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Hugo Carvalhais Foi uma das grandes surpresas do jazz criativo nacional em 2010 e continua a maravilhar-nos em concerto com o seu projecto Nebulosa. Enquanto prepara um novo disco, o contrabaixista e compositor vindo praticamente do nada revela-nos quem é e o que procura…
Hugo Carvalhais vai deixando de ser um enigma para se converter numa nova certeza do jazz praticado em Portugal. Nunca frequentou escolas, mas teve a oportunidade de estudar o seu instrumento, o contrabaixo, com os maiores, como Ron Carter, Eddie Gomez, Miroslav Vitous e Mario Pavone. Com formação em artes plásticas, foi a audição de Gary Peacock que o decidiu a enveredar pela música. Ainda assim, a sua referência maior é Scott LaFaro. Adere à linhagem dos contrabaixistas líricos e melódicos, mas também se inspira nos abstractos. Compositor igualmente, a sua escrita tem o propósito de providenciar a improvisação. Depois do sucesso do álbum “Nebulosa”, prepara em segredo um novo disco e continua “on the road”. O primeiro disco do projecto Nebulosa surpreendeu pelo que tinha de diferente em relação à maior parte da produção jazzística nacional… Fiquei muito surpreendido com a receptividade que o trabalho teve. Posso apenas dizer que tive na minha companhia três excelentes improvisadores (Tim Berne não precisa de apresentações) e que produzi o disco que eu queria da forma como o idealizei, resultando em minha opinião num trabalho honesto e espontâneo. Porquê a surpresa? Talvez porque a produção jazzística nacional está ainda bastante devedora em diversidade comparativamente com as de outros países europeus, não obstante ter aumentado muito em quantidade e qualidade. Existem excelentes músicos, mas pouca variedade de estéticas e tendências. Mas essa surpresa também aconteceu a nível internacional, resultando, inclusive, na inclusão do CD em algumas listas dos melhores do ano de 2010. Faltava algo assim também lá fora? Todas as considerações elogiosas que se fizeram ao “Nebulosa” deixaram-me muito feliz, porque a maioria dos autores das críticas que foram publicadas e dessas listas não faz a mínima ideia de quem somos. Não sabem se em Portugal somos muito ou pouco conhecidos, se somos artistas prestigiados na nossa cena ou apenas ilustres desconhecidos. Acho que fizeram uma análise objectiva e desapaixonada deste disco de estreia. De qualquer modo, penso que os artistas não se devem preocupar muito com problemáticas exteriores ao seu trabalho, sobretudo com aquelas ligadas a necessidades e anseios do mercado. Pura e simplesmente, devem apresentar a sua visão pessoal e aquilo em que acreditam e continuar a percorrer o seu percurso artístico. Este é um álbum muito obviamente ligado à tradição do jazz, percorrendo um certo “mainstream”. A que tradição específica do jazz te sentes ligado? Em que linhagem entendes que te inseres com o teu grupo? A All About Jazz, por exemplo, identifica-os com o Herbie Hancock da fase “Maiden Voyage” e com os Weather Report do início, mas não me parece que essas identificações sejam assim tão lineares. Sinto-me ligado a todas as correntes em geral e a nenhuma em particular. De facto, toda a nossa formação como músicos e instrumentistas insere-se profundamente na tradição e na história do jazz, pelo que é natural que estas estejam presentes de forma mais ou menos notória. Embora não tivesse a intenção de me aproximar desta ou daquela tendência, também não foi algo que eu evitasse a todo o custo. Limitei-me a deixar decorrer o processo compositivo / improvisativo, de forma a que as coisas pudessem acontecer livremente. Gosto de sentir tudo como um livro em aberto. Encontro também no disco um grande sentido de contemporaneidade. Quais são esses elementos do tempo presente que levaram já a crítica a afirmar que tocam uma música “free-yet-structured”? Há adopções “vanguardistas”, mas com conta, peso e medida… Não intelectualizamos muito esse tipo de questões. Tentamos ser espontâneos e deixar a criatividade fluir. Utilizamos sem preconceitos todo o tipo de estratégias, com vista a alcançar novas paisagens e novos cenários propícios à improvisação. As lógicas composicionais e o modo de funcionamento dos Nebulosa gravitam em torno de um conceito de piano jazz trio, mas no álbum e na maior parte dos concertos realizados tiveram o acrescento de um saxofonista, Tim Berne no primeiro caso e Émile Parisien no outro. Ambos (e cada um à sua maneira) são músicos muito afirmativos, mas os seus contributos não chegaram a alterar a percepção de que o núcleo duro desta música estava precisamente no trio. O que está em causa neste equacionamento trio + 1? Concebi este projecto tendo como base um trio que podemos imaginar como o núcleo de um átomo. É uma unidade de trabalho que funciona por si só e que se mostra mais constante do que a nuvem de electrões que pode gravitar ao seu redor. O trio de piano, contrabaixo e bateria já provou historicamente as suas capacidades, sendo que esta formação encerra em si infinitas possibilidades de orquestração e continua nos nossos dias a ser um veículo criativo para novas explorações. A ideia é a de poder trabalhar o meu universo numa formação constante, altamente funcional e desafiante, e ao mesmo tempo haver a possibilidade de esta se hibridizar e transformar noutras coisas diferentes. Adoro a ideia de existir neste trio a abertura para que este se possa transformar noutras formações, absorvendo outras vozes sem perder de vista a sua personalidade. Esta fórmula de “falso quarteto” é para continuar? O certo é que muitas das vossas mais recentes apresentações públicas têm sido a três… Sim, é para continuar como trio, com a possibilidade de metamorfose para quarteto, quinteto ou qualquer outra coisa que ainda não sabemos bem. Algo que ainda mais contribuiu para toda a gente ter ficado intrigada com os Nebulosa foi o facto de vocês terem praticamente surgido do nada. Tu, Gabriel Pinto e Mário Costa não tinham um percurso visível antes desta formação, inclusive devido à vossa juventude. Sei também que és um autodidacta tanto a nível do contrabaixo, apesar de teres frequentado alguns “workshops” de grandes músicos, como da composição. E no entanto, a música que fazem é de uma inesperada maturidade… Todas as matérias quantificáveis que se podem aprender objectivamente estão por aí disponíveis, para toda a gente, em milhares de livros e compêndios. Hoje em dia, muitos desses conteúdos encontram-se gratuitamente na Internet. Existe também a possibilidade de ter aulas particulares com mestres, pessoalmente ou através dos seus discos. Nada existe de estranho nisso. Todas as grandes figuras da história do jazz são iminentemente autodidactas. As suas vidas foram dedicadas ao estudo, à descoberta, à pesquisa e à performance. Muitos desses músicos aprenderam apenas alguns conhecimentos genéricos de música e as noções básicas dos seus respectivos instrumentos na escola, quando eram crianças ou adolescentes. Em muitos casos nem isso aconteceu. A maioria dos músicos que admiramos não necessitou de um mestrado ou de um doutoramento para nos apresentarem o seu universo criativo. A lista seria infindável: John Zorn, Charlie Haden, Scott LaFaro, Robert Wyatt, etc, Sempre procurei na música algo para além da teoria, aquilo que não se pode aprender, uma profundidade maior que as puras frequências. O estudo académico da música nunca fez parte dos meus planos. Enquanto autodidacta por opção, acredito que as pessoas são o que são por mérito próprio e não se tornam excelentes fadistas ou improvisadores por decreto de uma instituição. Esta direcção levou-me a percorrer um percurso que é o meu e que vou traçando dia-a-dia, e não o percurso dos programas curriculares, da norma ou do cânon vigente. Penso também que a grande explosão do ensino de jazz nos últimos anos advém mais das necessidades do mercado das universidades, das escolas e dos docentes do que propriamente daqueles que, aspirando a ser artistas, já o eram e não sabiam. Presumo que esta geral impressão de que vocês vieram do nada não tem que ver com o facto de serem originários do Porto e de a realidade jazz desta cidade ser secundarizada por Lisboa. Afinal, alguns músicos portuenses e do Norte têm vingado nestes últimos anos. Mas é isso mesmo que me suscita a curiosidade: de que modo é que vocês se inserem no jazz do Porto? Nunca me identifiquei com o panorama musical do Porto ou fosse de que cidade fosse. É verdade que comecei a minha integração e a minha aprendizagem no mundo da música e do jazz no Norte, mas devo dizer que me sinto apenas um músico português. O curioso é que essa impressão geral de que antes do lançamento de “Nebulosa” não existíamos, artisticamente falando, também se fazia sentir aqui no Porto. É óbvio que a maioria dos músicos nos conhece, mas nunca fomos propriamente daqueles que aparecem nas “jam sessions” e que querem tocar com toda a gente e gravar o quanto antes, não interessa o quê. A impressão que “Nebulosa” me dá é a de que vocês (e tu em especial, porque isso começa por se detectar nas próprias composições) ouviram muito jazz e muitos géneros musicais diferentes. Além do “Maiden Voyage”, detecto alguma ECM, alguma música erudita contemporânea, algum rock progressivo. Mas não só: pressinto que há muita reflexão, muita informação digerida. O que é que vos interessa musicalmente? De onde é que vêm os vossos sons? É verdade, já ouvi muita música. Sou um consumidor compulsivo de discos desde a adolescência. As referências que mencionas estão correctas, mas existe uma panóplia sem fim de coisas que me agradam e que, sem dúvida, exercem influência sobre mim. Diria que os nossos sons vêm de uma amálgama de idiomas e estilos aos quais nos sentimos ligados afectivamente. É-me impossível restringir essa lista a duas ou três personalidades, mas posso indicar alguns nomes que me ocorrem neste momento: Eric Dolphy, Paul Motion, Tomasz Stanko, Gyorgy Ligeti, Karlheinz Stockhausen, Giacinto Scelsi, Edgar Varèse, Witold Lutoslawski, Gyorgy Kurtag, Fred Frith, Zeena Parkins, Gentle Giant, Henry Cow, Matching Mole… As minhas referências não se limitam, no entanto, à música. Posso também referir Francis Bacon, Michelangelo Antonioni, David Lynch, Cy Twombly, Oscar Kokoschka e Akira Kurosawa como fontes de inspiração. A tua escrita tem algumas particularidades, como um vasto uso de espaços, de ambiências misteriosas e de uma tensão interior que nunca é resolvida, bem como de um lirismo que, felizmente, nunca chega a ser demasiado emotivo, deixando que o ouvinte faça as suas próprias leituras. Que coordenadas são as tuas enquanto compositor? Uma das coisas que procuro nas minhas composições é uma relação orgânica entre composição espontânea e composição escrita, de maneira a que as duas se fundam numa unidade em que nós próprios e o público não saibamos onde começa uma e acaba a outra. Também subscrevo a ideia do improvisador como um "compositor em tempo real". Para mim, a improvisação é um método de composição e a composição um método de improvisação. Como dizia Stravinsky: «Compor é improvisar com uma caneta.» Sem me limitar a uma categoria musical específica, o que pretendo é criar uma música através da qual me possa exprimir livremente e me sentir realizado através da própria criação. Na maioria das vezes, as composições são apenas motivos que servem de pretexto e catalisador para a improvisação. Tens um dos mais belos sons de contrabaixo que encontro em Portugal. Quais são as tuas referências nesse instrumento? E o que procuras? Certo dia, o Gabriel comprou um disco de um pianista chamado Bill Evans (trio 64), nome que desconhecíamos totalmente. Tinhamos 16 ou 17 anos. Assim que ouvi o contrabaixista fiquei em estado de choque. Fui ver quem seria aquele Gary Peacock. A partir daí quis estudar contrabaixo. Foi uma decisão tomada num momento, mas que se mostrou irreversível. Mais tarde, percebi a função estrutural do contrabaixo na música e o seu carácter de sustentação e propulsão no jazz. Mas não foi por isso que me apaixonei pelo instrumento, e sim pela sua vertente lírica e melódica. Entendo o contrabaixo como algo de flexível e maleável e não exclusivamente como um marcador de tempo rígido e amovível. Embora seja um grande apreciador de todos os mestres, a minha maior inspiração é a árvore genealógica dos contrabaixistas melódicos e contrapontísticos, inaugurada pelo visionário Scott LaFaro. Sinto-me também bastante ligado a algumas abordagens mais abstraccionistas e experimentais, como as de Barre Phillips, Barry Guy e Peter Kowald. Quanto ao que procuro… Procuro tocar cada vez melhor o meu instrumento através da minha abordagem pessoal e das minhas soluções. Nunca procurei fazer música para demonstrar as minhas capacidades instrumentais. Não são essas as questões que me movem. Os Nebulosa chegaram à cena com um “bang”, o que deixa para o segundo disco uma grande responsabilidade: a de não desiludir, de manter a fasquia alta e até de a elevar a um outro patamar. Daí a pergunta: o que vem a seguir? Quais são os planos? Encaro esta nova fase do nosso percurso com normalidade e com uma atitude tranquila. Já idealizei e arquitecturei muito do que será o meu próximo trabalho, que se tudo correr bem será gravado brevemente, mas tudo isso é surpresa. Tal como quando ouvimos música improvisada… |
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