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Diatribes
& Abdul Moimême: "Complaintes de Marée Basse"
(Insubordinations)
Ernesto Rodrigues: "Suspensão" (Creative Sources)
Não é a primeira vez que os suíços Diatribes
(a saber: D'Incise em electrónica, objectos amplificados e
percussão, e Cyril Bondi em bateria e percussão) procuram
a companhia de músicos portugueses na sua travessia europeia
para "criar novas entidades polimorfas", o que resultou
em encontros, cá, com Paulo Curado e João Pedro Viegas,
tal como em outras paragens aconteceu com Barry Guy, Keith Rowe, Jason
Kahn, Jacques Demierre, Christian Weber, Tomas Korber e Mick Beck,
entre outros. No que a parcerias lusas respeita, acontece que esta
documentada em "Complaintes de Marée Basse" é,
sem dúvida, a mais bem sucedida. O interlocutor da dupla é
Abdul Moimême com as suas guitarras eléctricas dispostas
na horizontal, preparadas e atacadas (literal e simultaneamente) com
objectos que, pelas suas natureza e dimensões, são intencionalmente
invasivos. Este integra-se da melhor maneira no universo tenso e percussivo,
feito ora de crepitações minimalistas, ora de súbitas
agitações texturais, deste muito interessante projecto.
Tanto assim que muitas das vezes é impossível discernir
quem faz o quê, o que é a maior ambição
da música improvisada colectivamente. Moimême está,
decididamente, a tornar-se numa figura de referência.
Voltamos
a encontrá-lo no duplo "Suspensão", mas com
resultados bem distintos. Esse é também o nome aplicado
para identificar este octeto liderado pelo violetista Ernesto Rodrigues.
Pelos músicos envolvidos (Guilherme Rodrigues, Nuno Torres,
Gil Gonçalves, Armando Pereira, Carlos Santos e José
Oliveira, além de Abdul Moimême), poderíamos pensar
que se trata de um "redux" da Variable Geometry Orchestra,
mas na verdade consiste numa expansão das coordenadas que Rodrigues
vem aplicando às suas pequenas formações. Ou
seja, não se encontram aqui as massas sonoras e os choques
de frequências da VGO, mas, simplesmente, uma Lilliput mais
povoada. A linha estética adoptada é, pois, a do reducionismo
ortodoxo, com foco nos jogos tímbricos e na manutenção
de texturas. A esse nível, o que ouvimos é muitíssimo
digno, mas nada traz de novo em relação a edições
anteriores do mentor deste grupo de trabalho. Aliás, se a expectativa
era a de encontrar algo que se somasse, ou que fosse diferente, ao
que E.R. fez antes, fica infelizmente patente que este se limita a
copiar-se a si mesmo. Com a agravante de os seus parceiros pouco fazerem
para que se percorram outros caminhos.
David
Maranha: "Antarctica" (Roaratorio)
É inevitável comparar “Antarctica” ao anterior
(de 2007) “Marches of the New World”, e nessa comparação,
se o novo disco, publicado em vinil, do português David Maranha
parece mais sólido e consistente a pegar no conceito que liga
a associação de Tony Conrad com os lendários
Faust às novas tendências do psicadelismo improvisado
de uns Sunburned Hand of the Man ou de uma Vibracathedral Orchestra,
para não falar do drone rock de uns Sunn 0))), também
é certo que é menos conseguido – menos fresco
e menos surpreendente – do que aquele disco. Ainda assim, a
fruição desta música minimalista, mas prenhe
de pormenores, proporciona-nos momentos de uma especial beleza hipnótica.
Maranha surge com o violino e com o órgão e no grupo
que o acompanha destacam-se o guitarrista Riccardo Dillon Wanke, Patrícia
Machás, sua parceira nos Osso Exótico, e o baterista
Afonso Simões, que já ouvimos com Rafael Toral e Manuel
Mota.
Diatribes
& Barry Guy: "Multitude" (Cave 12)
Se bem que uma boa parte daquilo a que se chama "música
improvisada" tenha o carácter nervoso e hiperactivo que
encontramos em "Multitude", não se pode dizer que
a junção do contrabaixista veterano Barry Guy ao mais
jovem duo de D'Incise (computador, objectos amplificados) e Cyril
Bondi (bateria, percussão) percorra caminhos já muito
ouvidos – felizmente, este é um território propício
aos encontros imprevistos. Os Diatribes afastam-se neste registo ao
vivo das conotações free jazz de outras colaborações
suas e Guy troca a lógica de escalas pela de texturas, à
semelhança do que vem fazendo com o Electro-Acoustic Ensemble
de Evan Parker. Neste contexto, com mais espaço de intervenção,
o que resulta numa delícia para quantos, como nós, o
admiram. O clarinetista Benoît Moreau participa numa das faixas,
com o mesmo sentido colectivista que os restantes intervenientes –
ou seja, enquanto parte de um todo.
Dave Liebman / Evan Parker / Tony Bianco: "Relevance" (Red Toucan)
Se dúvidas ainda houvesse quanto à ligação umbilical que o patriarca da livre-improvisação europeia, Evan Parker, tem com o jazz (ele que já publicamente manifestou – numa palestra realizada na Fundação Gulbenkian, em Lisboa – o seu especial apreço pelo legado de John Coltrane), este seu encontro com Dave Liebman, outro saxofonista coltraneano que habitualmente é rotulado como um músico "mainstream", é a prova provada de que, afinal, estes dois mundos da música de hoje estão mais interligados do que muitos querem admitir.
Com vocabulários cruzados do bop e do free, mas totalmente improvisada, a música que aqui se ouve foi gravada em 2008 num clube de Londres, o Vortex. Nunca antes Liebman e Parker haviam tocado juntos, o que é, no mínimo, surpreendente, tal a afinidade entre ambos que nos é revelada por "Relevance". O mediador desta reunião de gigantes é Tony Bianco, um excelente, mas inexplicavelmente pouco reconhecido, baterista que tem a particularidade de encadear, no mesmo jogo percussivo, textura e pulsação. Esta dupla condição serve de âncora para os dois sopradores, cada um dela aproveitando o que mais lhe diz respeito técnica e esteticamente, e de facto Bianco é o motor de tudo o que vai acontecendo. Motor em todas as implicações da palavra, pois o incentivo que dá aos seus parceiros nunca pára e sempre se renova, com uma intensidade que, por vezes, chega a ser desnorteante.
Há aqui "fire music" e extremo lirismo, fraseados de DNA jazzístico e explosões de criatividade pura. Inútil será tentar descobrir quem está mais "dentro" ou mais "fora", se Liebman ou Parker. A verdade é que, em certas passagens, o Dave Liebman que aqui se ouve é o mais livre de sempre, tanto quanto o próprio Parker, e este poucas vezes terá sido tão "jazzy" como nestes dois "sets" divididos em quatro partes. Por ocasiões, não é fácil diferenciar os estilos pessoais dos dois músicos, tão emaranhados ficam nesta compita. Uma maravilha, absolutamente a não perder.
Donat Fisch / Christian Wolfarth: "Circle & Line 2" (Leo Records)
Dez anos depois da edição de "Circle & Line", os suíços Donat Fisch e Christian Wolfarth (uma presença habitual na Leo Records) voltam a inserir-se na linhagem do duo de saxofone e bateria aberta por Dewey Redman e Ed Blackwell. A esse nível, o que aqui ouvimos é previsível e pouco acrescenta ao que antes fizeram e mesmo ao modelo que perseguem, mas a música é tão poderosa e a interactividade a que conseguem chegar tão efectiva que depressa esquecemos esse factor. Acresce uma mais-valia: passada uma década, Fisch e Wolfarth estão mais maduros e seguros, e isso quer dizer que tocam melhor.
D'Incise: “Sécheresse Plantée en Plein Ciel” (Gruenrekorder)
D'Incise: “Cendre et Poudre” (Antisocial)
D'Incise: “Les Lendemains Étendus” (Audioactivity)
D'Incise: “Morsure Souffle” (Test Tube)
Com o "nickname" musical de D'Incise, o suíço Laurent Peter é uma presença frequente na cena do jazz livre e da música improvisada em Portugal, por cá tendo tocado com músicos como Ernesto Rodrigues, Paulo Curado, João Pedro Viegas, Abdul Moimême, Hernâni Faustino e Pedro Sousa, em colaborações directas ou inserido no duo Diatribes, projecto que partilha com o baterista Cyril Bondi. Mentor da "netlabel" Insubordinations, que já lançou um colectivo português, o Potlatch de Monsieur Trinité, está igualmente envolvido com a Audioactivity e é ele próprio quem se encarrega da arte e do excelente "design" das suas muitas edições – sempre com uma deliciosa apresentação artesanal. Todas as que aqui reúno datam de 2009, um ano especialmente produtivo para este "laptoper" que gradualmente vem incidindo a sua atenção no uso de microfones de contacto e em curiosas manipulações da percussão e de objectos vários, bem como na recolha e no processamento de "field recordings". Ainda que de qualidade desigual, todos estes discos constituem renovadas facetas daquele que apresenta como «um universo feito de fracturas sonoras, crepitações nevrálgicas, atmosferas melancólicas e um fascínio não-dissimulado por ritmos em fritura».
Sobretudo, D'Incise soube adaptar as perspectivas da electrónica ambiental e noise à prática improvisacional, utilizando os meios digitais e analógicos numa música que se preocupa, acima de tudo, com o carácter acústico das construções. Aliás, neste âmbito a sua gestão das dinâmicas e dos espaços constitui um raro exemplo de adequação. Não se trata apenas de uma particularidade de estilo: o objectivo a que se propõe é precisamente esse, «diluir a distinção entre sons acústicos e sons computadorizados, de modo a confiundir as percepções», mesmo que a música resultante seja algo de «instável» e «reactivo». No trabalho que realiza em colaboração com outros músicos (a célula Diatribes tem por hábito chamar à participação instrumentos convencionais como o piano ou o saxofone) assume mesmo o risco de cruzar o seu "modus operandi", baseado na criação e na sustentação de texturas, com, da parte dos convidados, vindos estes geralmente do jazz, uma lógica que tem a nota como fundamento e o fraseado linear como regra. Umas vezes esses encontros resultam menos bem, senão mal, mas em outras proporcionam-se especiais surpresas.
Seja como for, é a solo que melhor compreendemos aquilo que D'Incise procura, e é esse o caso destes registos. O menos interessante será "Sécheresse Plantée en Plein Ciel", não pela música proposta, que chega em alguns momentos a requintes de sombria beleza, mas porque cai em redundância a nível de materiais e de atmosferas. A meio caminho, a audição torna-se cansativa e apetece tirar o CD do leitor. Com o mesmo enquadramento, "Cendre et Poudre" é bastante mais convincente. Os temas oferecem diferentes perspectivas e os jogos percussivos são não apenas sonicamente mais ricos, como evoluem em permanente mutação, ora impondo-se pela densidade, ora cativando-nos por meio de um intrigante efeito de transparência. Não foi por acaso que a crítica suíça apontou Laurent Peter como um «plasticista sonoro». Percebe-se, inclusive, que são aplicadas técnicas do dub – para quem não saiba, o nome dado ao reggae tratado e criativamente remisturado em estúdio. A transposição de metodologias específicas de um género musical para outro, separando-as da sua gramática, é um dos sinais distintivos do presente estádio da criatividade musical.
Novo tratado do ritmo em contexto de abstracção, "Les Lendemains Étendus" volta a ser pouco "listener friendly", pecando pela reduzida variabilidade das abordagens. O seu conteúdo tem bons argumentos, mas depressa, malogradamente, nos entedia. D'Incise corta a direito, dirigindo-se ao ponto onde quer chegar sem grandes desvios, mas o que a ele pode significar objectividade, para o ouvinte torna-se num bocejo. Já "Morsure Souffle" é a pérola deste lote. Para as mais-valias obtidas muito contribui a generosa inclusão de "found sounds". Neste trabalho sim, é difícil adivinhar o que vai acontecer de seguida, tal a abertura de possibilidades inerente ao campo em exploração. O que normalmente Peter faz com objectos amplificados, consegue com ainda maior proveito recorrendo ao seu banco de sons. Poucas vezes uma música improvisada tem igualmente uma índole laboratorial, pelo que encontramos neste álbum o melhor de dois mundos. Atrevo-me mesmo a dizer que este CD é disso paradigmático. Ou seja, um exemplo a seguir.
Daniel Levin Quartet: “Live at Roulette” (Clean Feed)
Por vezes, apenas a mudança de instrumentação num combo convencional é o suficiente para tocar uma música totalmente diferente. No caso do Daniel Levin Quartet desde logo se nota a inexistência de um “kit” de bateria, e se pensarmos que tal facto anuncia algum tipo de jazz de câmara (reafirmado pela presença de um violoncelo), coloquemos as coisas a claro desde o início: não é verdade. E Levin ainda torna as coisas mais complicadas: definiu os papéis de cada interveniente na música – o trompetista Nate Wooley, o vibrafonista Matt Moran, o contrabaixista Peter Bitenc e ele próprio no “cello” – com o exclusivo propósito de ignorar as predefinições estabelecidas. Assim sendo, não encontramos neste grupo uma secção rítmica formal e os dois instrumentos melódicos não estão necessariamente “à frente”. É necessário acompanhar os trajectos individuais no todo musical sem esperar encontrá-los nos lugares habituais. Só assim é possível seguir o rasto das conversações desenvolvidas, bem como os pequenos jogos de tensão criados. Tudo se move, como numa composição de Morton Feldman, com a diferença de que os elementos de surpresa são proporcionados pela improvisação. Encontram-se reminiscências da third stream, do cool e do free jazz dos inícios, mas apenas como tijolos para a construção de uma música inteiramente do nosso tempo. Talvez ainda não esteja aqui o próximo paradigma, mas certamente que anuncia “the shape of jazz to come”.
Don Cherry / Nana Vasconcelos / Colin Walcott: “The Codona Trilogy” (ECM)
Para muita gente, este vosso escriba incluído, a descoberta do trio Codona no início da década de 1980 foi uma excitante surpresa. Era algo mais do que o jazz livre e de colorações étnicas que Don Cherry já tinha feito (reavivando as minhas memórias do que ficara gravado em “Rawalpindi Blues”, uma das melhores faixas da obra-prima absoluta de Carla Bley, “Escalator Over the Hill”, e de um concerto muito especial no S. Luiz que juntou o trompetista ao violinista L. Shankar), e ia mais longe do que qualquer coisa que tivesse incluído os exotismos percussivos de Nana Vasconcelos, que sempre tiveram mais que ver com os índios do Amazonas e a ancestralidade africana do que propriamente com a música popular brasileira. Quanto a Collin Walcott, se já o conhecíamos dos Oregon de Ralph Towner e Paul McCandless e de dois títulos em nome próprio na editora alemã, foi neste contexto que realmente impôs a seriedade com que abraçava os rigores clássicos da Índia em dois difíceis instrumentos, o sitar e as tablas.
Com a morte de Walcott em 1983, o projecto apenas resultou em três discos, que depressa se tornaram objectos de colecção, ainda mais valorizados com a passagem dos anos e com a ausência de reedições – isso se exceptuarmos uma compilação “low price” que, entretanto, a ECM lançou no mercado. Pois agora fez-se justiça a esses marcos das carreiras dos três músicos, com “Codona”, “Codona 2” e “Codona 3” reunidos numa caixa de um branco apenas constratado pela tipografia do “lettring” identificativo do que vem lá dentro. Faz todo o sentido que tenha sido este o momento escolhido, pois vamos assistindo não só a um recrudescimento das abordagens etnicistas do jazz como à sua constituição enquanto tendência de características próprias. A verdade é que, neste contexto, o conteúdo de “The Codona Trilogy” é de uma actualidade que não deixa de ser intrigante – Cherry, Vasconcelos e Walcott estavam, decididamente, muito à frente do seu tempo. O primeiro já se envolvera na revolução do free jazz, pelo que o visionarismo, aqui, é a medida da sua inventividade.
David Murray / Mal Waldron: “Silence” (Justin Time)
Este é um disco histórico, não só devido à importância do encontro dos dois gigantes do jazz em questão como pelo facto de ser a última gravação conhecida de Mal Waldron, que nos deixaria no ano a seguir, 2002, aos dois concertos no Odeon de Bruxelas aqui documentados. Tardou a sua edição, mas preciosidades há que ganham mais valor com a passagem do tempo. Juntando temas originais de Waldron (o primeiro do CD, “Free For C.T.”, em parceria com Max Roach e dedicado a Cecil Taylor) e David Murray a alguns “standards”, como “All Too Soon” de Duke Ellington e “Jean Pierre” de Miles Davis, fundem-se em “Silence” a tradição e a vanguarda, com o hard bop como tónica dominante. Robusta, extrovertida e inspirada, esta música não desmerece da que Waldron gravou também em duo com Steve Lacy ou que Murray deu à estampa nos melhores títulos da sua discografia. A influência monkiana do pianista está bem em evidência, exponenciando-a mesmo em desenvolvimentos ainda mais soltos, e o saxofonista confirma de novo o seu estatuto de continuador da mais nobre linhagem do tenor, aquela que remonta a Coleman Hawkins e Ben Webster, muito embora seja com o clarinete baixo que nos deixa de queixo caído em “Soul Eyes”. Um antigo colaborador do seu parceiro, Eric Dolphy, é a grande referência deste tipo de abordagem, e termos isso em mente durante a audição faz com que esta dupla ganhe um maior sentido. Se cada um dos intervenientes tem espaço para investir toda a sua musicalidade e inventiva, é na forma como se relacionam que está a chave dos sucessos verificados: em vez de se fixarem nos lugares implicados pelos seus respectivos instrumentos, melódicos os sopros, harmónico/rítmico o piano, o trabalho realizado por Murray e Waldron a dois ora é contrapontístico, subentendendo-se uma equiparidade de funções, ora procura uma alternância de papéis. Assim, Mal Waldron assume por completo o seu provervial gosto pela melodia (especialmente nos temas mais líricos e baladeiros), além de garantir a sustentação de baixos com a mão esquerda, e David Murray envereda amiúdes vezes por construções mais texturais, utilizando por exemplo o “slap-tonguing”. Altamente recomendado.
Delta Saxophone Quartet: “Dedicated to You... But You Weren’t Listening – The Music of Soft Machine” (Moonjune)
Quarteto de saxofones sediado em Londres, este constituído por Blevins, Whyman, Holmes e Caldwell utiliza as técnicas mais avançadas no manejo dessa família instrumental (microtons, multifónicos, etc.) e tem dividido a sua actividade entre a interpretação de música escrita, por compositores conotados com o minimalismo como Gavin Bryars, Philip Glass, Steve Reich e Louis Andriessen ou por nomes do jazz como Mike Westbrook, e a improvisação livre. Desta feita, pegou no repertório do grupo de jazz-rock Soft Machine para lhe dar uma perspectiva totalmente diferente. Passa esta pelo arranjo de peças compostas a pensar no núcleo de órgão, guitarra baixo e bateria dessa formação, convertendo-as para uma fórmula em tudo distante com instrumentos melódicos. A participação do baixista da Máquina Mole, Hugh Hopper, em um dos temas (“Facelift”) firma o elo com a música original, e a intervenção de Morgan Fisher em “Outrageous Moon” introduz um entendimento da electroacústica que, se não corresponde aos conceitos aplicados pelos Soft Machine (conhecidos pela forma irreverente e experimental como manipulavam em estúdio as suas gravações – evocada apenas em “You”), pois serve para o estabelecimento de um “drone” de fundo e para o reforço do desenho melódico em uníssono dos saxes, tem pelo menos a vantagem de vestir uma música marcada pelo tempo com as cores e os figurinos da actualidade.
A influência da escola minimalista nestas versões está bem patente tanto na valoração que se faz do timbre dos saxofones como na atenção aos ambientes criados, não sendo errado dizer que ocupa em “Dedicated to You...” o lugar de que se retirou a referenciação rock. De facto, nunca a banda de Canterbury soou tão pouco rock como nesta recriação das suas composições. Uma coisa é certa, no entanto: o Delta Saxophone Quartet soube reproduzir aqui a abordagem psicadélica que caracterizou a melhor faceta dos Soft Machine. Numa altura em que o psicadelismo musical é uma prática retomada, e levada até a desfechos não explorados na década em que despontou, a de 1960, a pertinência desse facto é óbvia. Só é pena que não se tenha resistido a imitar a voz de Robert Wyatt, e exactamente na mesma canção (ainda “Outrageous Moon”) em que uma sanfona electrificada substitui de modo deveras interessante a sonoridade retirada por Mike Ratledge ao seu Hammond.
David Grubbs / Susan Howe: “Souls of the Labadie Tract” (Blue Chopsticks)
Depois de “Thiefth”, o multi-instrumentista e compositor David Grubbs, ex-Gastr Del Sol, e a poeta Susan Howe, uma das mais emblemáticas dos Estados Unidos, voltaram a juntar-se para criarem um novo projecto de “spoken word” e música. Mas não, simplesmente, com o intuito de prosseguirem o que fizeram antes – “Souls of the Labadie Tract” é um objecto bem diferente, e sobretudo devido ao seu carácter simultaneamente cru e esotérico. Ao longo da duração deste disco, Grubbs utiliza apenas dois espécimes com distintas tonalidades de um órgão de boca do Laos, o khaen, além de um velho sintetizador VCS3, demitindo-se de grandes trabalhos a nível de pós-produção, enquanto Howe “diz” os seus textos em total alheamento relativamente aos conceitos declamativos ainda hoje imperantes, apesar de seguirem um modelo que data do século do Romantismo. Não lê apenas, mas também não representa, e não joga propriamente com a fonética, à maneira dos poetas sonoros, preferindo lidar com a força “ideomática” (de ideia) e imagética das palavras. Não vale a pena buscarmos referências quanto ao que ambos fazem aqui – este não é o universo de Robert Ashley, nem tão-pouco (algo que até seria legítimo admitir, dadas as origens no pop-rock de Grubbs) o de Henry Rollins ou Jello Biafra. Trata-se de algo muito menos programático, e daí com certeza o facto de o primeiro tomo desta colaboração ter agradado tanto. A frescura criativa continua a ter melhor efeito que o seguimento de fórmulas. E contar estórias (Susan Howe lembra os Labadistas, uma seita utópica que se instalou no Maryland entre 1684 e 1722) é ainda na poesia uma boa alternativa à introspecção psicológica ou ao automatismo da consciência.
David Toop: “Sound Body” (Samadhisound)
Se forem à página de David Toop no myspace.com encontrarão lá uma lista daquilo que faz mexer este músico, ensaísta e jornalista. O canto dos pássaros, o escritor Edgar Allan Poe, Ornette Coleman, John Cage, Brian Wilson dos Beach Boys, o autor de ficção científica J. G. Ballard, os Velvet Underground, o compositor Morton Feldman, o “pai” do ambientalismo, Brian Eno, os jardins japoneses, os artistas Antoni Tapies e Max Ernst, os blues de John Lee Hooker, o cineasta experimental Chris Marker, o rei do dub Lee “Scratch” Perry, Olivier Messiaen e Aleister Crowley, também conhecido como “a Besta”, estão entre os nomeados. Tal leque de referências não só ilumina como esclarece o que vem dentro deste “Sound Body”, e talvez ainda mais do que aconteceu em anteriores álbuns de Toop. Porquê, perguntarão vocês? Porque a música aqui ouvida é poliforme, no sentido de que consegue ser uma coisa e outra em simultâneo, assumindo uma condição quântica. Em vez de meras associações, o que encontramos são verdadeiros híbridos, e como tal completamente ambíguos. Clive Bell, os irmãos Angharad e Rhodri Davies, Haco, John Latham, Miya Masaoka, Gunter Muller, Lee Patterson, Kenji Siratori, Stefano Tedesco, Rafael Toral e Emi Watanabe contribuíram para o produto final com gravações individuais, e foi sobre elas que o autor do livro “Haunted Weather” trabalhou para chegar ao que aqui ouvimos. Uma “ambient music” que não serve como papel de parede, “avant” mas sustentada na primordialidade do som (repare-se na função dos “found sounds” e dos concretismos com papel) e em instrumentos ancestrais como as flautas pi saw, shinobue e nohkan e o japonês koto), electroacústica ainda que alheia à ditadura do “drone” sempre, ou quase sempre, que há o envolvimento de um computador. O melhor que este participante no projecto Aqua Matrix (Expo 98) já nos ofereceu, arrisco eu...
Dave Burrell: “Momentum” (High Two)
O pianista Dave Burrell é um daqueles músicos que identificamos imediatamente com uma época do jazz, seminal sem dúvida, mas localizada no tempo. Se o que fez na alvorada do free lhe deu estatuto de lenda, tal entendimento é injusto se não tivermos em conta que o músico continua vivo, activo e com coisas a dizer. Depois de “Expansion”, em 2004, o disco que marcou o seu regresso à ribalta, chega-nos o novo “Momentum”, mais uma vez com a fórmula que tem claramente a sua preferência: o trio de piano. Michael Formanek tem o lugar do contrabaixo, que antes coube a William Parker, e Guillermo E. Brown está na bateria, naquele outro álbum ocupada por Andrew Cyrille. Geralmente comedido, o que entra em contraste com a rudeza característica do seu ataque, que se mantém íntegra, este é um trabalho de plena maturidade, pressentível por exemplo no monkiano e notável “Coup d’État”. As repetições de motivos, como em “Downfall” e “4:30 to Atlanta”, e o geral fragmentarismo dos fraseados joga com uma quase ascética economia de notas mas ao mesmo tempo com uma larga amplitude de dinâmicas e por vezes até com uma complexidade de filigrana (a faixa-título, por exemplo). A linguagem é assumidamente bop, mas este é um bop distinto daquele que se define com tal designação, heterodoxo, aberto, muitas vezes até desconcertante. As figuras rítmicas de Brown em muito contribuem para que assim seja e dão, inclusive, um cunho de modernidade ao conjunto das interpretações – na primeira peça, “Downfall”, lembra-nos as suas incursões por um certo “groove” vizinho da música negra de dança ou até do hip-hop. O que não impede que, em outras passagens, invoque a ancestralidade da percussão africana. Formanek, por sua vez, está muito presente, é sempre oportuno e evidencia uma solidez de rocha. Não há grandes rasgos no que faz, mas é isso mesmo que o torna no eixo seguro de todos os desfechos.
David Murray Trio: “3D Family” (hatOLOGY)
Reedição do álbum gravado ao vivo no lendário Festival de Willisau em 1978, “3D Family” lembra-nos o saxofonista David Murray no período inicial da sua carreira, quando o free jazz estava ainda “em processo” e o irmão de Sunny tinha uma postura radical, senão mesmo “in your face” (o seu virulento “Flowers for Albert” data de pouco antes, 1976), bem diferente do estilo elegante e mais convencional que depois adoptou. É verdade que neste período já Murray estava a desenvolver a sua vertente de compositor, resultado talvez da sua entrada no World Saxophone Quartet, o que trouxe complexidade, sofisticação e enfoque à sua maneira de tocar, mas porque se trata de um registo “live”, e porque encontramos aqui a mais essencialista das formações free, o trio sem piano (com o sul-africano Johnny Dyani no contrabaixo e Andrew Cyrille na bateria), o que temos é lava a escorrer pela encosta do vulcão. Exuberante, incisivo e aguerrido (títulos como “Shout Song” e “In Memory of Yomo Kenyatta”, político anticolonialista e primeiro Presidente do Quénia, dizem tudo sobre o tempo de militância que então ainda se vivia), este disco vale por muitos factores: o som redondo e possante do tenor de David Murray, e que apesar de todas as rupturas estilísticas continua o legado dos grandes do instrumento, como Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young, o imediatamente reconhecível, mas sempre surpreendente, jogo de pratos de Cyrille e a sustentação dançante de Dyani são apenas alguns. Há mais para descobrir nestes 70 minutos de boa música...
Damsel: “Distressed” (Temporary Residence)
O nome Damsel pode nada querer dizer a muitos, mas se acrescentarmos que é o que identifica o “side project” de Nels Cline (o membro dos Wilco que se tem notabilizado também na área da improvisação livre e até na do jazz, graças às suas reinterpretações de temas do pianista e compositor Andrew Hill e da “opus magnum” “Interstellar Space” de John Coltrane) e Zach Hill (o co-fundador dos Hella que vem dando cartas como um dos grandes “beat freaks” da actualidade, conhecido pelo método “double stroke” com que utiliza o bombo e por utilizar pratos partidos), já as coisas, com certeza, mudarão de figura. “Distressed” conta ainda com os préstimos de Matt Zivich no sintetizador EMS, que é curiosamente o engenheiro de som dos concertos dos Wilco, e do baixista Jonathan Hischke, que não é outro senão o que o duo Hella contrata quando parte para a estrada. Juntos tocam um free rock com, por vezes, sabor jazzístico e / ou dimensão noise, totalmente improvisado num único dia de gravação e mistura num estúdio de Chicago, aliás o seguinte à reeleição de Bush (nota-se o ranger de dentes) para a Presidência dos EUA. São duas as vertentes cobertas pelo disco; por um lado a intensidade “blowout” que tem caracterizado os Wilco mais recentes, por outro os abstraccionismos electroacústicos mais lentos – se bem que com tempos estranhos – que lembram o minimalismo dos Hella. Muito experimental, mas sólido, vindo de músicos americanos para quem as fronteiras entre géneros pouco interessam.
Dead C (The): “Vain, Erudite and Stupid – Selected Works 1987-2005” (Ba Da Bing Records)
Pioneiros do noise-rock no mais improvável dos países, a Nova Zelândia, terão sido os Dead C a abrirem as portas a projectos como Wolf Eyes, Black Dice, Earth e Sunn 0))) com a sua proposta musical balizada entre o modelo “garage band” e o experimentalismo “drônico” (perdoe-se-nos o neologismo). Conscientes da importância que tiveram e têm, Bruce Russell, Michael Morley e Robbie Yeats organizaram esta compilação de temas que cobrem 18 anos de actividade, antes saídos em cassete, vinil e CD e alguns deles já muito difíceis de encontrar. O que ouvimos não é simplesmente outra maneira de tocar o velho rock and roll, mas autêntico desconstrucionismo das estruturas e das formas do género. Tanto assim que, quando de súbito voltamos a deparar-nos com um “riff”, ficamos com a ideia de que, pormenores à parte, é sempre o mesmo tema que o trio se ocupa em destruir – não o conseguindo, o que é sempre garantia de que vamos ter mais. Daí, aliás, o tipo de abordagem que privilegiam, a improvisação, e regra geral com uma dimensão “freak out” que faz com que sejam identificados com o psicadelismo americano das décadas de 1960 e 70. Verdade, verdade, é que têm mais a ver com um free rock paralelo em tudo ao free jazz do que com o noise, se como este entendermos o que faz a facção japonesa ou o que propõe a electrónica “hardcore”.
Derek Bailey: “To Play: The Blemish Sessions” (Samadhisound)
Estarão lembrados os admiradores de David Sylvian – e os de Derek Bailey – das canções de “Blemish” em que a guitarra do malogrado guitarrista britânico surge a acompanhar a voz do ex-Japan que elevou o modelo da canção pop a um nível de refinamento sem igual, apenas comparável aos Beatles do período psicadélico, a Syd Barrett já depois de o LSD lhe ter queimado os neurónios, e a certos temas de Prince, com “Purple Rain” na dianteira, ou de Nick Cave, nos tempos áureos dos Bad Seeds, ainda com Blixa Bargeld na banda. Sylvian “encomendara” a Bailey apenas algumas improvisações que servissem de base para o seu trabalho composicional e de arranjos, o que se verificou para agrado geral (ou quase: é de imaginar os puristas da improvisação “hardcore” a roer as unhas). O que não se sabia era que o inventor de toda uma nova linguagem para a guitarra tinha gravado e enviado ao cantor radicado nos Estados Unidos a quantidade de música suficiente para editar um álbum inteiro. São esses registos originais, tal como foram tocados, que agora a Samadhisound torna públicos.
E que belo disco é este “To Play: The Blemish Sessions”, surgindo mesmo como uma continuação de “Ballads”, o título com que Derek Bailey lembrou que sabia tocar melodias e definir estruturas – algo que lhe era familiar antes de optar por aquilo que baptizou como “música não-idiomática”, uma música abstracta, sem vocabulário e sem gramática estabelecidos, a executar no próprio momento da sua criação. Ouvimos alguns acordes menores típicos do jazz, vão surgindo alusões aos guitarrismos do flamenco, sucedem-se os fragmentos de melodias e as formas rítmicas, mas o que espanta, sobretudo, é que neste solo pareça estar em diálogo com alguém, dando-lhe espaço para intervir e até lançando-lhe uma boa quantidade de deixas. Ou seja, Bailey imaginou a voz de Sylvian ali mesmo no estúdio, a seu lado, e agiu em conformidade. Só um grande músico teria a habilidade de o fazer. David Toop, multi-instrumentista, crítico musical e amigo de Derek Bailey, diz mesmo que se trata de um dos melhores álbuns a solo de sempre do mago das seis cordas. Agora é a nossa vez de ouvir.
Diane Cluck: “Monarcana” (Very Friendly)
Incluída na colectânea “Anti Folk Volume 1”, o que desde logo lhe impôs um rótulo, Diane Cluck bem pode virar a tradição folk do avesso e ter como principais referências duas figuras de famílias musicais bem distintas, o compositor surrealista Erik Satie e a original cantora pop Kate Bush, mas a sua área de actividade está muito bem definida e podemos nomeá-la com uma positiva e não uma negativa, folk de facto e não antifolk. Mesmo quando o que encontramos em “Monarcana” sejam canções incompletas ou até pequenos fragmentos vocais e instrumentais que poderão vir a ser canções no futuro, regra geral improvisadas – letra e música - ou em esboço (em “esqueleto”, afirma ela). Cluck justifica-as como uma forma de comunicar directamente com cada pessoa que a ouve em casa, diante da aparelhagem, porque para comunicar ao vivo com o público diz-se obrigada a formatar o que faz, e só desse modo podemos entender que se tivesse dado ao trabalho de sobregravar a sua voz e os vários instrumentos que ouvimos (não há outros intervenientes) em temas que mais parecem apontamentos e que com certeza não funcionariam em concerto. Ou seja, por um lado montou, misturou, deu forma, por outro fez questão de deixar as coisas em estado bruto. Do mesmo modo, as harmonizações quase corais que constrói, denunciando a formação clássica que tanto se esforça por refutar, têm a contraparte de usos guitarrísticos (sobretudo, mas também ouvimos piano, violino, xilofone, órgão, harmonium...) “offkey” e “offtempo”, fazendo-nos lembrar mais um Jandek do que um John Fahey, apesar de este ser apresentado como a alma do movimento em que Cluck é inserida. Este álbum até pode ser o resultado de um investimento arriscado, mas sai-se muito bem, pois temos assim uma melhor percepção dos seus processos e de algo que é fundamental na sua obra, a espontaneidade.
DoPo: “Last Blues, to be Read Someday” (Test Tube)
Os DoPo podem ser “ladrões sonoros”, como lhes chama o sempre certeiro José Marmeleira, e isso porque vão buscar a matéria-prima da sua música a várias fontes, mas o modo como trabalham a este nível começa a fazer-se notado, senão pela originalidade (dado que hoje ser original é uma impossibilidade prática), pelo menos tendo em conta o assumido subjectivismo com que o fazem. E que arte mais subjectiva haverá, afinal, do que a música? Será incorrecto, pois, compará-los com os Sunburned Hand of the Man, mas é o que vem acontecendo vezes demais. Ao que aquele grupo tem de maneirismos “flower power” fora de tempo, os portugueses contrapõem com uma postura de análise caracteristicamente experimental – em vez de fazerem profissões de fé, partem da dúvida e procuram, tentam, equacionam, são bem sucedidos ou falham, sendo as falhas tão importantes quanto os sucessos. Os pseudo-orientalismos e as situações “freakfolk” até podem ser semelhantes, mas não o modo como os conjugam. Como me disse uma vez o inteligente Otomo Yoshihide, dos poucos músicos a fazerem noise, jazz e pop com a mesma coerência, não interessa o que se faz, mas como se faz, e o certo é que o quinteto portuense está no bom caminho. Depois de uma década, a de 1980, com tanta oferta inconvencional no campo do rock, surpreendeu negativamente que os anos 90 fossem quase de desaparecimento das atitudes contracorrente. Mais eis que neste início de século se vão multiplicando novamente os casos de rebeldia contra o medíocre rock da rádio e da MTV, sendo indubitavelmente os DoPo um dos mais interessantes.
DJ Spooky That Subliminal Kid & Dave Lombardo: “Drums of Death” (Thirsty Ear)
Verdade se diga que as tentativas de cruzamento do hip-hop com o metal não foram na maior parte dos casos muito bem sucedidas, mas “Drums of Death”, resultado da improvável associação de DJ Spooky (ou Paul D. Miller, para referir o homem por trás da persona) com Dave Lombardo, o baterista dos Slayer que hoje encontramos nos Fantômas de Mike Patton, é uma notável excepção. Uma improbabilidade, aliás, que se estende aos músicos convidados para com eles gravarem este álbum: Chuck D, excelente nas “covers” incluídas dos inultrapassáveis Public Enemy, de que fez parte; o guitarrista Vernon Reid, membro dos Living Colour e uma das grandes figuras da Black Rock Coalition, colectivo que vem lembrar que o rock foi inventado pelos negros; o baixista e produtor Jack Dangers, dos Meat Beat Manifesto; e, numa das faixas apenas (sniff), Dalek, “rapper” que nos tem mostrado haver um futuro para a poesia da rua que não se deixou fascinar pelas grandes mansões, os carros desportivos e as soqueiras de ouro. Em vez de um disco de simples fusão, Miller e Lombardo encararam esta parceria como um jogo, e de facto tudo parte das disputas que desenvolvem entre ambos, com o Subliminal Kid a sobrepor camadas e camadas de citações do trash metal (não só: em “Assisted Suicide”, por exemplo, ouvimos a cantora experimental Meredith Monk, pilhada de “Do You Be”), fazendo jus à sua visão dos pratos como um instrumento mnemónico, e o ritmista preferido dos “headbangers” a meter-lhe fogo por baixo dos pés com a habitual falta de gentileza a tratar peles e metais. Curioso é o facto de os resultados terem recebido um tratamento que equaciona a imagética cyber-punk da ficção científica com a dos “comics” na perspectiva da revista francesa “Metal Hurlant”, o que vai desde os títulos dos temas (alguns exemplos: “Quantum Cyborg Drum Machine”, “Metatron”, “Sounds From Planet X”, “Terra Nullius (Cyborg Rebellion on Colony Planet Zyklon 15)”, “Particle Storm”) à própria “cover art” de Jim Burns, com as suas naves espaciais e os seus astronautas e extraterrestres. Será de lembrar o interesse de DJ Spooky pela obra de Bruce Sterling, escritor de FC sobre o qual assinou um ensaio, seguido de entrevista com o dito, em que assinala o facto de este autor basear as suas estórias no quotidiano do estranho tempo em que vivemos, apenas esticando o factor “possibilidade” até ao limite cientificamente plausível, isto tendo em conta que a física quântica já indicou estar essa fronteira bem longe. Ou seja, o nu-metal “alternativo” deste projecto é encarado como a banda sonora de um presente cuja incredibilidade é algo do domínio da ficção, tipo “live it to believe it”. Por algum motivo, o mesmo Miller que agora publicou o livro “Rhythm Science”, manifesto sobre a mixagem dos fluxos informativos da actualidade, vai de seguida estrear-se na literatura com “And Now A Message From Our Sponsors”, tendo como ponto de partida a cultura DJ, matéria da ordem do fantástico e da antecipação, outras formas de dizer “ficção científica”.
Diskaholics Anonymous Trio: “Weapons of Ass Destruction” (Smalltown Superjazz)
Disse Thurston Moore após os ataques do 11 de Setembro que tinha sido obrigado de um dia para o outro a formar uma consciência política, e aqui está um exemplo concreto disso mesmo. O título deste disco é uma ironização do repetido argumento de Bush e Blair que justificou a invasão do Iraque: a suposta (e depois desmentida pelos factos) existência de “weapons of mass destruction” naquele famigerado país. Retirando simplesmente um “m”, ficou a diatribe punk que é “Weapons of Ass Destruction”, aludindo ao cu do poder americano (e mais não desvendamos a quem não percebeu o jogo de palavras em Inglês). Pois é o primeiro guitarrista dos Sonic Youth que aqui surge em mais uma das suas incursões experimentais, na companhia do sintetizador de Jim O’Rourke (que saiu daquele grupo em finais do ano passado, depois de cinco anos de colaboração) e do saxofonista sueco Mats Gustafsson. Punk, dissemos? Pois é verdade: as duas longas faixas têm algo de “Confusion is Sex”, o álbum dos SY mais conotado com a filosofia “no future”, ainda que com uma maior acentuação do factor “noise” e entrando nos domínios da improvisação em que as coordenadas do free jazz se encontram com as do free rock, assim estabelecendo uma música trans-idiomática e exponencialmente urbana. Minimalista, proto-electrónico e ambiental, o Diskaholics Anonymous Trio não será propriamente “anónimo”, dada a fama conquista pelos seus membros, nem especialmente “discólico”, pois faz uma música que apetece mais ver em concerto do que ouvir sentado no sofá, mas isso são coisas que depressa esquecemos face às torrentes maciças de som com que somos envolvidos. Moore trabalha essencialmente com “feedbacks”, e mais em esquemas de cinzelamento escultórico do que por pinceladas, O’Rourke maravilha-se com os blips e blurps da síntese analógica, num retro-futurismo sem idade definida, e Gustafsson mostra-nos o que poderia ter feito Albert Ayler se tivesse tocado com os Black Flag. A diferença relativamente ao primeiro tomo do trio está num aspecto que acaba por ser fundamental: não têm pressa de chegar onde querem ir. Esta música pode ser invasiva e até brutal, mas respira e vai com calma, segura de si.
David Shea: “The Book of Scenes” (Sub Rosa)
Proveniente do universo do hip-hop, David Shea foi revelando ao longo dos anos um cada vez maior interesse pela música de câmara, e este “The Book of Scenes” demonstra-o claramente, integrando as interpretações das partituras que escreveu e as improvisações entre o neo-clássico e o pós-serialista por parte do pianista Jean-Phillipe Collard-Neven e do violista Vincent Royer e intervindo no meio deles com um teclado sampler que tem duas funções: processar o que os instrumentos acústicos vão fazendo e introduzir elementos extra, sejam fragmentos de outras músicas ou sons ambientais de vária índole. Shea é, sem dúvida, um músico inteligente, e perante o beco sem saída em que a “sampling music” entrou na passada década foi desenvolvendo um trabalho de interacção entre a máquina e a execução instrumental “live”, de que “Classical Works” e “Classical Works II” foram exemplos. Mais uma vez concebendo uma obra como se se tratasse da banda sonora de um filme imaginário, o seu último álbum está dividido em 29 curtas “cenas”, cada uma delas explorando situações distintas, seja em termos de materiais como de métodos de composição. E se essas cenas nos surgem necessariamente com um alinhamento definido, Shea salienta nas suas “liner notes” que caberá ao ouvinte escolher a sequência que prefere ou carregar no botão Shuffle do leitor de CDs para percepcionar este trabalho de outros modos que não os predeterminados. A lógica global do projecto não é adulterada pelo acaso e assim se mantém uma dimensão de descoberta e frescura que só diminui depois de ouvir o disco muitas vezes e com percursos diferentes. A própria inclusão de “flashes” sonoros alheios ao contexto é fragmentadora, relativizando a mudança de uma cena para outra e dando a esta música um carácter de montagem cinematográfica. Gera-se assim um efeito de sequencialidade sem verdadeiras sequências existirem, e a esse nível o sampler já não lhe serve para um labor de colagem, modus operandi que desenvolveu com John Zorn e depois sob sua influência, mas simplesmente de ligação / conexão, em muitos casos para salientar oposições.
Double Adaptor: “Live At the Village Vanguard” (Osaka)
Eis um título que funciona logo como um rótulo, mas neste caso para nos enganar. O bom punhado de grandes discos que o usa traz na capa os nomes das maiores figuras do jazz, mas jazz this ain’t. Ou é jazz de maneira algo distorcida, sendo certo que os Double Adaptor (Roy Carroll e Keith O’Brien) costumam ser convidados para tocar em festivais dedicados a esse tipo de música. O que neste álbum encontramos até pode ser definido como free jazz, mas do modo como este é entendido, ou pode ser entendido, por um disco rígido. Trata-se de electrónica, e nos seus contorcionismos rítmicos mais próxima da do chamado “digital hardcore” do que de uns Supersilent na sua actual fase neo-Weather Report. A haver jazz nestas peças de estruturação fragmentária, ele é filtrado pelo funk e pelo dub, muito mais reconhecíveis nas suas estratégias composicionais do que aquele género tão universalmente adoptado ou citado por outras práticas musicais que se pretendem criativas. Mesmo que uma dessas peças se chame “Saxophone Collosus”, remetendo-nos para um LP de Sonny Rollins. A intervenção de Bronek Szalanski em sax tenor logo cuida de desfazer o equívoco criado (ou, pelo contrário, talvez ainda o agudize mais) – as mutações da sonoridade deste instrumento são tais, e tão estranhas à lógica interna do jazz, que esta outra alusão parece funcionar mais por ironia do que por qualquer motivo extra que lhe possa assistir. Uma coisa é certa: na sua essência, esta é uma música improvisada, tal como o dito jazz, e tem um carácter experimental que parece faltar já em grande parte dos meios jazzísticos. Estes “clin d’oeil” e “clin d’oreille” do duo de Dublin logo na sua estreia discográfica poderiam ser perigosos, mas a verdade é que resulta muito bem o jogo proposto de estranheza e reconhecimento, e de contrariação do que é continuamente prometido, tendo como consequência confundirmos referências e percepções. De resto, ficamos com a ideia de que isso é mesmo programático no projecto, ou este não se chame, precisamente, Double Adaptor – duplicidade e adaptação são os factores chave deste trabalho que exige a nossa máxima atenção do início ao fim para que não nos percamos (ou será que exactamente com o propósito de nos perdermos?). Quem sabe, pode até ser que este seja o jazz de depois de amanhã. Se for, este disco não está ao lado, mas à frente...
Deerhoof: “The Runners Four” (Kill Rock Stars)
Os Deerhoof são de San Francisco, na solarenga Califórnia, mas isso só se nota na jovialidade e na alegria que por vezes a sua música revela, porque este rock chega a ser tão pesado quanto o de Nova Iorque, a cidade em que o sol não chega a tocar no chão (os arranha-céus interrompem-lhe o percurso). Com a sua voz de colegial encantadora, mas fazendo suspeitar refinadas perversidades, mesmo a vocalista do grupo, a japonesa Satomi Matsuzaki, dá a “The Runners Four” a impressão de que esta música foi feita do outro lado do Pacífico e não na cidade das indústrias da New Age e do “surf”. Bem que ela pode cantar “take my hands now / walk to where you like / streets are flowers / kites are flying by / winter turns summer / sense will be hi-fi”, mas lá está por trás o muro de distorção das guitarras (duas, as de Chris Cohen e John Dietrich, a indicar que o céu ainda troveja e que nem tudo é bonito na metrópole das flores). E como se não bastasse, há ao longo das canções deste disco suficiente dissonância e situações “off-tempo” para inquietar os espíritos em vez de os apaziguar. Deerhoof é coisa que não se ouve de certeza nos “ashrams” de yoga por aquelas bandas. Quando os pensamos entregues à ternura, Greg Saunier, o baterista de mão pesada, muda radicalmente o cenário e coloca-nos perante a evidência de que o punk californiano deixou uma herança e que esta coexiste bem com a de Neil Young na fase Crazy Horse. E quando os julgamos apanhados pela causa experimental, ficamos surpreendidos com a candura com que logo de seguida se agarram ao formato canção. Não é por acaso que os Sonic Youth e os Wilco os convidam para as primeiras partes dos seus concertos.
David Rosenboom / J.B. Floyd / Trichy Sankaran: Suitable for Framing (Mutable Music)
Recuperação de um registo ao vivo de 1975, este “Suitable for Framing” mostra-nos por que motivos David Rosenboom ganhou prestígio, de então para cá, como improvisador, multi-instrumentista, condutor de orquestra, artista interdisciplinar, pedagogo e especialista em sistemas electrónicos. Foi um pioneiro do chamado “biofeedback”, ou seja, a utilização das ondas cerebrais para produção sonora, desenhou um teclado computadorizado para a Buchla, o Touché, e é um dos co-autores de uma linguagem de programação musical que ficou conhecida como HMSL, ou Hierarchical Music Specification Language, mas é a tocar piano com J.B. Floyd (e mais adiante com a percussão do indiano Trichy Sankaran) que o encontramos nestes mantras improvisados que conjugam três tipos de referências, o do jazz, o da música “clássica” contemporânea (muito especialmente o minimalismo, na altura no seu auge) e o dos ragas da Índia. Todos chamados a intervir como “formas de liberdade” (o subtítulo do vinil saído na altura com estas gravações era mesmo “Forms of Freedom for Two Pianos and Mrdangam”), soando como se 20 prelúdios de Chopin fossem tocados em simultâneo, para utilizar uma analogia da imprensa de então. A música é modal, organizada por longos ciclos e com tendência para o ostinato e para a repetição de padrões rítmicos. Conlon Nancarrow é frequentes vezes invocado, bem como as obras pianísticas de John Cage e Thelonious Monk, de quem, aliás, Rosenboom e Floyd são confessos admiradores. Tal como o modelo improvisacional instituído pelo John Coltrane tardio, estas peças necessitam de tempo para tomar forma e fazem-no com uma atitude quase clínica que só não tem nada de cerebral porque a energia e a paixão conduzem todos os procedimentos. Ausente no LP original, o solo de Sankaran transmite-nos a noção, hoje como em 1975, de que entre o experimentalismo ocidental e a tradição do Oriente podem estabelecer-se pontes especialmente enriquecedoras.
Deathprod: Deathprod (Rune Grammofon)
A Helge Sten, mais conhecido por Deathprod, já chamaram “o cientista louco da música ambiental” e ele em nada contribui para corrigirmos essa ideia, nem mesmo mudar, nas fichas técnicas dos seus discos e daqueles em que participa, a designação “audio virus” para apresentar aquilo que faz por um mais neutro “electronics”. Com duas palavras apenas expõe toda uma atitude, a de que a sua intervenção se processa ao nível do “hackering”, da piratagem e da subversão dos sons. Uma actividade que já conta com 10 anos de apresentações públicas, documentada por uma caixa de quatro CDs que junta antigas edições como “Reference Frequencies”, “Treetop Drive” e “Imaginary Songs From Tristan da Cunha” ao novo “Morals and Dogma”, assim nos permitindo averiguar do desenvolvimento e da evolução dos conceitos deste membro dos prestigiados Supersilent e produtor de muitos discos da Rune Grammofon. O primeiro daqueles títulos recorda-nos um Deathprod ainda apegado à estética “noise”, com um volume elevado e grande crueza de tratamento dos materiais, mas já com a sua preocupação em associar à electrónica instrumentos mais convencionais, quando não mesmo acústicos, como, nos casos das faixas “La Luna” e “A Shortcut to the Stars”, o órgão Hammond, a bateria e a percussão, ou em “Dora” o violino, cordofone que viria a ter uma presença recorrente na sua obra. Em “Treetop Drive”, por exemplo, sujeitando-o aos mais transfigurantes processamentos. Sten chega mesmo a passar as gravações por cilindros fonográficos, de modo a acrescentar-lhes uma maior parasitagem sonora, mas é este CD que denota a sua nova atenção pela beleza quase romântica das atmosferas, aproximando-o assim de um William Basinski ou de um Akira Rabelais, tal como ouvimos em “The Boatharbour Bay” e “Hotentott Gulch”. O epítome desta abordagem está em “The Contraceptive Briefcase II”, de “Imaginary Songs From Tristam da Cunha”, com o seu quarteto de vozes femininas e copos de cristal. “Morals and Dogma” solidifica o estilo abraçado, juntando um violino, um oscilador e uma serra cantante (em “Cloudchamber”) à imperante digitália. A presente electrónica passa obrigatoriamente por esta caixa negra.
DAMON SMITH
O contrabaixista Damon Smith é um caso raro na cena americana, devido ao facto de ter abraçado a prática improvisacional europeia, ou seja, a dita “não-idiomática”, emancipada já da matriz jazzística. Ou nem tanto assim, pois tal está a verificar-se com alguma frequência na costa do Pacífico, em oposição ao que se passa em centros como Nova Iorque ou Chicago - vá a www.bayimprovisers.com e veja quem o acompanha nesta opção. O envolvimento de Smith com músicos europeus (por exemplo Philip Wachsmann e Martin Blume em «Zero Plus», ou Wolfgang Fuchs, Serge Baghdassarians e Boris Baltschun em «The Happymakers») mais reforça esta orientação, mas a verdade é que o seu “background” está no jazz, como de volta e meia somos lembrados. E é assim que em «Sense of Hearing» arrasta a cantora Carol Genetti para situações de “scat” que nos deixam intrigados, até pelo seu despropósito nos contextos em que surgem. Curiosamente, o outro membro do trio apresentado neste disco, Fred Lonberg-Holm, é um dos músicos menos conotados com o jazz da cena instalada na cidade do vento e dos arquitectos, mas a verdade é que pouco influi para os resultados finais. O próprio entendimento que Damon Smith tem da livre-improvisação é problemático e problematizador. Apesar do esforço de um ou outro dos seus colaboradores em «Zero Plus» (que não da parte de Aurora Josephson, a quem falta sentido da medida), as improvisações integradas neste título são derivativas e estéreis, um exemplo do pior que pode acontecer nesta área. O melhor mesmo está em «The Happymakers», um excelente documento de música improvisada que muito deve ao entrosamento entre os dois sopradores, Fuchs e Jacob Lindsay, e à presenta de Baghdassarians e Baltschun, e no qual, talvez esclarecedoramente, Smith está menos presente.
C/ Carol Genetti e Fred Lonberg-Holm: Sense of Hearing, Balance Point Acoustics
C/ Aurora Josephson, Phil Wachsmann, Jacob Lindsay e Martin Blume: Zero Plus, Balance Point Acoustics
C/ Wolfgang Fuchs, Jacob Lindsay, Serge Baghdassarians e Boris Baltschun: The Happymakers, Balance Point Acoustics
DJ SHADOW / CUT CHEMIST
"Product Placement" é a sequela do muito celebrado «Brainfreeze», com a diferença de que, na selecção de singles de vinil de 45 rpm trabalhada por esta dupla de DJs, constam agora não apenas velhas glórias das décadas de 1960 e 70 do funk e da soul, mas também materiais do rock e da pop psicadélicos daquele período. E não só, como desde o início percebemos ao reconhecer, com alguma surpresa, o simbólico «Whole Lotta Love», dos Led Zeppelin. Trata-se, bem entendido, de um "DJ mix" bem ao estilo das batalhas de "scratch", e como tal passadas pelo crivo do hip-hop e do "groove", mas nas duas longas faixas deste álbum registado ao vivo nos Estados Unidos (Los Angeles, San Francisco e Nova Iorque), na Grã-Bretanha e no Japão, as citações operadas vão muito para além do mero entretenimento. "Hits" do passado como «Mama Soul», de Harold Alexander, «California Soul», de Gerald Wilson, «Funky President», de James Brown, ou «Coylude», de Mongo Santamaria, sucedem-se numa colagem que muito deve à filosofia de reciclagem musical de uma linhagem de experimentalistas na manipulação dos gira-discos que vai de Christian Marclay, artista visual-sonoro, a DJ Olive, o inventor do termo “illbient”, identificativo de toda uma “cena” em que o drum ‘n’ bass e o mais puro abstraccionismo de vanguarda coexistem pacificamente. E se a segunda faixa, que integra vários "jingles" publicitários, sobretudo a refrigerantes (porque dançar faz sede, e para todos os efeitos trata-se ainda de “club music”), nos lembrar incursões dos "media artists" Negativland, isso não acontece por acaso. Tal como estes, DJ Shadow e Cut Chemist procedem a exercícios de memória, convertendo, no total respeito pelos originais, as músicas do despertar negro e da "revolução das flores" nos EUA numa realidade outra, ainda actuante e pertinente.
Product Placement, Pillage Roadshow
DAVID SYLVIAN
Se «Blemish», o último disco de originais do ex-Japan, já surpreendeu, pelo facto de incluir os préstimos de duas figuras das "outras" músicas, o improvisador e guitarrista Derek Bailey e o "laptoper" Christian Fennesz designadamente, este álbum de "remixes" desse título que nos demonstrou que a canção pop pode conviver com o experimentalismo volta a contar com nomes grandes das músicas criativas, como Ryoji Ikeda, Burnt Friedman (David Sylvian começou, aliás, a actuar ao vivo com este e com Jaki Liebezeit, o baterista dos velhos Can), Akira Rabelais, Yoshihiro Hanno, Readymade FC ou Tatsuhiko Asano. E quando se fala em remisturas, tenha-se presente que o conceito aplicado é muito lato, não se limitando a conjugar de modo diferente as pistas gravadas pelo cantor e os seus colaboradores. Ikeda, por exemplo, junta as execuções de todo um grupo de câmara e ele próprio intervém ao piano em «The Only Daughter», Friedman convida o clarinetista Hayden Chisholm para «Blemish» e «Late Night Shopping», e Hanno acrescenta um Fender Rhodes em «The Good Son», dando a este tema uma feição mais jazzística, inpirada num outro disco de Sylvian, «Dead Bees on a Cake». Ouvindo os resultados, o também responsável da editora samadhisound assinalou que os seus convidados conseguiram "destilar" o próprio conteúdo emocional das canções. Tudo isto com o máximo respeito pelo mundo sonoro do autor, caracteristicamente suave e pausado, e pela sua voz grave e aveludada. Um mundo, aliás, que sempre se caracterizou pelo encontro de elementos das mais diversas famílias musicais - Ryuichi Sakamoto, Holger Czukay (outro ex-Can), Robert Fripp (King Crimson), o pianista de jazz John Taylor e o trompetista Kenny Wheeler foram alguns dos seus companheiros de viagem. Depois de uma feliz incursão pela "ambient music" (com «Flux and Mutability», por exemplo) é agora a electrónica que o descobre, como fica confirmado com este trabalho.
The Good Son vs. the Only Daughter, samadhisound
DEREK BAILEY / MILO FINE
Se Derek Bailey já foi, em tempos, a “wild card” de qualquer contexto de improvisação, o seu tão pessoal estilo discursivo e a sua abordagem irreverente da guitarra tornaram-se em algo de tão definido que só quando este grande músico do nosso tempo “comes back to basics” (como as baladas de «Ballads», precisamente, ou as suas parcerias sob o signo do ritmo, seja este o drum ‘n’ bass de DJ Ninj ou o free rock dos Ruins) é possível alguma disrupção. Neste disco tal não se verifica da sua parte, pois encontramo-lo no “plink-plonk” dos seus habituais tricotados surrealistas, mas é o seu companheiro de ocasião, o americano (do “provinciano” estado do Minnesota, como ele se queixa) Milo Fine, que fica com o papel de virar tudo de pernas para o ar. Multi-instrumentista (aqui em clarinetes, teclado electrónico e bateria - também toca violino, piano, celeste, marimba, percussão com “found objects”) e escritor, tanto na área da música como na da literatura um eterno homem das margens (diz que não gosta de ver caras novas na audiência, pois isso pode ser o sinal de que está a ficar “fashionable”), Fine é um músico excêntrico, absolutamente sem correntes que o prendam a conceitos estabelecidos, e senhor de uma lógica expositiva que o distinguem tanto do free jazz americano, caldo de cultura em que surgiu no final da década de 60, como da livre-improvisação de marca europeia. Se o leitor já está cansado de ouvir sempre o mesmo, tem aqui algo que lhe revigorará o interesse por estes sons.
Scale Points on the Fever Curve, Emanem
DALGOO
Aqui está o mais excitante título de todo o catálogo holandês TryTone. «New Anatomy» é a homenagem do ensemble Dalgoo ao escritor e poeta russo Daniil Charms, que viveu entre 1905 e 1942. Os textos deste autor utilizados ao longo das faixas são ditos/cantados em Russo (por Leonid Vlassov), Alemão, Holandês e Inglês e a importância das interpretações vocais é tal que este trabalho só não tem um carácter operático porque é evidente a influência do cabaré, do “music hall” e da “comedia dell’ arte” nos procedimentos usados. E isto apesar de o terreno estar preparado para aquele desenlace: este é um jazz “de câmara”, sofisticado e tipicamente europeu, mas surpreendentemente nada “intelectualizado”. Domina uma tónica lúdica que mais acentua o cunho celebrativo a que este grupo se propôs. A música é cuidadosamente composta, os arranjos para o sexteto têm uma dimensão quase orquestral e tudo funciona com um rigor que, para nossa felicidade e admiração, não cinge a liberdade de movimentos dos cantores e dos instrumentistas - um deles o violinista e violista Jasper le Clercq, figura habitual nos discos desta etiqueta, ora com o ZAPP String Quartet, ora com os Bite the Gnatze. De uma opereta, ou de uma ópera “buffa”, então, podemos dizer que se trata, até por nos lembrar os longínquos tempos em que uma obra musical podia ser “erudita” e “popular” (assim mesmo, entre aspas, para dar conta do relativismo destas designações) ao mesmo tempo. Rossini com bateria e saxofones, é o que temos aqui, não porque aquele compositor influencia estilisticamente o que ouvimos, mas devido ao facto de os respectivos fundamentos e propósitos sociais serem muito semelhantes, descontada, é claro, a distância temporal e cultural. Para além disso, estamos perante uma ode ao cosmopolitismo, algo que é muito oportuno numa Holanda e numa Europa cada vez mais xenófobas.
New Anatomy, TryTone
DIETRICH EICHMANN / JEFF ARNAL
Ora aqui temos um trabalho que se situa entre aquilo a que se vai chamando música “clássica” contemporânea - designação anglo-saxónica algo inexacta (sim, como se pode ser clássico e contemporâneo ao mesmo tempo?) -, e a improvisação de matriz jazz, vivendo da própria ambiguidade formativa e estilística dos seus dois protagonistas, o pianista alemão Dietrich Eichmann e o baterista/percussionista dos EUA Jeff Arnal. O primeiro começou por estudar com uma das figuras cimeiras do free jazz europeu, Alexander von Schlippenbach, mas depressa optou pela composição, tornando-se aluno de Wolfgang Rihm e produzindo peças concertantes ou para orquestra de câmara (ainda que sem esquecer o seu passado como “jazzman”: o solista da sua «Prayer to the Unknown Gods of the People Without Rights», uma obra infelizmente ainda não passada para disco, é Peter Brotzmann). Só muito recentemente Eichmann aceitou voltar à cena da improvisação, ao lado de músicos como Wolfgang Fuchs ou Takashi Yamane, mas avisando que a forma como hoje improvisa tem tudo a ver com a sua dedicação às estruturas composicionais. Arnal, por sua vez, é um baterista com raízes no jazz (colabora regularmente com Charles Gayle), mas os seus interesses levam-no até ao domínio da “new music” - a música dita “erudita” dos Estados Unidos, muito mais experimental e inventiva que a do Velho Continente. Resultado: uma música feita de células, deflagrada e pontilhística, em que o piano volta, muitas vezes, à sua condição primária de instrumento percussivo, e a percussão procura ultrapassar o seu convencional papel de gestor de métricas. Ambos os músicos dão particular atenção à transmutação de formas e estruturas. Não o fazem recorrendo a padrões rítmicos ou a fraseados melódicos, o que seria demasiado fácil e óbvio, mas também não se contentam com a simples elaboração de texturas. Uma prova de como a música espontânea pode ser tão complexa quanto a escrita.
The Temperature Dropped Again, Leo Records
DJ SPOOKY
Defende Jose Luis Brea que a cultura que nos está a bater à porta não será arquivística, mas uma cultura de eventos. Pode ser que assim venha a ser num futuro que não saiba o que fazer com a história e com o conhecimento, até porque a relação que já vamos tendo com os factos e com a informação é intermediada por versões de versões de versões, virtualizando a realidade. A memória, no entanto, é o que está por trás da cultura contemporânea e da produção artística, e é com a memória, à semelhança de outros DJs (contrariando assim quem argumenta que a cultura e a arte populares não passam de exorcizações do passado), que lida DJ Spooky, a “persona” vestida por Paul D. Miller. Ciente disso, a editora belga Sub Rosa convidou este manipulador de gira-discos e de leitores de CDs - notabilizado por associar na sua música o hip hop, o drum ‘n’ bass, o funk e o “two-step” com o experimentalismo, o jazz e a clássica contemporânea - a utilizar todo o seu catálogo como matéria-prima dos seus “remixes”, compreendendo registos “spoken word” de grandes nomes das letras, das artes plásticas e do pensamento (Antonin Artaud, e.e. cummings, Gertrude Stein, Kurt Schwitters, Tristan Tzara, James Joyce, Marcel Duchamp, William S. Burroughs, Vladimir Maiakovski, Guillaume Apollinaire, Brion Gysin ou Gilles Deleuze), recolhas de música ritual das periferias do Mundo (Tibete e Norte de África, sobretudo) e os compositores/músicos da casa (Sussan Deyhim, Bill Laswell, Giacinto Scelsi, Scanner, DJ Grazzhoppa, C.M. von Hausswolff, DJ Wally, Oval, Luciano Berio, Meira Asher, David Shea, Merzbow, Morton Feldman, entre outros). Pode ser que o que resulta sejam “eventos” (até devido à performatividade implícita do DJing), mas sem dúvida que são arquivísticos. Nem todas as combinatórias a que o também conhecido como That Subliminal Kid procede são interessantes, mas quando ele acerta é notável. Senão oiça-se o que faz ao Debussy de «D’un cahier d’esquisses»...
Rhythm Science: Excerpts and Allegories from the Sub Rosa Audio Archive, Sub Rosa
DOMINIC DUVAL / MARK WHITECAGE
O primeiro volume de «Rules of Engagement» partilha-o o contrabaixista norte-americano Dominic Duval inteiramente com Mark Whitecage (o segundo já está anunciado, com Steve Swell e Joe McPhee à vez a seu lado). Tendo em conta que o discurso deste antigo parceiro de Cecil Taylor deve tanto à história do jazz como à música “clássica” contemporânea e que Whitecage é um herdeiro da “loft generation” nova-iorquina, não é difícil adivinhar os contornos do conteúdo deste álbum. Ainda assim, nenhuma impressão de “déjà entendu” (que me desculpem o jogo de palavras) nos assalta ao longo da audição deste interpelante duo. O Dominic Duval destas improvisações não é, decididamente, o do C. T. String Quartet, mais “clássico” e “experimental”, em simultâneo, ainda que revele semelhantes preocupações harmónicas e um lirismo acentuado - aqui, o que está em causa é mesmo uma versão actualizada do free jazz, consciente, sim, do que vem fazendo a “free music” na Europa, uma descendente daquela tendência da música negra americana que, entretanto, efectuou o “corte epistemológico” que a tornou independente, mas acentuando a sua natureza americana e fazendo as pazes com o passado. Pelo que aqui grandemente se confirma, o nervoso e inquisitivo Whitecage é um saxofonista e clarinetista injustamente ignorado - esperemos que desempenhos como o presente o projectem para alturas onde há muito deveria movimentar-se. Quanto a Duval, aqui temos mais uma prova de que já ocupou um lugar na primeira linha do contrabaixo: é impossível ficar indiferente às suas capacidades argumentativas, desafiadoras e reactivas, reveladoras de uma inventividade toda ela baseada no sistema nervoso, que não no cérebro.
Rules of Engagement, Vol. 1, Drimala Records
DAVID LEE MAYERS
Hoje, criar música com uma mesa de mistura em “feedback” ou um sampler sem “samples” tornou-se quase vulgar, mas durante duas décadas David Mayers foi o único a fazê-lo com as suas “feedback machines”, sob o seu próprio nome ou ao abrigo da designação Arcane Device. Pois foi agora reeditado o primeiro disco de uma produção que continuou, intermitentemente, até aos nossos dias - o mais recente disco, «Ourobouros», é de 2001, e anuncia-se para breve uma colaboração com Asmus Tietchens. Na altura (1988) em que «Engines of Myth» saiu, uma música inteira e exclusivamente trabalhada com “feedbacks” era novidade absoluta. A obra foi catalogada então como um produto da corrente pós-industrial, o que hoje, ouvido em retrospectiva, é discutível (enfim, todos os rótulos o são...). O álbum termina com as quatro faixas de um EP saído na mesma altura, «Improvisations for Feedback». Em termos de conteúdo, importa assinalar que Mayers esteva ainda longe de chegar ao grau de maturação revelado no geladíssimo, implacável, mas brilhante, «Envoi in Cumin», mas esta reedição tem a mesma aura dos velhos discos da electrónica pioneira.
Arcane Device - Engines Of Myth, ReR Megacorp
DAVIS / DURRANT / WASTELL
O novo tomo da “frente silenciosa” de Londres, aqui representada por Matt Davis, Phil Durrant e Mark Wastell, ilustra muito bem o processo de troca por estes músicos dos seus instrumentos acústicos originais pela electrónica. É certo que o trompete de Davis aparece aqui, embora relegado para uma posição secundária (na verdade, o que ouvimos com ele é, sobretudo, o sopro), depois das suas “gravações de campo” e dos seus dispositivos electrónicos. Durrant já há uns anos que vem largando o violino para se dedicar a processadores de sinal, sintetizadores e software, e Wastell tem-se desinteressado cada vez mais pelo seu violoncelo, optando nesta edição por aquilo a que chama de “texturas amplificadas”, e que mais não será do que a manipulação de objectos amplificados por microfones de contacto. Ou seja, este disco dá, primeiro que tudo, conta de um processo de reorientação destes improvisadores no que respeita à sua condição específica de instrumentistas. Não se trata, apenas, de uma mudança de instrumentação, mas de um reposicionamento face à música que praticam e até de uma desvalorização da ideia de “instrumento”. Importa igualmente noutro aspecto, este título: poucas vezes se terá chegado antes a um tal grau de rarefacção sonora, tudo acontecendo no limiar do nada. Se anteriormente estes músicos procuravam integrar o silêncio no som, agora o que fazem é integrar o som no silêncio. E digo “som” e não “música” porque finalmente chegaram ao estado a que tanto aspiravam: perder todo o sentido de musicalidade. Isto já não é música, é pintura.
Open, Erstwhile Records
DAFELDECKER / KURZMANN - CHRISTOFF KURZMANN
Christoff Kurzmann foi um dos mentores de dois projectos de curioso recorte na cena vienense das músicas criativas com utilização da electrónica: um foi o grupo de “pós-rock” (passe o chavão, pois tratou-se de uma moda e, como tal, acabou por ter termo de validade) Shabotinsky, o outro a “big band” de “pós-jazz” (terminologia que, esta sim, já tem uma dimensão subversiva: lembro-me da colérica reacção da crítica de jazz “mainstream” nacional quando utilizei pela primeira vez o termo) Orchester 33 1/3. Saíram dois discos de cada um destes grupos na Charizma e, pelos vistos, ficaram por aí. O que se lamenta, pois eram muito interessantes, sobretudo os Shabotinsky quando não procuravam ir “na onda” dos americanos Tortoise. Depois, Kurzmann virou-se para o techno experimental, de que «The Air Between» é um exemplo não muito conseguido. Particularmente flexível, a sua participação tem sido requisitada por alguns músicos dedicados à improvisação livre, e isso acontece num álbum sem título em que o contrabaixista (e guitarrista, e manipulador de electrónica) Werner Dafeldecker acrescenta ao duo as contribuições à vez de Kevin Drumm (guitarra preparada e com processamento), Erik M (minidisc, gira-discos, sampler), Dieb 13 (gira-discos) e Jerôme Noetinger (gravadores Revox). Álbum que não só é um dos mais interessantes desta etiqueta como conquistou já um lugar muito especial no património discográfico da electroacústica tocada em tempo real. Esta é uma música feita de sedimentos e erosões, escórias e areias, particularista, microscópica, quântica até, uma música mineral e cheia de grão.
Dafeldecker/Kurzmann c/ Drumm/Erik M/Dieb 13/Noetinger, Charizma
Christoff Kurzmann: The Air Between, Charizma
DUVAL / MCPHEE / HEWARD
Eis o tomo 2 de «Undersound», a incursão de Dominic Duval, John Heward e Joe McPhee pelo interior do som, adoptando os objectivos há umas décadas assumidos pelo falecido Giacinto Scelsi noutra área bem diferente (ou nem tanto assim) da música, a escrita - e nem tanto assim não só porque Scelsi escrevia, geralmente, o que primeiro improvisava (e daí que uma improvisadora, Joelle Léandre, se tivesse tornado numa das suas mais frequentes intérpretes), mas também porque a improvisação deste trio vai beber à música contemporânea. Aliás, só assim se entende a participação na faixa 13 do violinista Malcolm Goldstein, improvisador de méritos reconhecidos mas que deve a sua fama, sobretudo, à interpretação de grandes compositores do Séc. XX. E porque o presente disco, tal como o anterior, é um percurso em diversos “takes” pela massa do som, este é trabalhado de dentro, microscopicamente, e não por fora, o que implica uma perspectivação bastante diferente da usual, a começar pelo próprio entendimento do tempo. Não há começos nem fins, mas transporte e passagem. Tudo está em processo, tudo se acrescenta. As coincidências com o conceito de rizoma do filósofo Gilles Deleuze não serão obra do acaso...
Undersound II, Leo Records
DAVID TOOP
A mais recente discografia de David Toop deixa algo a desejar, com excepção do excelente «Buried Dreams», a meias com Max Eastley (o mesmo com quem gravou em 1975 um título essencial da música com instrumentos inventados pelos próprios executantes, «New and Rediscovered Musical Instruments»). «Black Chamber» compensa a sua produção menos interessante e está ao nível dos dois títulos citados, integrando os préstimos de Lol Coxhill, Paul Burnwell, Bob Cobbing, Terry Day, Tom Recchion e Yurihito Watanabe, para além de sons gravados “in loco” em Chiang Mai e do seu próprio trabalho, sobretudo a nível da electrónica e da manipulação de estúdio (também guitarra eléctrica e flauta, os seus outros “utensílios”). O mote é dado por Henri Michaux nas suas «Primeiras Impressões» e a música resultante enquadra-se num amplo domínio que vai do ambientalismo à improvisação (com grandes responsabilidades do saxofone soprano de Coxhill), graças a um vocabulário e a uma gramática mutantes que reflectem os muitos mundos do som organizado nos nossos dias - o que compreendemos melhor ao saber que Toop é um jornalista e um ensaísta musical de múltiplas paixões, que vão de Bach ao rap, passando pela “lounge music” e pelo experimentalismo radical. Não se pense, todavia, que se trata de colagem. Esta é uma meta-música electroacústica, sem filiação reconhecível ou desejável, elegante, trabalhada ao pormenor, um tanto exótica por vezes (no bom sentido) e com um forte carácter paisagístico. File under: soundscapes.
Black Chamber, Subrosa/AnAnAnA
DAVID S. WARE QUARTET
Esta é a versão proposta por David S. Ware de uma obra referencial da história do jazz, «The Freedom Suite», assinada por Sonny Rollins. E ainda que seja verdade que se trata de uma belíssima interpretação da “opus magnum” do mestre do saxofone tenor, nada melhor do que ouvirmos o original, com o próprio a tocar. Esta reposição tem, de resto, um contexto explicativo. Sendo o S. Ware Quartet um dos protagonistas do neo-modernismo do jazz nascido nos anos 90, apostado na recuperação das suas formas do passado, deu-se apenas o passo que faltava: não apenas tocar “à maneira de”, mas adoptar peças de época. Poderá o leitor dizer que isso sempre se fez e nunca impediu que as interpretações desses materiais fossem distanciadas, activas (no sentido de que não mimetizaram passivamente o léxico de origem) e inovadoras (veja-se o que tem feito Steve Lacy com as partituras de Thelonious Monk), mas o que se passa em exemplos como este é a associação dos dois âmbitos: executar as obras dos históricos tal como eles o fizeram no seu tempo, fazendo tábua rasa do tempo que passou entretanto. E é assim que este disco, sendo indubitavelmente excelente, nos coloca um problema musicológico muito sério...
Freedom Suite, Aum Fidelity/AnAnAnA
DARIUS MILHAUD
A influência de Darius Milhaud (1892-1974) nalgum do jazz é uma evidência, indo de Eric Dolphy a Franz Koglmann, entre muitos outros, seja directa ou mais vaga a sua marca nesses músicos. Antes, porém, recebeu o compositor francês influências da “grande música negra”, bem como das músicas da América Latina e, sobretudo, do Brasil, onde chegou a viver. De facto, Milhaud é um dos primeiros exemplos das osmoses musicais nascidas com o Séc. XX, trocas essas não só entre espaços geográficos distantes (a Europa e os Estados Unidos, para onde se exilou durante a invasão nazi em França), como entre a “alta” e a “baixa” culturas, o academismo e a tradição popular. Inimigo figadal da conversão wagneriana da música francesa do seu tempo e apoiante entusiasta do ascetismo de Erik Satie, que foi, talvez, o único representante do surrealismo na música, o autor das obras de câmara reunidas neste CD foi um dos pioneiros do politonalismo e fez um uso intensivo do contraponto, associando uma grande inventividade melódica a sincopações claramente jazzísticas. As interpretações das sonatas, da suite e do quarteto aqui reunidos estão a cargo do muito interessante Ensemble Polytonaal.
Chamberworks, Channel Classics/Harmonia Mundi Spain
DEREK BAILEY & CARLOS BECHEGAS
Mais bem conseguido do que o anterior encontro do flautista Carlos Bechegas com o recentemente falecido Peter Kowald, este disco a meias com o patriarca da improvisação Derek Bailey ouve-se bem, mas nunca nos enche as medidas. O músico português fez uma boa opção ao ligar as suas flautas a processadores electrónicos: a sua abordagem exclusivamente acústica entraria necessariamente em choque com o entendimento que o guitarrista das ilhas britânicas tem da música. Bechegas é um tecnicista, um virtuoso, e Bailey, apesar de ser o inventor de grande parte das técnicas hoje utilizadas por meio mundo na guitarra improvisada, de Fred Frith a John Bisset, ou de John Russell a Burkhard Stangl, tem uma postura de desvalorização dos processos que lhe permitem chegar aos resultados ambicionados, algo que por vezes pode até ser confundido com displicência. Ora, o ex-companheiro de Carlos Zíngaro nos Plexus é o contrário disso, não resistindo, até, à tentação de exibir os seus malabarismos discursivos. Nem sempre a electrónica de Carlos Bechegas é interessante ao longo deste disco e falta-lhe o que vai faltando, infelizmente, em grande parte da música improvisada, espaços, respirações, silêncios, mas é dinâmico e inteligente o jogo mantido pelos dois músicos.
Right Off, Numérica
(DES)INTEGRAÇÃO
À semelhança do que fez, ao vivo, com as músicas de Marc Behrens e Madonna (!!), o colectivo português (des)integração pegou no último registo a solo de Carlos Zíngaro, «Cage of Sand», e utilizou-o como base das reconstruções em computadores “laptop” por parte de Paulo Raposo, Carlos Santos, Pedro Lourenço, João Pinto, Nuno Moita e Miguel Carvalhais, com o próprio Zíngaro como “tonemeister”. O evento teve lugar na Sala Polivalente do Acarte, no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, e é uma selecção do que aí aconteceu que encontramos neste CD. O título «Permute» explica o que está em causa: uma «permutação de métodos, ideias, lugares, sons e imagens, (des)integrando e des)construindo, no sentido de que este projecto se propõe desterritorializar códigos implantados e transformar géneros idiomáticos através da dissolução do autor numa cirurgia colectiva», como explica a editora. E como se podia prever, os resultados são bem distintos dos encontrados no disco do violinista. Um complemento muito interessante a «Cage of Sand», dando uma outra perspectiva deste disco, ainda mais atomizada e particularista ao nível da manipulação dos materiais sonoros.
Permute, Sirr
DAVID MARANHA
Esta é, sem sombra de dúvida, a obra mais conseguida de David Maranha a solo e uma das melhores com a participação dos Osso Exótico, um grupo de culto português com entusiastas em todo o Mundo. E isto porque os outros elementos da formação também contribuem para o cômputo final, designadamente André Maranha, Patrícia Machas e até um dos seus fundadores, Bernardo Devlin, entretanto saído para encetar uma carreira como cantor na linha de Scott Walter e de David Thomas. Outros colaboradores são Luís Desirat, o baterista dos Irmãos Catita e dos Ena Pá 2000 que também tem desenvolvido actividade na área da livre-improvisação, Manuel Mota, o guitarrista influenciado por Morton Feldman e pelas músicas étnicas de transe que procura “reinventar” a guitarra de jazz e de blues, e Rodrigo Amado, saxofonista com um especialmente interessante percurso no pós-free jazz. A matriz deste trabalho é o minimalismo segundo a visão de Tony Conrad, a mais audível referência de Maranha, mas desta vez descola para situações bem distintas e a que já nem é possível chamar de minimalistas. «Noe’s Lullaby» é uma peça de música composta ao pormenor, muito distinta da prática improvisacional deste multi-instrumentista, e tem uma particularidade: é impossível distinguir quem está a tocar o quê, tal a forma como os muitos timbres envolvidos se interpenetram e diluem.
Noe’s Lullaby, Rossbin
DENNIS WARREN’S FULL METAL REVOLUTIONARY JAZZ ENSEMBLE
«Nation Time», o registo de 1970 assinado por Joe McPhee que a Unheard Music Series agora recuperou, apontava o caminho. O saxofonista/trompetista não o seguiu, mas outros houve que acabaram, mais tarde ou mais cedo, por o fazer. É o caso do baterista Dennis Warren, autor de um free-funk/rhythm & blues/jazz que doseia com critérios bem calibrados o “beat” jingão e a liberdade do melhor experimentalismo, seja ao nível das situações que explora como das próprias sonoridades (por exemplo, a conjugação da electrónica com a percussão latina, dois mundos habitualmente separados). Nem tudo o que ouvimos é bem conseguido (clichés, soluções demasiado fáceis, inconguências, alguns equívocos por parte do guitarrista, Chris Florio), mas a energia destes temas, a irreverência das improvisações (atenção ao saxofonista alto Andy Voelker) e a rímica implacável (o percussionista Jose Arroyo partilha os méritos de Warren, assim como o baixista Albey Balgochian) conseguem “agarrar” o ouvinte quase imediatamente. O próprio nome deste grupo remete-nos para os anos de todas as revoluções (60/70), quando esta música era política e interventiva, capaz de agitar e congregar. Resta saber o que representa este disco objectivamente, o que, para já, não é muito claro: trata-se de uma memória, ou será que, de novo, “a hard rain is gonna fall”? Bem que estávamos precisados...
Horizon Event, Drimala Records
DIEB 13 / JASON KAHN / GUNTER MULLER
Um DJ (Dieb 13) apaixonado pela abstracção, um antigo baterista punk conquistado pelo experimentalismo (Jason Kahn) e um outro baterista que o é cada vez menos, optando sobretudo pela manipulação de dispositivos electroacústicos (Gunter Muller), protagonizam este belo disco em que as texturas sobrelevam a forma. Regra de ouro neste tipo de colectivismo musical, raras vezes é possível dizer quem está a fazer o quê. Mesmo Kahn, que entrou na família da “live electronics” através das suas colaborações com Toshimaru Nakamura, o tal da mesa de mistura sem “inputs”, está aqui quase irreconhecível, dada a sua opção pelo tratamento de sinal dos sons que retira da sua bateria e dos seus objectos de metal. Esta é uma música “não-instrumental” e sem qualquer carácter dramático, uma música minimal devido à economia dos materiais sonoros que utiliza e minimalista no modo como continua os preceitos daquela corrente estética de origem norte-americana, ainda que os seus “objectos” sejam os sons não notados, estranhos a qualquer escala, ocidental ou oriental, aquilo a que vamos chamando de “ruído”. E é por via de obras como esta que o “noise” solidifica a sua nova condição Zen, em que tudo acontece de forma “natural”, ou seja, sem aculturações de sentido, sem ateios, sem conversões estandardizadas. E isto porque só o ruído, neste estádio da história da música, tem essa naturalidade - os outros sons, os sons “domesticados” pela humanidade, é que ganharam artifício. E nem por surgir organizado musicalmente o ruído perde essa condição selvagem que é imagem de marca da improvisação electro.
Streaming, For 4 Ears (g.mueller@datacomm.ch)
DOMINIC DUVAL
Com uma produção discográfica intensa, Duval vai-se libertando cada vez mais da ascendência de Cecil Taylor, com quem ganhou nome, para experimentar novos caminhos. Depois dos agrupamentos de cordas que liderou, depois de uma magnífica colaboração com Joe McPhee e depois das repetidas parcerias com o injustamente subvalorizado Ivo Perelman, eis que procura agora a companhia de Herb Robertson, o mais "europeu" dos trompetistas norte-americanos. Com o contrabaixo ligado a "devices" electrónicos e os seus acompanhantes (Bob Hovey e Jay Rosen para além de Robertson) a dobrarem os seus instrumentos com outros de ocasional uso, é um alargamento do espectro tímbrico o que se pretende e obtém, valorizando mais o trabalho das texturas do que o da estruturação, como vai sendo apanágio do jazz estático. Atenção ao humor do grupo, que explica títulos como "Rectal Parasites" e "Another Fucking Jazz Quartet".
Asylem, Leo Records/audEo |
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