um limitado número de notas, em sucessivas entradas e saídas. A segunda, "Music For Eight Bamboo Flutes", tem uma natureza bem diferente e está mais distanciada dos parâmetros jazzísticos: é constituída por "drones" dispostos em camadas, com a particularidade de também cada intervenção dos oito flautistas – Dewar incluído – ser temporalmente delimitada.

 

Claude Tchamitchian: "Another Childhood" (Emouvance)
Um solo de contrabaixo é sempre um empreendimento arriscado, mas o francês (de origem arménia) Claude Tchamitchian sai-se bem da aposta. "Another Childhood" pode não ter o brilhantismo do álbum "Unveil" de Mark Dresser (poucos contrabaixistas o conseguiriam), mas as introspecções musicais que nos oferta prendem-nos a curiosidade do início ao fim e deixam-nos uma óptima impressão. Trata-se de uma figura central tanto do jazz do Hexágono como da cena improvisada local, músico com um passado de colaborações com André Jaume, Stéphan Oliva, Yves Robert, Sylvain Kassap, Jacques DiDonato, Antoine Hervé e Philippe Deschepper que também tocou com Jimmy Giuffre e Joe McPhee. Encontramo-lo ainda à frente do poderoso ensemble Lousadzak e como cúmplice de Andy Emler no Megaoctet deste. Agora podemos ouvir-lhe a intimidade.

 

Nobu Stowe: "Confusion Bleue" (Soul Note)
Com um percurso musical intermitente, devido ao seu trabalho paralelo como psicólogo especializado no estudo da toxicodependência, Nobu Stowe tem apostado a sua música na integração de dois entendimentos da improvisação: de um lado o conceito de "improvisação total" cunhado por Keith Jarrett, do outro o de "improvisação livre", designadamente aquela que se emancipou do free jazz. Fê-lo antes com músicos (curiosamente conotados com o passado e o presente da estética free) como Perry Robinson, Blaise Siwula, Dom Minasi e Badal Roy, mas é no guitarrista e saxofonista Ross Bonadonna, no baterista Ray Sage e no desenhador de som Lee Pembleton que tem encontrado os seus mais habituais parceiros - pois ei-los de volta em "Confusion Bleue", com o acrescento do contrabaixista Tyler Goodwin. Se este é, talvez, o registo mais "fora" da sua discografia, também é verdade que, nele, continua a ser o que sempre foi: um pianista jarrettiano. A pérola do conjunto é "Deuxième Mouvement", tema "groovy" endiabrado no qual utiliza um piano eléctrico Wurlitzer.

 

Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble: "The Moment's Energy" (ECM)
Evan Parker: "Set – For Lynn Margulis" (Psi Records)
Richard Barrett: "Adrift" (Psi Records)
Furt: "Sense" (Psi Records)

Lawrence Casserley / Adam Linson: "Integument" (Psi Records)
Se parecia que o envolvimento do saxofonista Evan Parker com a electrónica era periférico na sua intensa actividade, limitando-se a pouco mais do que o trabalho que vinha realizando com o Electro-Acoustic Ensemble (vamos ouvi-lo no Jazz em Agosto), os últimos lançamentos da etiqueta que fundou, a Psi Records, insistem neste seu interesse dos últimos 13 anos – é de 1997, recorde-se, o álbum "Toward the Margins". Coincidem os ditos com a edição pela ECM de mais um título daquele projecto, "The Moment's Energy", que evoluiu do original sexteto para um agrupamento de 14 elementos, cinco dos quais trabalhando com dispositivos electrónicos e de processamento de sinal (Lawrence Casserley, Joel Ryan, Walter Prati, Richard Barrett e Paul Obermayer), dois acrescentando-os aos seus instrumentos acústicos (Phillip Wachsmann e Paul Lytton) e um ocupando-se da difusão sonora (Mario Vecchi).

Tanto assim é que as edições da Psi podem ser encaradas – mesmo que o propósito não tivesse sido esse – como desdobramentos, ou consequências, da fórmula EPE-AE. Só um ("Set") surge sob o próprio nome de Parker, com uma formação mais reduzida em que se repetem Barrett, Obermayer, Casserley, Prati, Guy, Lytton e Vecchi, mas todas as outras são de membros do Ensemble ou têm-nos como participantes. Richard Barrett encontramos num registo orquestral ("Adrift") e inserido no duo Furt ("Sense"). Paul Obermayer, o outro Furt, colabora com o colectivo Grutronic em "Essex Foam Party". Por sua vez, Lawrence Casserley emparceira com Adam Linson em "Integument". É como se estivéssemos perante um poliedro, oferecendo-nos as várias faces de um variegado entendimento do que é, hoje, a prática da improvisação electroacústica, seja na vertente mista, combinando instrumentário convencional e tecnologia, seja com base no "sampling" (recolha e tratamento de sons). Todos estes discos remetem-nos para "The Moment's Energy" ("Adrift" talvez um pouco menos) e todos eles acabam por funcionar, de um modo ou de outro, como a desconstrução das muitas implicações desse CD.

Não deixa de ser curioso que algumas das mais interessantes práticas de "live electronics" estejam a ser construídas em torno de um músico que não utiliza electrónica, e daí a razão de ser deste destaque. Como é sabido, só há narrativa (o que é verdade para o jornalismo como para a literatura e o cinema) quando existe algo de extraordinário, invulgar, anómalo ou especial a contar. Da normalidade não reza a história...

O formato de "The Moment's Energy" é o de uma suite em sete partes de materiais integralmente improvisados, se bem que pareça haver uma estrutura condutora (obra do trabalho de montagem e mistura realizado por Parker com o produtor Steve Lake?), e a ocasião foi a de um concerto em Huddlesfield, no Reino Unido, isso não obstante a maior parte dos registos ter sido realizada não na própria apresentação pública, mas durante os ensaios. Se a música tem um carácter iminentemente colectivo, há espaço para algumas expressões de individualidade – não as dos processadores de serviço, bem entendido, porque esses investem na amálgama das suas contribuições. Os destaques sonoros vão para os instrumentistas acústicos, e em especial para os sopros (Evan Parker, Peter Evans, Ned Rothenberg – os dois últimos com trajectórias no jazz propriamente dito, o primeiro nunca tendo abandonado realmente a herança coltraneana – e Ko Ishikawa), mas em nenhum caso é possível falar de solos, no sentido jazzístico. Podem igualmente o piano preparado de Agustí Fernandez, o violino de Phillip Wachsmann e o contrabaixo de Barry Guy marcar presença, que nunca chegam realmente a evidenciar-se do conjunto...

Dada a quantidade de intervenientes, esperar-se-ia um investimento na densidade, mas se esta é patente em várias passagens, o que verificamos é uma dupla aposta na construção de um liliputiano mundo de elementos sonoros e na exploração de atmosferas, por vezes com uma dimensão minimalista e "lowercase", como em "Incandescent Clouds". Assim sendo, o disco está entre uma certa referenciação na música contemporânea (Xenakis e Ligeti não andam longe) e, com alguma surpresa, um "soundscaping" que nos remete para a electrónica pós-Brian Eno, embora se trate de paisagens imersivas e não propriamente de "fundos".

O interesse de Evan Parker pelas mais ínfimas células do som está bem patente na dedicatória de "Set": Lynn Margulis é uma bióloga que dedica a sua actividade ao estudo dos micro-organismos, tendo-se notabilizado pela sua teoria endosimbiótica. Se a cientista (e o curso de biologia que o decano da improvisação britânica chegou a frequentar) influenciou a forma como Parker utiliza os saxofones, o recurso à electrónica nos projectos deste proporcionou-lhe uma maior exponenciação dos processos de microscopia sonora que iniciou com o Electro-Acoustic Ensemble e com as parcerias que vem desenvolvendo com electronicistas desde o seu dueto com Lawrence Casserley em 1997 (documentado pelo CD "Solar Wind"), uma combinação que repetiu, de resto, em concerto com Joel Ryan em 2004 e é possível visionar no Youtube. Poucas vezes a electrónica tem um cunho tão orgânico quanto nestas incursões parkerianas, e este título é a esse nível uma particularmente bem sucedida realização.

Ao contrário do que é habitual acontecer quando estamos em presença de computadores, em vez de "drones" lineares assistimos à múltipla emergência de acontecimentos simultâneos, uma engenhosa aplicação daquilo a que se chama "sheets of sound" desde John Coltrane. O menor número de participantes do que em "The Moment's Energy", se encurta a diversidade tímbrica, também permite uma maior concentração dos procedimentos ou, se quiserem, uma maior "objectividade" das explorações moleculares. O curioso é que, mais do que qualquer edição do EP E-A E, o presente lançamento em nome próprio tem um carácter de "statement" que importa reter e compreender. Por estranho que pareça, no entanto, pouco ou nada Evan Parker verbalizou quanto a esta vertente do seu trabalho, a não ser a confessada admiração pelas capacidades interactivas destes seus pares.

Antes de frequentar Darmstadt e de estudar composição com Brian Ferneyhough, a figura de proa da "nova complexidade", Richard Barrett obteve uma licenciatura em genética e microbiologia, pelo que temos no seu caso igualmente um exemplo de inspiração da música nas ciências. Se o trabalho deste galês nos domínios da electrónica é, sobretudo, identificado com a improvisação, tem um percurso paralelo na escrita para agrupamentos convencionais da tradição "clássica", de quartetos de cordas a orquestras sinfónicas. "Adrift" situa-se entre esses dois âmbitos, se bem que os dispositivos electrónicos surjam apenas (excepção é o duo com a pianista Sarah Nicolls na peça-título) como um complemento colorístico, com menor intervenção do que nas suas colaborações com Evan Parker, a cantora Ute Wassermann ou o violoncelista Arne Deforce. Tocada por três dos integrantes de um dos ensembles ouvidos, o Champ d'Action (em "Codex VII"), a guitarra eléctrica tem mesmo maior evidência no conjunto.

Ainda assim, está patente neste álbum que o entendimento composicional de Barrett aplicado a ensembles acústicos (ou maioritamente acústicos) se alimenta da sua especialização na electrónica, e também que nele introduz algumas das configurações-tipo da música improvisada. A dita "séria", escrita, é assim minada por dentro, convertida, metamorfoseada, o que só pode ser motivo para elogio. O apreço de Barrett por personalidades com presença nos dois campos que habita, como Vinko Globokar (co-fundador do seminal New Phonic Art e um dos homenageados, juntamente com Mauricio Kagel e o trombonista do pós-free jazz Paul Rutherford), fica aqui plenamente explicado.

Sob a fórmula Furt, Richard Barrett e Paul Obermayer (que, convém assinalar, tem formação como matemático) criam uma música sustentada no massivo uso de "samples", mas em vez do processamento ao vivo e em tempo real de instrumentos acústicos, têm ao dispor nos discos rígidos dos seus "laptops" uma ampla livraria de sons com origens muito diversificadas. Nesse aspecto, o que fazem entronca com as práticas correntes da "sampling music" e do DJing mais experimental. A diferença não está na incrível quantidade de citações que se sucedem, mas no tratamento que estas obtêm. Existam ou não parâmetros previamente estabelecidos (isso nunca é claro neste "Sense", como de resto não o foi nos quatro anteriores CDs do duo), o certo é que, nas suas peças, Barrett e Obermayer procedem a minuciosas orquestrações da imensa panóplia de recursos que têm ao dispor. Ao fazê-lo, transferem para uma linguagem "erudita" (a faixa "Curtains" é, aliás, uma endiabrada revisitação do universo de Stockhausen) um modus operandi que era alheio a esta, e daí o particular interesse desta proposta.

Tudo o que ouvimos tem um carácter alucinante, tanto devido à velocidade com que as figuras sonoras "trigadas" passam diante de nós, como pelo facto de ser armadilhada qualquer lógica de causa e efeito ou de sequência. Cada desenvolvimento, mais do que imprevisível, é um tirar de tapete debaixo dos pés, ao mesmo tempo salientando que vivemos numa era de excesso de informação e hiperactividade humana. Vale a pena citar algumas reflexões de Barrett: «Toda a música é (ou pode ser entendida como) "complexa" pelo facto de ressoar na estranha área entre a comunicabilidade e a incomunicabilidade, oferecendo divergentes perspectivas ao ouvinte activo (...). A própria percepção é um fenómeno complexo; a tão referida "complexidade na música" não é reduzível a um maior (maior do que o quê?) nível de proliferação / diferenciação dos seus elementos constituintes ou das inter-relações destes – tal categorização dependeria de uma análise pseudo-linguística e ignoraria o processo musical e perceptivo.»

Enquanto projecto integralmente tocado com instrumentário electrónico, a abordagem dos Grutronic é bastante distinta da dos Furt em termos formais. Trata-se de um quarteto sem vínculos com a música clássica contemporânea, área em que preferencialmente se movem Richard Barrett e Paul Obermayer (e não obstante este último colaborar em três das improvisações de "Essex Foam Party" com o seu teclado sampler, "Plonk", "Concussion Vibes" e "Madness and Civilization"). Inclusive, Stephen Grew, Richard Scott, Nick Grew e David Ross (mais o outro convidado da sessão, o vibrafonista Orphy Robinson) modelam o seu "playing" nos processos e na gramática da escola inglesa da livre-improvisação acústica que foi protagonizada por John Stevens e pelos membros do seu Spontaneous Music Ensemble – Evan Parker um deles. Mas como tudo é relativo, há que referir o facto de a dedicação de Stevens ao "não-idiomatismo" (nome dado à improvisação livre por Derek Bailey, outro elemento do SME) não foi exclusiva: tocou igualmente bebop e free jazz, tendo mesmo sido um dos primeiros praticantes de uma fórmula hoje comum, o free bop. De resto, a discografia do Spontaneous Music Ensemble é basta em exemplos de impregnação da dita música não-idiomática pelo jazz.

O que nos oferece o quarteto nesta edição enquadra-se com os conceitos básicos da "música improvisada" enquanto corrente estética (ou seja, idioma) e do Parker acústico, indícios havendo da matriz jazzística de que procurou emancipar-se. O que quer dizer que, apesar de tudo (da utilização do ruído e do "glitch", quero eu dizer), a electrónica é utilizada com medida nos instrumentos acústicos. Em comparação, se o conteúdo deste disco aparenta ser mais desformatado e desconforme do que o de "Sense", ao mesmo tempo torna-se mais expectável. Os jogos de contraste, a construção de assimetrias, a gestão por camadas dos sons remetem-nos inevitavelmente para a "old school" improvisacional, coisa que não acontece em "The Moment's Energy" e em "Set". Nesse aspecto, é o menos provocador dos discos deste lote.

O que "The Moment's Energy" e "Set – For Lynn Margulis" nos proporcionam numa dimensão épica – música instrumental triturada pela electrónica –, "Integument" oferece em cápsula: Lawrence Casserley processa o contrabaixo de Adam Linson e a sua própria voz, Linson trata electronicamente os seus próprios contributos acústicos e os processamentos de Casserley, e este labora sobre o que lhe é devolvido, as somas obtidas estabelecendo uma relacionação elíptica que se vai alimentando de si mesma mediante envios e devoluções. Não estamos perante um mero diálogo entre um contrabaixo e um computador, mas entre as projecções cruzadas de um e do outro, os  instrumentos em si / por si mesmos e os seus reflexos, mais os reflexos dos reflexos, duplos de duplos de duplos. Com este trabalho de (re)engenharia sonora, podemos observar uma amostra isolada do que se passa, a um nível multiplicado um sem-número de vezes, com o Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble.

 

Muhal Richard Abrams / Roscoe Mitchell: "Spectrum" (Mutable Music)
São três as obras reunidas em "Spectrum". A primeira, "Romu", é um duo entre o pianista Muhal Richard Abrams e o saxofonista Roscoe Mitchell, figuras míticas da AACM, e a filiação jazzística do que lhes ouvimos é indubitável. Já "Non-Cognitive Aspects of the City", de Mitchell, com a Janacek Philharmonic, conduzida por Petr Kotik, e o barítono Thomas Buckner (cantando um poema de Joseph Jarman, membro fundador do Art Ensemble of Chicago e parceiro de Roscoe Mitchell ao longo de décadas), e "Mergertone", de Abrams, com a dita orquestra, entramos em pleno no domínio da música de recorte sinfónico, no primeiro caso, até, com registo lírico / operático. Estranho? Nem tanto assim, se nos ativermos às palavras de George Lewis, que nas suas "liner notes" lembra o contributo de músicos negros e do jazz para a caracterização de uma "nova música clássica americana".

Nada disto é de agora e nada disto é acidental. Os compositores de jazz afro-americanos sempre procuraram não só um estatuto academicamente reconhecido, como ambicionaram formular uma música culta que fosse especificamente americana e não apenas um reflexo da música erudita europeia – veja-se o caso histórico de Duke Ellington (e, indissociável, o de Billy Strayhorn). É certo que na escrita de Mitchell e Abrams encontramos vínculos com o pós-serialismo do Velho Continente e é certo que as propostas de ambos têm mais familiaridade com os formatos orquestrais europeus do que com a "new music" de um Cage, um Wolff e um Feldman, mas a emancipação musical dos EUA relativamente ao legado deste lado do oceano é algo que está ainda em processo – senão, verifique-se a evolução do orquestralismo clássico por aquelas partes, de Elliott Carter a John Adams.

Note-se que poucas ou nenhumas relações encontramos aqui com a filosofia "third stream" de Gunther Schuller: não se trata de fusão entre jazz e sinfonismo, mas de música sinfónica pensada por músicos de jazz. O interessante destas obras – com electrónica a abrir "Mergertone", sendo de supor (apesar de nada se referir nesse sentido na ficha técnica do disco) que Muhal Richard Abrams utiliza um sintetizador, como de resto já o fez em outras ocasiões – está na energia, na acentuação dramática e no discorrer em fluxo, características que podem ser tomadas como distintivas.

 

Byard Lancaster: "Personal Testimony (Then and Now)" (Porter Records)
Esta não é apenas a reedição do LP lançado no ano de 1979 em que Byard Lancaster procedeu a sobregravações dos vários instrumentos que toca. Fez melhor do que recuperar um título que estava desaparecido, apesar de ter sido um importante marco devido ao, então, quase ineditismo do formato (por exemplo, Rahsaan Roland Kirk também o praticou): acrescentou-lhe seis novas peças, tocadas em 2007 com os mesmos parâmetros e registadas da mesma forma. Em boa hora o fez, pois estamos perante uma dos mais injustiçadas e incompreensivelmente esquecidas figuras da história do jazz, apesar de ter tocado com músicos do relevo de Sun Ra, Sonny Sharrock, Sunny Murray ou Karl Berger e de se ter destacado no contexto da "loft generation".

Este é um disco intimista e espiritual, com tanto de lírico (sentido) quanto de meditativo (pensado), indo beber a referências africanistas, orientais, dos blues e da soul, cada tema construído segundo uma lógica de sobreposição de camadas ou de contraponto, sempre, no entanto, apostando na crueza, na nudez e na elementaridade do som. Curiosamente, o melhor que oferece surge a solo, em "Mind Exercice", com uma fantástica improvisação em saxofone alto na qual até os agudos têm grão. São as flautas, no entanto, que ganham maior presença e o que com estas Lancaster faz (sobretudo em "Afro-Ville" e "Free Mumia") está entre o que de mais especial já ouvimos com tais aerofones na área do free jazz.

 

Rova & Nels Cline Singers: "The Celestial Septet" (New World Records)
Antes mesmo de se ouvir este disco, a junção do quarteto de saxofones Rova e do trio Nels Cline Singer sugeria (e isso apesar da grande diferença entre os dois projectos) a prossecução de um jogo de (as)simetrias: de um lado um colectivo situável entre o jazz e a "new music" (designação que nos Estados Unidos se dá à música contemporânea aí produzida, para a distinguir da europeia) e do outro uma formação que tem tido actividade entre o jazz e o rock, diferenciando-se dos comuns conceitos de fusão. Com a memória dos factos a lembrar-nos dos encontros dos Rova com Alvin Curran ou com o Kronos Quartet e da presença de Nels Cline na banda rock Wilco, esperaríamos que esta colaboração tivesse como mote e fim a cobertura do alargado âmbito idiomático assim possibilitado, mas à terceira faixa de "The Celestial Septet" a nossa percepção das coisas fica redimensionada: estamos perante um grande álbum de jazz, e do jazz propriamente dito, ora com uma vertente estritamente composta e organizada, ora soltando-se num "free flowing" de grande intensidade. Muito dificilmente os agentes da polícia que opinaram negativamente sobre a "jazzidade" de um concerto recente de Larry Ochs poderiam concluir outra coisa, sobre este trabalho, senão o que acima ficou escrito, mas nunca se sabe...

Se a música tocada nos agarra e transporta, deve-se tal ao facto de os dois agrupamentos funcionarem como um único, bem coeso e interactivo, sem outros posicionamentos dos intervenientes na música tocada senão os próprios no contexto de um septeto que tem um objectivo definido. O melhor de tudo – mais até do que o mais do que evidente virtuosismo dos músicos – é o facto de nunca se sentir como algo de contraditório e desajustado haver interpretação de partituras e improviso total. Ambas as abordagens surgem aqui, muito naturalmente, como as duas faces da mesma moeda. Quando este factor se torna numa evidência, melhor se compreendem as criativas formas como composição escrita e composição imediata se articulam numa mesma peça. E no que respeita a articulações há muito mais: o meticuloso coexiste com o épico, o abstracto com o "bluesy", a desintegração dos elementos compósitos com um "drive" em bloco. Ora, isto significa uma permanente e renovadora mudança de parâmetros que vai sendo difícil encontrar no jazz convencionalmente estruturado e na improvisação livre mais padronizada. Bravo!

 

Aki Takase / Louis Sclavis: "Yokohama" (Intakt)
Agustí Fernandez / Jo Krause: "Draco" (Produccions Anacrusí S.L.)

Dois discos em duo com dois pianistas de nomeada, Aki Takase (em tempos interlocutora da nossa Maria João) e Agustí Fernandez, um regular associado de Evan Parker. E dois discos incidindo sobre o factor improvisação (se bem que enquadrado, regra geral, em temas) com abordagens totalmente distintas, um incorporando figuras e recursos da música contemporânea e da "new music" para piano, de Messiaen a Cage, assim saindo do formato jazzístico, e o outro revendo as premissas pianísticas das práticas existentes nesta área, designadamente as de Thelonious Monk e Cecil Taylor, e por esse motivo indo ao encontro da matriz jazz.

Em "Yokohama" reduzido à sua célula mais elementar – com a ilustre nipónica, residente na Alemanha, a apresentar-se com o francês Louis Sclavis –, o projecto em causa já teve outra configuração e anuncia-se para breve, com uma digressão e um futuro lançamento discográfico, uma terceira. A que passou foi uma actuação ao vivo a quatro com o escritor Yoko Tawada, a ler os seus próprios textos em Japonês e Alemão, e com a coreógrafa e bailarina Yui Kawaguchi, também do país do sol nascente. A anunciada novidade é o quinteto La Planête, a ambos se juntando o português Carlos "Zíngaro", o francês Vincent Courtois (a predominância gaulesa talvez explique o nome do grupo) e o alemão Paul Lovens. Se Takase e Sclavis foram o eixo daquela outra colaboração e terão com certeza esse papel na que se avizinha, neste álbum ocupam todo o espaço e todo o tempo roubados ao silêncio – sempre sabendo não só partir deste e voltar a ele, como também intercalá-lo nos seus discursos cruzados.

A referência à cidade portuária de Yokohama no título tem tudo de simbólica, pois foi através dela que o Japão se abriu à cultura ocidental e que o Ocidente melhor conheceu aquelas paragens. Ainda assim, não se pode dizer que seja representativa do que Aki Takase e Louis Sclavis colocam em equação: muito mais do que um encontro de culturas, este registo apresenta-nos formas diferentes, mas não especialmente divergentes, de entender a improvisação, o jazz e o fenómeno musical nos dias de hoje, independentemente da localização geográfica em que se realiza a criação colaborativa. Takase é prolífica em recursos técnicos e ideias, não se coibindo de utilizar imaginativamente o interior do piano em situações de agradável fluidez, e Sclavis é tão impactante nos momentos líricos quanto nas construções de maior visceralidade, procurando o máximo efeito mesmo quando as fórmulas são as mais simples, algo que só os grandes músicos conseguem fazer.

"Draco" dá conta de outra parceria transnacional, a do espanhol Agustí Fernandez com o baterista alemão Jo Krause. Se o primeiro é um expoente da livre-improvisação, muitas vezes de dimensão experimental, já o segundo tem percurso no jazz "mainstream", pelo que a distância coberta por ambos nestes diálogos é bem maior do que a protagonizada pelo anterior dueto, e tal não obstante os respectivos nascimentos no mesmo continente. E o curioso é verificar que talvez seja Fernandez a procurar os maiores denominadores comuns, não hesitando, por exemplo, em abraçar a tipologia da balada. Mais importante, de qualquer modo, é a abordagem que adopta neste CD, com breves, porque abruptamente cortados, fraseados em staccato – desse modo também integrando eficazmente o silêncio nas suas exposições. Pega na lógica monkiana (e na de Taylor quando este não opta pelas cascatas de som que lhe são singulares), decanta-a até à sua essência e maximiza-a.

Esta edição só não tem a mesma relevância de "Yokohama" porque a focagem escolhida por Agustí Fernandez tem um preço: a reduzida diversidade de parâmetros. Nesse aspecto, oferece-nos o disco de Aki Takase e Louis Sclavis um autêntico compêndio da arte do duo pianístico.

 

Mathias Delplanque: "Parcelles 1-10" (Bruit Clair)
Sequela de "Le Pavillon Témoin", esta nova colecção de temas do francês Mathias Delplanque continua o seu interesse pelo processamento / envolvimento electrónico de instrumentos acústicos, designadamente a guitarra, a melódica, o saltério e vária percussão (no álbum anterior surgiam também o violoncelo, o piano e o acordeão). A abordagem é introspectiva e melancólica, ora referenciada na estética "lowercase", ora na linha "live electronics" da improvisação livre. Conhecendo a dedicação paralela deste músico ao dub (caso do projecto Lena), é muito diferente o que aqui encontramos: uma música abstracta, se bem que com referências jazzísticas e da folk e se bem que com um evidente gosto pela melodia.

 

Manuel Mota / Afonso Simões: "Ao Vivo no Espaço, Centro de Desastres" (Dromos Records)
O duo de Manuel Mota (guitarra eléctrica) com Afonso Simões (bateria) podia, ou não, remeter a música tocada ao que ambos fazem no contexto do Curia, quarteto constituído com David Maranha e Margarida Garcia. Se outros caminhos percorrem nas suas respectivas actividades, Mota com um jazz pontilhístico e de linhas quebradas ou em contextos de improvisação experimental (por exemplo, o seu recente encontro com Jason Kahn) e Simões investindo no free rock dos Fish & Sheep ou na electrónica "redux" de Rafael Toral, é precisamente pelo psicadelismo cultivado por aquele grupo que alinham neste registo ao vivo. A música é fluida, energética e evidencia um bom sentido de partilha, sendo apenas prejudicada pela fraca qualidade da gravação.

 

Vários autores: "Send + Receive: 10 Years of Sound" (Send + Receive)
Numa caixa de VHS, dois DVDs e um informativo "booklet" em comemoração da primeira década de existência do festival canadiano Send + Receive, dedicado às práticas de improvisação de ponta, com especial relevo para as eléctricas e electrónicas. Ao todo, deparamo-nos com um total de 11 horas de áudio e com um precioso documentário em vídeo sobre o trajecto deste importante evento. No primeiro caso sucedem-se figuras como David Grubbs, Lee Ranaldo, Martin Tétreault, Oval, Sam Shalabi, Tim Hecker, Christoph Kurzmann, Martin Siewert, Taylor Deupree, Jason Kahn, Aki Onda, Bernhard Gunter e Oren Ambarchi, entre outros. O documentário tem realização de Caelum Vatnsdal e combina imagens de arquivo com entrevistas, surgindo para além dos músicos referidos outros como Peter Brotzmann, Otomo Yoshihide, Kaffe Matthews, Peter Cusack e muitos mais. Deveras aconselhável a quem aprecia os aventureirismos sonoros.

 

Egberto Gismonti: "Saudações" (ECM)
Com novas composições e arranjos de alguns velhos temas do seu repertório, Egberto Gismonti volta a editar na ECM um trabalho de grande fôlego (não o fazia desde 1997, ano em que saiu  "Meeting Point"). No primeiro CD deste duplo álbum as suas peças são interpretadas por uma orquestra feminina de cordas sediada em Cuba, a Camerata Romeu, e no segundo encontramos o guitarrista brasileiro (o piano desta vez ficou de lado) na companhia do seu filho Alexandre. Como desde sempre tem sido a imagem de marca deste singular nome da música de hoje, os conteúdos situam-se entre o classicismo, o jazz e a MPB e não necessariamente apenas nas faixas dedilhadas. Bem latina e afro-referenciada, a orquestra é bastante feliz na interpretação dos conceitos rítmicos de Gismonti e na arte do contraponto que este tão bem sabe gerir. Apesar disso, nada de novo, a não ser a revelação do jovem talento que é Alexandre Gismonti, este lançamento nos traz em relação à anterior discografia do artista.

 

Guy Frank Pellerin: "Periplo" (Cosmic-ride)
Num disco em solo absoluto no qual dedica cada faixa a um só instrumento, o polifacetado Guy Frank Pellerin surge ora com os saxofones sopranino, soprano, tenor e barítono, ora com o clarinete, a ocarina, a flauta bansuri e algumas percussões, com insistência para as taças orientais e o carrilhão. O que podia consistir num variegado painel de timbres e abordagens resulta, no entanto, em algo de demonstrativo. Há passagens especialmente interessantes a nível de introspecção, sobretudo as saxofonísticas, mas quando Pellerin força um certo ritualismo etnicista tudo cai por terra.

 

Karst: "Samuel D" (Insubordinations)
Abstral Compost escreveu os textos e di-los, Cyril Bondi, D'Incise (mais conhecido pelo seu trabalho com electrónica) e Luc Muller acompanham-no com uma panóplia de percussões e objectos, em alguns casos magnificados por meio de microfones de contacto. Trata-se de um muito interessante projecto suíço (proveniente do cantão francês) de intersecção da poesia sonora com a livre-improvisação, e se a voz de Compost não é especialmente convincente, a sua performance como "diseur" é-o sem sombra de dúvida, bem como a qualidade da escrita que nos propõe. O trabalho percussivo está muito bem integrado com a fala, decorre de um inteligente jogo de dinâmicas e mantém-nos desperto o interesse até ao último momento.

 

Américo Rodrigues: "CICATRIZando" (Bosq-íman-os Records)
A "acção poética e sonora" de Américo Rodrigues está de volta ao leitor de CDs. Mas com uma particularidade: se o que vem distinguindo o também director do Teatro Municipal da Guarda é o híbrido a que procede entre poesia fonética, seguindo as fórmulas Dada, e vocalismo improvisado, na linha de um Phil Minton, neste "CICATRIZando" encontramo-lo a sustentar as suas intervenções na tradição oral portuguesa. Ou seja, são rimances, lengalengas, orações, adivinhas e ditos que agora explora, algumas vezes recorrendo a gírias locais e equacionando de forma bem interessante o respeito pela cultura popular beirã e a inventividade do seu particular uso da voz. A vertente mintoniana é que não é, desta vez, muito perceptível.

 

Pascal Contet / Wu Wei: "Iceberg" (Radio France)
Ambos os instrumentos de "ar" utilizados neste disco – o europeu e popular acordeão e o chinês e tradicional sheng, identificável como um "órgão de boca" – têm uma importância icónica nas respectivas regiões do globo, e tanto Pascal Contet (ouvimo-lo já em Portugal com Barre Phillips e com Carlos "Zíngaro") como Wu Wei são seus virtuosos executantes, habitando vários domínios musicais, da erudita à "world music", com passagem pela improvisação mais experimental e pelo jazz. "Iceberg" é um disco de introspecções e silêncios, mas de uma calma enganosa – os mistérios sugeridos parecem anunciar uma ameaça, a não concretização desta somando uma subtil, mas muito presente, tensão aos procedimentos. Belíssimo.

 

Gérard Siracusa: "Drums Immersion" (Radio France)
Poucos são os bateristas – incluindo muitos dos que consideramos realmente bons – que alguma vez se arriscariam a gravar um disco a solo. O francês Gérard Siracusa pratica amiúdes vezes o formato nos palcos e por fim fez o que faltava: gravou-o e colocou-o em CD. Estamos perante um herdeiro das concepções de Max Roach, no sentido de que também trabalha com figuras e motivos melódicos. É, no entanto, mais ascético do que este na gestão dos sons, sem incorrer no geometrismo de um Fritz Hauser. A história da bateria no be bop e no free jazz está em permanente revisão, mas este não é um compilador de estilos; antes alguém que, conhecendo o passado, usa-o para ir mais adiante.

 

Jack Curtis Dubowsky: "Jack Curtis Dubowsky Ensemble I" (De Stijl Music)
Jack Curtis Dubowsky: "Jack Curtis Dubowsky Ensemble II" (De Stijl Music)

O que ouvimos nestes dois lançamentos contíguos de Jack Curtis Dubowsky é um jazz electrónico e com dimensão "groovy", construído sobre malhas rítmicas repetitivas (fornecidas pelo baterista Fred Morgan e exponenciadas pelo baixo de som cavo, à Bill Laswell, do líder) e curiosamente com mais inspiração no rock do que na "club music". Tem um lado "dark" que adensa a estranheza sugerida pelos sintetizadores analógicos (também tocados por Dubowsky), mas a proposta não encaixa com a generalidade das utilizações dos mesmos meios e vocabulários. Sabendo que o teclista e baixista norte-americano tem como mais habitual actividade a composição de música contemporânea e para cinema (além de ele próprio ser um premiado cineasta experimental, com a paródia "gay" "Mr. Jones"), ficamos a perceber porquê. Também Morgan (e o trombonista Hall Goff, que surge apenas no primeiro CD) fez o seu percurso em orquestras sinfónicas e de câmara. Fica explicada a (por vezes desconcertante) frescura da abordagem.

 

Mark Alban Lotz & Lotz of Music: "Bite!" (Loplop)
Muito curioso, este disco. Em frequentes momentos parece estarmos a ouvir uma edição do período áureo da Blue Note, aquele em que obras de grande fôlego tinham uma sonoridade ao mesmo tempo acessível. A verdade, porém, é que a música de "Bite!" é bem dos nossos dias e não de mera reprodução de um modelo do passado. E se alguns dos temas são pacificamente "de jazz", outros têm recorte "clássico" e outros ainda incluem elementos étnicos orientalizantes (o holandês Mark Alban Lotz viveu alguns anos na Tailândia). Neste CD sobre peixes e mar, as flautas do líder (em dó, alto, baixo, contrabaixo, bansuri) estão no centro, com piano, por vezes preparado, violoncelo e percussão (não há bateria) em volta. Se exceptuarmos alguns melodismos chapa 5, até que é bom, muito bom.

 

Chant: "... Ma Io Ch'in Questa Lingua" (Auand)
A energia dos temas tocados pelo trio italiano Chant tem feito com que este seja erradamente comparado com Medeski, Martin & Wood. É certo que, na música de Libero Mureddu, Antonio Borghini e Cristiano Calcagnile, encontramos reminiscências da fusão, mas tudo o mais é bem distinto daquele outro grupo. A começar pelo instrumentário: se Mureddu utiliza sintetizadores e um clavicórdio eléctrico, a sua opção vai, sobretudo, para teclados acústicos como o piano, o cravo, o órgão de tubos e o harmonium. O mesmo multi-instrumentismo é adoptado por Borghini, que divide a sua atenção entre o contrabaixo, o violoncelo e o baixo eléctrico, e por Calcagnile, que junta percussão diversa e o glockenspiel à bateria. Daí resulta uma enorme variedade tímbrica, bem acompanhada por uma invulgar (nestes domínios) abertura estética e por um evidente gosto pela improvisação sem cifras.

 

The Emergency String (X)tet: "Meridians" (Setola di Maiale)
Massimo Falascone / Bob Marsh: "Non Troppo Lontano" (EH?)

Violoncelista que também utiliza a electrónica e a voz (em "Non Troppo Lontano" surgindo a tocar violino), o americano Bob Marsh vem impondo cada vez mais o seu nome na área da livre-improvisação, confirmando que esta não é apenas uma causa europeia. O seu Emergency String (X)tet foi fundado logo na sequência do desmembramento do Phenomenal String Quartet de Fred Lonberg-Holm, que integrava, e como o próprio nome indica tem formação variável. Em "Meridians", estão com ele Doug Carroll (violoncelo), as violinistas Adria Otte e Angela Hsu e o contrabaixista Tony Dryer, colectivamente elaborando uma música feita de detalhes, com um volume geralmente baixo, que não é estranha à escrita para cordas de um Xenakis – com a substancial diferença, claro está, de que é inteiramente espontânea. Já o duo de Marsh com o saxofonista italiano Massimo Falascone tem mais afinidades com o jazz – se não são directas, em Falascone reconhecemos uma filiação com o estilo West Coast, designadamente o personificado por Paul Desmond e Warne Marsh. As vocalizações e os dispositivos electrónicos procedem como que a abruptos salpicos de som, construindo um panorama sonoro feito de "flashes" e frases (entre)cortadas. Duas propostas, portanto, a merecerem toda a atenção.

 

Andreas W Andersson: "For Others" (Compunctio)
Mais um nome a reter da cena sueca do jazz de hoje, Andreas W Anderson, membro do trio Plunge, dedica-se neste infelizmente curto EP ao mais improvável dos solos absolutos, porque tocado com um saxofone barítono. Trata-se da gravação ao vivo de uma actuação no festival da editora Compunctio e nele ouvimos uma exploração contrastada dos mais graves e dos mais agudos registos deste instrumento, temperada por uma abordagem melódica que impede, engenhosamente, a secura que seria previsível com tal formato. Muito interessante, sem ser fantástico.

 

Never Enough Hope: "The Gift Economy" (Contraphonic)
Em época de crise económica global, imaginar-se-ia que o formato orquestra estaria condenado, mas o certo é que volta e meia vão surgindo propostas que se propõem renovar, ou pelo menos refrescar, os modelos bigbandísticos do jazz. Esta que dá pelo nome (bem apropriado) de Never Enough Hope é a de Tobin Summerfield, um dos obreiros da cena de Chicago. E como não podia deixar de ser, conta com os habituais activistas da Cidade do Vento, como, para só designar alguns, Aram Shelton, Dave Rempis, Keefe Jackson, Jason Ajemian e Frank Rosali. Recorre-se bastas vezes às figuras repetitivas do minimalismo e o "drive" tem a compulsão do rock e um envolvimento camerístico, o que a inclusão de cordas de arco mais evidencia. Sem dúvida, uma proposta a considerar.

 

Eugene Chadbourne: "Chadbourne Volunteer Fire Department and Rescue Squad" (Rossbin)
O "enfant terrible" da improvisação que vem fazendo a ponte com o country tem neste álbum uma colecção de canções políticas de protesto, por si interpretadas, despretenciosamente e em registos indubitavelmente caseiros, com a família e com amigos próximos. O banjo está em destaque e musicalmente encontramos de tudo, incluindo blues, folk e rock psicadélico. O objectivo foi fazer um disco que reproduzisse o amadorismo popular das raízes daquilo a que se vai chamando de Americana, e a esse nível o que aqui vem parece mesmo um documento etnomusicológico, ouvindo-se com o maior prazer.

 

Blastula: "Scarnoduo" (Amirani Records)
Blastula é o nome do duo formado por Cristiano Calcagnile, um dos mais relevantes bateristas do jazz italiano, e pela vocalista e actriz Monica Demuru, e "Scarnoduo" um compêndio de improvisações em que pelo meio surgem temas populares, citações, textos e estruturas de intermediação. Se a ideia é feliz, pois inverte os procedimentos convencionais (regra geral, nestes terrenos é a composição que encerra a improvisação nos seus parâmetros), na prática nem sempre funciona. E isso porque situações de galvanizante interacção dão lugar a passagens de incompreensível puerilidade, frustrando o ouvinte – este pelo menos – precisamente nos momentos em que começava a ficar conquistado.

 

Ricardo Rocha: "Luminismo" (Mbari)
Norberto Lobo: "Pata Lenta" (Mbari)
Tó Trips: "Guitarra 66" (Mbari)

Ricardo Rocha, Norberto Lobo e Tó Trips têm como comum característica o facto de serem músicos desalinhados, não sendo possível colocar rótulos definidos às obras que vão colocando em disco. Rocha parte do fado, mas entra nos domínios da música erudita. Lobo tem afinidades com a folk americana, mas a sua abordagem é camerística e incorpora influências orientais. Trips é originário do rock, mas há muito que saiu desse âmbito. Mas há mais que se diga sobre as suas respectivas propostas: Rocha teve já como intérprete das suas composições (em "Voluptuária") um dos mais importantes pianistas do jazz nacional, João Paulo Esteves da Silva, se bem que num instrumento que é habitualmente estranho à linguagem jazzística, o cravo. Lobo assume entre as suas influências figuras como John Coltrane, Thelonious Monk ou Sun Ra e mantém um projecto de trio com o irmão Manuel e com o baterista João Lobo (ouvimos este com Enrico Rava, os Tetterapadequ ou o Riccardo Luppi's Murmure), sendo que o seu alicerçamento na chamada Americana, via John Fahey e Robbie Basho, integra elementos dos blues. Percorrendo as pistas abertas por Marc Ribot, Tó Trips é metade do duo Dead Combo, dedicado a uma curiosa mistura em que predominam o country e a música popular portuguesa e tendo como parceiro um contrabaixista e baixista de jazz, Pedro Gonçalves, membro também dos Mikado Lab de Marco Franco. Partilham, os três, a reverência por Carlos Paredes, o virtuoso guitarrista que se tornou num ícone da portugalidade musical e chegou a tocar com Charlie Haden, revelando uma surpreendente capacidade como improvisador. Outro factor que os une além de tocarem o mesmo instrumento (Ricardo Rocha na variante da guitarra portuguesa) e de comporem é o facto de abrirem caminhos de inovação, se bem que longe das lógicas do vanguardismo.

Acompanhante habitual dos fadistas Maria Ana Bobone e Carlos do Carmo ou intérprete de temas dos Paredes, pai e filho, e de Pedro Caldeira Cabral, é a solo e com as suas composições que Ricardo Rocha vem impondo muito mais do que a sua extraordinária capacidade técnica, mormente um visionarismo musical que está a emancipar o seu cordofone e a conduzi-lo para outros investimentos que não os da tradição. Nessa medida, o novo "Luminismo" é, mais do que uma obra de "guitarradas", um brilhante feito no contexto da música contemporânea. A circunstância de o segundo CD deste duplo álbum ser integralmente tocado ao piano (por Ingeborg Baldaszli) denota que as suas perspectivas ultrapassam em muito o domínio musical que projecta para a guitarra portuguesa. Se as primeiras peças, escritas em homenagem a Scriabin, confirmam o seu interesse pelas formas eruditas, são aquelas em que aplica os conceitos dodecafónicos do serialismo que nos arrebatam, acrescentando-se ao melhor que já foi realizado entre nós (por Jorge Peixinho) com tais processos. O serialismo pianístico é, no entanto, chão que já deu muitas uvas. Rocha surpreende verdadeiramente quando utiliza as séries e outros recursos inéditos com a guitarra portuguesa. E que o faça com a beleza estética aqui testemunhada é admirável, sendo apenas de assinalar menos positivamente algum excesso de reverberação no registo. O mesmo amor que Carlos Paredes tinha pelas peças para cravo de Carlos Seixas transparece no primeiro CD de "Luminismo", mas é inútil procurarmos outros padrões alusivos: simplesmente, não existem. Ricardo Rocha está a construir algo do quase zero.

Já Norberto Lobo surge na esteira do "boom" do "fingerpicking" guitarrístico dos anos 00, reciclador das raízes mais profundas da música rural norte-americana, mas integrando influências da clássica indiana para sitar e outras vindas da improvisação e de algum experimentalismo, em especial o de Jim O'Rourke. O que faz, porém, não é uma mimetização estilística dos formatos da new folk: Lobo tem uma voz própria e esta faz transparecer a sua condição de português. Pode ele acreditar que "identidade cultural" é algo que não existe (entrevista ao jornal Público), mas a sua (nossa) encontramo-la ao longo de "Pata Longa". Paredes não está agora no alinhamento e em vez do cancioneiro luso é a cantautora pop islandesa Bjork que surge interpretada, num muito bem urdido arranjo, mas nem por isso este disco poderia ter sido concebido e tocado em outro ponto do globo. O que lhe ouvimos na guitarra é deslumbrante, sendo Norberto Lobo capaz, por exemplo, de desenvolver em paralelo três linhas discursivas, sem sobregravações (só num tema é acompanhado por Luís Martins), mas o que mais agrada é o seu virtuosismo estar ao serviço da música e não de manifestações egotistas. Em relação ao anterior "Mudar de Bina", este é claramente um disco de consagração pessoal e de solidificação de um projecto.

Embora abaixo do nível de excelência de "Luminismo" e "Pata Longa", "Guitarra 66", de Tó Trips, é outro caso sério da presente música guitarrística nacional. Intervalo acústico na habitual produção do dedilhador que já pertenceu a grupos do rock alternativo como Santa Maria Gasolina em Teu Ventre e Lulu Blind, fica especialmente evidenciado o seu gosto pela matriz "bluesy", surpreendendo-nos um intimismo que lhe desconhecíamos. Os temas incluídos são impressões de viagem, com maior relevo aquelas que resultam da sua passagem por países árabes, cuja música, como é sabido, está de alguma maneira no código genético da portuguesa. O CD não tem, no entanto, o mesmo fôlego e a mesma profundidade dos outros títulos, dele emanando uma certa ligeireza que, se o torna mais acessível, também lhe diminui o impacto.

 

Jason Kahn: "Timelines Los Angeles" (Creative Sources)
Americano de nascimento, mas há longos anos radicado na Europa e plenamente inserido na cena electrónica do velho continente, Jason Kahn volta neste disco a utilizar partituras gráficas de sua autoria, tal como acontecera com "Timelines" (então com as participações de Tomas Korber, Steinbruchel, Christian Weber, Gunter Muller e Norbert Möslang). O princípio seguido assemelha-se ao desse CD: a criação daquilo a que chama de "situação social", segundo parâmetros predefinidos, mas prevendo a plena expressão da interactividade individual e da espontaneidade (re)criativa dos intervenientes. São eles neste regresso de Kahn a Los Angeles o saxofonista alemão Ulrich Krieger, um respeitado intérprete da música contemporânea pós-John Cage com actividade também na improvisação (é membro do grupo Text of Light, ao lado de Lee Ranaldo, Alan Licht, DJ Olive e Tim Barnes), a compositora Olivia Block, aqui no piano preparado, e um ex-integrante do colectivo de computadores The Hub, Mark Trayle.

Nos últimos anos reconciliado com o seu instrumentário primeiro, a percussão (começou por ser um baterista do jazz "straight-ahead"), Jason Kahn volta aqui a propor uma visão particular da electroacústica, mais próxima dos conceitos da música improvisada do que dos da escrita e académica. São três os momentos desta longa peça: um primeiro em que as várias contribuições se vão agregando, outro em que a homogeneidade sonora obtida cresce em intensidade e densidade, e finalmente um último em que os elementos “em cena” se apaziguam e finalmente desaparecem. O que quer dizer que, se antes caracterizava o trabalho de Kahn a ilusão de um tempo suspenso, este é reintroduzido como um factor determinante, e tanto assim que ficamos com a impressão de estar a construir-se uma trama. Sinal dos tempos, porventura: este tipo de intervenção já se quis estático, mas agora move-se e propõe narrativas.

 

Led Bib: "Sensible Shoes" (Cuneiform)
Gutbucket: "A Modest Proposal" (Cuneiform)

Por esta altura, só não acredita na morte do jazz de fusão, vulgo jazz-rock, quem não percebeu que, algures na década de 1970, este se estava a dirigir para um beco sem saída. Porque ficou exaurido de ideias e também porque o quiseram comercialmente pasteurizado. E no entanto, algo lhe sobreviveu: a equação proposta por "Bitches Brew" de Miles Davis, do lado do jazz, e por "Three" dos Soft Machine, do lado do rock, foi retomada mais adiante com a descoberta de que a vertente free do jazz, a música contemporânea menos académica, o punk e o metal ofereciam vocabulários que a podiam revitalizar. Para tal, foi necessário chegar a uma verificação que tardava: a de que as principais virtudes dos investimentos "crosscurrent" originais tinham sido a inovação e o não-conformismo. As bandas Led Bib, britânica, e Gutbucket, norte-americana, surgem no âmbito deste novo estádio fusionista.

Ambas as formações ganharam um rótulo tão (des)propositado quanto qualquer outro: o de death jazz. Se com a designação se procura referir a energia e o "rocking power" da música dos Led Bib, até que se aplica. A esse nível seguem o exemplo dos também londrinos Acoustic Ladyland, com a diferença de que não se deixam enquadrar nas coordenadas em questão da forma algo simplista dos seus antecessores – a esse nível, “Sensible Shoes” é tão entusiasmante em termos de criatividade e inventividade quanto de performance. Ao longo do álbum, há sempre mais uma faceta para descobrir (repare-se em "2.4.1.", um tributo à compositora electrónica Delia Derbyshire, arranjadora do tema musical da série televisiva "Doctor Who") e uma maior riqueza de conteúdos. O que os caracteriza, sobretudo, é terem uma "frontline" com dois saxofones alto – a principal referência está nos Prime Time de Ornette Coleman, mas com o filtro de "Spy Vs. Spy", o disco-duelo de John Zorn e Tim Berne.

Os Gutbucket são um tudo-nada menos impactantes em "A Modest Proposal", e isso talvez devido à sobrevivência de algumas premissas do rock progressivo e às influências "eruditas" (stravinskyanas?) na escrita dos temas, o que, de resto, faz com que estejam habitualmente envolvidos nas produções do colectivo Bang on a Can. Agora com um novo baterista, Adam D Gold, mantêm os propósitos de quando começaram, há dez anos: fazer uma música aberta, mas com ênfase proto-hardcore. Continuam a ser bons nisso, mas já se lhes ouviu melhor.

 

Bobby Previte: "Pan Atlantic" (Auand)
Gianluca Petrella / Antonello Salis / Bobby Previte: "Big Guns" (Auand)

Se ambos estes discos envolvendo Bobby Previte e Gianluca Petrella têm uma evidente dimensão cinematográfica (podíamos tomá-los como bandas sonoras de "films noirs"), diferencia-os o facto de "Pan Atlantic" se sustentar em composições do baterista e de "Big Guns" ser uma colecção de improvisações sem tema – se bem que igualmente de orientação idiomática.

Comecemos pelo álbum editado primeiro (ainda em 2008), "Big Guns"... Ainda que com saldo mais do que positivo, trata-se de uma edição algo desigual. Momentos de entusiasmante rasgo intercalam-se com passagens que ora são derivativas no fluir improvisacional, indicando perdas de rumo ou desfocagens de propósito, ora constroem-se em torno de motivos umas vezes pueris e outras desadequados. Previte, Petrella e Antonello Salis parecem mais apostados em tomar as constantes citações de estilos (blues, jazz-rock, free jazz, be bop) e de modos de abordagem instrumental (o Hammond B-3 tocado à maneira de Jimmy Smith, por exemplo) como "partituras" condutoras do que em verificar onde os leva a livre interacção a três.

Bobby Previte impõe-se como um gestor do tempo na bateria, em certas ocasiões de forma bastante afirmativa, e Gianluca Petrella prefere colocar-se ao serviço do todo musical no lugar de evidenciar os seus invulgares dotes como solista no trombone – aliás, em bastas circunstâncias trata os sons do seu instrumento por meio de efeitos electrónicos (nem sempre interessantes), com objectivos meramente colorísticos. Porque um está muito fixo no seu papel e o outro trabalha para os resultados globais, o elemento mais flexível do trio acaba por ser Salis, dividindo-se este irrequietamente entre o piano, o órgão e o Fender Rhodes. É dele a prestação mais conseguida, com uma abordagem swingante dos materiais e sempre algo a dizer de oportuno.

Em "Pan Atlantic", a mestria baterística de Previte ganha um melhor enquadramento e somos lembrados de que estamos também perante um compositor de alto mérito, seja na força e na imediatez dos temas melódicos em uníssono ou em contraponto (com Petrella e Wolfgang Puschnig, saxofonista da Vienna Art Orchestra e das "big bands" mais recentes de Carla Bley, em íntimas colaborações) como na pouco ortodoxa estruturação das peças, passando esta por imprevistos cortes e mudanças de direcção. O trombonista habitual de Enrico Rava ganha maior projecção, com prestações de excelência, mas mais uma vez é o homem das teclas que se destaca: no piano eléctrico, em vez do (seu) habitual piano preparado, Benoît Delbecq faz maravilhas. Curiosamente, é com o Fender Rhodes em solo absoluto, tocado por Bobby Previte (!), que termina o CD com uma composição elíptica e de estranha beleza.

"Pan Atlantic" é um bom exemplo de como a cuidada manutenção de atmosferas é vital para uma música cujas significâncias não se limitem à expressão de emoções. Resulta uma obra onírica que tem tanto de mistério quanto de suspense, sem condicionar os conteúdos a um mero ambientalismo. As coordenadas são as históricas do jazz eléctrico, o que significa que contêm a energia do rock, mas com um sentido de contemporaneidade e uma abertura formal absolutamente notáveis.

 

Seabrook Power Plant: "Seabrook Power Plant" (Loyal Label)
Neste disco de estreia do novo projecto do nova-iorquino (de Brooklyn) Brandon Seabrook, antigo membro de uma banda dada a conhecer na colecção New Radical Jewish Culture da Tzadik de John Zorn, Naftule's Dream, há momentos em que ouvimos reminiscências dos Minutemen e outros em que transparece a influência de Eugene Chadbourne. A música é um jazz tresloucado, com tanto de folk e country (invocados pelo banjo virtuosístico do líder) quanto de punk e trash metal. Tom Blancard (contrabaixo) e Jared Seabrook (bateria) formam uma secção rítmica possante, essencial para a expressividade altamente energética que nestes temas se encontra, mas é mesmo Brandon quem mais nos entusiasma, inclusive quando achamos que recorre demasiadas vezes a truques pirotécnicos.

 

Mike Olson: "Incidental" (Henceforth Records)
O americano Mike Olson apresenta em "Incidental" um novo episódio de uma abordagem da música que ganhou contornos e características muito específicos. Mais uma vez, mas neste álbum com especial sucesso, gravou fragmentos musicais improvisados por vários instrumentistas e depois manipulou-os em computador, fazendo do acto de compor um trabalho de combinação e transformação. Com uma particularidade: também com o "software" ele procurou improvisar, adoptando uma lógica relacional de audição e reacção. O processo está longe de ser inédito (em Portugal, Nuno Rebelo utiliza-o), mas ganha aqui o seu máximo refinamento.

 

Ergo: "Multitude, Solitude" (Cuneiform)
Depois de uma auspiciosa estreia em 2006, o trio norte-americano Ergo volta e editar e confirma as expectativas então criadas. O instrumentário não é o mais vulgar, com Brett Sroka ligando o seu trombone a um computador, Carl Maguire repartindo-se entre o velho Fender Rhodes e uns igualmente "vintage" sintetizadores analógicos, e Shawn Baltazor cobrindo a retaguarda na bateria. Neste disco o jazz vai mais além, adoptando um carácter ambiental que lembra algumas opções do chamado pós-rock e de um grupo como os Sigur Rós. A coisa podia não resultar, mas funciona.

 

Juozas Milasius: "Slow" (Nemu Records)
Apesar de apontado como o "enfant terrible" do jazz lituano, neste álbum a solo o guitarrista Juozas Milasius não parece particularmente rebelde. A música é acessível e o seu carácter introspectivo e melódico cativa logo à primeira audição, sem nunca surpreender verdadeiramente e sem correr excessivos riscos. Detectam-se afinidades com Marc Ribot, mas no geral o que ouvimos sugere um Robert Fripp que tivesse particular deferência pelos blues. Os temas são minimalistas e paisagísticos, e por vezes o recurso ao "multi-tracking" serve para se sobreporem camadas de materiais sonoros. Milasius está conotado com as abordagens noise, mas nada disso transparece nestes temas.

 

Materiale Umano: "Scoolptures" (Leo Records)
Se o mais conhecido dos membros do quarteto italiano Materiale Umano é Achile Succi (clarinete baixo, saxofone alto, shakuhachi), os restantes compensam a pouca projecção extra-fronteiras com prestações de alta qualidade: Nicola Negrini (contrabaixo, metalofone, electrónica), Philippe Garcia (bateria, voz, electrónica) e Antonio Della Marina (electrónica) são nomes a fixar. O que aqui vem é improvisação electroacústica com matriz jazzística e dimensão humana. Intensa, mas muito focada, com uma honestidade estética e uma competência técnica de aplaudir. Dizem os MU que a inspiração foram buscá-la ao conceito do tempo de Heidegger e às perspectivas de Jung quanto à sincronicidade – seja como for, na prática tudo parece natural e espontâneo.

 

Katja Krusche / Martin V. Krusche: "I Am One – Stories From the Worlds In-between" (Leo Records)
Este é um disco que se ouve muito bem, e sabendo-se que anteriormente os austríacos Katja e Martin Krusche gravaram um álbum de tangos, e que a primeira já se dedicou à "chanson française", maior a surpresa desta audição. De facto, os vocais de Katja, próximos de Lauren Newton e totalmente dentro dos léxicos da livre-improvisação, nada têm que ver com esses universos. Influência por influência, a que mais se detecta é a da tradição popular centro-europeia, sublinhada pela sonoridade do acordeão de Martin.

 

Jan Klare / Bart Maris / Wilbert de Joode / Michael Vatcher: "Played 1000" (Leo Records)
Dedicado a explorar as várias possíveis relações entre escrita e composição imediata, vulgo improvisação, este quarteto junta duas luminárias da cena holandesa, o contrabaixista Wilbert de Joode e o baterista (americano de nascimento) Michael Vatcher, a dois músicos de outras proveniências: o saxofonista alto alemão Jan Klare, líder do grupo e principal autor das peças tocadas, e o trompetista belga Bart Maris, conhecido pelas suas colaborações com Peter Vermeersh em bandas como Flat Earth Society e X-Legged Sally. Nada é recusado à partida: se há refrões melódicos, também nos deparamos com desafios à tonalidade. O número 1000 do título alude ao facto de a estreia do projecto ter acontecido na série de concertos 1000 Years of Jazz, em 2004. Leo Feigin continua a saber escolher bem os discos que coloca no seu catálogo...

 

Donat Fisch / Christian Wolfarth: "Circle & Line 2" (Leo Records)
Dez anos depois da edição de "Circle & Line", os suíços Donat Fisch e Christian Wolfarth (uma presença habitual na Leo Records) voltam a inserir-se na linhagem do duo de saxofone e bateria aberta por Dewey Redman e Ed Blackwell. A esse nível, o que aqui ouvimos é previsível e pouco acrescenta ao que antes fizeram e mesmo ao modelo que perseguem, mas a música é tão poderosa e a interactividade a que conseguem chegar tão efectiva que depressa esquecemos esse factor. Acresce uma mais-valia: passada uma década, Fisch e Wolfarth estão mais maduros e seguros, e isso quer dizer que tocam melhor.

 

Plaistow: "Jack Bambi" (Edição de Autor)
Numa embalagem graficamente muito atraente, os Plaistow de Johann Bourquenez, Raphael Ortiz e Cyril Bondi juntam um CD com o francamente interessante "Jack Bambi", em que se dedicam a um híbrido de jazz e drum 'n' bass, com um DVD no qual tocam ao vivo e a que acrescentam, em áudio apenas, os EPs "Los Criminales Reciclados" e "Do You Feel Lucky?". A prestação captada em vídeo não convence (inclusive pelos maus efeitos utilizados), e isso não obstante os alguns positivos momentos musicais: o trio parece apostado em ir visitando, uma a uma, várias abordagens possíveis – estas vão do universo de Keith Jarrett ao de Steve Reich, com passagem algo espúria pela improvisação abstracta, ficando por estabelecer uma identidade única e própria. O melhor que encontramos é a performance em sexteto do grupo com Michel Wintsch, Cyril Moulas e Nicolas Field.

 

Lisa Ullén / Nina de Heney: "Carve" (LJ Records)
Um piano e um contrabaixo tocados com técnicas extensivas e preparações. As peças são totalmente improvisadas e têm dimensão experimental, com primado no som propriamente dito e referências escultóricas, mas óbvia se torna, aqui ou ali, a sua ancoragem tanto na música erudita contemporânea como no avant-jazz. Nisso, nada de inédito: o importante é que as suecas Lisa Ullén e Nina de Heney improvisam no feminino. Como neste duplo álbum fica provado, a música tem mesmo sexo. É têxtil e lunar, feita de meticulosidades e mistérios, esperas e humores. Num momento é quase nada, um murmúrio apenas, para no seguinte irromper como uma vaga no oceano.

 

Kim Johannesen / Svein Magnus Furu: "The Ecologic" (Creative Sources)
Em trio com o baterista Tore Sandbakken, os noruegueses Kim Johannesen (guitarras) e Svein Magnus Furu (saxofone, clarinete) tocam um jazz mais formal e alicerçado sobre o ritmo e a melodia, não muito distante do do trio de Paul Motian com Bill Frisell e Joe Lovano. Em duo, encontram a liberdade necessária a um investimento abstracto, de certo modo alinhado com o reducionismo, mas preferindo neste a lógica textural à interiorização do modelo "near silence". Fazem-no, até, revelando um sentido de musicalidade que muitas vezes está ausente desta corrente da mais radical improvisação livre. Sem dúvida, intrigante.

 

Matt Weston: "Seasick Blackout" (7272 Music)
Em termos de execução instrumental, o norte-americano Matt Weston é percussionista, mas o trabalho que vem desenvolvendo – brilhantemente documentado por este "Seasick Blackout" – entra nos parâmetros do concretismo. O recurso à electrónica é mais combinatório do que propriamente de processamento, e nesse sentido diverge do vulgar "sampling". Por exemplo, em "You're Not That's Right", uma cadeira a arrastar-se faz as vezes de um saxofone a solar, e é por isso mesmo que resulta interessante. As peças têm dimensão orquestral, mas não são cordofones e sopros o que ouvimos: todos os sons foram produzidos por Weston com o seu arsenal percussivo.

 

D'Incise: “Sécheresse Plantée en Plein Ciel” (Gruenrekorder)
D'Incise: “Cendre et Poudre” (Antisocial)
D'Incise: “Les Lendemains Étendus” (Audioactivity)
D'Incise: “Morsure Souffle” (Test Tube)

Com o "nickname" musical de D'Incise, o suíço Laurent Peter é uma presença frequente na cena do jazz livre e da música improvisada em Portugal, por cá tendo tocado com músicos como Ernesto Rodrigues, Paulo Curado, João Pedro Viegas, Abdul Moimême, Hernâni Faustino e Pedro Sousa, em colaborações directas ou inserido no duo Diatribes, projecto que partilha com o baterista Cyril Bondi. Mentor da "netlabel" Insubordinations, que já lançou um colectivo português, o Potlatch de Monsieur Trinité, está igualmente envolvido com a Audioactivity e é ele próprio quem se encarrega da arte e do excelente "design" das suas muitas edições – sempre com uma deliciosa apresentação artesanal. Todas as que aqui reúno datam de 2009, um ano especialmente produtivo para este "laptoper" que gradualmente vem incidindo a sua atenção no uso de microfones de contacto e em curiosas manipulações da percussão e de objectos vários, bem como na recolha e no processamento de "field recordings". Ainda que de qualidade desigual, todos estes discos constituem renovadas facetas daquele que apresenta como «um universo feito de fracturas sonoras, crepitações nevrálgicas, atmosferas melancólicas e um fascínio não-dissimulado por ritmos em fritura».
Sobretudo, D'Incise soube adaptar as perspectivas da electrónica ambiental e noise à prática improvisacional, utilizando os meios digitais e analógicos numa música que se preocupa, acima de tudo, com o carácter acústico das construções. Aliás, neste âmbito a sua gestão das dinâmicas e dos espaços constitui um raro exemplo de adequação. Não se trata apenas de uma particularidade de estilo: o objectivo a que se propõe é precisamente esse, «diluir a distinção entre sons acústicos e sons computadorizados, de modo a confiundir as percepções», mesmo que a música resultante seja algo de «instável» e «reactivo». No trabalho que realiza em colaboração com outros músicos (a célula Diatribes tem por hábito chamar à participação instrumentos convencionais como o piano ou o saxofone) assume mesmo o risco de cruzar o seu "modus operandi", baseado na criação e na sustentação de texturas, com, da parte dos convidados, vindos estes geralmente do jazz, uma lógica que tem a nota como fundamento e o fraseado linear como regra. Umas vezes esses encontros resultam menos bem, senão mal, mas em outras proporcionam-se especiais surpresas.
Seja como for, é a solo que melhor compreendemos aquilo que D'Incise procura, e é esse o caso destes registos. O menos interessante será "Sécheresse Plantée en Plein Ciel", não pela música proposta, que chega em alguns momentos a requintes de sombria beleza, mas porque cai em redundância a nível de materiais e de atmosferas. A meio caminho, a audição torna-se cansativa e apetece tirar o CD do leitor. Com o mesmo enquadramento, "Cendre et Poudre" é bastante mais convincente. Os temas oferecem diferentes perspectivas e os jogos percussivos são não apenas sonicamente mais ricos, como evoluem em permanente mutação, ora impondo-se pela densidade, ora cativando-nos por meio de um intrigante efeito de transparência. Não foi por acaso que a crítica suíça apontou Laurent Peter como um «plasticista sonoro». Percebe-se, inclusive, que são aplicadas técnicas do dub – para quem não saiba, o nome dado ao reggae tratado e criativamente remisturado em estúdio. A transposição de metodologias específicas de um género musical para outro, separando-as da sua gramática, é um dos sinais distintivos do presente estádio da criatividade musical.
Novo tratado do ritmo em contexto de abstracção, "Les Lendemains Étendus" volta a ser pouco "listener friendly", pecando pela reduzida variabilidade das abordagens. O seu conteúdo tem bons argumentos, mas depressa, malogradamente, nos entedia. D'Incise corta a direito, dirigindo-se ao ponto onde quer chegar sem grandes desvios, mas o que a ele pode significar objectividade, para o ouvinte torna-se num bocejo. Já "Morsure Souffle" é a pérola deste lote. Para as mais-valias obtidas muito contribui a generosa inclusão de "found sounds". Neste trabalho sim, é difícil adivinhar o que vai acontecer de seguida, tal a abertura de possibilidades inerente ao campo em exploração. O que normalmente Peter faz com objectos amplificados, consegue com ainda maior proveito recorrendo ao seu banco de sons. Poucas vezes uma música improvisada tem igualmente uma índole laboratorial, pelo que encontramos neste álbum o melhor de dois mundos. Atrevo-me mesmo a dizer que este CD é disso paradigmático. Ou seja, um exemplo a seguir.

 

Orchestre National de Jazz: “Around Robert Wyatt” (Bee Jazz)
Ed Palermo Big Band: “Eddy Loves Frank” (Cuneiform)

Prova provada de que o jazz pode visitar os jardins floridos da pop com resultados de qualidade superior (o que regra geral se verifica é precisamente o contrário), o duplo "Around Robert Wyatt" é não só uma boa surpresa no trajecto da Orchestre National de Jazz, que nem sempre mostra trabalho digno de igual nota*, como constitui um dos grandes álbuns do ano que passou. É certo que Robert Wyatt não é uma típica personagem da dita música popular urbana. Enquanto membro dos Soft Machine foi um dos arautos primeiro do rock psicadélico europeu e, depois, da fusão jazz-rock mais coerente e criativa. A solo, centrando a sua atenção na voz e na composição (uma queda prendeu-o a uma cadeira de rodas, impedindo-o de tocar bateria), forjou um continuado projecto de refinamento do formato canção. Wyatt foi mesmo o pioneiro da pop sofisticada que abriu caminho a nomes como David Sylvian, Scott Walker, Bjork ou, mais recentemente, Antony.
Por sua vez, os músicos escolhidos por Daniel Yvinec (contrabaixista cada vez com maior evidência) para mais uma temporada da orquestra estatal de jazz de França não são os mais evidentes dos "jazzmen". Na lista encontramos dedicações, paralelas ou não, à improvisação livre, à experimentação e à world music. Trata-se de instrumentistas com múltiplos interesses e capacidades, tal como é distintivo das novas gerações que assimilaram o conceito de pós-modernidade. Só músicos com este perfil, aliás, poderiam levar a bom porto os muito particulares arranjos assinados por Vincent Artaud – "jazzy" sem dúvida e herdeiros da "musividência" de Duke Ellington e Gil Evans, mas ao serviço dos temas do homenageado, e em muitos casos com uma elegância que os aproxima da música de câmara. Além disso, se seria mais natural que a ONJ se lançasse a versões instrumentais do "songbook" de Robert Wyatt, o que convenhamos soaria a muito pouco, a opção passou pelo convite a cantores de orientações diversas para se juntarem à "big band", alguns deles intervindo nas suas próprias línguas. O próprio autor de "Rock Bottom" surge num punhado de versões, e a verdade é que poucas vezes o ouvimos recentemente em contexto tão favorável.
"Eddy Loves Frank" é outro disco de "covers", desta feita de partituras escritas por Frank Zappa. O que Ed Palermo se propôs fazer é substancialmente diferente da abordagem de Yvinec – se a estratégia perseguida por este equaciona a fidelidade relativamente aos traços gerais das canções com inesperadas roupagens, o músico norte-americano procede a distilações jazz de uma música que originavelmente associava este com o rock e com os conceitos serialistas de Schoenberg e Varèse. Reter apenas uma das vertentes da complexa personalidade musical de Zappa parece redutor, mas para todos os efeitos foi o que este fez no final da sua carreira quando se dedicou a um rock virtuosístico destituído de interesse, na sequência do seu fascínio pelas capacidades do guitarrista Steve Vai. O produto final é tão bem conseguido, que questões musicológicas como essa se tornam secundárias, só não sendo motivo de mais aplauso porque pouco adianta a anteriores dedicações de Palermo ao repertório zappiano.
O saxofonista e arranjador nova-iorquino pode amar Frank Zappa, mas é muito claramente através do prisma de Ellington que o ouve. Este Zappa swinga como nunca o original o fez e dá um largo espaço aos solos improvisados. De resto, estes ocupam o lugar dos vocais nos discos gravados pelos Mothers of Invention, nesse aspecto alinhando pela maioria dos procedimentos quando o jazz visita o património de outra área da música popular. Só na derradeira faixa se canta, mas já é com uma sensação de estranhamento que nos lembramos de um facto incontornável: o génio que lançou "Overnite Sensation" era também ele um inventor de boas canções.

* Depois de anos de edições mornas e desinteressantes, o anterior director da ONJ, Frank Tortiller, teve também em "Close to Heaven" o atrevimento de gravar adaptações da banda rock Led Zeppelin, mas sem resultados suficientemente convincentes.

 

Mostly Other People Do The Killing: “This Is Our Moosic” (HotCup)
Apelidados de "terroristas" pela crítica americana, termo que como se sabe tem um grande peso por aqueles lados, o quarteto Mostly Other People Do The Killing dedica-se mais uma vez neste álbum a armadilhar-nos a audição e os conceitos que temos como adquiridos sobre o que é o jazz. Sabendo pelas revistas, ou por ouvir dizer, da sua adesão matricial ao bebop, o curioso tem a primeira surpresa quando olha para o título: "This is Our Moosic" é uma "charge" humorística a um disco de Ornette Coleman, um dos "inventores" do free jazz ("This is Our Music", de 1960).
Continuando a observar a capa do disco, o candidato a ouvinte verifica que os músicos estão vestidos de fato e gravata, tal como é habitual fazerem os "jazzmen" fundamentalistas que tocam no Lincoln Center, e a dúvida instala-se-lhe. Para mais tendo conhecimento de que Jon Irabagon, o saxofonista alto de Chicago com ascendência filipina, venceu a Thelonious Monk Competition de 2008 com um projecto ultraconservador (na verdade, sabemos agora, não foi mais do que uma "brincadeira" com o objectivo de mostrar que também era capaz de tocar literalmente a tradição). Outro dado contraditório intervém na memória deste potencial comprador: sabe que Peter Evans, o trompetista com ar de "nerd" universitário, é um dos mais prestigiados cultores das chamadas técnicas extensivas para o seu instrumento e parceiro de inovadores como Evan Parker e Axel Dorner em situações de improvisação descondicionada.
Num ápice o CD está a rodar no leitor da loja e a confusão vai-se adensando, mas agora o receio dá lugar a uma agradável estupefacção. Picadas várias faixas, vai descobrindo a nossa personagem que os MOPDTK não reconhecem divisões entre "mainstream" e vanguarda, saltando de uma para a outra com o maior dos desplantes, e que chegam a incluir na sua música não só motivos estilísticos e recursos técnicos de diversas tendências históricas do jazz como também de outras músicas, da erudita contemporânea ao punk. Percebe que não se trata de fusão (a de Miles Davis, Herbie Hancock, Chick Corea ou John McLaughlin) nem de colagem (a de Frank Zappa ou de John Zorn), mas de algo bem distinto: uma música de transversalidades, cruzamentos e contrastes. E como se tal não bastasse para querer ficar com o disco, assombra-se este melómano com o virtuosismo dos músicos, brilhantes na execução do património jazzístico tanto quanto são inventivos nas passagens esteticamente mais audazes. Ainda por cima, a música tem humor, sátira e ironia, algo de bem-vindo num meio que se leva demasiado a sério.
O que seria preciso mais para convencer alguém de que aqui está uma das melhoras provas de que o jazz é uma música viva?

 

Archie Shepp / Bill Dixon: “Quartet” (FreeFactory)
Don Cherry: “Live at Cafe Montmartre 1966 Volume 3” (ESP-Disk)
As gravações da colaboração entre Archie Shepp e Bill Dixon em 1962 tiveram duas edições, uma na Savoy e a outra na francesa BYG Actuel, esta com o título "Peace", mas é a primeira vez que surgem em formato digitalizado. Trata-se, pois, de uma reedição de relevo histórico, talvez a mais importante do ano que findou. Como bónus, encontramos ainda Shepp com os New York Contemporary Five e Dixon com o seu septeto, em ambos os casos com registos de 1964.
O quarteto co-liderado por Archie Shepp e Bill Dixon durou apenas 18 meses, entre o Inverno de 1961 e Junho de 1963, tendo apenas realizado alguns concertos em pequenos espaços de Nova Iorque e uma viagem à Europa, para um festival em Helsínquia. O grupo chegou a ampliar-se para quinteto e sexteto, e os músicos intervenientes variavam – exemplos disso são a substituição de Don Moore por Reggie Workman no contrabaixo e de Paul Cohen por Howard McRae na bateria num dos temas incluídos, "Peace" precisamente, um original de Ornette Coleman. Nos acrescentos finais encontramos mais algumas estrelas da "fire music", como Don Cherry, John Tchicai, Ronnie Boykins, Sunny Murray, Ken McIntyre, Howard Johnson e David Izenzon, e o que se ouve corresponde às maiores expectativas que tal lista suscita.
E por falar em Don Cherry, 2009 foi também o ano em que surgiu o terceiro e último volume da série "Live at Cafe Montmartre 1966" do peculiar trompetista. No rescaldo de discos de estúdio como "Complete Communion" e "Symphony For Improvisers", o antigo parceiro de Ornette reuniu músicos de várias proveniências geográficas ainda muito jovens mas já em afirmação na “cena” como Gato Barbieri (Argentina), Karl Berger (Alemanha, depois radicado nos EUA), Bo Steif (Dinamarca) e Aldo Romano (Itália) para uma residência num clube de jazz de Copenhaga, o Café Montmartre. O que aí tocaram completa-se com este documento.
Depois de, nos anteriores tomos, o quinteto ter virado do avesso alguns "standards" e composições de Ornette Coleman e Albert Ayler, além de temas do próprio Cherry, o mote é dado aqui pelo be bop, com alusões e até citações que recebem igual tratamento. Muitíssimo bom, e até com estatuto de testamento!

 

Yells At Eels feat. Rodrigo Amado: “The Great Bydgoszcz Concert” (Ayler Records)
Formados por uma figura de culto do free bop, o trompetista Dennis González, e pelos seus dois filhos, Aaron e Stefan González, mentores do projecto pós-punk Akkolyte e membros do Humanization Quartet de Luís Lopes, os Yells At Eels vêm propondo uma impactante música que junta o fogo do hard bop às liberdades improvisacionais anunciadas por Ornette Coleman no seu álbum "Free Jazz", com base numa rítmica que tem a energia e o imediatismo do rock. Neste registo ao vivo realizado na Polónia o convidado especial é o português Rodrigo Amado, ele também um saxofonista (aqui apenas no tenor) que vem operando a equação das vertentes bop e new thing, se bem que, regra geral, em regime de improvisação livre. Curiosamente, é seu um dos temas tocados, "Dialeto da Desordem".
O resultado chega em bastas passagens por ser explosivo, se bem que, como ouvimos na melancólica "Litania", peça composta pelo polaco Krzysztof Komeda (lembram-se da banda sonora de "Rosemary's Baby"?), o quarteto seja também capaz de extrair lágrimas das pedras da calçada. Ornette é directamente invocado, com uma interpretação de "Happy House" que confirma a referenciação nele que desde logo detectamos, e uma das faixas constitui uma dedicatória de um maioral da cena do Texas (Dennis) a outro protagonista do jazz de hoje, este de Nova Iorque – "Document for William Parker". Nessas faixas, como no restante disco, encontramos um Amado no apogeu das suas capacidades, intenso, argumentativo e capaz de dialogar com a corneta e o trompete do pai González como um igual. Quanto ao próprio Dennis González, ouvimos aqui muito do melhor que ele tem feito nestes últimos anos...

 

Plaistow: “Do You Feel Lucky?” (12Rec)
O projecto dos suíços Plaistow parece aliciante quando o vemos anunciado por palavras: partindo do conceito "trio de piano jazz", explora os cruzamentos com as lógicas do minimalismo, na linha de Steve Reich (organização dos materiais sonoros por ciclos, em vez do sequencialismo por "drones" de um La Monte Young), bem como nas da electrónica experimental e do rock na variante noise. Na prática, já as coisas não correm tão bem, cedo se verificando que o grupo de Johann Bourquenez, Raphael Ortis e Cyril Bondi está muito longe da excelência dos The Necks, que navegam em águas semelhantes. Se estes soam de forma fluida e natural, ouvindo os Plaistow ficamos sempre com a sensação de que se segue uma receita, com cada ingrediente pesado ao miligrama.

 

Henning Sieverts' Symmetry: “Blackbird” (Pirouet)
Bastante menos feliz do que o inicial "Symmetry", o segundo álbum deste projecto de Henning Sieverts alterna momentos que são autênticos rasgos criativos, num formato de jazz de câmara em que o inesperado acontece (por exemplo, os ritmos drum 'n' bass do baterista John Hollenbeck), com outros do mais estéril convencionalismo. É como se o contrabaixista, aqui mais em evidência através das suas composições do que como instrumentista, não tivesse tido a coragem de assumir por inteiro a sua inventividade "off-center", mantendo âncoras que tornem "aceitável" esta proposta a ouvidos menos afoitos a aventuras. Em consequência, "Blackbird" decorre num limbo entre o surpreendente, o muito bom mesmo, e o que perigosamente se aproxima da banalidade, numa estratégia de meias-tintas que deixa muitas dúvidas quanto ao empenho estético existente. Destacam-se Chris Speed, sobretudo no clarinete, e o pianista Achim Kaufmann.

 

Thollem McDonas / Nicola Guazzaloca: “Noble Art” (Amirani)
A “nobre arte” de que o título fala é o boxe, e o duo de pianos constituído por Thollem McDonas e Nicola Guazzaloca alude-lhe inteiramente. Não da forma mais óbvia: a música é profunda, intensa e por vezes até desmesurada, infelizmente não deixando lugar a subtilezas, mas o propósito não é estabelecer um combate entre pianistas para verificar quem vence, e sim reproduzir ao nível sonoro a dimensão coreográfica desse desporto. O resultado é sem dúvida interessante, mas também demasiado programático.

 

Fast 'n' Bulbous: “Waxed Oop” (Cuneiform)
As "covers" de Captain Beefheart realizadas pela banda gerida pelo saxofonista Philip Johnston, o responsável dos arranjos, e pelo guitarrista Gary Lucas, o único que pertenceu ao grupo de Don Van Vliet (na sua última fase), já viveram melhores desenlaces do que os agora ouvidos em "Waxed Oop". Talvez porque a tentativa de procurar soluções outras para a interpretação dos temas originais perde em objectividade o que ganha ao nível do distanciamento analítico, assistido este por uma perspectiva jazz e por propósitos de questionação da nebulosa musical a que se vai chamando de Americana, o certo é que este tributo perdeu claramente o gás. Ressalve-se o tema "Woe-is-uh-Me-Bop", que quase parece um encontro da Instant Composers Pool com os anarquistas The Ex.

 

Manu Codjia: “Manu Codjia” (Bee Jazz)
Surgido na herança de Bill Frisell, o francês Manu Codjia impôs-se nestes últimos anos como um dos mais sólidos valores da guitarra jazz na Europa, sempre na qualidade de "sideman". Sem precipitações (este é apenas o seu segundo álbum em nome próprio, depois de "Songlines", lançado em 2007), e confiando na consistência das suas propostas, vê agora também confirmado o seu estatuto enquanto compositor. Ou talvez devamos utilizar o termo "encenador": o papel que reserva ao trompete de Geoffrey Tamisier e ao trombone de Gueorgui Kornazov, desafiando-lhes mais as improvisações do que propriamente circunscrevendo-as por meio da escrita, constituem não só uma novidade em relação ao primeiro disco em trio apenas com contrabaixo e bateria, como também uma generosa amostra das suas bem interessantes ideias, estas indo muito para além do universo da seis-cordas. Muito haverá a esperar dele no futuro.

 

Per Anders Nilsson / Sten Sandell / Raymond Strid: “Beam Stone” (Psi Records)
Numa área situada entre o jazz aberto e a improvisação colectiva, “Beam Stone” é um disco exemplar no que respeita à introdução da electrónica (o computador e o sintetizador de Per Anders Nilsson, sobretudo, mas também os “gadgets” de Sandell) neste tipo de contexto, sempre com oportunidade e sentido de medida. O foco vai, no entanto, para o que fazem no piano Sten Sandell e na percussão Raymond Strid e que é, em todos os aspectos, admirável. Dois grandes músicos da Suécia que já ouvimos nos mais variados registos e que aqui estão como peixe na água.

 

Fred Frith & Nation Unique: “Impur Part II” (Fred Records)
Depois da edição de "Impur", peça gravada em 1996, mas só colocada em CD há dois anos, que consistiu na actuação simultânea e articulada de seis ensembles (100 músicos) nos vários andares e salas do edifício ocupado pela École Nationale de Musique de Villeurbanne, em França, surge agora este "Impur Part II". Trata-se do registo nessa mesma ocasião de uma performance não anunciada no auditório da escola – o concerto iniciou-se sem ninguém na plateia e o público foi chegando aos poucos, atraído pelo som, após ter assistido à actuação programada. O que ouvimos tem a transversalidade idiomática que desde sempre reconhecemos em Frith, mesclando música de câmara, rock "arty", jazz, improvisação livre e elementos folclóricos de origens dificilmente descortináveis. Com mais composição e estruturas pré-estabelecidas do que poderíamos esperar, o documento final deste trabalho revela, ainda assim, uma fluidez que só uma criação colectiva alicerçada na espontaneidade e na flexibilidade dos participantes permitiria. E é quase tão bom quanto o melhor que o guitarrista de origem britânica já lançou em disco.

 

Bill Frisell: “Live in Montreal” (Amérimage-Spectra)
Registo de uma actuação em septeto de Bill Frisell no Festival Internacional de Jazz de Montreal em 2002, o presente DVD constitui uma desilusão em vários aspectos. Um é a falta de fidelidade sonora do evento (quase nunca se consegue ouvir o contrabaixo de David Plitch, por exemplo), e outra a não muita competência a nível de realização (com, também por exemplo, a câmara a fixar-se em Frisell quando é a guitarra "steel" de Greg Leisz que está em evidência), mas sobretudo o que não convence é a própria música. Se bem que os conceitos de cruzamento do jazz com o country e a folk americana operados pelo guitarrista sejam aliciantes e já tenham resultado em grandes discos e concertos, o que aqui encontramos é superficial, aborrecido e com uma incongruente tónica pop. O que Frisell faz com os "delays" é francamente gratuito, para não dizer de mau gosto, mas o que incomoda mais é o não-aproveitamento da boa secção de sopros em que encontramos Billy Drewes, Ron Miles e Curtis Fowlkes – pouco mais do que um trabalho de decoração o ex-Naked City lhes destina. Vá-se lá compreender porque foi este vídeo, desta fase da produção musical de Bill Frisell, que se escolheu para edição...

 

Fred Frith and Arte Quartett: “Still Urban” (Intakt)
Fred Frith and Arte Quartett: “The Big Picture” (Intakt)

A escrita para combinatórias de saxofones por parte de Fred Frith não é de agora, como sabemos pelas suas colaborações com o quarteto Rova no início dos anos 00, mas se essa estreia foi revelatória das suas ideias camerísticas para a família de instrumentos inventada por Adolph Sax, a parceria que estabeleceu em 2008 com o suíço Arte Quartett não só as continuou como lhe permitiu esmiuçar novas possibilidades, testemunháveis nestes dois discos, “Still Urban” e “The Big Picture”.
No primeiro, ao sopro de Beat Hofstetter, Sascha Armbruster, Andrea Formenti e Beat Kappeler, acrescenta Frith (a espaços) a sua guitarra eléctrica e característicos “field recordings” do meio urbano. A amplitude de materiais desta suite dividida em nove movimentos vai de Mozart a Zorn e de harmonizações inspiradas nos clássicos aos burburismos do pós-free jazz e do experimentalismo. Esta é, aliás, uma música de contrastes, saltando, por vezes numa questão de segundos, de situações de uma beleza secularmente testada a outras que metaforizam o ruído quotidiano das grandes metrópoles dos nossos dias. O que encontramos neste álbum está, pois, em constante transmutação, nunca sendo possível “adivinhar” o que virá a seguir.
No tema-título de “Big Picture”, ao quinteto do anterior CD acrescentam-se o piano ora impressionista, ora cageano de Katharina Weber e a bateria em mimetismos do gamelão do Bali ou em soltos comentários “jazzy” de Lucas Niggli, numa soberba execução colectiva. Depois, e como que a lembrar como tudo começou, o Arte Quartett repega na composição “Freedom in Fragments”, estreada precisamente pelo Rova numa edição da Tzadik, e dá-lhe a sua própria leitura. A interpretação realizada não é melhor nem pior; é diferente e indubitavelmente mais europeia. Nas passagens em que os quatro saxofonistas se detêm nas melodias de um folclore imaginário com referências no Centro-Leste do Velho Continente isso fica, de resto, particularmente evidente.

 

Alípio C Neto & Angelo Olivieri Quintetto Harafè: “Harafè” (Terre Sommerse Jèi)
Em mais um belo disco de um percurso ascensional, o saxofonista luso-brasileiro Alípio C Neto surge aqui ladeado por quatro dos mais importantes nomes da actualidade jazzística italiana. Particularmente intensa, a música de “Harafè” remete-nos para as associações de Miles Davis com Wayne Shorter e com John McLaughlin, dadas as combinatórias exploradas pelo trompetista Angelo Olivieri com os saxofones de Neto e com a guitarra cheia de distorção de Ezio Peccheneda, referenciáveis nesses modelos. E no entanto trata-se de uma abordagem simultaneamente mais free e mais crua, não obstante as ocasionais abordagens líricas e melódicas, com as composições claramente colocadas ao serviço da improvisação.
Se o pernambucano tornado alfacinha aplica neste CD todas as virtudes que já lhe conhecemos, indo do poético ao incisivo, a boa surpresa para quem não conhece o novo jazz transalpino está em Olivieri (tocou, entre outras, com luminárias como William Parker, Hamid Drake, Vincent Courtois, Andrew Cyrille e George Garzone), nestas faixas balizando-se entre o melhor hard bop, o que significa velocidade nos fraseios e especial exploração dos agudos, e algum desconstrucionismo mais “avant”. Destaca-se logo de seguida o guitarrista, tanto ao nível do trabalho harmónico como da energia trazida directamente do rock, mas injusto seria não assinalar a potente e inventiva secção rítmica constituída por Raciti e Ughi.
Com desfechos mais felizes do que os conseguidos na apresentação do grupo no Hot Clube, em Setembro passado, este é o registo de um concerto em Marino, Itália, realizado no ano passado. A melhor música em suporte continua a ser a gravada ao vivo.

 

Joe Morris Quartet: “Today on Earth” (AUM Fidelity)
Darius Jones Trio: “Man'ish Boy (A Raw & Beautiful Thing)” (AUM Fidelity)

A nova-iorquina AUM Fidelity continua a colocar no mercado alguns bons exemplos do jazz que hoje se pratica no outro lado do oceano. Mais dois agora se somam. Com poucos meses de intervalo (o anterior “Wildlife” é de Julho passado), eis que surge o segundo álbum de um grupo, o Joe Morris Quartet, que conta com quatro anos de existência. Este simples facto dá bem conta do apreço que o guitarrista Joe Morris tem por este projecto partilhado com Jim Hobbs, Timo Shanko e Luther Gray. Mais estruturada do que é habitual nos grupos que lidera ou em que participa, a música agora oferecida pelo seu quarteto é bem mais “boppish” do que poderíamos esperar, dá especial ênfase ao “swing” das suas bases rítmicas e usa como mote simples e sugestivas melodias, tanto assim que quase têm um efeito folk.
Não fosse a forma inovadora e original como Morris toca a guitarra e teríamos em “Today on Earth” algo de muito próximo do “mainstream”. Especialmente interessante é o tema “Animal”, que mais do que marcar o retorno a um formato convencional, abre no trajecto deste músico uma via que, tudo o indica, será muito interessante de percorrer. Na faixa-título, Hobbs dá vazão às suas influências parkerianas e ao mesmo tempo remete-nos para a sonoridade da “loft generation”, muito em especial a do altista Makanda Ken McIntyre, uma linhagem que não deixou muitos descendentes. Se já muitos indícios anunciavam tal desfecho, é com este disco que aquilo a que se vai chamando de free jazz faz definitivamente as pazes com a tradição.
O nome de Darius Jones já vinha sendo muito pronunciado de boca para orelha, mas fora os préstimos que foi gravando como “sideman” (de William Hooker, Mike Pride e Trevor Dunn, por exemplo) e os seus concertos em trio com Adam Lane e Jason Nazary no outro lado do Atlântico – trio esse que, por sinal, surge na faixa bónus de “Man'ish Boy”, “Chaych” – não havia um documento em que protagonizasse um projecto seu e no qual encontrássemos totalmente expostas as suas próprias ideias. Eis, finalmente, que chegou esse álbum, o seu primeiro como líder.
Com o apoio de Cooper-Moore no piano e num instrumento de sua invenção que se parece muito com um baixo eléctrico, o diddley-bo, e de Rakalam Bob Moses na bateria, o que encontramos é uma muito agradável surpresa. A cada passo denunciando as suas origens sulistas (é natural da Virginia), o que implica perspectivas bastante diferentes das vigentes nas cenas de Nova Iorque ou de Chicago, Jones apresenta uma música de grande frescura, com toda a evidência na esteira do Ornette Coleman da década de 1960, mas abrindo-se para o desconhecido. O que quer dizer que, num livro de história, o do free jazz, em que pouca inovação verdadeiramente se tem registado nos últimos anos, ele acaba de acrescentar uma nova página.

 

Rodrigo Amado Motion Trio: “Motion Trio” (European Echoes)
Prova de que em Portugal há tão bons recursos humanos na área do jazz e da improvisação como em outros países com mais história e projecção a esse nível, “Motion Trio” é a estreia discográfica de um novo projecto de Rodrigo Amado que envolve unicamente músicos nacionais. Para além do saxofonista, que neste mesmo ano lançou “The Abstract Truth”, com Kent Kessler e Paal Nilssen-Love, encontramos aqui Miguel Mira, baixista de formação clássica em guitarra com um percurso intermitente no jazz, há um par de anos convertido ao violoncelo (que afina em quartas, como um contrabaixo), e o jovem (apenas 22 anos de idade) Gabriel Ferrandini na bateria, por muitos já apontado como uma das maiores esperanças no manejo das baquetas.
Pois diga-se que, para estes ouvidos, Amado tem neste título aquele que é o seu melhor álbum de sempre. A começar pela sua própria prestação no saxofone tenor, impecável de início ao fim. Sendo capaz das mais arrebatadoras execuções, o certo é que nem sempre Rodrigo Amado mantém essa regularidade performativa. Sabe bem, pois, encontrá-lo aqui no seu melhor. Neste disco está particularmente bem motivado e suportado pelos seus companheiros, assim se confirmando da conveniência de ter uma banda fixa com a qual seja possível desenvolver um continuado trabalho de entrosamento e pesquisa de possibilidades.
Os três músicos completam-se nestes temas de modo notável. A secção rítmica revela uma rara flexibilidade: ora é enérgica e propulsiva, ora lida com detalhes e minúcias, o que convém quando as coordenadas musicais vão do grito à introspecção lírica. Mira chega a ser surpreendente e Ferrandini surge bem mais focado e contido do que em outros contextos, desse modo aprimorando as suas superiores capacidades. A sintonia conseguida não acontece apenas entre os três intervenientes, mas também entre eles e os conceitos que aplicam. Estes, por sinal, não se ficam pelo free bop, diferentemente da restante produção sob o nome de Rodrigo Amado: com um pé firmemente apoiado na identidade do jazz tal como hoje é entendida em Nova Iorque e Chicago, o outro dá um passo na direcção da música livremente improvisada, segundo o modelo europeu.

 

Tetuzi Akiyama: “Moments of Falling Petals” (Dromos Records)
Editado em Lisboa, mas gravado em Córdoba com músicos sul-americanos, o chileno Éden Carrasco e o argentino Leonel Kaplan, “Moments of Falling Petals” é um dos discos mais bem conseguidos do japonês Tetuzi Akiyama que nos foi dado a ouvir. Alinhado com os princípios do reducionismo improvisado (utilização de silêncios, economia de sons, volume reduzido, substituição do fraseado pela construção de texturas), numa pausa das recentes investidas do guitarrista pelos blues abstractos e pelo psicadelismo rock, o que aqui encontramos é de uma beleza desarmante. A guitarra, acústica, soa por vezes a uma harpa e outras a um violoncelo. Os sopros têm uma perspectivação electrónica, embora de forma orgânica e até primária, importando mais a respiração e o sopro do que a nota e a articulação.
Ao longo da audição chegamos a recear que qualquer novo acontecimento destrua o mundo que foi construído, e é em constante surpresa que testemunhamos a capacidade dos três intervenientes para delicadamente o renovar. Akiyama é um dos protagonistas da cena onkyo de Tóquio, ao lado de figuras como Taku Sugimoto e Toshimaru Nakamura, conhecida precisamente pela sua serenidade (por vezes falsa, dado que a música pode ser especialmente intensa), mas também se tem distinguido em contextos mais “noisy”. De Carrasco chegam-nos poucas referências para além das de ser um membro do grupo de free rock La Kut e de ter colaborado com Jason Kahn, Norbert Moslang e Gunter Muller, enquanto Leonel Kaplan se tornou num dos protagonistas das novas tendências da improvisação internacional, ao lado dos melhores, o que lhe valeu já o convite de Dave Douglas para participar no Festival of New Trumpet Music.

 

The Core: “Golonka Love” (Moserobie)
The Core: “& More Vol. 1 – The Art of No Return” (Moserobie)

Se os noruegueses The Core estavam a tornar-se num caso incontornável do novo jazz escandinavo, estes dois discos consagram-nos como uma das bandas maiores do momento não só no Norte da Europa como em todo o continente. O duplo “Golonka Love” inclui extractos de três concertos realizados na Polónia entre 2007 e 2008, alguns dos temas ainda com a participação do saxofonista Kjetil Moster, outros com o seu substituto, o muito jovem – e surpreendente – Jorgen Mathisen.
A matriz está no jazz modal do Coltrane tardio, mas a presença de um Fender Rhodes e o recurso às rítmicas “groovy” do funk e à energia do rock lembram o Miles Davis electrificado, sem o copiarem. A estrela da formação é indubitavelmente Erlend Slettevoll, que com o seu traficadíssimo piano eléctrico seria capaz, sozinho, de levantar qualquer audiência das cadeiras. Acontece, porém, que a base pulsativa constituída pelo contrabaixista Steinar Raknes e pelo baterista Espen Aalberg não se deixa eclipsar: o “drive”, a força e o delírio até desta música começa por eles. E quanto aos saxofones é o que se ouve: Moster identifica liberdade com pujança e Mathisen entende-a como um convite à argumentação – e note-se que mais pela divergência do que pela retórica.
Se neste álbum o convidado especial é o DJ Lenar, o qual está muito longe de ter funções decorativas, em “The Art of No Return” o quarteto, já com Jorgen Mathisen plenamente estabelecido como membro permanente, conta com as preciosas contribuições de Vidar Johansen, Jonas Kullhammar e Magnus Broo. A suite interpretada é da pena do primeiro, e mais uma vez se evidencia a referenciação em Miles. Não o do período coberto pelo anterior título, mas o que teve a colaboração de Gil Evans em obras de fundo como “Miles Ahead”.
O registo é totalmente distinto, com muita orquestração (são sete os músicos, mas parecem por vezes mais), uma maior subtileza de conteúdos, menos lastro para improvisos individuais e uma sonoridade integralmente acústica, com um piano de cauda no lugar do instrumento inventado por Leo Fender e Harold Rhodes. Mas não se pense que o resultado é menos intenso e galvanizante. O que aqui temos são as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda de ouro, convirá assinalar.

 

Rodrigues / Davidson / Rodrigues / Faustino: “Fower” (Creative Sources)
Com a diferença de que uma guitarra (tocada por Neil Davidson) está no lugar do violino, é um quarteto de cordas que encontramos neste CD, mas raramente o reconhecemos enquanto tal, pelo menos face ao modelo erudito secularmente instalado. Em raras passagens, também, conseguimos identificar os instrumentos “em cena”: estes são utilizados de formas inconvencionais e na sua totalidade, ouvindo-se tanto a manipulação das cordas como das madeiras circundantes. As improvisações estão em permanente tensão, e mesmo os alívios são dramáticos, sendo este um dos mais interessantes discos protagonizados por Ernesto Rodrigues (viola) nos últimos anos. Participam ainda o seu filho Guilherme (violoncelo) e Hernâni Faustino (contrabaixo).

 

Tom Hamilton / Bruce Eisenbeil: “Shadow Machine” (Pogus)
O que desde logo agrada neste disco é o facto de Tom Hamilton e Bruce Eisenbeil trabalharem com sons e situações menos previsíveis, o primeiro no sintetizador modular (conhecíamos apenas a sua música para computador) e o segundo na guitarra eléctrica. Depois, verificamos que não se trata de ambientalismo, nem de noise, nem da estética “lower-case” ou outra das fórmulas mais comuns quando se juntam circuitos integrados e uma seis-cordas. É esse sentido alternativo que dá mais-valia a “Shadow Machine”, devolvendo a prática da improvisação às premissas de busca de novos caminhos.

 

* Piotr Zabrodzki / Artur Lawrenz: “Trylobit” (Multikulti Project)
* Raphael Roginski: “Bach Bleach” (Multikulti Project)
* Yazzbot Mazut: “W Pustynii w Puszczy” (Multikulti Project)
* Waclaw Zimpel / Wojtek Traczyk / Robert Rasz: “The Light” (Multikulti Project)
* Waclaw Zimpel / Tim Daisy: “Four Walls” (Multikulti Project)
* New Fracture Quartet: “1000 Lights” (Multikulti Project)
* Aram Shelton / Jason Ajemian / Tim Daisy: “Dragons 1976” (Multikulti Project)

Importante distribuidora discográfica da Polónia, a Multikulti Project tem um catálogo editorial próprio que vem divulgando a obra dos mais criativos músicos de jazz e improvisadores daquele país. Entre os discos colocados no mercado encontram-se formações mistas de polacos e americanos, sobretudo, e algumas edições que denunciam o particular interesse dos seus responsáveis pela cena de Chicago, apesar de esta ser pouco coincidente com a música tocada localmente. É altura de conhecer o que tem para nós este selo com o nome de um álbum de Don Cherry...
Mal conhecido fora da Polónia, Piotr Zabrodzki é, todavia, uma das mais interessantes figuras do jazz exploratório e da improvisação no seu país. Um multi-instrumentista (teclados, electrónica, contrabaixo, guitarra baixo eléctrica) que, na maior parte das ocasiões, prefere o piano, em “Trylobit” encontramo-lo neste instrumento ao lado do baterista Artur Lawrenz. A fórmula é a mesma que utilizou em “Quick-Core” com Tatsuya Yoshida, dos Ruins (duo japonês de “avant-rock” que chegou a emparceirar com Derek Bailey), mas os desfechos são bem diferentes. Se nesse álbum há uma recorrência de “riffs” quebrados e pulsações binárias em constante implosão, no novo disco encontramos igual intensidade, mas desenvolvimentos mais abstractos, além de uma maior identificação com a matriz jazz. Em certas ocasiões, a predilecção de Zabrodski pelas sequências em “cluster” faz-nos lembrar o inevitável Cecil Taylor, mas a verdade é que também estabelece uma gestão dos espaços que nada tem que ver com o pianista americano. Momentos há que nos transportam para muito alto, mas no final de algumas faixas os incongruentes “fade-outs” têm um efeito de anticlímax. Não fora isso e estaríamos perante uma fulgurante edição.
Um dos mais singulares “performers” da Polónia, Raphael Roginski inscreve de alguma maneira os seus múltiplos interesses musicais nos vários projectos em que se envolve, destacando-se o barroco, os blues primitivos do Delta, a multi-secular canção judaica e o experimentalismo da “new music” norte-americana. Todos esses materiais enovelam-se de formas imprevisíveis e nunca demasiado evidentes na música que faz, tornando-se difícil identificá-lo com um género específico. É, no entanto, com improvisadores que toca, como os nossos conhecidos Noel Akchoté, Axel Dorner, John Edwards e John Tilbury. Com uma perspectiva da guitarra situável algures entre Elliott Sharp e Eugene Chadbourne, tem por hábito utilizar preparações nos seus instrumentos e é precisamente isso que faz nas leituras de “Bach Bleach”. Para os mais conservadores amantes de música antiga deve ser um sacrilégio ouvir as peças deste compositor num instrumento com objectos presos nas cordas para lhes transformar a sonoridade, mas está aí precisamente o desafio. No entanto, algumas interpretações parecem demonstrativas e não há grandes variações ao longo das faixas, depressa se desvanecendo a surpresa.
Na sua génese, a fusão jazz-rock tinha um carácter de experimentação que, entretanto, se perdeu. Assim foi porque, para todos os efeitos, se estava a inventar algo de novo na passagem da década de 1960 para a de 70, mas também terá influído o facto de na época ser determinante a influência do free jazz. Se as duas tendências se afastaram para extremos opostos, é propósito do grupo polaco Yazzbot Mazut tornar a aproximá-los. No álbum “W Pustynii w Puszczy” tal tentativa é coroada de êxito: a música é tão galvanizante quanto bem urdida, a nível da composição, dos solos improvisados (com destaque para o excelente clarinetista que é Piotr Melech), do “drive”, da interacção e das atmosferas criadas. Alguns estereótipos das duas vertentes são mesmo pegados sem receios e virados do avesso. Não fosse esta formação do Leste e estaria nas bocas do mundo que ouve jazz.
Com a estatura de clarinetistas como Theo Jorgensmann (que, de resto, já o elogiou) e Rudi Mahall, para apenas citar dois europeus, Waclaw (ou Vaslav, como também o seu primeiro nome surge escrito) Zimpel demonstra em “The Light” e em “Four Walls”, no primeiro em trio com Wojtek Traczyk e Robert Rasz e no outro com o americano Tim Daisy (não só: Dave Rempis e Mark Tokar juntam-se-lhes em dois temas), toda a dimensão da sua arte. Se o disco com os músicos de Chicago denota o nível de reconhecimento pelos seus pares a que Zimpel chegou do outro lado do Atlântico, superior é-lhe “The Light”, dado o entrosamento demonstrado pelos três conterrâneos na execução tanto de composições originais como de dois “novos clássicos”, “Straight Up and Down” de Eric Dolphy e “Lonely Woman” de Ornette Coleman. Nele se evidencia a improvisação como música iminentemente colectiva, não só porque estes instrumentistas se conhecem muito bem pelo facto de tocarem em conjunto com frequência, mas também por verificarmos que esse cooperativismo é uma filiação estética. Ainda assim, as faixas a dois com Daisy em “Four Walls” apresentam todas as virtualidades do mano-a-mano jazzístico e valem por isso. Sobretudo quando entram Rempis e Tokar, o único senão é encontrarmos Zimpel num enquadramento – o do jazz da Cidade do Vento – que percebemos ser-lhe limitativo.
A Multikulti parece ter uma especial predilecção pelo baterista dos Vandermark 5. Além de “Four Walls”, temos aqui duas demonstrações disso mesmo: Tim Daisy é o líder do New Fracture Quartet e sustenta com Aram Shelton (que, a propósito, já tocou com Waclaw Zimpel) e Jason Ajemian o projecto “Dragons 1976”. Estes discos são ilustrativos do fascínio que a editora tem pela cena de Chicago – se bem que, entretanto, Shelton se tenha mudado para a Bay Area e Ajemian para Nova Iorque. O que não deixa de ser curioso, quando verificamos que ambos estes títulos estão abaixo do grau de surpresa e novidade revelado pelos polacos a que antes fiz referência. Talvez sejam os nossos ouvidos que se habituaram ao estilo de Chicago, ou talvez isso se deva ao facto de este estar demasiado circunscrito ao formato free bop. Não obstante tal circunstância,“1000 Lights” é um disco muitíssimo convincente em que sobressaem engenhosos jogos de contraste, por exemplo entre o trompete “mellow” de Jaimie Branch e as distorções vizinhas do rock da guitarra de Dave Miller, bem como súbitas e inesperadas mudanças de rumo, impecavelmente conduzidas pela secção rítmica de Daisy e Nate McBride. Com poucas semelhanças relativamente aos investimentos paralelos de Shelton na electroacústica em tempo real, o álbum do trio já é mais cru e solto, se bem que melódico nos fraseados de saxofone, agradando sem nunca verdadeiramente entusiasmar.

 

People Band: “69 / 70” (Emanem)
Com a reedição em CD de “1968”, Martin Davidson, o patrão da Emanem que é também um incansável registador e arquivista da música improvisada britânica, salvou do esquecimento um colectivo cuja importância nos anos da revolução pode ser equiparada às dos AMM, do Spontaneous Music Ensemble e da Scratch Orchestra na Grã-Bretanha, dos Nuova Consonanza e dos Musica Elettronica Viva em Itália, dos New Phonic Art em França ou dos Taj Mahal Travellers no Japão. E isso não obstante ser, de todos, o projecto menos “falado”. O que não deixa de ser estranho, sabendo que a People Band teve padrinhos de vulto, como o baterista dos Rolling Stones, Charlie Watts, que incentivou os seus membros a editar, um colaborador dos Soft Machine, Lynn Dobson, que chegou a tocar em algumas das suas apresentações públicas, e o vocalista Ian Dury, que mais tarde ganharia projecção na área da new wave e do punk e que assistiu às sessões de gravação daquele disco. Estranho, também, pelo facto de um dos seus principais mentores, Terry Day, continuar em actividade, e de Mike Figgis, o mais permanente trompetista, ser hoje um reconhecido cineasta.
Reeditado o único disco da formação, Davidson recuperou outras bobinas de estúdio e juntou-lhes as que tinha reunido de uma “jam session” caseira, de um concerto e de um “free-for-all” na floresta: o resultado é o álbum duplo “69 / 70”, que vai ainda mais fundo na caracterização desta “big band” de formação variável que seguia exclusivos princípios de liberdade no tempo em que esta palavra continha, mais do que um conceito filosófico, um significado político e de intervenção social. Depois desta recolha, será impossível ignorar que, na Inglaterra, existiu este grupo de jovens músicos motivado pelo free jazz americano e por ideias esquerdistas (na altura, a utilização do termo “people” num nome indiciava influência maoista, mas o certo é que a People Band nasceu em meio anarquista) que, não só contribuiu para o desenvolvimento da música livremente improvisada ou, como lhe chamaria depois Derek Bailey, “não-idiomática”, como definiu uma das suas práticas mais radicais.
Cada actuação da People Band (que podia durar três horas, sem intervalo) era como que um ritual celebrativo, sem regras estabelecidas nem combinações prévias, e não se desdenhava mesmo um certo “tribalismo”, razão pela qual todos os intervenientes tocavam percussão e utilizavam a voz. Isso está bem patente nesta edição. Uma particularidade do ensemble era o facto de ser constituído, sobretudo, por multi-instrumentistas – se não havia propriamente virtuosos (nem valeria a pena, pois dentro das massas sonoras construídas não sobrava muito espaço para individualismos), a abrangência tímbrica, essa, era muito vasta. Dentro deste quadro, variavam as abordagens: na presente compilação detectamos três. Uma é energética, rápida, abrasiva, nevrótica e muito, muito próxima do caos (estúdio, concerto em Amesterdão); outra denuncia as origens no jazz e no rock dos envolvidos (“jams” na casa de Mel Davis); outra ainda vai muito para lá do que poderíamos esperar, em termos de experimentalismo sonoro e abstracção num ambiente natural (captações numa mata a Norte de Londres).
Porque o antes chamado Continuous Music Ensemble (aquando da sua formação em 1966) lidava sobretudo com densidades, nem sempre era possível discernir quem fazia o quê, e porque as sessões se faziam, informalmente, com quem aparecesse, não havia registos dos instrumentos tocados e por vezes até dos músicos que os tocavam. Se estes procedimentos tornavam a coordenação da “big band” num quebra-cabeças, tendo até existido alguns choques de personalidades e episódios da mais completa desorganização, era esse carácter anárquico que singularizava o projecto, e tão anárquico que os seus elementos chegaram mesmo a ser expulsos de uma actuação no Anarchist Annual Ball por um público que os considerou, imagine-se, demasiado “fora”. A boa recepção que a People Band teve na Holanda fez com que se estabelecessem dois núcleos distintos, um em Londres e o outro a residir permanentemente em Amesterdão, apenas com alguns músicos do primeiro a deslocarem-se ao outro país para se juntarem aos membros locais nos “gigs” marcados.
É de Mel Davis a máxima prosseguida por esta trupe de improvisadores: «No rules, no compromise. Free at last!» A este pioneirismo fez-se, finalmente, a mais do que merecida justiça...

 

Anthony Davis: “Amistad” (New World Records)
Levou 10 anos a montar e a sua estreia em 1997 não teve os louvores da crítica (esta preferiu a anterior ópera “X – The Life and Times of Malcolm X”), mas a reposição de “Amistad” nos palcos a partir de 2008, revistos os aspectos em que a primeira versão falhava, trouxe a esta empreitada monumental de Anthony Davis, finalmente, o reconhecimento que merecia. Músico conotado com o movimento AACM de Chicago, de que ficaram na memória dos apreciadores do jazz as excelentes colaborações com o flautista James Newton e o violoncelista Abdul Wadud, e um pianista particularmente interessante e com um estilo pessoal, Davis acabou por enveredar por uma carreira nos domínios da música erudita, compondo peças orquestrais, como “Maps (Violin Concerto)” e “Jacob's Ladder”, e óperas, para além das já citadas, também “Under the Double Moon” e “Tania”. Com uma particularidade: em todas as suas criações introduziu a tradição afro-americana, como verificamos neste duplo álbum em boa hora lançado pela New World Records.
Muito antes do filme com o mesmo título e igual temática, Anthony Davis procurou chamar a atenção para um episódio da história da América que parecia esquecido, o motim no navio de transporte de escravos Amistad. O libreto é da autoria de Thulani Davis, sua prima, e a música que escreveu é hoje considerada a obra maior de uma carreira notável, tanto pela imprensa como pelos seus pares, como foi o caso de George Lewis, que lhe teceu os maiores elogios. A rítmica do jazz (com incorporação de bateria) e elementos do minimalismo e da “new music” americana, bem como da contemporânea europeia, surgem neste “opus” que, apesar do formato, revela a cada momento a origem étnica do seu autor. Fica para a memória colectiva.

 

Sophie Agnel: “Capsizing Moments” (Emanem)
A francesa Sophie Agnel chama de “piano extensivo” ao que faz com preparações, dado que, diferentemente do “piano preparado” de John Cage, a introdução a que procede de objectos vários nas cordas do seu instrumento é móvel e constantemente permutável. Algo semelhante à de “hiper-piano”, escolhida por Denman Maroney, esta designação tem um interesse especial, pois alude a um piano que vai para além do piano: se o mecanismo é o mesmo, o vocabulário é outro. A grande diferença de Agnel relativamente a Maroney é linguística: este parte do idioma jazz e ela da livre-improvisação, música supostamente não-idiomática. Mas é neste ponto que as coisas se tornam bem mais relativas. Agnel começou por ser uma pianista especificamente de jazz e isso torna-se claro ao longo da audição de “Capsizing Moments”, um facto que vai ao encontro da estrutural condição dessa prática a que se deu o rótulo de “música improvisada”, tendência que manteve sempre, de alguma maneira, a sua matriz referencial no jazz.
Se a questão se levanta ao ouvirmos Denman Maroney, não deixa de ser pertinente na fruição deste magnífico disco: o relacionamento da preparação do piano com o jazz, se só muito episodicamente se tem verificado, decorre de mais paralelismos do que poderíamos imaginar. Para todos os efeitos, Cage desenvolveu este tipo de manipulação a partir dos anos 1940 – os da explosão do be bop – com o fito de introduzir a polirritmia africana, bem como a do gamelão indonésio, na “new music” americana, uma variante da tradição culta europeia. Ora, o jazz resulta, precisamente, do encontro de África e da Europa no Novo Mundo, e foi por essa altura que começou a emergir, entre os músicos de jazz, uma postura pan-africanista. Este é, pois, o contexto do que aqui ouvimos.
Como não podia deixar de ser, uma boa parte do presente registo é fruto de tal visão rítmica (se bem que perspectivada de forma textural) e até percussiva do piano, mas Sophie Agnel acrescenta-lhe outra vertente e nesse aspecto singulariza-se (passando a ser Reinhold Friedl, com o seu “piano inside-out”, quem lhe está mais próximo): em determinados momentos ouvimos “drones” e harmonias que nos parecem ser de origem electrónica e de modo algum podemos identificar com um piano, mas electrónicos não são e na verdade provêm de um Grand. É como se nos tirassem o chão debaixo dos pés...

 

Lotte Anker / Craig Taborn / Gerald Cleaver: “Live at The Loft” (ILK)
Muito curioso, este trio. A saxofonista Lotte Anker é dinamarquesa e os seus parceiros, Craig Taborn no piano e Gerald Cleaver na bateria, são de Nova Iorque, mas o que logo à partida nos surpreende é o facto de a primeira nos soar muito “americana”, aproximando-se das lógicas jazzísticas em prática no outro lado do Atlântico, e os outros terem uma abordagem inesperadamente europeia, seja pela inclusão de elementos das músicas contemporânea e improvisada no jogo de Taborn como pela intervenção “off-format” de Cleaver. Depois, ficamos intrigados com a contenção sonora da prestação (mesmo quando, em “Real Solid”, se sucedem rápidos “clusters” de piano) e com o modo como o silêncio é integrado no conjunto. Sabendo da propensão do jazz (e sobretudo do free, moldura do que aqui vem) para o excesso expressivo e para o exibicionismo virtuosístico, sabe bem ouvir algo que rompe com esse figurino.
Outros sólidos argumentos tem este disco gravado ao vivo. Uma é a incrível interacção dos três músicos: esta é uma música cooperativa e sem hierarquizações, cada contribuição individual colocada ao serviço da criação colectiva final. Outra é a imprevisibilidade dos desenvolvimentos – todos os três estão constantemente a tirar coelhos da cartola, e se Anker confirma a um nível de excelência o que já conhecíamos dela, Taborn e Cleaver são magníficos em todos os aspectos – na inventividade, no sentido de oportunidade e colaboração, na entrega, no “drive”, na forma como associam sensibilidade e inteligência, no bom gosto, na heterodoxia das atitudes de ambos, na colocação da técnica imensa de que dispõem ao serviço da música.

 

Bertrand Gauguet / Franz Hautzinger / Thomas Lehn: “Close Up” (Monotype Records)
“Close Up” é a prova de que a escola reducionista da improvisação livre sofreu uma evolução, e isso não obstante o dogma que nela chegou a desenvolver-se contra a ultrapassagem de um determinado nível hertziano e contra a procura de clímaxes. Se o “near silence” se tornou numa instância secundária, mantêm-se outras características e essas estão bem presentes na música do trio constituído pelo francês Bertrand Gauguet com o austríaco Franz Hautzinger e o alemão Thomas Lehn: substituição do fraseado pela textura, não-linearidade discursiva, recusa da escala convencional, atonalidade ou microtonalidade, bruitismo. Além disso, encontramos o que faltava nas criações desta área, densidade, em alguns momentos, até, chegando à fronteira da “noise music”. E mesmo algo que podemos identificar como melodia, uma impossibilidade estética ainda há alguns anos.
Embora menos referido do que os seus conterrâneos Stéphane Rives, Bertrand Denzler e Jean-Luc Guionnet, Gauguet é um muito interessante cultor das técnicas extensivas para saxofone, indo das intencionalmente mais primárias (usos incomuns do sopro e da saliva) às de grande complexidade, envolvendo, por exemplo, métodos de respiração contínua. Hautzinger é menos convincente no trompete em quartos-de-tom (prefiro, de longe, um Axel Dorner ou uma Birgit Ulher), mas resultam bem os seus “loops” com recurso à electrónica, mesmo sabendo que se trata da mais estereotipada das manipulações com máquinas. Lehn, esse, é particularmente feliz, com intervenções em sintetizador – um velho EMS Synthi A – sempre imaginativas e oportunas. A música electroacústica improvisada vai conquistando terreno num território habitualmente protagonizado por instrumentos convencionais, e este CD é bem representativo do seu estado actual.

 

Flat Earth Society: “Cheer Me, Perverts!” (Crammed Discs)
O líder da Flat Earth Society é o clarinetista Peter Vermeersch, conhecido não só como compositor de dança, por exemplo com a aclamada coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker, mas também por projectos de fusão inteligente como o grupo X-Legged Sally, uma combinatória do estilo de Frank Zappa com o punk e o hard bop. Agora apostando numa formação orquestral, Vermeersch chega aos desenlaces anunciados pelo seu anterior trajecto mais próximo do jazz. Em “Cheer Me, Perverts!”, um anagrama do seu próprio nome, apresenta uma mescla do orquestralismo de Duke Ellington e de Count Basie com uma propulsão rítmica vinda directamente do rock progressivo, não hesitando em enveredar pelo meio por situações mais abstractas e “out”. O efeito é explosivo, explorando todo o potencial de um sólido naipe de sopros com 10 elementos.
Se o que impressionou nos “velhos” Blood, Sweat & Tears e Chicago foi o modo como a guitarra eléctrica irrompia do muro de som criado pelos metais, encontramos isso mesmo neste provocativo e bem humorado disco, com toda a diferença implicada pela actualidade deste projecto em que o rigor dos arranjos não diminui a intensidade e a entrega das execuções individuais e colectivas e em que a recapitulação dos modelos com que todas as “big bands” lidam de uma maneira ou de outra não obsta a que se experimentem novas situações.

 

Michael Mantler: “Concertos” (ECM)
Na sua busca da melhor música a seguir à das esferas, não surpreende que seja na ECM que Michael Mantler tem apresentado a maior parte dos seus projectos de hibridização do jazz com a clássica contemporânea e com outras linguagens. “Concertos” é um novo tomo, sete anos depois do mais recente, desse propósito do antigo parceiro (e marido) de Carla Bley à frente da Jazz Composers Orchestra, com a particularidade de ser mais bem conseguido – e em alguns momentos até de forma notável – do que o foram títulos anteriores.
Criterioso, e por vezes surpreendente, na sua selecção de solistas e intérpretes (caso de “Many Have No Speech”, com Jack Bruce, Marianne Faithfull e Robert Wyatt como vocalistas), mais uma vez Mantler junta os músicos menos prováveis de encontrar num mesmo projecto. Entre os internacionalmente reconhecidos, a escolha recaiu sobre Roswell Rudd, o último dos grandes trombonistas históricos do jazz e membro da JCO, Majella Stockhausen, filha do famoso compositor com o mesmo apelido e ela própria com um excepcional trajecto como executante de obras de Ligeti ou Henze, o português Pedro Carneiro, um dos mais prestigiados percussionistas das novas músicas, das eruditas às experimentais, e Nick Mason, baterista desses estilistas do rock que foram os Pink Floyd. A peça em que este último surge será a menos interessante, mas as de Rudd e Carneiro superam todas as expectativas. Além, ainda, daquela em que o próprio compositor surge como trompetista, retomando um papel que há muito, lamentavelmente, não desempenhava, numa abordagem que o aproxima do lirismo de um Kenny Wheeler.
O que este disco tem de particular é o facto de, nele, Michael Mantler proceder a uma revisão dos conceitos que aplicou com a Jazz Composers Orchestra, tendo em conta que agora lidou sobretudo com não-improvisadores, a começar pelos membros do Kammerensemble Neue Musik Berlin, que ainda assim demonstram uma especial flexibilidade.

 

Healing Force: “The Songs of Albert Ayler” (Cuneiform)
Enformada pelo rhythm 'n' blues, a última fase musical de Albert Ayler foi mal compreendida, senão mesmo refutada, pelos mais empedernidos fãs do free jazz. É, no entanto, com temas dos álbuns “Love Cry”, “New Grass” e “Music is the Healing Force of the Universe”, do malogrado saxofonista, que este septeto liderado por Henry Kaiser (guitarra) lhe presta tributo. Músicos como Vinny Golia, Joe Morris, Mike Keneally (conhecido pelas suas colaborações com Frank Zappa), Damon Smith e Weasel Walter (dos “avant-metal-jazzers” Flying Luttenbachers) estão envolvidos e a cantora é Aurora Josephson, aqui fazendo as vezes de Mary “Maria” Parks. Uma nova luz estas “songs” ganham, plenas de modernidade e evidenciando o potencial das originais, não explorado por Ayler devido à sua morte prematura...

 

Peter Evans: “Nature / Culture” (Psi Records)
Depois de um primeiro disco de trompete solo em 2005, “More is More”, Peter Evans volta com o mesmo formato num álbum duplo. Ouvir este de uma só vez podia ser um desafio a que só os entusiastas do instrumento resistiriam, mas são tantos e tais os argumentos aplicados faixa a faixa que a dedicação de todos os que se resolverem a tal percurso sairá com certeza premiada. Este soprador americano está a estabelecer-se como um dos mais brilhantes inovadores da actualidade no trabalho com pistões, conquistando protagonismo numa frente em que encontramos Axel Dorner, Franz Hautzinger, Birgit Ulher, Nate Wooley e Greg Kelley, e tem ainda a característica particular de também ser um virtuoso a tocar “straight”. Aqui, fica em evidência que atingiu a plena maturidade.

 

Vyacheslav Guyvoronsky: “Interventions Into Bach and Mozart” (Leo Records)
Esta não é apenas mais uma incursão do jazz pelos clássicos, no caso Bach e Mozart: é também uma das mais admiráveis já realizadas até à data. E está envolvida em drama: o flautista que ouvimos nas 14 faixas em quinteto de “Intervention I”, Eric Ovelyan, foi assassinado durante o assalto de um “gang” ao teatro onde se fizeram as gravações em 1997 – encontrava-se sozinho, à noite, a ensaiar. Os registos inacabados ficaram até agora na gaveta, mas o mentor da sessão, Vyacheslav Guyvoronsky, recuperou-os agora para este novo projecto, acrescentando-lhe peças em duo e trio (“Intervention II” e “III”). O que ouvimos não passa simplesmente por dar “swing” aos originais: o trompetista russo e seus associados entram dentro destes e metamorfoseiam-nos, levando a escrita dos dois compositores até ao limite das suas implicações.

 

Kolbeinsen / Evensen (& Maria Castro): “For Those Who Have Everything” (FMR)
Os noruegueses Are Lothe Kolbeinsen (guitarra preparada) e Terje Evensen (percussão) praticam uma improvisação concretista que lida essencialmente com texturas, dinâmicas e espaços, numa música feita de particularismos que preza a beleza das atmosferas criadas. Apesar de (essencialmente) acústica, é óbvia a influência da electrónica experimental nas suas incursões pelo som, com Evensen a mimetizar um computador ou um sintetizador com a sua panóplia de recursos percussivos e Kolbeinsen a utilizar “loops”. E eis que, na última peça do disco, a electrónica intervém em pleno por meio dos processamentos e das sínteses de Maria Castro, portuguesa radicada em França que viveu antes na Grã-Bretanha. Um projecto que merece toda a atenção.

 

Magda Mayas / Tony Buck: “Gold” (Creative Sources)
A antiga discípula de Misha Mengelberg que descobriu a preparação do piano e o lado percussivo deste e o baterista dos The Necks que vem em paralelo experimentando outras abordagens além das minimalistas juntam-se em “Gold” para uma pesquisa conjunta de técnicas extensivas, momentos havendo em que não percebemos – nem isso importa – se os sons que ouvimos têm origem nas cordas do Grand ou nos pratos do “drumkit”. Se este tipo de experimentalismo improvisado tem fama de “cerebral”, aqui é um jogo profundamente físico de intensidade e densidade, mesmo quando somos transportados para um mundo miniatural. Notável!

 

Per Anders Nilsson / Sten Sandell / Raymond Strid: “Beam Stone” (Psi Records)
Numa área situada entre o jazz aberto e a improvisação colectiva, “Beam Stone” é um disco exemplar no que respeita à introdução da electrónica (o computador e o sintetizador de Per Anders Nilsson, sobretudo, mas também os “gadgets” de Sandell) neste tipo de contexto, sempre com oportunidade e bom gosto. O foco vai, no entanto, para o que fazem no piano Sten Sandell e na percussão Raymond Strid e que é, em todos os aspectos, admirável. Dois grandes músicos da Suécia que já ouvimos nos mais variados registos e que aqui estão como peixe na água.

 

* Anthony Braxton Sextet: “Standards (Brussels) 2006” (Amirani)
* Gianni Lenoci / Carlos “Zíngaro” / Marcello Magliocchi: “Serendipity” (Amirani)
* reFLEXible: “Realgar” (Amirani)
* Esther Lamneck / Claudio Lugo: “GenoaSoundCards” (Amirani)
* Gianni Mimmo: “One Way Ticket” (Amirani)
* Lorenzo Dal Ri / Gianni Mimmo: “Bespoken” (Amirani)
* Xabier Iriondo / Gianni Mimmo: “Your Very Eyes” (Amirani)
* Gianni Mimmo / Andrea Serrapiglio / Francesco Cusa: “A Watched Pot (Never Boils)” (Amirani)
* Gianni Mimmo / Angelo Contini / Xabier Iriondo / Elda Papa / Agua Mimmo: “Kursk – Truth in the End” (Amirani)
* NovoTono: “Wanderung” (Amirani)
* Airchamber3: “Crumble” (Amirani)
* Vários artistas: “On War”

Muito se fala da morte iminente da indústria discográfica, da condenação ao desaparecimento do formato CD e da relocalização da música gravada para a Internet, mas o certo é que, se as grandes editoras multinacionais, as megadistribuidoras e as grandes superfícies comerciais estão em profunda crise, florescem em cada vez maior número as pequenas “labels” independentes e as redes de circulação dedicadas à música criativa, em muitos casos por iniciativa de músicos que querem divulgar o seu trabalho, e os de outros que lhes sejam próximos, sem os condicionalismos “estéticos” (leia-se: de produto) impostos pelas “majors”, insistindo ainda na valorização do objecto disco, com capas graficamente cuidadas, fichas técnicas pormenorizadas e textos de contextualização das propostas feitas. Um destes casos, e dos mais notáveis, é o da italiana Amirani, iniciativa de um saxofonista injustamente por cá ainda pouco ouvido, Gianni Mimmo.
Com um catálogo especialmente dedicado à nova geração transalpina do jazz avançado e da improvisação, a Amirani tem revelado nomes e projectos que constituem um sinal de grande vitalidade num país que, depois do “boom” inicial das décadas de 1960 e 70, parecia ter desaparecido do mapa no que respeita à inovação e a uma dinâmica organizada e sinergética. A esse nível, está a tornar-se incontornável o contributo desta editora que recebeu o nome de um herói da mitologia caucasiana, filho da deusa da caça, Dali, mas criado por pastores. Os esforços de Mimmo não se limitam ao panorama nacional: passam pela junção de italianos com figuras de renome da cena mundial, como Anthony Braxton e Carlos “Zíngaro”, numa clara estratégia de internacionalização. O envolvimento destes tem, além disso, uma carga simbólica muito evidente, definindo (ou confirmando) toda uma linha de condução. Que não é de modo algum estanque, a crer no que ouvimos na colectânea “On War”, realizada com os “artistas da casa”, mas com uma caracterização experimental e trans-estilística que faz adivinhar novos desenvolvimentos no futuro.
Aqui ficam alguns destaques da sua lista de edições...
“Standards (Brussels) 2006” é o mais ambicioso lançamento da Amirani, uma caixa com seis CDs que documenta toda a série de concertos que Anthony Braxton deu em 2006 num bar de Bruxelas com a secção rítmica italiana formada por Alessandro Giachero (piano), Antonio Borghini (contrabaixo) e Cristiano Calcagnile (bateria), instrumentistas que podemos reconhecer de colaborações do primeiro com William Parker, de Borghini com David Murray e Butch Morris e de Calcagnile com Daniele D'Agaro e Tristan Honsinger, revelando-se aqui altamente competentes – como, de resto, lhes era exigido pela difícil música do saxofonista norte-americano, mesmo que em contexto de interpretação de “standards”. A este respeito, os critérios de Braxton são bastante latos, pois incluem “Forest Flower” de Charles Lloyd e “Ezz-Thetic” de George Russell.
A abordagem das composições de Gershwin, Jobim, Monk e Shorter, entre outros, alinha pelo pós-bop, se bem que com a marca única e inconfundível do líder destas sessões. Regra geral, é ele quem mais salta para fora dos enquadramentos, sempre com o saxofone alto, mas o grupo acompanha-o com igual arrojo em “Ezz-Thetic” ou em “Strike Up the Band”, nesta última com grande relevo para o pianista, senhor de uma fluência e de uma inventividade notáveis. As leituras são mais ou menos “mainstream”, respeitando o que está escrito no papel, e quase só nas improvisações se tomam as maiores liberdades. Em três ocasiões o improviso surge sem molduras, contrastando com as restantes abordagens. Seis horas de jazz ora galvanizante e intenso, ora introspectivo e descontraído (as baladas são especialmente interessantes), numa edição que se impõe, apesar de outras assinadas por Braxton com semelhante orientação.
Gravado ao vivo no festival de jazz de Bari, na Sicília, em 2007, “Serendipity” junta o pianista Gianni Lenoci e o percussionista Marcello Magliocchi ao português Carlos “Zíngaro”, um trio até então inexistente. Os estudos que Lenoci fez com Mal Waldron e Paul Bley estão em evidência, bem como a admiração que nutre pela obra pianística de Morton Feldman. Situado entre duas influências, a do jazz e a da “new music”, é tendencialmente abstracto e recorre a preparações e ao uso e abuso do interior do piano, surpreendentemente nunca descurando uma aproximação de grande lirismo. Magliocchi prefere lidar mais com o espaço do que com o tempo, o que o distingue de qualquer baterista convencional de jazz, sendo particularmente feliz nos entrosamentos com o seu conterrâneo e nos envolvimentos sonoros que estabelece, com particular gosto pelo detalhe. Quanto a “Zíngaro”, encontramo-lo aqui com um trabalho de arco mais cru e agreste do que vem sendo seu hábito em anos mais recentes. Lembra mesmo o que fazia nos anos 1970 em contexto free jazz, embora com o sentido poético e de contornos clássicos que o violinista consagrou como distintivamente seu.
“Realgar” é o único título do catálogo da Amirani que não conta com a participação de músicos de Itália. Joachim Devillé (trompete, fliscórnio), Thomas Olbrechts (saxofone alto) e Stefan Prins (electrónica, piano) centram a sua actividade entre a Antuérpia e Bruxelas, dedicando-se a uma música improvisada (ou composta no instante, como preferem dizer) de características moleculares. Diferentemente, no entanto, das mais radicais práticas da área em que os reFLEXible se movimentam (a do chamado “reducionismo”), as suas propostas têm uma qualidade imagética que talvez advenha das suas colaborações com artistas visuais e performativos e do facto de o próprio Devillé ser videasta e pintor. Neste trio, Prins será aquele que mais repercussão internacional tem conquistado, sobretudo nos domínios da composição electroacústica, mas neste labor colectivo não rouba o protagonismo aos seus parceiros. As técnicas extensivas que os dois homens dos sopros utilizam para ultrapassar os limites lexicais dos seus respectivos instrumentos são mesmo o mais impressionante deste disco que importa ouvir com toda a concentração.
“GenoaSoundCards” já é fruto da colaboração entre uma clarinetista com base em Nova Iorque (aqui também no tarogato), Esther Lamneck, e um italiano, o saxofonista soprano Claudio Lugo, sendo também um CD que se destaca da restante série. O motivo está no facto de Lamneck vir não do jazz, mas da música erudita contemporânea, âmbito em que é celebrada como uma virtuosa. Os seus dotes como improvisadora, raros entre os seus pares, ficam bem comprovados nestas peças que denotam o interesse da Amirani pelo factor espaço. Lugo, por sua vez, é um músico de fronteira: ainda que a improvisação, próxima ou não do jazz, seja uma sua ferramenta habitual, dirige igualmente o Laboratório Orquestral do Conservatório de Alessandria, dedicado ao estudo da composição de vanguarda no Pós-Guerra. O título pode não ser muito feliz, devido aos pressupostos turísticos que encerra, mas representa, de facto, o que encontramos: o duo gravou-o em vários locais de Génova, designadamente um palácio, um mercado, um edifício em reconstrução, as docas e ainda o auditório e o “foyer” da Casa Paganini. A forma como as paredes (ou a sua ausência) moldam os sons chega a ter primazia sobre a própria musicalidade, o que é um senão.
Quem tomar os contributos do saxofonista soprano Gianni Mimmo para a música criativa do país da bota pelo que este apresenta no seu álbum a solo, “One Way Ticket”, ficará surpreendido quando ouvir os restantes que tem editados com a sua participação na Amirani. E isso porque este é o disco em que mais se aproxima daquilo que reconhecemos como jazz, sendo também aquele em que mais se apresenta como um continuador dos conceitos melódicos, expositivos e instrumentais de Steve Lacy. Uma composição deste e temas de Duke Ellington, Thelonious Monk, Charles Mingus e Roscoe Mitchell surgem no alinhamento (além de, atenção, uma partitura de Anton Webern, um dos grandes nomes do serialismo) e são interpretados / convertidos improvisacionalmente com um evidente espírito lacyano. Com algumas importantes diferenças, no entanto: Mimmo prefere os registos agudos, é mais polido e tem uma sonoridade arredondada, além de outro entendimento da respiração. O seu uso da reverberação e da tecnologia de estúdio (duas das peças são sobregravadas) denotam uma preocupação pelos factores acústicos e um interesse pela pós-produção manipulativa que não são propriamente comuns no jazz, incluindo o mais avançado.
Tais componentes do seu universo musical ganham maior relevância em “Bespoken”, um duo com a electrónica e os “field recordings” de Lorenzo Dal Ri. Juntando o saxofone baixo ao soprano, bem como o piano, preparado ou tocado convencionalmente, Gianni Mimmo desloca-se neste contexto para a livre-improvisação e aproxima-se mesmo do “soundscaping” da electroacústica ambiental, ainda que a música seja tão prenhe de pormenores que implica uma audição totalmente imersiva. De outro modo, estes territórios são revisitados em “Your Very Eyes” pela dupla que constitui com Xabier Iriondo, este lidando com um gerador de frequências e com dois cordofones orientais, o taisho koto e o mahai metak. A gravação foi realizada numa igreja escavada na rocha do século X, beneficiando da sua resonância natural, e se a atmosfera criada não anda longe da da música sacra, o carácter rude dos diálogos (com Iriondo a insistir em emissões sonoras pouco agradáveis) evita esse estereótipo.
O regresso a um jazz mais formal faz-se em “A Watched Pot (Never Boils)”, com o violoncelista Andrea Serrapiglio e o percussionista Francesco Cusa. Há algo de romântico na música tocada, e numa ocasião ou outra dir-se-ia que se trata da banda sonora de um filme de animação. Será o menos surpreendente destes discos, mas nele Mimmo destaca-se com o mesmo brilhantismo. A parada sobe com o DVD “Kursk – Truth in the End”. Associando-se às imagens de Elda Papa e Agua Mimmo que têm como objecto o submarino nuclear russo que naufragou há uns anos, com a perda das vidas de todos os seus ocupantes, a música tocada pelo saxofonista com Angelo Contini (trombone) e o repetente Xabier Iriondo (“design” sonoro, electrónica) é mais uma vez determinada pelo factor espacialização. Foi gravada numa velha igreja com distintos posicionamentos dos músicos e dos microfones, na busca de várias possibilidades de exploração da arquitectura, e o seu carácter sombrio e misterioso tem como efeito uma maior dramatização do próprio vídeo. O conjunto é de uma estranha beleza, dados os contornos trágicos da temática.
A Amirani abriga dois grupos fixos, NovoTono e Airchamber3. Do primeiro, um duo formado pelos irmãos clarinetistas Adalberto e Andrea Ferrari, com o qual colaboram em “Isles & Lives” o trombonista Federico Cumar e o saxofonista soprano Luca Serrapiglio, chega-nos “Wanderung”. Trata-se de uma colecção de “soundscapes” acústicos, centrada na exploração de jogos tímbricos com uma perspectiva cinemática decorrente do interesse do principal compositor do projecto, Adalberto, pela arte intermedia. Diversos espécimes da família dos clarinetes são tocados, incluindo o paquidérmico contrabaixo, com os Ferrari a introduzirem igualmente nas tramas os saxofones barítono e soprano. Esta é uma adopção da estética da música improvisada que nunca se afasta demasiado do jazz, mas tem ora uma intrigante aura renascentista, ora equivalências com o impressionismo. Regra geral, as peças são de recorte sereno, com uma cuidada utilização de espaços, e isso mesmo quando ganham uma acentuação rítmica inesperada.
“Crumble” apresenta-nos o trio dos também irmãos Andrea e Luca Serrapiglio com Andrea “Ics” Ferraris (um trânsfuga do rock e da electrónica do “hardcore” industrial), respectivamente no violoncelo, nos saxofones e na guitarra, todos eles manipulando ainda os mais diversos “gadgets”. Colabora em “The Heart is Flat and at the Edges You Fall All of a Sudden” o bruitista Alessandro Buzzi, que lida unicamente com objectos amplificados. Os Airchamber3 trabalham sobretudo com texturas, mas sempre com o objectivo de construírem narrativas. Estas são fluidas, apesar da complexidade que as caracteriza. Assim, o que podia resultar numa música de grande abstraccionismo, ganha uma cativante dramaticidade. O que ouvimos segue totalmente os princípios da improvisação: não há “overdubs” nem tratamentos posteriores à execução musical, no estúdio tendo-se operado apenas os seccionamentos que aqui surgem.
A compilação “On War” é apresentada como um exemplo do, como já o leitor terá verificado, específico “style work” proposto pela Amirani. Os participantes são os que constituem o catálogo da editora, mais alguns de que surgirão no futuro, com certeza, títulos de maior fôlego: Karmel & Xabier Iriondo, Gianni Mimmo, Cristiano Calcagnile's Nibiru Ensemble, Airchamber3+4, Claudio Fasoli & Mario Zara, Pierfrancesco Mucari, Angelo Contini & Federico Cumar, Francesco Cusa & Shirin Demma, NovoTono. A todos eles se pediu que apresentassem uma peça musical que de algum modo “ilustrasse” o seu entendimento das relações conflituais entre os seres humanos que, muitas vezes, resultam em guerras. Muito curiosamente, o que encontramos, se nos dá uma perspectiva condensada dos critérios editoriais desta etiqueta, também as leva mais longe. É difícil perceber agora para onde, pois esses desfechos só mais adiante serão confirmados, ou não. Para todos os efeitos, este é o disco menos “jazzy”, e talvez também o menos conotado com aquilo a que vamos chamando de “música improvisada europeia”, de todos os lançados por Mimmo.

 

* Henry Grimes: “Solo” (ILK)
* John Tchicai / Jonas Muller / Nikolaj Munch-Hansen / Kresten Osgood: “Coltrane in Spring” (ILK)
* Steven Bernstein / Marcus Rojas / Kresten Osgood: “Tattoos and Mushrooms” (ILK)

A ILK não é apenas mais uma editora. É o nome de um colectivo democrático constituído por 19 músicos da cena jazz dinamarquesa, organizado com o propósito de conquistarem maior visibilidade e de editarem o seu trabalho com total controlo dos resultados. Não há propriamente uma linha editorial nem imposições estéticas, sendo cada edição discutida entre todos em assembleia – designadamente o envolvimento de figuras que não pertencem à cooperativa e têm outras nacionalidades. Uma máxima apenas os orienta: «Num tempo em que a maior parte das companhias discográficas perdeu a noção do que é bom ou relevante, a ILK propõe-se ser um marco de qualidade, com o comprador seguro de que a música vem directamente da fonte.» Nesta página, três dos seus mais recentes lançamentos confirmam-no, cada um a seu modo...
A iniciativa do solo de Henry Grimes pertenceu a um dos membros do colectivo ILK, Kresten Osgood, e começou por ser um concerto. A ideia da gravação tem implicações históricas – de facto, não há memória de alguma vez um contrabaixista ter editado um duplo álbum a solo. Se Barre Phillips foi o primeiro a lançar um disco deste tipo (“Journal Violone”, em 1968), Grimes atreveu-se agora a incluir duas horas e meia de música num único “digipack”, se bem que, além do contrabaixo, também utilize o violino. Trata-se de uma única improvisação, sem indexações, ouvindo-se mesmo o ruído de quando troca de instrumento. “Solo” é claramente um produto do período de graça que Grimes está a viver desde que regressou à música. Depois de ter brilhado no free jazz original com gigantes como Albert Ayler e Cecil Taylor, esteve ausente durante mais de três décadas (sem nunca tocar, como o próprio testemunha) e foi, inclusive, dado como morto, simbolizando a sua redescoberta um retomar das premissas da “new thing” de então.
O que esta história tem de magnífico é o facto de, com 70 anos de idade, o músico estar em grande forma, apesar de as adversidades da vida lhe terem deixado marcas, entre as quais uma bipolaridade que o torna socialmente frágil. Anda muito perto do sublime o trabalho de Grimes com arco no cordofone mais grave, não hesitando em trabalhar com harmónicos e microtons, se bem que a sua orientação seja habitualmente modal. Faz-se lembrar a si mesmo no passado, não desdenha a incorporação de processos de alguns contemporâneos seus na revolução free, como Charlie Haden, e pelo meio realiza coisas que nunca antes o ouvimos fazer. Enquanto violinista, uma novidade nestes últimos anos, surge entre a transgressividade de um Leroy Jenkins e o “belo horrível” de Ornette Coleman, também levando o instrumento para lá dos seus limites monofónicos. Como se já não bastassem os marcos históricos que nos deixou, aqui está outro, e fundamental.
No Inverno da sua longa vida, John Tchicai presta homenagem a John Coltrane, identificando a música deste com as renovações da Primavera, seja pelo título do disco como pela leitura que faz do poema de John Stewart de onde o mesmo foi retirado. A metáfora parece ter caído bem no saxofonista dinamarquês de ascendência africana e ligações filiais com a América, pois esteve envolvido na gravação de “Ascension” e experimentou pessoalmente essa abertura de cores e possibilidades. E ainda que o “Ascension” de Tchicai tenha sido “Afrodisiaca”, com a Cadentia Nova Danica, este “Coltrane in Spring” é um álbum meritório. O curioso é pouco haver de especificamente coltraneano nele, alinhando regra geral a música tocada com Jonas Muller, Nikolaj Munch-Hansen e Kresten Osgood, nomes da nova geração do jazz dinamarquês, com o modelo fornecido pelo quarteto de Ornette Coleman nos anos de ouro deste.
Embora o mentor desta sessão não repita o brilhantismo de outros tempos, ouvimo-lo aqui a tocar muito bem num formato free bop. Pouco se sabendo do jazz de Copenhaga, que infelizmente não tem tido a mesma projecção internacional dos de Estocolmo e Oslo, é com agrado que ficamos a conhecer estes músicos. Muller tem a sonoridade quente de Don Cherry na corneta e um som mais encorpado, desenvolvendo interessantes estratégias dialogantes com o tenor do líder, em muitos casos contrapontisticamente. Munch-Hansen sabe impor-se com o contrabaixo, revelando uma boa noção do espaço e do modo como deve deslocar-se nele. Por sua vez, Osgood tem “swing”, mas nunca se deixa subjugar pelas imposições da métrica. Fico convencido, embora esperasse mais.
Steven Bernstein continua apostado em revisitar de forma intrigante a história do trompete no jazz desde os tempos das “brass bands” de New Orleans, com passagem pelo swing e incorporações não só dos blues como da folk e do klezmer. Desta feita com um trio invulgar com tuba e bateria, cabendo a Marcus Rojas o papel de “atractor estranho” no conjunto. O tubista faz as vezes do contrabaixo, surge como o segundo sopro, vinca as conotações patrimoniais da música de “Tattoos and Mushrooms” e ainda acrescenta alguns contributos inesperados, como a introdução a solo do disco com um “drone” que lembra o didjeridu da Austrália aborígene. A esse nível, a maior surpresa desta edição é de sua inteira responsabilidade, se bem que Kresten Osgood também desenvolva um bom trabalho de descontinuidade temporal, confirmando a fama que tem como um dos melhores bateristas saídos da cena escandinava.
O líder da sessão, esse, parece ter retomado o fulgor do seu projecto Sex Mob, oferecendo-nos algo mais do que nos últimos anos. Se bem que insistindo na abordagem um tanto ou quanto ilustrativa das suas mais recentes aparições em CD, encontramo-lo aqui particularmente fluente, e até assertivo, nos fraseados. As elaborações são inteligentes e muito objectivas, mas têm uma componente que não costuma estar associada ao jazz que hoje se pratica: são divertidas e delas transparece, até, uma desconcertante ironia. A estratégia de reciclagem musical perseguida inclui, como não podia deixar de ser, algumas “covers”, como “Thelonious”, de Thelonious Monk, e “Eastcoasting”, de Charles Mingus. Neste âmbito, a recriação de “So Lonesome I Could Cry”, de Hank Williams, faz-nos não chorar, mas sorrir.

 

Sam Rivers: “Dimensions and Extensions” (Blue Note)
Este era o único álbum que faltava reeditar entre os quatro que Sam Rivers gravou para a Blue Note na década de 1960. Ainda que não tendo o peso dos títulos desta editora que distinguiram pela diferença relativamente a tudo o que se fazia (essa condição está representada por “Out to Lunch” de Eric Dolphy, “Point of Departure” de Andrew Hill e “Life Time” de Tony Williams), é ainda assim o mais arrojado (e isso apesar de toda a característica austeridade do saxofonista) e entusiasmante dessa série, prenunciando da melhor maneira o que viria a seguir na discografia de Rivers: “Streams”, “Crystals”, “The Quest”, “Contrasts”, etc., todos eles descolando da herança do hard bop para assumir a causa de um free jazz que denotava uma complexidade mais habitual de encontrar no lado europeu do Atlântico do que nos States. E não só na listagem de edições que foi produzindo enquanto líder, se verificarmos a importância que tiveram as suas colaborações com outros músicos em discos de referência como “Conference of the Birds”, de Dave Holland, ou “Capricorn Rising”, de Don Pullen.
A contribuição de Sam Rivers para a “vanguarda” do jazz tem, curiosamente, estado em escrutínio nestes últimos anos, talvez em compensação de durante muito tempo não ter sido tomado como o músico extraordinário que é, na verdade tão fundamental para a evolução desta música como o foram John Coltrane, Ornette Coleman, Albert Ayler e outros da primeira linha. A forma como trabalhava já por esta altura a melodia, quase sempre procurando situar-se entre os tons, era única e deixou consequências. Há também outra explicação para o interesse que “Dimensions and Extensions” está a suscitar: este disco é ouvido nos dias de hoje como um dos primeiros grandes exemplos da abordagem free bop com estruturas de influência erudita que se impôs como via. A reedição em CD é, pois, de inteira justiça.

 

Tony Williams: “Spring” (Blue Note)
“Spring” é o segundo álbum gravado por Tony Williams como líder, quando contava com 19 anos de idade: desde os 13, tinha sido sucessivamente o baterista de Sam Rivers, Jackie McLean e Miles Davis. Não é dos seus discos mais citados, mas como esta reedição lembra, tal não se deve a qualquer menoridade face a “Lifetime” ou a “Emergency”, mas apenas ao facto de estes se terem tornado marcos históricos fundamentais. Se sempre foi algo excêntrico o modo como Williams tocava, com marcações de tempo elaboradas e imprevisíveis (oiça-se “Echo” como exemplo), percebemos o quanto as suas concepções musicais (revelou-se também um excelente compositor) estavam alinhadas com as mudanças operadas no jazz da década de 1960. Bop no formato, são neste título, no entanto, perceptíveis as influências da “new thing”, ou não fizessem parte deste quinteto figuras como Rivers e Gary Peacock, o contrabaixista de eleição do grande Albert Ayler. Sabemos, ainda, da importância que tiveram Herbie Hancock e Wayne Shorter, as outras estrelas deste registo, para a evolução do jazz.
A música é empática e sincopada, denunciando o entusiasmo dos intervenientes e assumindo riscos que hoje continuam a surpreender-nos. Depois desta etapa, Tony Williams virou-se para a fusão num trio com John McLaughlin e Larry Young que teve um particular impacto. Longe de se tratar de um investimento passageiro, “Spring” contribuiu para abrir as portas a uma linha condutora do jazz moderno que está a ser amplamente retomada e continuada na actualidade. A passagem para CD pela mão de Rudy Van Gelder é bem uma evidência disso.

 

Michel Legrand & Miles Davis: “Legrand Jazz / Ascenseur pour l'Échafaud” (Essential Jazz Classics)
Apesar de serem muito diferentes, a junção de “Legrand Jazz” e “Ascenseur pour l'Échafaud” no mesmo CD faz todo o sentido: além de em ambos ouvirmos o trompete de Miles Davis, são a expressão do encontro do jazz com o cinema em contexto francês – no caso de Michel Legrand porque este se tornou num dos compositores de referência da sétima arte, e no de Miles porque se trata da banda sonora de um filme de Louis Malle. Mas há mais factores a considerar: nos dois casos, estão em causa abordagens do jazz que se definem pela sua singularidade. Nos temas conduzidos por Legrand, que surge essencialmente como arranjador de “standards”, a “big band” constituída pelas grandes personalidades do jazz americano de então (John Coltrane, Ben Webster, Phil Woods, Bill Evans, etc., etc.) segue premissas nada habituais no orquestralismo do género – o bop que aqui se ouve tem um intrigante envolvimento stravinskyano. Por sua vez, em “Ascenseur...” toda a música gravada é resultado de improvisações totais, uma prática que na década de 1950 estava muito longe de ser comum.
Estes não foram álbuns merecedores de grandes entusiasmos: entenderam-se as incursões jazzísticas de Michel Legrand apenas como uma “curiosidade”, e porque os improvisos de Miles Davis com Barney Wilen, René Urtreger, Pierre Michelot e Kenny Clarke são abruptamente cortados (têm a medida temporal das cenas em que se inserem), entendeu-se que esta música, por ser demasiado “programática”, só funciona realmente se ouvida em conjunto com o filme. Pode ser verdade, mas nem por isso o registo tem menor importância. A essência da musicalidade de, respectivamente, Legrand e Miles está até muito bem representada nestes dois tomos imprescindíveis.

 

Musica Elettronica Viva: “MEV40” (New World Records)
Nos anos da revolução nas artes, nos comportamentos e nas mentalidades (e também na política, entre finais da década de 1960 e a primeira metade da de 1970), o colectivo Musica Elettronica Viva foi um dos mais radicais na prática de uma música inteiramente improvisada com o aproveitamento de todo o tipo de sons, acústicos de instrumentos convencionais, electrónicos (incluindo os primeiros sintetizadores portáteis, como os da família Moog) ou produzidos pelo mais variado tipo de objectos, amplificados por via de inventivas utilizações do microfone. A par dos AMM, do Spontaneous Music Ensemble, da Scratch Orchestra e da People Band no Reino Unido, dos Taj Mahal Travellers e do Group Ongaku no Japão ou do Gruppo di Improvvisazioni Nuova Consonanza em Itália, os MEV caracterizaram-se pelo carácter ultra-experimental, mas festivo e até popular (pelo menos junto dos estudantes), dos seus concertos, tanto assim que o cineasta Michelangelo Antonioni os convidou a integrar a banda sonora do filme “Zabriskie Point”, juntamente com os Pink Floyd e Jerry Garcia, guitarrista dos Grateful Dead.
Este quádruplo álbum faz o percurso do ensemble fundado em Roma pelos americanos Alvin Curran, Richard Teitelbaum e Frederic Rzewski, o seu núcleo duro, com Allan Bryant, Carol Plantamura e uma numerosa série de colaboradores episódicos. Os mais habituais ao longo dos anos foram o grande Steve Lacy (que aqui é dado a ouvir com largueza) e Garrett List, mas outros ainda se fizeram notar, como George Lewis e Karl Berger, tendo o português Carlos “Zíngaro” também tocado com eles. A música dos MEV buscou uma dupla referenciação na contemporânea e no jazz, mas propôs-se desbravar novos caminhos. Imprevisibilidade (que não é o mesmo que aleatoriedade), dramatismo, sentido ritualístico da criação musical e entrega física são as linhas de força aqui detectadas. O projecto tem procurado resistir ao tempo, pelo que vêm aqui documentados encontros realizados nos anos 1980, 90 e nestes 00. A última vez que o trio-base tocou em conjunto foi em 2007, a anterior em 2002, e esses reencontros estão aqui documentados. Uma edição única, histórica e imperdível.

 

Luís Lopes / Adam Lane / Igal Foni: “What is When” (Clean Feed)
Na música, a arte do tempo, encontramos necessariamente “o quê” no “quando”. E o factor “o quê / quando”, neste álbum, é uma música irrequieta, saltitante e sincopada vinda das mesmas fontes que originaram tanto os blues do Delta e de Chicago como o rock 'n' roll primordial, o punk hardcore e o free jazz: vísceras e nervos. Assim, não constitui surpresa que o guitarrista português Luís Lopes, o contrabaixista americano Adam Lane e o baterista israelita Igal Foni toquem um híbrido de todos esses estilos musicais. Talvez o elemento jazz seja a argamassa que cole tudo o resto neste CD, mas também é verdade que o propósito foi seguir as premissas do “power trio”, uma fórmula que ficou registada na história do rock desde a Band of Gypsys e os Experience de Jimi Hendrix, os Cream, os Blue Cheer, os Rush e os Motorhead. Ou os Sex Pistols, sem o vocalista. E de um “power trio”, de facto, se trata, algumas vezes impactante, mas sem tornar as coisas demasiado fáceis (os ritmos são bastante complexos, nada que uma “garage band” de adolescentes conseguiria engendrar), sem ornamentações desnecessárias mas uma evidente eficácia. Esta é uma música crua e emocional, ora com “feedbacks” e distorção, ora com surpreendentes solos. Quando surge o risco de nos cansarmos com tanta agitação, somos contemplados com alguns momentos de paz, mas mesmo nesses interlúdios sentimos o coração e o cérebro a serem-nos arrancados das cavidades que os guardam.

 

Jon Hassell: “Last Night the Moon Came Dropping its Clothes in the Street” (ECM)
Arve Henriksen: “Cartography” (ECM)

É difícil dizer quem se aproximou mais de quem, mas o certo é que Jon Hassell e Arve Henriksen estão hoje a percorrer caminhos paralelos, e tanto assim que os seus mais recentes títulos, publicados apenas com a distância de alguns meses pela ECM, testemunham uma grande similitude de propósitos. Não certamente por acaso, dois músicos se repetem no acompanhamento instrumental de ambos: Jan Bang, um especialista no trabalho com “samples”, de resto vital para o que ouvimos tanto em “Last Night the Moon...” (Hassell) como em “Cartography” (Henriksen), e o guitarrista Eivind Aarset.
Até estes discos, era patente que o trompetista do grupo norueguês Supersilent era um discípulo de Jon Hassell num contexto mais experimental, mas o certo é que, no que respeita particularmente ao seu trabalho a solo, o vínculo que tinha com a sua principal referência estilística foi-se estreitando nos últimos anos. Por sua vez, o consagrado Hassell terá ouvido no mais jovem Arve Henriksen alguns desenvolvimentos das suas próprias premissas que lhe interessou agora explorar. O resultado está bem patente nestes lançamentos com o mesmo tipo de sonoridade, cada qual tão convincente quanto o outro. O âmbito é o de um jazz electroacústico com matriz tanto nas lógicas minimalistas (Terry Riley, sobretudo) prosseguidas por Hassell, como pela nova electrónica “ambient” escandinava, de que Henriksen é um claro produto.
Dito isto, é de assinalar que não se trata propriamente de álbuns gémeos. O fraseado de Hassell tem muito que ver com o canto clássico indiano, enquanto o de Henriksen vai beber à música para shakuhachi do Japão tradicional. A fluidez das composições de Hassell denotam os estudos que fez com Stockhausen e o interesse que nutre pelo Miles Davis eléctrico, tendo a de Henriksen uma óbvia ligação com as estratégias da música livremente improvisada. Em “Cartography” encontramos um investimento de Arve Henriksen que é muito seu, a incorporação da voz: a sua, num registo em falseto, e a de David Sylvian em formato “spoken word”, para além de outras contribuições sampladas e processadas. Em “Last Night the Moon...” há, por sua vez, um acento “groovy”, alimentado pela polirritmia africana. Tudo isto e mais para ir descobrindo em várias audições dos dois trabalhos...

 

Tony Malaby: “Paloma Recio” (New World Records)
Logo que começamos a ouvir “Obambo”, a primeira faixa, ficamos rendidos. Chamem-lhe “swing” ou “groove” ou o que quiserem, mas esta é uma música com “punch”, “drive”, energia, síncope, inquietação, foco, delírio. Nasheet Waits parece possesso, Eivind Opsvik toca com um som profundo e cavo, Ben Monder combina harmonias com “noise” eléctrico, e por cima Tony Malaby mostra que uma abordagem visceral do jazz não exclui a complexidade dos fraseados. Depois, em “Lucedes”, tudo muda: o tempo é lento, a guitarra lembra Frisell, o contrabaixo está em Valala, a bateria limita-se, despretenciosamente, a comentar, e o saxofone é tão lírico quanto não se consegue imaginar deste lado de Stan Getz.
“Alechinsky” é o compromisso possível entre as duas vertentes: a construção do tema vai-se fazendo por espasmos, com cada um dos intervenientes a escolher tempos diferentes, agitada a bateria de Waits, contemplativa a guitarra de Monder, bruitista o contrabaixo de Opsvik, e Malaby entre o “overblowing” e a poesia minimalista com o seu tenor, buscando o abstraccionismo por via da deturpação das figuras musicais convencionadas. De repente, tudo se esboroa até ficarmos apenas com partículas de som, e de repente também, o todo recompõe-se e ganha ainda maior corpo, os quatro músicos embrulhados na mesma bolha de empatia, intensos, desmesurados, implacáveis. “Hidden” estoira com todos os mitos que alimentam tanto o “mainstream” como a vanguarda: tem melodia e tem “non-sense”. “Boludos” joga o etéreo com o bizarro, “Puppets” é a banda sonora de um grotesco “sketch” de marionetas, tal e qual como o título anuncia.
Cada peça é uma situação particular: resolvida uma, passa-se de imediato para a seguinte. Com o seu registo “moody”, “Sonoita” podia ser jazz de bar, mas as suas elipses não se destinam, de todo, ao consumo de gente ébria. “Loud Dove” dispara em jeito de bop, mas em segundos transforma-se numa paisagem free. Free? O solo de contrabaixo com arco vem dizer que não, clássico até à medula da herança europeia. Clássico mesmo? O que vem logo no seguimento também isso põe em causa, com um jazz-rock de galvanizante confecção, Ben Monder agora surgindo como um Terje Rypdal nova-iorquino, mais angular e menos maneirista. “Third Mystery” segue a mesma lógica, mas com Malaby e Monder em diálogo constante. “Musica Callada” é isso mesmo: suave, demorado como os caracóis, camerístico, punjente, belo e estranho.
Tony Malaby tornou-se neste último par de anos num dos meus músicos favoritos, e tudo o que dele vai saindo surpreende-me tanto quanto da primeira vez que o ouvi. De muito poucos posso dizer o mesmo.

 

John Butcher / Gerry Hemingway: “Buffalo Pearl” (Auricle Records)
Tom & Gerry: “Kinetics” (Auricle Records)

Lançados pela própria editora de Gerry Hemingway, estes dois discos tornam a apresentar o baterista – um dos mais interessantes em actividade nos últimos 25 anos – em formato de duo com, respectivamente, John Butcher e Thomas Lehn. Em linha com o que já os ouvíramos fazer nos títulos anteriores (“Bowlers & Shooters” com o saxofonista, “Fire Works” e “Tom & Gerry” com o homem do sintetizador), o que desde logo chama a atenção é o facto de nenhum deles adoptar os papéis clássicos dos duetos com estas características. Hemingway está longe de ser um mero acompanhador de Butcher em “Buffalo Pearl”: não só o músico britânico adopta ocasionalmente um desempenho percussivo (por via de “slap tongues” ou utilizando as chaves dos seus instrumentos) e de construção textural, como o americano troca as abordagens rítmicas por um trabalho de tecelagem sonora e entra nos domínios do bruitismo com o recurso a um sampler. O mesmo é de dizer em relação a “Kinetics”: o antigo “sideman” de Anthony Braxton não se fica por pontuar os sons intestinais do EMS Synthi A de Lehn. Porque volta e meia este faz as vezes de uma bateria, a propriamente dita (ou melhor, os pratos e outros complementos metálicos) tem espaço para desenvolver panorâmicas e “drones”.
Mas há mais que se diga: se os saxofones produzem os burburismos típicos da escola reducionista (caso de “No Illusion”), incluindo os “feedbacks” controlados que são distintivos do jogo de John Butcher, também encontramos este no mais assumido free jazz (“Head Nickel”), e curiosamente associando uma sonoridade rhythm & blues a longos sustenidos. E se Hemingway aplica todo o compêndio da manipulação das peles desde a “new thing” e a emergência da música dita não-idiomática, propondo métricas irregulares, também o ouvimos a produzir harmónicos com raspagens e outras técnicas “extensivas”. Esta abordagem é largamente aplicada no CD com Thomas Lehn (oiça-se “Patina”), com a incorporação de repetições e dos inerentes marcos pulsativos. Pouco jazz aqui se ouve, e não sendo os envolvidos figuras da estética “near silence”, em “Mould” e “Maquette” encontramo-los precisamente nesse domínio, reduzindo a dimensão da música aos seus mais ínfimos detalhes. Um assombro de minúcia e concentração, além de uma comprovação mais das multifacetadas capacidades de Gerry Hemingway.

 

Daniel Levin Quartet: “Live at Roulette” (Clean Feed)
Por vezes, apenas a mudança de instrumentação num combo convencional é o suficiente para tocar uma música totalmente diferente. No caso do Daniel Levin Quartet desde logo se nota a inexistência de um “kit” de bateria, e se pensarmos que tal facto anuncia algum tipo de jazz de câmara (reafirmado pela presença de um violoncelo), coloquemos as coisas a claro desde o início: não é verdade. E Levin ainda torna as coisas mais complicadas: definiu os papéis de cada interveniente na música – o trompetista Nate Wooley, o vibrafonista Matt Moran, o contrabaixista Peter Bitenc e ele próprio no “cello” – com o exclusivo propósito de ignorar as predefinições estabelecidas. Assim sendo, não encontramos neste grupo uma secção rítmica formal e os dois instrumentos melódicos não estão necessariamente “à frente”. É necessário acompanhar os trajectos individuais no todo musical sem esperar encontrá-los nos lugares habituais. Só assim é possível seguir o rasto das conversações desenvolvidas, bem como os pequenos jogos de tensão criados. Tudo se move, como numa composição de Morton Feldman, com a diferença de que os elementos de surpresa são proporcionados pela improvisação. Encontram-se reminiscências da third stream, do cool e do free jazz dos inícios, mas apenas como tijolos para a construção de uma música inteiramente do nosso tempo. Talvez ainda não esteja aqui o próximo paradigma, mas certamente que anuncia “the shape of jazz to come”.

 

Glasgow Improvisers Orchestra: “Gio Poetics” (Creative Sources)
Frakture Big Band w/ Carlos “Zíngaro”: “Funfzehn” / “Cornerstone” (Frakture)

O que têm de comum a Glasgow Improvisers Orchestra e a Frakture Big Band não é apenas a nacionalidade britânica (escocesa a primeira) e o facto de ambas se dedicarem à improvisação livre num formato alargado, o mais difícil com tal processo de criação. Estes três discos têm a particularidade de contar com a colaboração de três portugueses: Ernesto Rodrigues e Guilherme Rodrigues (pai e filho) no caso da GIO, e Carlos “Zíngaro” no da FBB. Em “Gio Poetics” a participação lusa surge no contexto da constante variabilidade de elencos que define a orquesta (neste caso sem condução externa, como já aconteceu com Barry Guy e com Steve Beresford), e em “Funfzehn” e “Cornerstone” decorre da política do colectivo Frakture, de Liverpool, em ter como “special guests” nos seus concertos e registos algumas figuras de fora (além de “Zíngaro”, fizeram-no já Evan Parker, Simon H. Fell, Veryan Weston, Eddie Prévost e Maggie Nicols, entre outros, tendo a última também colaborado com o colectivo de Glasgow).
As músicas resultantes estão bem longe dos figurinos habituais, até pelo tipo incomum de instrumentação: uma grande presença de cordas de arco, instrumentos étnicos como o shakuhachi e o bouzouki no ensemble escocês, várias guitarras eléctricas no da cidade onde nasceram os Beatles, Liverpool. “Gio Poetics” é um misto inesperadamente contemplativo de free jazz e improvisação livre, de uma complexidade aracnídea, e os CDs “Funfzehn” e “Cornerstone” (com edição em separado apenas pelo facto de um ter sido gravado em concerto e o outro em estúdio, no intervalo de apenas uns dias) vão da música intuitiva de Stockhausen ao krautrock mais experimental. Não por acaso, a FBB teve mais tarde como convidado Damo Suzuki, antigo vocalista dos Can.

 

João Paulo Esteves da Silva: “Plays Carlos Bica – White Works” (Universal)
João Lucas: “Abstract Mechanics” (Creative Sources)
Publicados na mesma altura, estes dois discos dão-nos conta da produção actual de dois dos pianistas portugueses mais fascinantes na área da música criativa que vai do jazz a um certo experimentalismo directa ou indirectamente referenciado nesse género. Por coincidência, em “White Works” as composições interpretadas / transformadas por João Paulo Esteves da Silva são de um contrabaixista, Carlos Bica, e em “Abstract Mechanics” de João Lucas ouve-se outro cordofone, o violoncelo de Miguel Mira. Ou seja, se em ambos os trabalhos o piano surge como protagonista, as perspectivas aplicadas ultrapassam esse instrumento.
Ou nem tanto assim: se Bica escreveu, ou escolheu temas do seu repertório pessoal, a pensar em João Paulo, o músico, e não necessariamente no piano, “White Works” é, mais do que “Memórias de Quem”, o anterior solo deste virtuoso executante, um álbum “pianístico”. O desejo expresso pelo primeiro de que essas peças «conseguissem viver longe do contrabaixo» levou o dito João Paulo (presumimos que sem especial intencionalidade) a inserir-se mais do que é seu costume numa linguagem específica ao invento de Bartolomeo Cristofori. E é isso que é admirável neste CD.
O peso da partitura em “Abstract Mechanics” também é evidente. Trata-se da banda sonora de uma coreografia de Andresa Soares (“Era Uma Coisa Mesmo Muito Abstracta”), em linha com os investimentos de João Lucas como compositor de cena. E no entanto, é a performance pianística que sobressai, mesmo que aqui ou ali banhada em “soundscapes” electrónicos e completada pelos comentários muito soltos de Mira (aqui com a responsabilidade de introduzir nas tramas a variável “out” que no outro disco surge por via da intercalação de improvisações absolutas). A dimensão é mais “vanguardista” do que a de “White Works”, sim, mas o factor melodia está igualmente em primeiro plano, bem como toda a particular semiótica do piano.
Em conclusão, eis duas edições que, não obstante assistidas por outros propósitos, dignificam como poucas outras em Portugal, nestes domínios, a arte erigida sobre o teclado branco e negro. Admirável!

 

Sophie Dunér String Quartet: “The City of My Dreams” (Sgae)
Apenas com um disco antes editado, o muito mau “The Rain in Spain” (CIMP), Sophie Dunér tem aqui um trabalho mais agradável ao ouvido, se bem que longe de se poder considerar satisfatório. O que nele irrita mais nem são os desempenhos da cantora, que melhoraram apesar da incomodidade que me causa a sua tessitura vocal, mas a colagem que pretende fazer à Annette Peacock de “An Acrobat's Heart”, repetindo a fórmula do acompanhamento por uma formação de cordas de arco. Curiosamente, a própria capa é uma imitação de outro álbum de Peacock, “X-Dreams”, o que ainda torna mais ridículo o “pastiche”. Não só Dunér não tem as capacidades composicionais da sua modelo, como está a milhas do seu poder vocal.

 

Wassermann / Minton / Lehn / Blume: “Backchats” (Creative Sources)
Com estudos clássicos e um trajecto ligado à música contemporânea, a alemã Ute Wassermann tem-se dedicado igualmente à improvisação, na qual aplica técnicas vocais que exploram a bifonia e a ressonância espacial, além de lhe providenciarem novas formas de trabalhar a nível do timbre e da articulação. Neste álbum, encontra-se com a figura de topo do vocalismo improvisado, Phil Minton, este trazendo consigo um “background” no jazz. O envolvimento instrumental é dado por Thomas Lehn no sintetizador e pelo percussionista Martin Blume, tudo resultando numa música plena de dinâmicas, agitada e bruitista em que o detalhe é tão importante quanto as atmosferas criadas. Muitíssimo bom.

 

Wayne Horvitz Gravitas Quartet: “One Dance Alone” (Songlines)
Wayne Horvitz foi uma estrela da cena “downtown” de Nova Iorque na década de 1980, mas depois teve um percurso errático e inconstante a nível de qualidade que quase o fez desaparecer do mapa. “One Dance Alone” talvez seja o disco que marque o seu regresso à linha da frente. Ainda que desigual nos proveitos, tem argumentos suficientes para lhe dedicarmos repetidas audições. Com uma formação instrumental de piano (o próprio Horvitz, que de qualquer modo surge principalmente como compositor), violoncelo (Peggy Lee), corneta (Ron Miles) e fagote (Sara Schoenbeck), propõe um jazz de câmara que só peca por, em vez de se constituir como projecto, ir tentando uma variedade de abordagens que o torna derivativo e superficial. Apesar disso, o que tem de bom é, de facto, bastante convincente.

 

Rhodri Davies / Stéphane Rives / Ernesto Rodrigues / Guilherme Rodrigues / Carlos Santos: “Twrf Neus Ciglau” (Creative Sources)
Se a impressão com que fiquei do concerto em que foram gravados estes 34 breves minutos (Música Portuguesa Hoje, CCB, 2008) não foi a melhor, devo dizer que em disco a música até funciona. São dois os planos associados pelos intervenientes (Rhodri Davies, Stéphane Rives, Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues e Carlos Santos), em alguns casos simultaneamente: uma gestão pontilhística das texturas e a sustentação de “drones” por várias camadas. Ainda assim, todos estes músicos já nos ofereceram mais gratificantes criações na área do chamado “reducionismo”. A esse respeito, a desilusão que na altura me provocou Davies – talvez “o” mais interessante harpista da música improvisada – confirma-se aqui.

 

Jeremy Steig / Eddie Gomez: “Outlaws” (Enja)
Só agora nos chegou à mesa de trabalho a reedição em CD da obra-prima de Jeremy Steig com nem menos do que Eddie Gomez, o contrabaixista predilecto de Bill Evans. Um marco da muito específica arte do duo e do jazz tocado com flauta, “Outlaws” (1976) exponencia em pleno as extraordinárias capacidades dos dois músicos e ao mesmo tempo coloca-os num cenário bem distinto do resto dos seus percursos gravados. O flautista votou-se a uma música de fusão que, apesar de competente, não deixou grandes referências, e Gomez funcionou quase sempre como um “sideman”, poucas vezes tendo tido oportunidade de brilhar tanto como aqui. Para mim, é um dos discos a levar para a tal ilha deserta. Isso se também conseguir transportar o indispensável gerador de electricidade para que a aparelhagem funcione...

 

Hugh Hopper / Yumi Hara Cawkwell's Humi: “Dune” (Moonjune Records)
Há muito que o baixista dos Soft Machine não lançava um disco que se aproximasse do alto nível de qualidade do seu “1984”, mas ei-lo agora em circulação. Com a cantora e teclista de origem japonesa Yumi Hara Cawkwell a seu lado, o que ouvimos nada tem que ver com o espírito comemorativo que habitualmente rodeia a actividade das velhas glórias do chamado “art rock”, variante que na década de 1970 incorporou o jazz e até a música contemporânea nas suas lógicas. Antes pelo contrário: “Dune” é fresco, frequentemente surpreendente e bastante substancial em termos de propostas. Com algo de ambiental e experimentalista (se bem que sedutor a ouvidos menos treinados ou pacientes), há mais jazz por aqui do que propriamente rock. A música é muito fluida e dá mesmo a impressão de ter sido improvisada.

 

Mary Halvorson Trio: “Dragon's Head” (Firehouse 12 Records)
Depois de duos com Jessica Pavone e Kevin Shea, eis que a guitarrista dos mais recentes ensembles de Anthony Braxton e Taylor Ho Bynum surge a liderar o seu próprio trio. Como seria de esperar do trajecto que já tem, a sua música é angular, quebrada, atonal e dissonante, frequentemente nela se incorporando as distorções e o “feedback” do rock. A abordagem que Mary Halvorson tem da guitarra está, no entanto, muito distante desse género musical: o seu jogo de dedos é limpo, por vezes até seco, e faz lembrar o “finger-picking” e os “pianismos” de músicos como Joe Morris e Elliott Sharp: é pontilhístico, cerrado, mas simultaneamente muito feminino, utilizando tempos estranhos, mas também alguma pulsação quando necessário. Com o apoio rítmico de John Hebert no contrabaixo e de Ches Smith na bateria, a abstracção é o seu domínio, mas daí surgem inesperadas figurações que ancoram as suas propostas muito evidentemente no jazz. Em algo com esta intensidade, surpreende ainda o cuidado que o trio dá aos espaços e às dinâmicas.

 

John Hebert: “Byzantine Monkey” (Firehouse 12 Monkeys)
Nasceu em New Orleans e cresceu em Baton Rouge este contrabaixista que pertenceu ao último grupo de Andrew Hill e se tornou numa presença constante do jazz progressivo que hoje se pratica em Nova Iorque, cidade onde tem a base da sua actividade. Foi aí que formou o sexteto deste “Byzantine Monkey”, o primeiro disco enquanto líder de John Hebert, com músicos locais como Tony Malaby, Michael Attias, Adam Kolker, Nasheet Waits e Satoshi Takeishi. Muito evidente nestes temas de grande variedade tímbrica e dimensão quase orquestral (sete instrumentos de sopro, dois percussionistas e o contrabaixo como eixo de tudo o que acontece) está a influência da música cajun e uma perspectiva composicional que passa pela tradição do jazz, pela vertente de câmara deste e ainda pela vanguarda formatada pelo free. Uníssonos de efeito impactante, engenhosos contrapontos, complexas texturas e polirritmos imaginativos são apenas alguns recursos de uma escrita inteligente e nunca óbvia, colocada ao serviço das superiores capacidades de todos os intervenientes. A improvisação é sempre condicionada pela partitura, mas torna-se claro que este álbum tem o propósito de apresentar uma faceta de Hebert que habitualmente está em segundo plano: a de compositor. Se já lhe reconhecíamos os dotes performativos, ficam aprovados os de criador de mundos sonoros.

 

The Fully Celebrated: “Drunk on the Blood of the Holy Ones” (AUM Fidelity)
O sétimo álbum do trio de Boston formado por Jim Hobbs, Timo Shanko e Django Carranza representa um virar de página na plena utilização das técnicas de estúdio: ao longo das suas faixas ouvimo-los a aplicar os procedimentos do dub, num jazz já por si marcado, aqui ou ali, pelas sonoridades jamaicanas. A atmosfera geral é a das “soundtracks” dos filmes policiais de série B e dos bares de “strip-tease” e a atitude é caracteristicamente punk. A música vai beber ao hard bop mais suado, mas evidencia o legado de Ornette Coleman na fase Prime Time. Pelo meio ouvimos ora os multifónicos e os microtonalismos mais experimentais dos saxofones alto e soprano de Hobbs, ora sustentações rítmicas “funky” por parte do contrabaixo de Shanko e da bateria de Carranza. Uma característica do grupo é mesmo o seu ecletismo, cada tema adoptando elementos de idiomas distintos, dos blues a alusões ao Oriente profundo. O álbum inclui um vídeo em que também participa o cornetista Taylor Ho Bynum, um bónus que evidencia o quanto estes Fully Celebrated pretendem dirigir-se a um público que habitualmente ouve rock – aliás, é geralmente o circuito dos clubes daquele que frequentam, sem que ninguém lhes atire garrafas de cerveja.

 

Joe Morris: “Wildlife” (AUM Fidelity)
Mais uma vez, Joe Morris troca a guitarra pelo contrabaixo num disco do mais assumido free jazz. Sem se colocar à boca de cena – encontramos aí o saxofonista Petr Cancura –, é ele quem claramente fornece as bases do que vamos ouvindo, sempre com o muito próximo apoio de Luther Gray na bateria. Incendiária e inquieta, mas também coesa e com o tipo de entendimento de um colectivo que deixa lugar à expressão individual, a música de “Wildlife” apela ao nosso reconhecimento do formato para a partir daí nos proporcionar algumas inesperadas surpresas, designadamente as que têm que ver com o jogo a três permanentemente renovado. No tenor sobretudo (utiliza também o alto), Cancura posiciona-se na herança de Albert Ayler, dele adoptando o ataque e o sentido melódico, e nos seus fraseados podemos reconhecer também a rugosidade muito própria de Archie Shepp. Gray faz uma abordagem das peles que lembra Max Roach e a perspectiva deste de que um baterista pode fazer muito mais do que o convencional acompanhamento rítmico. Morris, pelo seu lado, vai beber à linhagem contrabaixística que tem Henry Grimes como expoente máximo, com a particularidade (nisso se assemelhando a William Parker) de ir buscar referências ao guimbri africano. A diferença relativamente ao seu trabalho como guitarrista está no facto de apostar na funcionalidade, e não no virtuosismo. Mais um exemplo da presente “fire music”.

 

Corey Wilkes & Abstrakt Pulse: “Cries From Tha Ghetto” (Pi Recordings)
Muito poucos tinham o perfil adequado para ficar com o lugar que Lester Bowie deixou vago no Art Ensemble of Chicago, mas o convite que Roscoe Mitchell lhe endereçou para esse efeito foi o reconhecimento de um jovem trompetista que tem qualidades acima da média. Muito requisitado, Corey Wilkes faz-se ouvir em múltiplos contextos, seja o James Carter Quintet, o Ethnic Heritage Ensemble de Kahil El' Zabar, a Exploding Star Orchestra de Rob Mazurek ou o Black Earth Ensemble de Nicole Mitchell. Com Kevin Nabors, Scott Hesse, Junius Paul, Isaiah Spencer e Jumaane Taylor, os Abstrakt Pulse são um dos três grupos que lidera (também Black Slang e Corey Wilkes Quintet), num leque de abordagens que vai da soul à vanguarda, passando pelo “mainstream”. Esta formação será, talvez, a mais interessante, com a sua combinatória do som Blue Note da década de 1960 e das premissas que singularizaram os membros da AACM na frente mais criativa do jazz. Não por acaso, um dos temas de “Cries From Tha Ghetto” é da autoria de Bowie, claramente uma das suas fontes de inspiração (Lee Morgan, Woody Shaw e Freddie Hubbard são as outras detectáveis), mas todos os demais foram escritos por Wilkes e atestam as suas complementares virtudes como compositor. A matriz da música aqui contida está na visão do hard bop oferecida pelos Jazz Messengers de Art Blakey, mas os desenvolvimentos são bastante “out” e ultrapassam mesmo as configurações-tipo do free. A esse nível, a contribuição do guitarrista Hesse é fundamental, com Taylor a acrescentar um elemento simultaneamente tradicional e exótico com o seu “tap dancing”.

 

Steve Lehman Octet: “Travail, Transformation, and Flow” (Pi Recordings)
Figura cada vez mais incontornável do novo jazz de Nova Iorque, Steve Lehman tem aqui o seu primeiro manifesto do estudo a que vem procedendo da aplicação dos recursos harmónicos do espectralismo no jazz, segundo as perspectivas do compositor contemporâneo Tristan Murail, de quem foi aluno. Se tal demanda podia fazer-nos temer algum eruditismo, uma segunda surpresa é-nos reservada: a construção rítmica dos temas vai beber às músicas de dança, do hip-hop ao drum 'n' bass. O figurino surge-nos no legado das posturas M-Base, mas vai mais longe. A secção de sopros comporta cinco elementos, para além do líder e saxofonista alto o tenor Mark Shim, o trompetista Jonathan Finlayson, um seu habitual companheiro de lides, o trombonista Tim Albright e o tubista Jose Davila, este com funções geralmente rítmicas, em reforço do trabalho de contrabaixo de Drew Gress. Chris Dingman no vibrafone e Tyshawn Sorey na bateria são os restantes contribuintes, o primeiro com muito interessantes funções de coloração, por vezes com intervenções que parecem electrónicas, e o último responsável pelas panorâmicas “groovy” operadas. Num universo composicional conotável com o bop, o enfoque desta proposta na harmonia faz-se por meio de desafiantes incursões pelo microtonalidade – em vez de seguir uma lógica de intervalos, como é tradição no jazz, Lehman joga com as confluências e com os choques de frequências. A prova provada de que ainda vai havendo inovação no jazz.

 

Agustí Fernandez: “Un Llamp que No S'Acaba Mai” (Psi Records)
Pianista catalão de cada vez maior alcance internacional, Agustí Fernandez tem em “Un Llamp que No S'Acaba Mai” um novo tomo das suas colaborações com os grandes nomes da improvisação livre. No caso, temos perante nós a dupla rítmica mais invejada da cena britânica: John Edwards no contrabaixo e Mark Sanders na bateria. O ouvinte fica esmagado logo aos primeiros minutos, primeiro com um solo endiabrado de Edwards, depois com os comentários admiravelmente oportunos e pertinentes, embora discretos, que lhes faz Sanders e finalmente com a junção a estes do piano preparado e em metamorfose de Fernandez. Às tantas, mal percebemos quem está a fazer o quê, de tal modo os sons se envolvem e complementam entre si. Raras vezes intensidade e minúcia se associam na mesma prática musical, mas é isso que encontramos aqui, muitas vezes parecendo que se trata de música contemporânea, com a particularidade distintiva de ser totalmente improvisada. Acontece, porém, que no momento em que julgamos identificar o que ouvimos, o líder da sessão troca-nos as voltas com fraseados vindos directamente do jazz, remetendo-nos em simultâneo para Thelonious Monk e para Cecil Taylor, com cobertura pulsativa do mais obsessivo free rock. Mais adiante, o piano lembra cristal a partir-se, o contrabaixo soa cavo e profundo como a gruta de Lázaro e as peles, mais os pratos, cobrem o panorama estéreo como se fossem vários os bateristas. Se isto não os levar para o sétimo céu, nada levará.

 

Trespass Trio: “...Was There to Illuminate the Night Sky...” (Clean Feed)
Steve Swell: “Planet Dream” (Clean Feed)

Estes são tempos difíceis para ser um idealista no que respeita à função social da música. Será a arte dos sons realmente capaz de mudar o mundo, algo em que muitos acreditaram nos anos 1960 e 70? Nenhuma resposta podia ser clara e definitiva num estado de coisas, como o presente, em que a alienação parece anacronicamente resultar do crescente acesso à informação, mas o certo é que o saxofonista sueco Martin Kuchen toca com uma mensagem. Ouvimos esta ou não, mas as linhas de sax que encontramos em “...Was There to Illuminate the Night Sky...” têm um carácter de urgência e um cometimento que tornam o Trespass Trio num “must”. O contrabaixista Ingebrigt Haker Flaten e o baterista Raymond Strid estão igualmente empenhados neste alerta para a escondida e triste realidade existente por detrás da calma só aparente das nossas vidas diárias. Há sempre, algures, uma guerra com os seus milhares de vítimas, ou algum ponto do globo onde a repressão, o racismo e a injustiça são práticas correntes, e estes factos colocam sérios dilemas morais a cada um de nós. O que pode um músico fazer senão criar com estes factores em mente? Aqui está, pois, um disco que ferve, é duro e transborda de raiva, gravado não para nosso entretenimento, mas para nos desafiar os ouvidos e as consciências. Não há meio termo: ou gostamos, ou encolhemos os ombros. Quem lhe for indiferente é que fica a perder.
Como é sabido, na presente fase da história da humanidade resta pouco espaço para a utopia. O mundo experimentou já alguns desses sistemas ideais, e regra geral com resultados falhados, senão mesmo trágicos. Mesmo na literatura o pensamento utópico parece ter-se desvanecido. Apenas na música ainda há lugar para esse tipo de inventividade, sobretudo em contextos que adoptam procedimentos espontâneos e não-hierárquicos. A improvisação musical tornou-se na única possibilidade de forjar micro-sociedades de liberdade e igualdade, sem que seja necessário escolher um destes cenários para atingir os objectivos propostos. É o que o trombonista Steve Swell se propõe com o projecto Planet Dream, “um mundo sonoro em que tudo está onde deve estar e onde a aceitação de si mesmo, da mudança e dos outros, bem como da sua música, é como o ar que respiramos”. Neste caso, esses “outros” são o saxofonista alto Rob Brown e o violoncelista Daniel Levin, cada um com os seus próprios conceitos e processos de produção musical. O trio estabeleceu um “contrato social” que permite a esta música ser o que é: altamente criativa, sem fronteiras rígidas, “free-flowing”, desenvolvida no respeito dos espaços individuais, mas ao mesmo tempo colectiva e empática. Uma amostra do que seria o mundo se todos nós o quiséssemos.

 

Vincent Courtois / Sylvie Courvoisier / Ellery Eskelin: “As Soon As Possible” (CamJazz)
Okkyung Lee / Peter Evans / Steve Beresford: “Check For Monsters” (Emanem)

Alexander von Schlippenbach: “Friulian Sketches” (Psi Records)
O violoncelo continua a ser um dos mais renegados instrumentos do jazz e da improvisação, e no entanto a sua intervenção faz-se notar. Pela excepção que ainda constitui e pelo facto de a sua presença significar muito frequentemente que as concepções musicais em prática não são conformistas ou passivas em relação aos padrões vigentes. É o caso destes três discos recentemente colocados no mercado, cada um deles com uma abordagem bem distinta da música e deste cordofone.
Em “As Soon As Possible”, encontramos o violoncelista francês Vincent Courtois, um colaborador habitual de Louis Sclavis, na companhia de Sylvie Courvoisier e de Ellery Eskelin. Se bem que integralmente improvisada, a música aqui contida tem um evidente registo de câmara. O “drive” do jazz, e em algumas ocasiões até a intensidade, como na faixa “Lexington Market”, combina-se de forma particularmente inventiva com os climas, a leveza expositiva e o rigor (designadamente na cuidadosa inclusão de respirações, na parcimónia sonora e na objectividade dos rumos tomados, a exemplo de “Sotto Voce”) da música “erudita”. Por isso mesmo, a gratificante fruição deste álbum desperta-nos as mais díspares memórias (imaginações?) auditivas. O Bach lido por Pablo Casals e as transfigurações melódicas e rítmicas de Tom Cora no caso de Courtois, a não-linearidade das obras pianísticas de Ligeti e as cascatas de notas de Cecil Taylor no de Courvoisier, e finalmente, no que respeita a Eskelin, o trabalho vocal de Schubert (!) e o estilo saxofonístico de Jan Garbarek por alturas do quarteto europeu de Keith Jarrett.
É o violoncelo que vem primeiro na ficha técnica, mas depressa se torna claro que esta é uma música cooperativa, com igual espaço para os três intervenientes e diálogos vivos entre estes. O mesmo se passa com o segundo trio desta escolha: a coreana, mas radicada em Nova Iorque, Okkyung Lee surge em primeiro lugar no alinhamento de “Check For Monsters”, mas Peter Evans e Steve Beresford estão longe de se remeter a funções de acompanhamento. Estoutro disco é muito diferente: imediatamente identificável com o que se convencionou chamar de “música improvisada europeia”, como de imediato percebemos no tema de abertura, “Phacthio”, e não obstante só incluir um natural do Velho Continente (o pianista britânico), é simultaneamente mais “duro”, mais orgânico e mais compartimentado em termos estéticos. O que nos surpreende, sabendo que Lee se afirmou com uma fórmula de “música criativa” (a designação tão cara a Anthony Braxton) em que confluem jazz, elementos contemporâneos e os tradicionais das suas origens asiáticas, que Evans é identificado com o experimentalismo radical do trompete e que o mais consagrado Beresford se deu a conhecer por uma electroacústica “lo-fi” com características muito próprias.
Curioso, tendo em conta até o modo como surgiu este grupo: na sua primeira forma um quarteto (com Mark Sanders), estreou-se num espectáculo intermedia em que se tocaram versões de temas de George Gershwin, compositor “clássico” que incorporou a América negra nas suas partituras. Não menos curioso é o facto de, em “Friulian Sketches”, o mesmo músico que sempre afirmou ser um pianista de free jazz e não o livre-improvisador que dele dizem, e que, para mais, lançou em caixa as suas interpretações de todo o “songbook” de Thelonious Monk, protagoniza um trabalho que tem muito mais relações com o serialismo dodecafónico do século XX e com o romantismo do século XIX do que propriamente com a sua filiação jazzística. Neste CD de Alexander von Schlippenbach, já o violoncelo perde protagonismo, não só porque se trata do projecto de um pianista, mas também porque o clarinete (Daniel D'Agaro) é o principal solista. Ainda assim, Tristan Honsinger é afirmativo e justifica por inteiro os motivos que o levaram a ser apontado como um das referências obrigatórias da arte violoncelística.
Depois de fazer as pazes com as convenções do jazz que recusara na década de 1960, Schlippenbach está igualmente bem com a sua formação clássica (foi aluno de Alois Zimmermann), como o atestam o quinto ou o décimo quarto “sketches” desta colecção de curtíssimas composições instantâneas, e chamo-lhes “composições” porque o alemão encara a prática da improvisação como um processo composicional. Em suma, e como se verifica com notáveis edições como estas, se o violoncelo continua a ser uma raridade nestas áreas, o certo é que tem uma nobre participação.

 

Don Cherry / Nana Vasconcelos / Colin Walcott: “The Codona Trilogy” (ECM)
Para muita gente, este vosso escriba incluído, a descoberta do trio Codona no início da década de 1980 foi uma excitante surpresa. Era algo mais do que o jazz livre e de colorações étnicas que Don Cherry já tinha feito (reavivando as minhas memórias do que ficara gravado em “Rawalpindi Blues”, uma das melhores faixas da obra-prima absoluta de Carla Bley, “Escalator Over the Hill”, e de um concerto muito especial no S. Luiz que juntou o trompetista ao violinista L. Shankar), e ia mais longe do que qualquer coisa que tivesse incluído os exotismos percussivos de Nana Vasconcelos, que sempre tiveram mais que ver com os índios do Amazonas e a ancestralidade africana do que propriamente com a música popular brasileira. Quanto a Collin Walcott, se já o conhecíamos dos Oregon de Ralph Towner e Paul McCandless e de dois títulos em nome próprio na editora alemã, foi neste contexto que realmente impôs a seriedade com que abraçava os rigores clássicos da Índia em dois difíceis instrumentos, o sitar e as tablas.
Com a morte de Walcott em 1983, o projecto apenas resultou em três discos, que depressa se tornaram objectos de colecção, ainda mais valorizados com a passagem dos anos e com a ausência de reedições – isso se exceptuarmos uma compilação “low price” que, entretanto, a ECM lançou no mercado. Pois agora fez-se justiça a esses marcos das carreiras dos três músicos, com “Codona”, “Codona 2” e “Codona 3” reunidos numa caixa de um branco apenas constratado pela tipografia do “lettring” identificativo do que vem lá dentro. Faz todo o sentido que tenha sido este o momento escolhido, pois vamos assistindo não só a um recrudescimento das abordagens etnicistas do jazz como à sua constituição enquanto tendência de características próprias. A verdade é que, neste contexto, o conteúdo de “The Codona Trilogy” é de uma actualidade que não deixa de ser intrigante – Cherry, Vasconcelos e Walcott estavam, decididamente, muito à frente do seu tempo. O primeiro já se envolvera na revolução do free jazz, pelo que o visionarismo, aqui, é a medida da sua inventividade.

 

Noel Akchoté: “Toi-Même” (Winter & Winter)
O guitarrista francês Noel Akchoté é conhecido por dois factores: por um lado a sua permanente inquietude, que o faz experimentar as situações mais diversas, de um jazz com a energia do rock ao “droning” electrónico, resultando esses investimentos ora em desfechos francamente interessantes, ora em grandes decepções; e por outro uma abordagem “conceptual” dos projectos que abraça. “Toi-Même” corresponde por inteiro a essas duas facetas – tem a voz como protagonista nos formatos da canção, do “spoken word” e dos “field recordings”, e a esse nível, se nada apresenta de operático, vai no entanto buscar a esse âmbito o modelo narrativo e dialogante. Para o fazer, recorreu Akchoté a alguns convidados bastante especiais, como o último poeta da Beat Generation ainda vivo, John Giorno, uma figura da pop experimental, Kevin Blechdom, o performer e actor “maldito” Jean-Louis Costes e a cantora rock Laetitia Sheriff. Mas também na parte instrumental fez escolhas personalizadas e muito distintas, que vão desde o baterista de jazz Han Bennink aos DJs Fritz Ostermayer e Sebastian Reier, passando pelo acordeonista bem ao estilo vienense Otto Lechner. Dificilmente poderíamos imaginar tal combinação de personalidades, mas o facto é que funciona.
Teríamos gostado que a guitarra do mentor desta estranha reunião interviesse mais, mas a partir do momento em que assumimos que se trata de um álbum vocal redireccionamos as nossas expectativas. E estas encontram vários motivos de compensação. Um deles é o carácter desarrumado dos “temas” que se sucedem, fazendo-nos perceber de imediato que estamos muito longe do “pronto-a-ouvir” da música comercial cantada que invade o nosso quotidiano. Acontece mesmo, pelo meio, que uma canção se transforme numa conversa informal entre os intervenientes, só mais adiante tendo continuação. Em vez de este tipo de situações surgir como um anacronismo, torna-se numa mais-valia de comunicabilidade. Ainda assim, o melhor do CD está na faixa mais convencional em que Giorno declama um texto seu sobre um fundo improvisado em que Akchoté, Bennink e o contrabaixista Brad Jones estão particularmente bem.

 

Jimmy Giuffre 3: “7 Pieces” (Jazz Beat)
Por incrível que pareça, nunca “7 Pieces”, disco de referência do grupo de Jimmy Giuffre com Jim Hall e Red Mitchell, fora reeditado em CD. Aconteceu só agora, e com um bónus que muito apreciamos: as faixas que testemunham a passagem do Jimmy Giuffre 3 (com Buddy Clark no lugar de Mitchell) pela cidade de Roma no mesmo ano da gravação do álbum, 1959. É importante referir o contexto deste título: no ano anterior o singular clarinetista e saxofonista conotado com o cool tocara em trio com o trombonista Bob Brookmeyer e com Hall, também sem acompanhamento de piano e bateria e, coisa mais invulgar ainda nas suas formações, igualmente sem contrabaixo (um instrumento que, de resto, fora sempre mudando de mãos nos seus projectos), e antes ainda o álbum “The Jimmy Giuffre Clarinet” (1956) desconcertara os ouvintes com o seu quinteto de palhetas e um duo de clarinete e celesta.
A música de Giuffre era invulgar e custava a cair no goto do ouvinte médio do jazz na América, mas o certo é que antecipava as liberdades que caracterizariam a década seguinte. Em 1961, ou seja, apenas dois anos depois de “7 Pieces”, surgiria um novo JG3 com Paul Bley e Steve Swallow, identificável já com a “new thing”, embora, como era seu sinal distintivo, com uma abordagem introspectiva, “soft” e arreigadamente lírica. Em grande medida, Jimmy Giuffre contribuiu para que o free jazz não fosse entendido apenas como a “estética do grito”, mas a sua diferença continuou a valer-lhe a dificuldade de fechar contratos para concertos e gravações discográficas, só recentemente tendo obtido o reconhecimento que sempre merecera.
Em certa medida, este é um título conciliatório, não se afastando demasiado dos convencionalismos jazzísticos da altura. Apaziguou um pouco quem acusava Jimmy Giuffre de não tocar jazz (muito boa gente considerava que o princípio “no drums” implicava o resultado “no jazz”), mas nem por isso deixava de apontar para o que viria de seguida. Hoje, ao ouvirmos “7 Pieces”, sentimos o quanto estava grávido de futuro.

 

Norbert Stein Pata Generators: “Direct Speech” (Pata Music)
Não é todos os dias que encontramos uma “front line” de saxofone, flauta e trombone, assim como não é todos os dias que podemos ouvir um saxofonista a conectar as influências recebidas de Archie Shepp e David Murray com um modo de estar no jazz que é indubitavelmente europeu. E de facto, se a abordagem do sax e da improvisação de Norbert Stein não podia estar mais em linha com o free bop nova-iorquino de hoje (até na pulsação viva, por vezes algo “funky”), os conceitos composicionais e as referências estéticas encontrados em “Direct Speech” podem até lembrar por vezes a escrita de Anthony Braxton, mas têm tudo que ver com o Velho Continente – coisa, aliás, que se sente de forma muito aguda no tema “For: Get It!”, com alusões à música das bandas de metais da Alemanha e da Áustria
A própria sustentação da fórmula Pata Generators está contextualizada na cultura europeia: Stein vai buscar ideias ao dramaturgo, poeta e ensaísta do surrealismo Alfred Jarry, conhecido em especial pela pseudociência a que deu o nome de “patafísica”, baseada em noções de ilógica, paradoxo e excepção. Na prática encontramo-las, por exemplo, na forma como a flauta de Michael Heupel surge em permanente contradição com os uníssonos temáticos dos outros dois sopros, ou, mais genericamente, nas equações entre, de um lado, os exactos sincronismos dos instrumentos e as impositivas delimitações métricas, e do outro, a espontaneidade dos solos e o quase expressionismo com que estes são desenvolvidos por todos os membros do quinteto.
É precisamente a “patafilosofia” de Jarry que explica os difíceis equilíbrios deste intrigante disco que contém muito mais do que aquilo que pode ser absorvido numa primeira audição. O que nos leva a terminar esta recensão tal como começámos: não é todos os dias que intelecto e “drive”, rigor e liberdade, conseguem conviver a um mesmo nível.

 

Gerald Cleaver / William Parker / Craig Taborn: “Farmers by Nature” (AUM Fidelity)
Se a sua primeira reacção ao olhar para a capa deste disco for a de que o conteúdo corresponderá de alguma maneira à música do formato trio de piano jazz tal como se entende desde Bill Evans, tire daí a ideia. Aliás, a ordem com que os músicos são apresentados diz tudo sobre o que está em causa – primeiro vem o baterista, até porque é Gerald Cleaver o mentor do grupo, depois o contrabaixista, William Parker, que não tem propriamente o perfil de um “sideman”, e finalmente o pianista, Craig Taborn. É como se a pirâmide piano-contrabaixo-bateria tivesse sido invertida, mas não se pense que por uma questão de hierarquias – a esse respeito, evidente se torna ao ouvir a música, e muito depressa, que estão todos os três investidos num colectivo de iguais.
Ou seja, não há aqui um piano solista com acompanhamento rítmico tradicional, e nem sequer se trata de uma “drummer's band”, fazendo tal supor que apenas haveria uma maior presença do trabalho das baquetas numa organização em tudo o resto convencional. Com poucas variantes pelo meio, tudo se desenrola por associação de três solos simultâneos, lembrando indirectamente os conceitos harmolódicos de Ornette Coleman. Ao nível formal, não se pode dizer que este jazz seja particularmente “experimental” (o mais longe que se vai a esse nível são os pianismos à Cecil Taylor de Taborn em “Not Unlike Number 10”, mas até estes já fazem parte do património jazzístico). Os motivos utilizados estão bem implantados na história do jazz, residindo a verdadeira surpresa deste “Farmers by Nature” na forma crua e despida com que se apresentam, ora reduzidos ao esqueleto, com uma extrema economia de notas, ora tocados sobre estruturas estáticas ou de uma pesada lentidão. E ou o enquadramento é quase exclusivamente rítmico e percussivo, envolvendo também o piano nessa lógica, como em “Korteh Khah”, ou se valoriza em especial a construção de texturas, à semelhança do que acontece em parte de “Fieda Mytlie”, com destaque para o arco de Parker.
Há um outro factor, e bastante importante. Todos estes temas foram improvisados ao vivo (no The Stone de John Zorn), sem papéis nem grandes combinações prévias. Também isso contribui para que se “fale” aqui de maneira bem diferente a linguagem de sempre, nesse procedimento residindo todo o interesse e impacto deste álbum.

 

Transit: “Quadrologues” (Clean Feed)
No que respeita a automóveis e pessoas em trânsito nas cidades modernas, sabemos como, regra geral, não há nenhum “ir” que não tenha o correspondente regresso. “Quadrologues” é a segunda edição pela Clean Feed do quarteto Transit, projecto com o qual começamos a ganhar alguma familiaridade. Não significa tal que Jeff Arnal (percussão), Seth Misterka (saxofone alto), Reuben Radding (contrabaixo) e Nate Wooley (trompete) façam mais do mesmo neste novo CD – não, eles podem estar de volta, mas a trajectória que escolheram para se reencontrarem connosco não é a que está cartografada em GPS.
A configuração do seu trabalho colectivo é a ideal, até, para não se repetirem: estamos diante de uma colecção inteligente e sensível de operações entre a tradição do jazz e uma abordagem nada óbvia da música. Arnal lida com o tempo e a métrica sem preocupações matemáticas exactas, sempre desafiando o nosso sentido do tempo. Misterka é especialmente criativo na sabotagem dos procedimentos “mainstream” do jazz, seja utilizando quartos-de-tom ou elementos serialistas, e isto sempre DENTRO da herança bop. Radding mostra-nos que o balanço e o “drive” são questões muito mais intrincadas do que a fórmula a que costumamos chamar “swing”. Mais uma vez, Woolley armadilha-nos as expectativas quanto à sua musicalidade: se se trata de um dos mais radicais experimentadores do trompete, é também um virtuoso quando lida com materiais mais “straight-ahead”. Em suma: esta é uma música capaz de parar a circulação nas ruas.

 

Herculaneum: “Herculaneum” (Clean Feed)
Herculaneum? Qual – a cidade italiana destruída pelo Vesúvio no ano 79 A.C. ou a população do Missouri, nos EUA, com menos de 4000 cidadãos? Ao que parece, nenhuma delas, mas uma referência directa a Hércules, o herói grego da Antiguidade conhecido pela sua força. Podia ser também a descrição do tipo de música tocado por Nick Broste, John Beard, Greg Danek, Nate Lepine, David McDonnel, Patrick Newberry e Dylan Ryan, mas não é. É certo que a densidade das assemblagens de som deste septeto pode chegar a dimensões orquestrais, mas o grupo interessa-se mais por desconstruir as suas possibilidades tímbricas em duos e trios e mesmo quando todos estão activos o foco é na criação de espaços e não de camadas de materiais. A esse nível, não trazem nada de absolutamente novo: Duke Ellington e Charles Mingus tinham os mesmos objectivos quando lidavam com “big bands”.
A diferença está em outros aspectos: os Herculaneum misturam o idioma jazz com a música clássica contemporânea e com as apelativas melodias das bandas de metais ciganas da Roménia. Mas há mais: o projecto nasceu quando o baterista, vibrafonista e compositor Dylan Ryan decidiu fazer algo no contexto da fusão jazz-rock que resultasse da sua admiração pela música de Captain Beefheart. As coisas desenvolveram-se rapidamente a partir dessa primeira intenção (por vezes parece-nos ouvir Messiaen arranjado por Gil Evans!), mas essa identidade permaneceu. É por isso mesmo, aliás, que os Herculaneum associam músicos vindos das cenas do avant-jazz e do avant-rock de Chicago. Muito, mas mesmo muito, curioso.

 

Enrico Pieranunzi: “Enrico Pieranunzi Plays Domenico Scarlatti – Sonatas and Improvisations” (CamJazz)
À partida, esperar-se-ia que Enrico Pieranunzi interpretasse Scarlatti – e improvisasse dentro da sua música, algo que, de resto, fazia parte das lógicas do barroco – do ponto de vista do jazz, mas não é isso o que se verifica neste disco. É certo que, por vezes, a sua orientação jazzística se faz sentir, mas o propósito foi o de entrar por inteiro no universo scarlattiano. A abordagem difere bastante do que faria um intérprete de música antiga, mas até por isso tem méritos próprios. Pieranunzi dá relevo à rítmica do compositor e à fluidez das suas sonatas, o que se explica precisamente pelo facto de ser quem é. No conjunto da sua obra gravada, no entanto, este título pouco mais representa do que uma curiosidade.

 

Little Women: “Teeth” (Sockets)
Dois saxofones (tenor e alto), guitarra eléctrica e bateria: é esta a configuração dos Little Women, grupo de Brooklyn que alia o free jazz e o hard bop com o punk e o metal em temas tão espessos a nível sonoro e tão ritmicamente agitados que ficamos com a adrenalina a borbulhar – o que talvez explique a breve duração deste CD, 19 minutos apenas divididos em quatro partes. Mas nem sempre “Teeth” segue numa cavalgada desenfreada, e quando os acontecimentos se concentram na interacção dos saxes, é quase como se estivéssemos perante um duo entre Joe McPhee e Ken Vandermark, pleno de trocadilhos e artimanhas. Atenção, pois, a Travis Laplante e Ben Greenberg.

 

Rohrer / Mazurek / Takara / Barella: “Projections of a Seven Foot Ghost” (Open Field)
Pouco conhecida além das fronteiras do Brasil e centrada no estado de São Paulo, existe uma cena de improvisação que, apesar de diminuta, tem tido interessantes frutos. Miguel Barella (guitarra, electrónica) e o expatriado suíço Thomas Rohrer (saxofones, rabeca, electrónica) constituem o seu núcleo duro. Com a mudança do cornetista americano Rob Mazurek (Chicago Underground Duo, Trio e Orchestra) para terras de Santa Cruz, iniciou-se uma colaboração regular que tem propiciado uma maior divulgação internacional dos seus nomes, algo que desde há muito mereciam. O quarto elemento deste quarteto, Maurício Takara, é o baterista do grupo brasileiro de Mazurek, São Paulo Underground. Electroacústica, densa e irrequieta, a música deste duplo álbum é convincente e até arrebatadora. Mais uma porta que se abre...

 

Franck Vigroux / Matthew Bourne: “Call Me Madame” (D'Autres Cordes)
Para um disco que tem os sintetizadores analógicos como mote, há muito mais para ouvir aqui, desde um intermitente trabalho de “sampling” (os gira-discos de Vigroux), surgindo nas tramas como se súbitos “frames” fossem introduzidos numa esquizóide montagem cinematográfica, a taquicardias pianísticas que são o que mais em “Call Me Madame” se relaciona com o jazz e também a pinceladas de guitarra com distorção, estas lançando pontes para o rock. O resultado é bom, mas parece vir de um trabalho de laboratório que coloca em dúvida o verdadeiro relevo da improvisação (dado que, para todos os efeitos, se trata de improvisadores) em todos os procedimentos.

 

Trio Hot: “Jink” (Nemu Records)
Nunca imaginaríamos que Albrecht Maurer, violinista em vários grupos de cordas de Kent Carter, o clarinetista Theo Jorgensmann, um dos mais interessantes cultores do instrumento que toca, e o contrabaixista Peter Jacquemyn, um herdeiro de Peter Kowald, alguma vez poderiam soar como neste “Jink”. Daí a surpresa de os encontrar num projecto que mimetiza as “hot bands” europeias dos anos 1930. Trata-se de uma releitura (totalmente improvisada, por estranho que pareça) do swing de Stéphane Grapelli, Joe Venuti, Benny Goodman e Artie Shaw, pertencendo surpreendentemente a única composição interpretada no álbum ao espólio do be bop, “Round Midnight”, de Thelonious Monk. Os desfechos são interessantes, mas a não ser pelo exercício fica por entender qual é a pertinência do que se propõe fazer este Trio Hot.

 

Bill Dixon: “17 Musicians in Search of a Sound: Darfur” (AUM Fidelity)
A pouca frequência com que esta grande figura do free trompetístico pisa os palcos e os estúdios contribuiu para que se tornasse numa lenda. E o facto é que o seu regresso está a beneficiar dessa aura. Num primeiro momento, juntou-se a Cecil Taylor e Tony Oxley, mas o que parecia ser um supertrio não resultou particularmente interessante. Já a sua colaboração com a Exploding Star Orchestra de Rob Mazurek foi largamente aplaudida, seguindo-se agora este disco gravado ao vivo na edição de 2007 do Vision Festival. A música diverge bastante da daquela outra “big band”: é seca, agreste e pesada, desenvolvendo-se em permanente desafio aos ouvidos, e de uma tristeza infinita. Até pelo facto de não seguir nenhuma linhagem orquestral do jazz em concreto, Bill Dixon continua a colocar-se no pelotão da frente.

 

Five Spot: “Poltva” (Solyd Records)
Ecos do free jazz original ouvem-se neste disco de um quinteto transnacional liderado pelo lituano Petras Vysniauskas que inclui três ucranianos, Yuri Yaremchuk (um excelente saxofonista e clarinetista!), Roberta Piket e Mark Tokar, e um alemão, Klaus Kugel. O que quer dizer que, se Vysniauskas é conhecido pela forma como inscreve a identidade cultural da Lituânia na música que faz, tal não fica particularmente evidente neste “Poltva”.Uma coisa é certa, porém: o tipo de intensidade e entrega que aqui se escuta é caracteristicamente do Leste. Muito bom, e a fazer lembrar a pujança do Ganelin Trio nos primórdios.

 

Fifty Foot Hose: “Cauldron” (Weasel Disc)
Quem imaginaria que um disco que vendeu pouco na altura do seu lançamento, em 1967, e uma banda que depressa se desmembraria (1969), devido ao seu insucesso, se tornariam tão influentes? Pere Ubu, Throbbing Gristle e Chrome declararam o que lhes deviam e basta ouvir o rock neo-psicadélico e a weird folk destes nossos anos 00 para perceber o quanto os Fifty Foot Hose e o álbum “Cauldron” foram historicamente importantes. Ainda que alinhados com o som “acid” de San Francisco, trouxeram uma novidade à cena de então: tocavam rock enraízado na tradição dos blues com instrumentação electrónica e um conceito formatado na “new music”, com referências que iam do “Poem Eléctronique” de Edgard Varèse a “Silver Apples of the Moon” de Morton Subotnick. Ainda que com uma fiel legião de fãs na comunidade hippie, o grande público não os compreendeu e a crítica chegou a comentar que não sabia se «se eram imaturos ou prematuros», tão “diferente” era o seu som. O visionarismo do grupo de Cork Marcheschi – hoje um renomado escultor que utiliza o néon no domínio da arte pública – acabaria, felizmente, por ser reconhecido e esta é uma de várias reedições de um título fundamental em qualquer colecção dedicada à música criativa. “Feedbacks” de guitarra (David Blossom), vocais pop femininos que lembram uma Grace Slick mais audaciosa do que a cantora dos Jefferson Airplane (Nancy Blossom), algum balanço do jazz e uma parafernália electrónica que inclui o theremin, o echolette e dispositivos inventados pelo próprio Marcheschi (geradores de ruído e “gadgets” com nomes como “squeaky stick” ou “spark gap”): é isto que encontrará quem quiser desvendar o universo destes desbravadores de caminhos, tudo assemblado numa fórmula musical que ainda hoje nos surpreende.

 

Radio I-Ching: “The Fire Keeps Burning” (Resonant)
A fórmula seguida pelo trio nova-iorquino Radio I-Ching (Andy Haas, Don Fiorino e Dee Pop) pode parecer interessante à partida: faz a ponte entre o avant jazz, o transe do rock e da folk neo-psicadélicos e as influências etnicistas, metendo estes ingredientes em formas composicionais muitas vezes emprestadas de outros, contando-se no rol nomes tão variados quanto o nubiano Hamza El Din, o jamaicano Count Ossie, o hawaiano Alfred Newman, mais Don Van Vliet (Captain Beefheart), Roland Kirk, a dupla Prince Lasha / Sonny Simmons e Thelonious Monk. O problema é que, pelo caminho, nunca conseguem encontrar uma identidade própria. Tudo é derivativo, escorregadio e inconsequente. Há, pontualmente, momentos de grande interesse, mas a nada conduzem.